74 46 PB
74 46 PB
74 46 PB
DADOS TÉCNICOS
Dra. Josefa Salete Barbosa Cavalcante
REITOR PRO TEMPORE UFPE - Universidade Federal de Pernambuco
Dr. Paulo César Fagundes Neves
Dr. Luís Manuel Mota Sousa
Uévora - Universidade de Évora, Portugal
VICE-REITOR PRO TEMPORE
Dr. Roberto Jefferson Bezerra do Nascimento Dra. Marcia Bento Moreira
UNIVASF - Universidade Federal do Vale
PRÓ-REITORA DE EXTENSÃO PRO do São Francisco
TEMPORE
Dra. Nuria Castro-Lemus
Dr. Anderson Miranda de Souza USevilla - Universidad de Sevilla, Espanha
Sumário
Editorial
Prof. Dr. Fulvio Torres Flores vii-ix
Relatos de Experiência
PROJETANDO A EXTENSÃO: ARTICULANDO ENSINO E
EXTENSÃO EM UMA EXPERIÊNCIA EM SALA DE AULA
Roberta Ekuni, Bruno Miguel Nogueira de Souza 2-12
Artigos
ANÁLISE DE DIFERENTES SUBSTRATOS E MÉTODOS
DE SUPERAÇÃO DA DORMÊNCIA NAS SEMENTES DE
Tectona grandis L.F. (TECA)
Millena Oliveira Xavier, Flávia Bezerra Souza, Bruno 80-90
Aurélio Campos Aguiar, Priscila Bezerra de Souza
EDITORIAL
1
Editor-chefe da Extramuros – Revista de Extensão da UNIVASF.
vii
EDITORIAL
viii
EDITORIAL
ix
RELATOS
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
Roberta Ekuni1
Bruno Miguel Nogueira de Souza2
RESUMO
As discussões envolvendo a importância da curricularização da extensão nas universidades vêm
crescendo. Porém, a implantação da extensão no currículo ainda é escassa. A literatura aponta
vantagens pedagógicas e maior desenvolvimento de responsabilidade social quando o
acadêmico se envolve em projetos de extensão. Diante disso, o presente trabalho aborda um
relato de experiência que visou propor uma atividade para promover a divulgação, discussão e
reflexão sobre a extensão universitária por meio de elaboração de uma proposta de projeto
extensionista. O mesmo foi realizado como parte da disciplina de Psicologia da Educação em
dois cursos de graduação da Universidade Estadual do Norte do Paraná no qual os alunos foram
divididos em grupos e deveriam elaborar uma proposta de projeto. Como resultado, 75 alunos
participaram da atividade. Alguns alunos desconheciam o papel da extensão universitária. No
entanto, após a ação em sala conseguiram apresentar suas propostas. Os docentes envolvidos
acreditam que essa ação foi útil para introduzir noções de extensão universitária para os alunos,
em especial, nos do primeiro ano.
ABSTRACT
Discussions involving the importance of extension curricula at universities have been growing.
However, the implementation of the extension in the is scarce. The literature points out
pedagogical advantages and greater development of social responsibility when the academic
gets involved in extension projects. In view of this, the present work addresses an experience
report that aimed to propose an activity to promote the dissemination, discussion and reflection
on university extension through the elaboration of an extension project proposal. The same was
1 Doutora pela Universidade Federal de São Paulo, coordenadora do Programa de Extensão Grupo de
Estudos em Neurociência, Professora Adjunta na Universidade Estadual do Norte do Paraná – Programa
de Pós-Graduação em Educação. Email: [email protected].
2 Doutor pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Professor Adjunto na Universidade
Estadual do Norte do Paraná – Centro de Ciências Tecnológicas.
2
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
carried out as part of the Psychology of Education discipline in two undergraduate courses at
the State University of Northern Paraná in which students were divided into groups and were
supposed to prepare a project proposal. As a result, 75 students participated in the activity.
Some students were unaware of the role of university extension, but after the action in class
they were able to present their proposals. The professors involved believe that this action was
useful to introduce notions of university extension for students, especially those in the first year.
RESUMEN
Han aumentado los debates sobre la importancia de los planes de estudios de extensión en las
universidades. Sin embargo, aún no existe una implementación de la extensión en el plan de
estudios en todas las universidades. La literatura señala ventajas pedagógicas y un mayor
desarrollo de la responsabilidad social cuando el académico se involucra en proyectos de
extensión. Ante esto, el presente trabajo aborda un relato de experiencia que tuvo como objetivo
proponer una actividad para promover la difusión, discusión y reflexión sobre la extensión
universitaria a través de la elaboración de una propuesta de proyecto de extensión. Lo mismo
se llevó a cabo como parte de la disciplina Psicología de la Educación en dos cursos de pregrado
en la Universidad Estatal del Norte de Paraná en los que los estudiantes se dividieron en grupos
y se suponía que preparaban una propuesta de proyecto. Como resultado, 75 estudiantes
participaron en la actividad. Algunos estudiantes desconocían el papel de la extensión
universitaria, pero luego de la acción en clase pudieron presentar sus propuestas. Los profesores
involucrados creen que esta acción fue útil para introducir nociones de extensión universitaria
a los estudiantes, especialmente a los de primer año.
INTRODUÇÃO
3
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
MÉTODO
A presente ação foi realizada na disciplina de Psicologia da Educação dos cursos de
graduação de Ciências Biológicas (2º ano) e Sistemas de Informação (1º ano). A proposta fez
parte de uma atividade, dividida em três encontros, ministrada pela docente responsável pela
disciplina com a colaboração de uma docente Bióloga e um docente Cientista da Computação.
O público-alvo foram os 75 alunos matriculados na disciplina no ano letivo de 2018.
PROCEDIMENTO
No primeiro encontro, a docente responsável pela disciplina solicitou aos alunos para
sentarem em círculo de modo a facilitar o debate (SANTROCK, 2010) e questionou a respeito
do conhecimento que eles tinham sobre extensão universitária. Então foi solicitado aos mesmos
lerem, como tarefa, três artigos sobre extensão universitária, a saber “ O papel pedagógico da
extensão universitária” (COELHO, 2014), “A extensão universitária como indicativo de
4
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
5
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
Quadro 2. Crivo de correção elaborado com base nos crivos de correções das propostas do
PIBEX.
Critérios de avaliação do projeto – Valor 8,0
Critérios de avaliação do Projeto ( ) Sim ( ) Não Valor Nota/
Comentários
1) O título está claro e objetivo? 0,25
2) O título argumenta quanto à relevância e viabilidade do Projeto? 0,25
3) Os objetivos estão articulados e coerentes com a metodologia e 0,5
cronograma de ação?
4) A fundamentação teórica é atualizada, consistente e está adequada 0,5
ao Projeto?
5) O Projeto identifica-se com as áreas temáticas estabelecidas? 0,5
6) O Projeto está coerente com o curso de graduação? 0,5
6
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
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EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
8
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
RESULTADOS
No primeiro encontro de cada turma, os alunos conversaram com a docente responsável
e muitos não sabiam o que era extensão. Em relação a turma de Sistemas de Informação, por se
tratar de alunos do primeiro ano, nenhum atuava em Projetos de Extensão. Quando
questionados se sabiam o que é “Extensão Universitária”, nenhum aluno afirmou saber ao certo.
Já na turma do curso de Ciências Biológicas com alunos do segundo ano, haviam alunos que já
participaram ou participam de projetos de extensão (no total foram dez alunos que
manifestaram, sendo um bolsista no PROEXT; sete discentes voluntários no PIBEX, um
bolsista PIBEX e uma voluntária no Programa Universidade Sem Fronteira (USF).
Em relação à percepção dos alunos sobre o conceito de extensão, alguns acreditam que
a extensão leva o conhecimento para a sociedade, pressupondo uma via única e que essa
informação deve ser levada a uma população sem acesso à informação. Entretanto, após
discussões perceberam que a via deveria ser de mão dupla entre universidade e sociedade pois
a universidade pode ter acesso a conhecimentos populares e troca de saberes por meio desse
contato. Além disso, os alunos reconhecem que há responsabilidade social nas ações de
extensão, e que a mesma é uma forma de retribuir para a sociedade o financiamento público.
Em relação sessão de discussão sobre os artigos em sala de aula, na turma do curso de
Sistemas de Informação, o representante de sala não enviou os textos em tempo hábil para a
turma ler, desse modo os professores (da disciplina e um professor da área da computação)
adotaram outra abordagem, direcionando de maneira mais informativa, explicando os artigos e
relatando sobre os projetos de extensão que a universidade possui. Já na turma de Ciências
Biológicas, a discussão foi mais rica no sentido de que os alunos citaram pontos dos artigos,
como a importância da extensão para sua formação e a questão da responsabilidade social.
Um ponto relevante é que, no geral, em ambas turmas, os alunos desconheciam como
funcionam os Programas e projetos de extensão. Por exemplo, alguns já viram edital de seleção
para alguns projetos, mas não para outros. Os alunos também desconheciam que a
Curricularização da extensão pressupõe obrigatoriedade no currículo.
No que diz respeito a problemas locais que poderiam motivar projetos de extensão, a
turma de Sistemas de Informação citou: inclusão digital com público-alvo diverso (idoso,
9
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
10
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
DISCUSSÃO
Por se tratar dos anos iniciais de graduação, percebe-se a importância de inserir o tema
extensão universitária, visto que nenhum aluno do primeiro ano e poucos alunos do segundo
sabiam o que era extensão universitária. Isso corrobora com o fato de que a extensão
universitária é desvalorizada quando comparada com suas “irmãs” (pesquisa e ensino)
(MARINHO et al., 2019).
As análises das áreas temáticas das propostas desenvolvidas pelos alunos, apontam para
uma tendência na área da Educação, talvez por estar mais relacionados com o que conhecem.
Entretanto, durante as discussões foi possível perceber que os alunos conseguiram refletir e
apontam diversas linhas que potencialmente são importantes para a região dado a especificidade
de cada área (Sistemas de Informação ou Ciências Biológicas).
Os textos selecionados foram importantes para contextualizar as discussões e os crivos
utilizados refletem o próprio processo de elaboração de propostas com base em editais vigentes
da instituição. Isso pode facilitar futuramente, caso o aluno tenha interesse em atuar na extensão
universitária.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por meio dessa proposta de ensino para discutir extensão universitária, pode-se observar
que é necessário discutir a extensão universitária desde o ingresso do aluno no meio acadêmico.
Assim, uma vez que ainda não existe a obrigatoriedade da extensão no currículo e dado que a
extensão é desvalorizada quando comparada com o ensino e a pesquisa, há possibilidade de os
alunos refletirem e conhecerem as potencialidades e os benefícios da extensão universitária.
REFERÊNCIAS
11
EKUNI, R. & SOUZA, B. M. N.
MARINHO, C. M. et al. Por que ainda falar e buscar fazer extensão universitária?
EXTRAMUROS - Revista de Extensão da UNIVASF, v. 7, n. 1, p. 121–140, 2019.
SANTROCK, J. W. Psicologia Educacional. 3 ed. Porto Alegre: AMGH Editora Ltda, 2010.
12
MEDRADO, B. B. R.; PEREIRA, R. L. D. & FARIA, M. D.
RESUMO
Em dezembro de 2019, a World Health Organization (WHO) foi alertada sobre casos atípicos
de “pneumonia de causa desconhecida”, em Wuhan, na China; e, no dia 11 de março de 2020,
como Pandemia Mundial. Em virtude da pandemia e do alto poder de proliferação do vírus,
foram decretadas medidas de isolamento e distanciamento social. Desta forma, todos os setores
foram atingidos, inclusive o setor de Educação, gerando suspensão dos calendários das
Instituições de Ensino e substituição das aulas presenciais por aulas em meios digitais. Esta
pesquisa é qualitativa, a partir da modalidade de relato de experiência, a qual objetiva-se
descrever a 4ª Jornada Científica Online de um grupo de pesquisa. A evolução dos processos
tecnológicos são facilitadores de contato e construção das redes e, na construção do
conhecimento, são importantes instrumentos de transformação no processo de ensino-
aprendizado, dinamizando as trocas de saberes e possibilitando a fluidez das informações.
ABSTRACT
In December 2019, the World Health Organization (WHO) was alerted to atypical cases of
"pneumonia of unknown cause" in Wuhan, China; and, on March 11, 2020, as a global
pandemic. Due to the pandemic and the high proliferative power of the virus, measures of
isolation and social distance were adopted. In this way, all sectors were affected, including the
Education sector, which caused the suspension of the calendars of educational institutions and
the replacement of classroom classes with classes in digital media. Qualitative research, based
on the experience report modality, whose objective is to describe the 4th Scientific Journey of
a research group online. The evolution of technological processes are facilitators of contact and
the construction of networks and, in the construction of knowledge, they are important
instruments of transformation in the teaching-learning process, streamline the exchange of
knowledge and allow the flow of information.
RESUMEN
En diciembre de 2019, la Organización Mundial de la Salud (OMS) fue alertada de casos
atípicos de "neumonía de causa desconocida" en Wuhan, China; y, el 11 de marzo de 2020,
como Pandemia mundial. Debido a la pandemia y al alto poder proliferativo del virus, se
promulgaron medidas de aislamiento y distancia social. De esta manera, todos los sectores se
vieron afectados, incluido el sector de la Educación, lo que provocó la suspensión de los
calendarios de las instituciones de enseñanza y la sustitución de las clases presenciales por
clases en medios digitales. Investigación cualitativa, basada en la modalidad de informe de
experiencia, cuyo objetivo es describir el 4º Viaje Científico en línea de un grupo de
investigación. La evolución de los procesos tecnológicos son facilitadores de contacto y
construcción de redes y, en la construcción del conocimiento, son instrumentos importantes de
transformación en el proceso de enseñanza-aprendizaje, agilizan el intercambio de
conocimiento y permiten la fluidez de la información.
INTRODUÇÃO
Em dezembro de 2019, a World Health Organization (WHO) foi alertada sobre casos
atípicos de “pneumonia de causa desconhecida”, em Wuhan, República Popular da China, que,
consequentemente, se alastrou pelo mundo. Em 30 de janeiro de 2020, foi declarado o novo
surto de coronavírus (COVID-19) e, no dia 11 de março do mesmo ano, como Pandemia
Mundial, reconhecendo que a virose não era apenas mais uma crise de saúde pública, mas que
afetaria todos os países e setores.
Em virtude da pandemia e do alto poder de proliferação do vírus, foram decretadas
medidas de isolamento e distanciamento social pelos órgãos responsáveis, objetivando reduzir
a disseminação do novo coronavírus. Sendo assim, todos os setores foram atingidos, inclusive
o de Educação, gerando na suspensão dos calendários acadêmicos das Instituições de Ensino.
Desta forma, as aulas e atividades presenciais de ensino foram fortemente impactadas.
Contudo, com a permanência da pandemia e aumento dos casos no país, o Ministério
da Educação, através da Portaria nº 544, de 16 de junho de 2020, dispôs sobre a substituição
das aulas presenciais por aulas em meios digitais, enquanto durar a situação de pandemia do
novo coronavírus (COVID-19) e revogou as Portarias MEC nº 343, de 17 de março de 2020;
14
MEDRADO, B. B. R.; PEREIRA, R. L. D. & FARIA, M. D.
nº 345, de 19 de março de 2020; e nº 473, de 12 de maio de 2020. Sendo assim, a Portaria visa
autorizar, em caráter excepcional, a substituição das disciplinas presenciais por atividades em
meios digitais (BRASIL, 2020).
Pontua-se que a UNESCO (2017), em sua agenda “Educação para o Desenvolvimento
Sustentável”, atenta-se como ponto importante a contribuição para mudar a maneira como as
pessoas pensam e agem para alcançar um futuro sustentável, e isso requer mudanças intensas
na forma como a educação é cotidianamente praticada.
Atualmente, a tecnologia está inserida em diversas ocasiões do cotidiano da população
e, nas atividades educativas, têm promovido busca rápida e eficaz de diversas informações,
conectando a variados assuntos e pessoas. Nestas condições, a educação não poderia deixar de
utilizar essa ferramenta, com o intuito de auxiliar no repasse de informações, bem como de unir
e desenvolver conhecimentos, principalmente neste momento, em que são vivenciados períodos
de isolamento e distanciamento social.
Conforme um dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável da UNESCO, a escola
tem como meta assumir educação inclusiva em todos os seus aspectos, de forma que seja um
princípio fundamental. Assim, visa contribuir para a formação dos princípios morais e sociais
dos indivíduos, garantindo igualdade e ensino de qualidade para todos (MARTINHO;
ESCUDEIRO, 2021).
Considerando esse cenário, com a suspensão temporária das atividades acadêmicas na
Universidade Federal do Vale do Vale do São Francisco (UNIVASF), foram e estão sendo
realizadas atividades remotas, dentre elas, aquelas relacionadas aos Grupos de Pesquisa,
adaptando evidentemente às realidades dos envolvidos.
Nesse contexto, de forma remota, foi realizada a reunião de capacitação do grupo de
pesquisa intitulado “Núcleo de Pesquisa em Anatomia Animal”, que é o produto deste relato de
experiência e que teve por objetivo descrever a 4ª Jornada de Iniciação Científica, a primeira
Online, durante o cenário de Pandemia da Covid-19.
METODOLOGIA
A pesquisa é de cunho qualitativo, de caráter descritivo, a partir da modalidade de relato
de experiência, que permitiu refletir e descrever sobre a primeira reunião à distância do Núcleo
de Pesquisa em Anatomia Animal da Universidade Federal do Vale do São Francisco
(UNIVASF), em Petrolina (PE).
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MEDRADO, B. B. R.; PEREIRA, R. L. D. & FARIA, M. D.
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MEDRADO, B. B. R.; PEREIRA, R. L. D. & FARIA, M. D.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
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MEDRADO, B. B. R.; PEREIRA, R. L. D. & FARIA, M. D.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior
(CAPES), pela bolsa de estudo concedida a uma das autoras, para auxiliar na realização do
mestrado, junto ao Programa de Pós-Graduação Ciências da Saúde e Biológicas da
Universidade Federal do Vale do São Francisco.
21
MEDRADO, B. B. R.; PEREIRA, R. L. D. & FARIA, M. D.
REFERÊNCIAS
BATES, T. Educar na era digital: design, ensino e aprendizagem. São Paulo: Artesanato
Educacional, 2017. Disponível em:
http://www.abed.org.br/arquivos/Educar_na_Era_Digital.pdf. Acesso em: 22 jul.
2020.
22
MEDRADO, B. B. R.; PEREIRA, R. L. D. & FARIA, M. D.
23
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
RESUMO
O objetivo deste artigo é relatar uma experiência de divulgação científica e da extensão
universitária. A experiência foi realizada na forma de lives, através de um canal no YouTube®,
no caso o Geotecnologias na Rede. A princípio, foram convidados pesquisadores e
pesquisadoras que atuam em instituições públicas de ensino superior no país. Em seguida,
foram realizadas as divulgações dos eventos. Solicitou-se aos estudantes que compartilhassem
as lives com familiares e amigos, preferencialmente àqueles que não frequentam a universidade
e posteriormente ocorreu a análise da satisfação dos participantes. Os resultados demonstraram
que no momento síncrono das transmissões o público médio foi de 70 pessoas, contudo após
sua realização, esse valor alcançou mais de 400 visualizações, ou seja, aumento de mais de 5
vezes após o momento síncrono. Isso revela que as ações continuam sendo prestigiadas e como
ficaram gravadas, mais espectadores serão atingidos. A análise de satisfação evidenciou que
44,4% avaliou as atividades com nota máxima e 29,6% avaliou com nota nove.
ABSTRACT
The purpose of this article is to report an experience of scientific dissemination and university
extension. The experience was carried out in the form of lives, through a channel on YouTube®,
in this case Geotecnologias na Rede. At first, researchers and researchers who work in public
institutions of higher education in the country were invited. Then, the events were publicized.
Students were asked to share their lives with family and friends, preferably those who do not
attend university, and later the analysis of the participants' satisfaction took place. The results
showed that at the synchronous moment of the transmissions the average audience was 70
people, however after its realization, this value reached more than 400 views, that is, an increase
of more than 5 times after the synchronous moment. This reveals that the actions continue to
be prestigious and how they were recorded, but spectators will be reached. The satisfaction
analysis showed that 44.4% rated the activities with the highest score and 29.6% rated it with a
score of nine.
RESUMEN
El propósito de este artículo es reportar una experiencia de divulgación científica y extensión
universitaria. La experiencia se llevó a cabo en forma de vidas, a través de un canal en
YouTube®, en este caso Geotecnologias na Rede. En un primer momento se invitó a
investigadores e investigadores que laboran en instituciones públicas de educación superior del
país. Luego, se dieron a conocer los hechos. Se pidió a los estudiantes que compartieran su vida
con familiares y amigos, preferiblemente con los que no asisten a la universidad, y
posteriormente se realizó el análisis de la satisfacción de los participantes. Los resultados
mostraron que en el momento sincrónico de las transmisiones la audiencia promedio fue de 70
personas, sin embargo luego de su realización, este valor alcanzó más de 400 visualizaciones,
es decir, un incremento de más de 5 veces luego del momento sincrónico. Esto revela que las
acciones siguen siendo prestigiosas y cómo fueron grabadas, pero se llegará a los espectadores.
El análisis de satisfacción mostró que el 44,4% puntuó las actividades con la puntuación más
alta y el 29,6% la puntuó con nueve.
INTRODUÇÃO
O ato de divulgar ciência não é um fato/atividade recente, apesar de que em tempos
hodiernos continuar a ser um desafio. No Brasil, a divulgação científica iniciou-se tardiamente
quando comparado com a União Europeia e os Estados Unidos. Dar visibilidade aos avanços
científicos, tem por objetivo garantir a interação entre sociedade e instituições que produzem
ciência.
A divulgação científica é um desafio. Apesar de não recente (FRANÇA, 2015), tem
como objetivo garantir a interação entre sociedade e instituições que produzem ciência. Para
Silva (2018), a “divulgação científica é a forma de propagação informacional da ciência para o
público, a divulgação é uma forma de [...] democratizar o acesso ao conhecimento científico e
estabelecer condições para a chamada alfabetização científica” (BUENO, 2010, p. 1).
25
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
26
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
27
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
no ano de 2016, possui 3.420 inscritos. Segundo os idealizadores, o canal no YouTube publica
conteúdos gerais em pesquisa acadêmica, cartografia, engenharias, processamento digital de
imagens, topografia, aquisição de dados para aplicações em ciências exatas, aplicações em
geologia, densidade demográfica, metodologias ativas de ensino, dentre outros (SANTOS;
OLIVEIRA, 2021).
PERCURSO METODOLÓGICO
A experiência de ensino e extensão foi realizada no contexto da pandemia do Covid19,
no âmbito do Componente Curricular (CC) "Campo das Ciências: saberes e práticas" ofertado
na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). A UFSB é uma das universidades de criação
mais recente no país. Em 16 de agosto de 2011 foi enviado ao Congresso Nacional o Projeto de
Lei 2207/2011 que dispunha sobre a sua criação.
As aulas inaugurais da UFSB ocorreram em setembro de 2014, sendo no dia 08/09/2014,
em Itabuna/BA dia 09/09/2014, em Porto Seguro/BA e dia 12/09/2014, em Teixeira de
Freitas/BA (STOLZE, 2014). A criação recente é um motivador a mais para divulgação da
própria instituição multicampi (Figura 1).
28
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
2 O projeto de extensão Geotecnologias na Rede dispõe um roteiro intitulado “Como fazer Live
utilizando StreamYard” no link https://www.youtube.com/watch?v=2lHHol-9CmY&t=252s.
29
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
Além das professoras, na última ação, realizada no dia 25 de outubro de 2021, duas
estudantes de graduação do curso de Engenharia Agronômica da Universidade Federal do Mato
Grosso (UFMT), também participaram dos debates. Assim, foi possível identificar discussões
acaloradas entre palestrantes, estudantes matriculados no CC "Campo das Ciências: saberes e
práticas" e espectadores, comunidade externa à UFSB e isso pode ser observado no projeto de
extensão Geotecnologias na rede (SANTOS e OLIVEIRA, 2021) através do link
<https://www.youtube.com/channel/UCIDGktZdLQwnsoEggY0kGxw>.
No que se refere a ciência, a Professora Dra. Talita Alvez, da Universidade Estadual de
Santa Cruz (UESC) caracterizou o perfil de um cientista, que dentre outros, deve ser crítico,
curioso e persistente. A Professora Rosane Rodrigues, da Universidade Estadual do Norte
Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), apresentou o cenário de investimentos na ciência no Brasil,
demostrando impacto dos sucessivos cortes no orçamento da ciência e tecnologia brasileira e
como pode comprometer pesquisas de ponta no país.
A professora Rafaella Felipe da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) falou
da integração ensino, extensão e ciência. Como referido, a professora estava acompanhada de
duas orientandas, que são estudantes regularmente matriculadas no curso de Agronomia da
UFMT. A participação das estudantes foi fundamental para que as mesmas pudessem apresentar
suas experiências e as motivações para atividades que realizam sob orientação da professora
Rafaella Felipe.
30
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
Além da discussão sobre ciência, foi convidado o Professor Alex Mota dos Santos, da
UFSB, para falar sobre extensão universitária (Figura 3). A extensão foi abordada no contexto
da obrigatoriedade da curricularização, conforme preconizada pela Resolução Nº 7, de 18 de
dezembro de 2018. Segundo o artigo 4º da Resolução Nº 7, “As atividades de extensão devem
compor, no mínimo, 10% (dez por cento) do total da carga horária curricular estudantil dos
cursos de graduação, as quais deverão fazer parte da matriz curricular dos cursos” (BRASIL,
2018).
Portanto, é assunto relevante para a toda a comunidade, externa e interna às
universidades. Nesse sentido, segundo Betta et al. (2018), a exigência da curricularização
movimentou as Instituições de Ensino Superior brasileiras, já que deve ser implementada até o
ano de 2024, em todos os currículos dos cursos de graduação do país, de forma indissociável
com o ensino e a pesquisa.
31
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
Os resultados dos acessos às lives estão contidos na Tabela 1. De modo geral, os acessos
após o evento cresceram 5 vezes. Isso mostra que as lives continuaram sendo assistidas.
32
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
Assim, a avaliação das atividades foi inserida num processo que integrou as dimensões
ensino e pesquisa, conforme preconiza Nogueira (2013). Para a PROEX-UFS (2020, p. 5) “O
ato de avaliar é um elemento muito importante na obtenção de bons resultados traduzidos em
crescimento e atendimento de metas”.
Sobre a compreensão do que venha a ser extensão, a maioria se mostrou conhecedores,
36,5% sim, conhecem e 36,5% responderam que imaginam o que seja extensão (Figura 4).
Apesar disso, 25% responderam que não sabem o que é extensão universitária.
Perguntou-se ainda sobre a participação em ações de extensão (Figura 5). Nesse sentido,
78,8% responderam que não participaram. Apenas 9,6% responderam que participaram quando
cursava o ensino básico (ensino fundamental e médio). Além disso, 11,5% responderam que
participaram de ações de extensão na universidade. De modo geral, segundo Flores e Mello
(2020), a participação em ações extensionistas impacta significativamente na formação
acadêmica de estudantes. Para as autoras, ações de extensão oportuniza vivências e situações
que não seriam possíveis somente em discussões teóricas da sala de aula, tornando-os mais
críticos acerca da realidade e dos contextos locais (FLORES; MELLO, 2020).
A avaliação global das ações revelou que todos os respondentes estão matriculados no
CC "Campo das Ciências: saberes e práticas". Nesse sentido, 44,4% avaliou as atividades com
nota máxima 10 e 29,6% avaliou com nota nove. Flores e Mello (2020) revelaram que os
33
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
Sobre os temas mais relevantes veiculados nas lives destaques foram dados para a
qualidade das palestrantes (57,5%) e o temas abordados (40,7%). Assim, a live mais lembrada
pelos respondentes foi a “Divulgação do conhecimento científico. Por que é importante divulgar
a Ciência”? Foi solicitado que os participantes deixassem suas críticas às ações realizadas.
Desse modo, realizou-se recortes dos principais elogios, pois não se identificou-se críticas e
apenas uma sugestão:
34
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
35
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como demonstrado ao longo deste texto, a realização das lives foi uma alternativa aos
métodos tradicionais de ensino presencial e uma tentativa de se adequar ao ensino remoto
emergencial provocado pela pandemia da Covid 19. Os resultados revelaram que que as lives
foram bem recebidas pelos estudantes participantes. Além disso, a publicação no YouTube®
garante a visualização mesmo após o evento, o que favorece a divulgação das ações da
Universidade Federal do Sul da Bahia. Nesse sentido, as ações continuam sendo prestigiadas e
como ficaram gravadas, mas expectadores serão atingidos. Essa possibilidade contribui para
divulgação das ações da Universidade Federal do Sul da Bahia, de criação recente no país.
REFERÊNCIAS
36
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
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38
SANTOS, A. M. & COUTO, M. F.
value of the social conversation. Production and Operations Management, v. 28, 2019.
39
PAIVA NETO, F. F.
RESUMO
O objetivo deste trabalho é relatar a experiência de exibição de áudios visuais no projeto de
extensão intitulado Espaço Social com o recorte na cota 2016-2017 com o título de CINEMA
LATINO-AMERICANO: reflexões sobre culturas, identidades, representações e sociedades,
tendo sido desenvolvido no campus III da Universidade Estadual da Paraíba. Considerando a
realidade local de um acentuado consumo de filmes pelos estudantes nos horários das tevês
abertas, tomamos a iniciativa de consorciar a nossa atividade a duas necessidades presentes na
nossa instituição: um horário hiato entre as aulas da tarde e as da noite e a carência de horas
para complementação da carga horária no currículo dos estudantes, embora as vagas também
tenham sido disponibilizadas aos egressos. A dimensão pedagógica partir da eleição de um
tema geral capaz de criar enleios com uma base bibliográfica, que criasse um sentido
pedagógico, através da leitura de textos anteriormente difundidos pelo coordenador aos
participantes para fins de um debate ao fim de cada sessão. A proposta em questão buscou o
escopo de trazer os problemas sociais latino-americanos à formação dos estudantes da
graduação, pois as diversas películas possuem vários construtos na vida cotidiana de cada um
dos participantes.
ABSTRACT
The objective of this work is to report the experience of visual audio exhibition in the extension
project entitled Social Space with the cut in the quota 2016-2017 with the title of LATIN
AMERICAN CINEMA: reflections on cultures, identities, representations and societies, having
been developed on campus III of the State University of Paraíba. Considering the local reality
of a marked consumption of films by students during open TV times, we took the initiative to
combine our activity with two needs present in our institution: a gap between afternoon and
evening classes and the lack of hours to complement the workload in the students' curriculum,
although vacancies have also been made available to graduates. The pedagogical dimension
starts with the election of a general theme capable of creating entanglements with a
bibliographic base, which would create a pedagogical sense, through the reading of texts
previously disseminated by the coordinator to the participants for the purpose of a debate at the
end of each session. The proposal in question sought the scope of bringing Latin American
social problems to the formation of undergraduate students, as the different films have several
constructs in the daily life of each of the participants.
RESUMEN
El objetivo de este trabajo es dar a conocer la experiencia de exhibición de audio visual en el
proyecto de ampliación titulado Espacio Social con el corte en la cuota 2016-2017 con el título
de CINE LATINO-AMERICANO: reflexiones sobre culturas, identidades, representaciones y
sociedades, teniendo desarrollado en el campus III de la Universidad Estatal de Paraíba.
Teniendo en cuenta la realidad local de un marcado consumo de películas por parte de los
estudiantes durante los horarios de TV abierta, tomamos la iniciativa de combinar nuestra
actividad con dos necesidades presentes en nuestra institución: una brecha entre las clases de la
tarde y la noche y la falta de horas para complementar la carga de trabajo en el plan de estudios
de los estudiantes, aunque también se han puesto a disposición de los graduados vacantes. La
dimensión pedagógica se inicia con la elección de un tema general capaz de generar
entrelazamientos con base bibliográfica, lo que generaría un sentido pedagógico, a través de la
lectura de textos previamente difundidos por el coordinador a los participantes con el propósito
de un debate al final de la jornada. cada sesión. La propuesta en cuestión buscó el alcance de
acercar la problemática social latinoamericana a la formación de los estudiantes de pregrado,
ya que las distintas películas tienen varios constructos en la vida cotidiana de cada uno de los
participantes.
INTRODUÇÃO
O cineclube Espaço Social foi realizado, a partir da divulgação do edital anual da
Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) para programas e projetos de extensão. No ano de
2013 passou a fazer parte de um programa, consorciado a uma atividade realizada aos sábados
nas instalações da UEPB, Campus III, Guarabira/PB (PAIVA NETO; DANTAS, 2013). O
projeto do cineclube faz parte de um programa homônimo, cujo escopo tem sido abordar
temáticas das Humanidades, primando pelo caráter interdisciplinar e relacionado aos problemas
inerentes à sociedade nacional.
A proposta cineclubista, por seu turno, tem primado desde a primeira edição (no ano de
2013) por um sentido metodológico de lançar olhares por escalas de análise socio-histórica,
41
PAIVA NETO, F. F.
enquanto o outro projeto possui o caráter de um curso voltado às temáticas do campo das
Humanidades. Assim, em termos práticos, a execução do cineclube prima pela escolha de uma
grade de películas, que privilegia em cada edição uma temática. A partir daí, escolhemos uma
escala de análise: se o Brasil, a América Latina e Caribe ou as dinâmicas transnacionais.
Na edição da Cota PROBEX 2016-2017, o projeto foi aprovado e cadastrado na área
Cultura, tendo como coordenador o professor Dr. Francisco Fagundes de Paiva Neto, docente
do Departamento de História. O projeto figura como uma extensão cineclubista em uma cidade,
onde há apenas um cinema em um Shopping Center, cujas produções são as do mainstream e
dos apelos comerciais das grandes corporações do entretenimento. A nossa proposta assumiu
uma posição contrária, pois tem sido a contrapelo e com produções fora do circuito comercial,
a partir de uma perspectiva dialógica, através das sugestões do grupo de docentes previamente
consultado sobre a possibilidade da participação no projeto. Cada docente participante faz a
escolha de um filme e de um texto para discussão com o público, pois assim, podemos criar
uma possibilidade de estabelecer enleios com temáticas do ensino e das pesquisas também
realizadas na nossa instituição.
As sessões de cinema ou documentários apresentam as películas a um público mediado
por um professor, que acompanha a exibição e participa dos debates com os estudantes das
áreas de História, Geografia, Pedagogia, Letras e Direito, bem como pelos egressos da UEPB
ou do público externo interessado na programação. Para além dos muros institucionais, o
projeto foi concebido como um recurso com o fito de proporcionar o enriquecimento cultural e
crítico, a partir de um diálogo com os pesquisadores das Ciências Humanas e o público externo
envolvido.
Em cada escala de análise temática, os filmes e documentários apresentados são
divididos em ciclos e com as devidas ramificações entre as áreas de conhecimento, com a
História, a Sociologia, a Geografia, a Literatura, a Pedagogia, o Direito, dentre outros campos
de estudo. Logo, um determinado ciclo pode tratar da questão agrária no Brasil e possuir duas
ou três sessões, então tendo continuidade com a questão da migração e, assim, seguindo o curso
das propostas. As exibições ocorreram durante o ano letivo e reverberaram em áreas contíguas
como o ensino e a produção textual para os trabalhos de conclusão de curso.
42
PAIVA NETO, F. F.
METODOLOGIA
43
PAIVA NETO, F. F.
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PAIVA NETO, F. F.
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PAIVA NETO, F. F.
46
PAIVA NETO, F. F.
reinício do período letivo 2016-2. O intervalo anterior serviu para a avaliação de algumas
atividades já realizadas e para o planejamento de algumas ações junto aos extensionistas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
47
PAIVA NETO, F. F.
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PAIVA NETO, F. F.
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PAIVA NETO, F. F.
50
PAIVA NETO, F. F.
primeiras edições do cineclube como parte integrante deste Programa de Extensão, que
ocorreram em 2013 e 2014.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O cineclube Espaço Social, por meio da edição voltada para a temática de questões
sobre a América Latina, pontuou diversas ordens de problemas cotidianizados, em decorrência
de um passado colonial e de dinâmicas comunitárias e societais com grande potencial de
conflitos. Os Estados latino-americanos tiveram a predominância da concentração agrária, da
negação de direitos sociais aos grupos sociais e étnicos empobrecidos (desde o contexto da
acumulação primitiva do capital), dos problemas ambientais e de sentidos patrimonialistas na
ordem jurídica e política.
Essas questões perpassaram os debates, tangenciando possibilidades de construção
social de práticas de mobilização por direitos sociais no quadro de uma globalização, que cada
vez mais precariza o mundo do trabalho, mormente, nas regiões periféricas do mundo, caso da
América Latina. Portanto, as películas apresentadas refletiram na possibilidade de, ao invés de
ser praticado um hábito de consumo de filmes alheios à nossa condição histórica, nutrimos a
prática de buscar os audiovisuais mais aproximados às nossas imagens, às nossas identidades,
às nossas representações, às nossas estruturas sociais, às nossas agências coletivas no campo
político e aos horizontes de possibilidades, que poderemos estabelecer coletivamente.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, C. et al. Capitalismo globalizado e recursos territoriais: fronteiras da
acumulação no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Lamparina, 2010.
51
PAIVA NETO, F. F.
52
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
Syllas Oliveira1
Lucas dos Santos Fernandes
RESUMO
O presente trabalho refere-se a um estudo autobiográfico das experiências vivenciadas por um
licenciando em Ciências da Natureza, da Universidade Federal do Vale do São Francisco,
campus Serra da Capivara, Piauí (PI), no Programa Residência Pedagógica (PRP). O relato
autobiográfico que compõe este trabalho refere-se ao edital vigente entre outubro de 2020 e
março de 2022 que foi vivenciado em duas escolas-campo de São Raimundo Nonato, PI. Foi
produzida uma narrativa autobiográfica dividida por módulo (três) na qual o licenciando
discorre suas experiências no PRP. Além de descrever sua experiência, o presente relato
apresenta algumas contribuições do PRP para a formação inicial do licenciando. A partir deste
relato autobiográfico pretende-se divulgar as experiências de um licenciando que vivenciou o
PRP em tempos pandêmicos e contribuir para reflexões sobre a formação inicial de professores
de Ciências da Natureza.
ABSTRACT
The present work refers to an autobiographical study of the experiences lived by a future teacher
in Natural Sciences, from the Federal University of Vale do São Francisco, Serra da Capivara
campus, Piauí (PI), in the Pedagogical Residence Program (PRP). The autobiographical report
that makes up this work refers to the public notice in force between October 2020 and March
2022 that was experienced in two schools in São Raimundo Nonato, PI. An autobiographical
narrative divided by module (three) was produced in which the licentiate discusses his
experiences in the PRP. In addition to describing his experience, the present report presents
some contributions of the PRP to the initial formation of the future teacher. From this
autobiographical account, it is intended to disclose the experiences of a future teacher who
experienced the PRP in pandemic times and contribute to reflections on the initial training of
teachers of Natural Sciences.
RESUMEN
El presente trabajo se refiere a un estudio autobiográfico de las experiencias vividas por un
licenciando en Ciencias Naturales, de la Universidad Federal del Vale do São Francisco,
campus Serra da Capivara, Piauí (PI), en el Programa de Residencia Pedagógica (PRP). El
relato autobiográfico que conforma este trabajo se refiere al aviso público vigente entre octubre
de 2020 y marzo de 2022 que se vivió en dos escuelas de São Raimundo Nonato, PI. Se elaboró
una narración autobiográfica dividida por módulos (tres) en la que el licenciado relata sus
experiencias en el PRP. Además de describir su experiencia, el presente informe presenta
algunos aportes del PRP a la formación inicial del licenciado. A partir de este relato
autobiográfico, se pretende divulgar las vivencias de un licenciando que vivió el PRP en
tiempos de pandemia y contribuir a reflexiones sobre la formación inicial de profesores de
Ciencias Naturales.
INTRODUÇÃO
Este relato de experiência pretende descrever e analisar as vivências de um futuro
professor no Programa Residência Pedagógica (PRP), ligado ao curso de Licenciatura em
Ciências da Natureza, da universidade Federal Vale do São Francisco (UNIVASF), Campus
Serra da Capivara. Neste sentido, este relato tem como base a descrição das atividades
desenvolvidas no decorrer do PRP realizadas durante a pandemia de SARS-CoV-2. Ao longo
deste relato serão discutidas as contribuições do PRP para a formação inicial de professores e
também as dificuldades que envolvem o ensino e a aprendizagem de conteúdos científicos na
educação básica nas escolas-campo em que o PRP foi desenvolvido entre 2020 e 2022.
O Programa Residência Pedagógica é um programa gerenciado pelo Governo Federal,
por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que tem
atualmente como objetivos gerais: I - incentivar a formação de docentes para a educação básica;
II - promover a adequação dos currículos dos cursos de licenciatura às orientações da Base
Nacional Comum Curricular (BNCC); III - fortalecer a relação entre as Instituições de Ensino
54
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A Fundamentação Teórica deste estudo está dividida em dois tópicos: (i)-
Funcionamento do PRP; (ii)- Contribuições do PRP para a formação de professores.
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OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
56
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
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OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
58
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
oportunidade de experienciar teoria e prática dos saberes pedagógicos e dos conteúdos durante
todos os módulos do PRP, seja nas atividades de planejamento, observação, formação e
regência.
Por fim, uma outra contribuição do PRP refere-se à construção de uma identidade
docente (REIS JÚNIOR; CARDOSO, 2020; SILVA; LACERDA; SANTOS NETO, 2021). De
acordo com Lasky:
METODOLOGIA
Este estudo apresenta elementos do método qualitativo de pesquisa, principalmente ao
valorizar o sentido expresso pelo sujeito em sua narrativa autobiográfica. Segundo Abrahão,
“Nesta tradição de pesquisa, o pesquisador não pretende estabelecer generalizações estatísticas, mas,
sim, compreender o fenômeno em estudo, o que lhe pode até permitir uma generalização analítica”
(2003, p. 80).
A ideia básica da narrativa autobiográfica consiste em “reconstruir acontecimentos
sociais a partir da perspectiva dos informantes, tão diretamente quanto possível”
(JOVCHELOVITCH; BAUER, 2008).
Para auxiliar a construção da narrativa autobiográfica, o sujeito do presente estudo
revisitou os documentos produzidos ao longo de cada módulo do PRP: fichas de frequência,
diários de bordo, relatos de experiências, planos de aulas e planejamentos. Dessa forma, foi
possível produzir uma narrativa autobiográfica coerente com os fatos documentados nesses
documentos.
59
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
A narrativa autobiográfica não pretende ser uma descrição fiel da realidade, mas é uma
descrição fiel da realidade experienciada pelo narrador (JOVCHELOVITCH; BAUER, 2008).
Não se trata de reproduzir a realidade em uma narrativa, mas de propor uma interpretação do
mundo a partir da visão do sujeito que faz a narrativa.
As narrativas autobiográficas não estão sujeitas a comprovações, pois não pretendem
ser julgadas como verdadeiras ou falsas, mas expressar um ponto de vista, dentre outros.
Contudo, exige-se um compromisso ético por parte de quem narra suas experiências, de forma
que os dados sejam capazes de representar uma visão sobre os acontecimentos reconstruídos
pela memória.
Por fim, é importante que as narrativas autobiográficas sejam situadas em seu contexto
de vivência das experiências narradas e de sua construção. Nesse sentido, as experiências
narradas neste estudo foram vivenciadas por um licenciando em ciências da natureza, que
participou do PRP por 18 meses, entre outubro de 2020 e março de 2022. Todas as atividades
do PRP foram realizadas de forma remota em duas escolas-campo públicas no município de
São Raimundo Nonato, Piauí. A narrativa autobiográfica produzida pelo licenciando encontra-
se a seguir.
A transcrição e a publicação da narrativa autobiográfica foram autorizadas pelo
licenciando mediante assinatura de termo de consentimento e esclarecimento.
60
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
muito desafiador por conta de estar sendo tudo remoto por causa da pandemia de Sars-Cov-2.
A primeira reunião com todos os componentes do núcleo de Ciências da Natureza, Serra da
Capivara, aconteceu por meio do Google Meet. Nesse encontro virtual, conheci a coordenação
institucional, o coordenador de área, os preceptores e os demais residentes. Além disso, foram
abordadas algumas orientações para que o programa começasse de fato.
Após esse período de formação e integração ao PRP, foram iniciadas as atividades na
escola-campo 1. Eu comecei com a observação das aulas remotas de Biologia e Química do
preceptor. A partir dessa observação ficou claro como as atividades remotas do PRP deveriam
ser realizadas. No começo, havia grande incerteza sobre as aulas remotas. Dessa forma, analisei
quais eram as dinâmicas que o professor preceptor utilizava com os alunos. O preceptor também
mostrou como era a plataforma educacional digital que a escola estava usando, ensinou todas
as ferramentas e apresentou o livro didático que foi utilizado para as atividades de regência.
Antes de começar a regência, nós residentes ficamos responsáveis pela elaboração de
um plano mensal de acordo com as habilidades e objetivos de conhecimento que constituía o
currículo da área de ciências da natureza. Os residentes da escola-campo foram divididos em
dois grupos: 4 residentes ficaram responsáveis pelas aulas de Biologia e os outros 4 ficaram
responsáveis pelas aulas de Química. As aulas eram ministradas de forma assíncrona e
contavam com a realização de exercícios para cada um dos assuntos ensinados. Trabalhamos
também com formulários criados por meio do Google Forms para as aulas de todos os assuntos
abordados da regência, além de vídeos com dinâmicas atrativas explicando todas as questões
que foram abordadas em todos os conteúdos. Os vídeos utilizados foram gravados por nós
residentes e colocados em um canal do YouTube para facilitar o acesso dos alunos.
Os links das atividades produzidas eram enviados para o preceptor que os
disponibilizava para os estudantes. Porém, era possível observar o desenvolvimento das turmas
por meio das respostas enviadas pelos alunos aos exercícios disponibilizados por meio do
Google Forms. Para os alunos que não possuíam acesso à internet, as questões eram enviadas
em PDF para o preceptor, que as inseria numa plataforma digital e as imprimia para os alunos
buscarem na escola. Dessa forma, todos os estudantes das turmas do preceptor foram
contemplados com as atividades do PRP.
No primeiro momento, a maior dificuldade foi a dúvida se conseguiria realizar as
atividades previstas para o funcionamento do PRP. O contexto pandêmico, gerou uma grande
incerteza, porém o apoio do preceptor apoiou foi fundamental. Não era possível saber com
61
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
certeza se nossa prática docente estava funcionando, porque o ensino remoto emergencial era
uma novidade para todos da escola e da universidade.
O mais significativo desse primeiro módulo foi a autonomia para desenvolver as
atividades. O preceptor era bastante flexível, e demonstrou como um professor tem que agir e
também suas obrigações fora da sala de aula. Alguns alunos reagiram aos vídeos de correção
de atividades, isso me motivou bastante para seguir nessa profissão, percebi que não preciso
estar dentro de uma sala de aula para aprender sobre a docência.
62
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
momento, não foi possível qualquer interação com os alunos da escola-campo 2. Nenhum aluno
entrou em contato para tirar dúvidas.
Nesse módulo foi perceptível as diferenças entre as escola-campo. Nesse sentido, foi
possível analisar que duas escolas da mesma cidade podem ser totalmente diferentes. Engana-
se muito quem acha que para ser professor tem que apenas saber da aula.
63
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho aponta as contribuições do Programa Residência Pedagógica por
meio do relato de experiência de um licenciando do curso de ciências da natureza. As
contribuições foram tanto na formação inicial como na identidade profissional. O contato com
a escola foi totalmente remoto, porém, foi possível desenvolver diversas práticas pedagógicas.
Essa dificuldade foi vivenciada por todos os integrantes desta edição do PRP.
As relações estabelecidas com os preceptores foram positivas no sentido de troca de
experiências e da oportunidade de formação inicial para mim e de formação continuada para os
preceptores. Durante o PRP foram muito importantes todas as formações pedagógicas. Por meio
64
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
dessas formações, foi possível conhecer as políticas públicas e novas abordagens de ensino e
de funcionamento das escolas públicas.
Desenvolver as atividades do PRP no período de pandemia foi desafiador, pois ninguém
(preceptores, residentes, alunos, etc.) estava preparado para o ensino remoto emergencial. Foi
uma experiência marcante para todos. Foram inúmeras dificuldades com uso das tecnologias
digitais da informação e comunicação (TDIC), pois nem sempre a internet funcionava de forma
adequada. Além disso, muitos estudantes das escolas-campo não possuíam dispositivos digitais
com acesso à internet. Foi a primeira edição do PRP em formato remoto, por isso não havia um
modelo a ser seguido. Cada escola-campo e cada preceptor desenvolveu atividades segundo as
condições de trabalho disponíveis. Nesse sentido, foi possível avaliar as deficiências estruturais
das escolas e de formação de professores inicial e continuada para o uso das TDIC.
Por fim, considero a experiência no PRP única e gostaria que fosse estendida a todos os
licenciandos, pois me ajudou a tornar-me professor e escolher de forma definitiva a carreira
docente. Foi no PRP que fiz os primeiros laços como docente com outros professores e com os
estudantes das escolas-campo, ainda que de forma remota. Nos últimos meses, fui chamado
para dar aulas substituindo uma docente na cidade onde resido, e tenho percebido o quanto a
experiência no PRP me ajudou em termos de planejamento, regência e comportamento
enquanto docente.
REFERÊNCIAS
ABRAHÃO, M. H. M. B. Memória, narrativas e pesquisa autobiográfica. História da
Educação, n. 14. p. 79-95, 2003.
65
OLIVEIRA, S. & FERNANDES, L. S.
66
BRAGA, G. A. et al.
RESUMO
O presente relato de experiência visa estabelecer conexões entre a extensão universitária e a
metodologia defendida por Paulo Freire. Para isso, serão discutidas as formas como o Programa
“Aproxime-se”, do Centro de Apoio à Educação à Distância (CAED) da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG) realizou suas ações nas edições de 2020 e 2021 durante o isolamento
social. Após a declaração de estado de pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS),
surgiram desafios e, dessa forma, a metodologia de atuação e o processo de trabalho precisaram
ser aprimoradas e adaptadas para o contexto remoto. Assim, as novas práticas vivenciadas são
ABSTRACT
The present experience story aims to establish connections between University Extension and
the principles defended by Paulo Freire. To this end, it will be discussed how the “Aproxime-
se” Program of the Distance Education Support Center from the Federal University of Minas
Gerais conducted its activities in the 2020 and 2021 editions during social isolation. After the
declaration of a worldwide pandemic by The World Health Organization challenges emerged
and the way of acting and work process needed to be improved and fully adapted to a remote
format. Therefore, the new information generated are relevant to the current scenario of
extension, also reinforcing the importance of the maintenance of the “Aproxime-se” to keep the
bond with the community.
RESUMEN
El presente informe de experiências tiene por objeto establecer conexiones entre la Extensión
Universitaria y los principios defendidos por Paulo Freire. Para ello, se discutirán las maneras
como el Programa “Aproxime-se” del Centro de Soporte de la Educación a Distancia de la
Universidad Federal de Minas Gerais ha realizado sus acciones en las ediciones de 2020 y 2021
durante el aislamiento social. Después de la declaración del estado de pandemia por la
Organización Mundial de la Salud emergieron desafíos y la forma de actuación y proceso de
trabajo necesitaron ser perfeccionados y totalmente adaptados para el formato remoto. Así, las
nuevas informaciones generadas son relevantes para el escenario actual de la extensión,
reforzando también la importancia de la continuidad de la ejecución del “Aproxime-se” para
mantener el vínculo con la comunidad.
INTRODUÇÃO
O “Aproxime-se” é um programa de extensão do Centro de Apoio à Educação à
Distância (CAED) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), composto por quatro
projetos interligados. A educação é a principal temática de trabalho desenvolvido em suas
ações, sempre articulando a pesquisa e o ensino no desempenho de suas atividades em vias de
estabelecer uma parceria com a comunidade onde atua, que são os polos mineiros de Educação
à Distância (EaD) da Universidade Aberta do Brasil (UAB).
Desde 2013, são desenvolvidos cursos de formação, eventos e prestação de serviços nas
áreas técnica, científica, artística e cultural. Porém, devido ao cenário de pandemia em
68
BRAGA, G. A. et al.
decorrência da COVID-19, as duas últimas edições (2020 e 2021) foram totalmente adaptadas
para o formato virtual. Para evitar o contágio pelo novo coronavírus, o isolamento social foi a
principal medida adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Dessa forma, para a
extensão universitária, surgiu o seguinte questionamento: como sair dos muros da universidade
de forma a manter seu compromisso com a sociedade? As mudanças no processo de trabalho e
na dinâmica de funcionamento foram um desafio, mas também uma oportunidade de
aprimoramento para o próprio programa.
Ainda que de forma remota e em consonância com o pensamento de Paulo Freire (1979)
de que todos os envolvidos na ação educativa devem atuar ativamente e levando em
consideração ainda a realidade na qual os participantes estão inseridos, o Programa “Aproxime-
se” se pautou na busca pela manutenção do vínculo com a comunidade e na valorização do
sujeito enquanto agente que intervém criticamente no mundo. Ocupando um espaço virtual,
aberto e democrático para a construção coletiva do conhecimento, suas ações foram pensadas
para promover a socialização e o compartilhamento de saberes, bem como o exercício da
autonomia no processo de ensino-aprendizagem durante o período de pandemia.
O principal objetivo do presente relato é, assim, estabelecer conexões entre os princípios
metodológicos postulados pela pedagogia de Paulo Freire e as ações de extensão desenvolvidas
pelo Programa “Aproxime-se” durante as edições de 2020 e 2021. Além disso, também
pretende-se reafirmar a importância da continuidade de sua execução, mesmo que
exclusivamente de forma remota, em um contexto de adaptação no qual foram produzidas
informações sobre a extensão universitária e as ferramentas e recursos utilizados no novo
modelo de atuação.
Para tanto, o relato de experiência foi dividido em duas partes. A primeira discorre
sobre o surgimento da extensão universitária enquanto um aprofundamento do papel da
universidade para com a sociedade e como o Aproxime-se assumiu o compromisso de atuar em
consonância com os métodos freirianos por meio dos seus quatro projetos, visando manter o
compromisso com a mudança e a socialização de saberes junto aos polos. A segunda parte
apresenta as ações desenvolvidas pelo Programa e as adaptações e ferramentas empregadas para
sua continuidade durante o período de pandemia, também estabelecendo uma relação com o
pensamento de Paulo Freire.
69
BRAGA, G. A. et al.
70
BRAGA, G. A. et al.
5 Apenas em anos não-eleitorais, como em 2021, para não configurar eventuais conflitos de interesses.
71
BRAGA, G. A. et al.
Freire, “cada vez mais lucidamente, para descobrir as inter-relações verdadeiras dos fatos
percebidos” (FREIRE, 2013, p. 22).
Para além do seu lugar consagrado nas práticas educativas em sala de aula, as ideias de
Paulo Freire podem, com refinada harmonia, ser aplicadas também nas práticas voltadas para a
extensão universitária. Isto é, quando a equipe de extensionistas propõe-se a conhecer as
distintas realidades da comunidade a ser atendida e, a partir disso, elabora um plano de trabalho,
mobilizando os conhecimentos e práticas desenvolvidas na Universidade e demais áreas da
Educação, mostra-se apta a atuar com um agente de transformação social, como defende Freire,
afastando-se de uma postura unilateral, que segue uma lógica quase messiânica. Por tudo isso,
alguns dos valores do “Aproxime-se” concentra-se justamente em conhecer, individualmente,
cada comunidade a ser atendida, por meio de pesquisas bibliográficas e de campo, para que as
atividades promovidas sejam de fato significativas para a população. Mesmo com os desafios
impostos pela pandemia da COVID-19, as ações do Programa “Aproxime-se” não se
distanciaram da ótica freiriana.
72
BRAGA, G. A. et al.
73
BRAGA, G. A. et al.
com a colaboração dos polos de EaD e das Prefeituras locais. Para Freire (2013), a extensão
não deve “invadir” a cultura local, manipulando-a ou domesticando-a, mas sim compreender o
outro como um sujeito histórico, levando em consideração seus valores culturais. Nessa
perspectiva, as campanhas educativas buscaram levar informações que pudessem contribuir
para a valorização das cidades polo, contribuindo para dar visibilidade às questões de
importância para o contexto local.
As sessões de cinema comentadas e debates promovidos pelo projeto Ficção e
Realidade foram capazes de estabelecer o diálogo, ou seja, a interação, a participação ativa e a
reflexão crítica nos processos de aprendizagem (SERRANO, 2006). Em 2020, para a ação
denominada “AproCine-se” cada polo contou com a exibição de um filme e um fórum de
debate. Foram eles: “Paulo Freire contemporâneo” (Confins); “Minha voz, minha vida” (Lagoa
Santa); “Quando sinto que já sei” (Sabará). Já para a edição de 2021, foi desenvolvido um único
evento aberto ao público em geral por meio de uma live disponibilizada no YouTube, com a
exibição do curta “Amador Zélia” e uma mesa-redonda que contou com a presença de uma
professora especialista da Faculdade de Educação do CEFET-MG, uma coordenadora de polo
e duas bolsistas do programa.
As ações do projeto Saberes Transversais foram sobre temas selecionados a partir de
demandas da própria comunidade, refletindo o princípio da crítica à verticalização do
conhecimento, que é característica de um primeiro momento conceitual da extensão
universitária (ROCHA, 2001). Para atender a necessidade de um material educativo sobre a
Covid-19, em 2020 foram realizadas três mesas de conversa disponibilizadas via YouTube. Para
o polo de Confins, o tema foi “Trabalho e qualidade de vida em tempos de pandemia e
isolamento social”; para Lagoa Santa foi “O cenário do comer em tempos de pandemia e
isolamento social” e para Sabará foi “Pandemia: saúde mental e isolamento social”.
Seguindo a lógica de abrir espaço para um público maior, na edição de 2021, foi
planejado para o projeto um único evento na forma de palestra. A live “Finanças pessoais em
tempos de crise” foi disponibilizada no YouTube e contou com a presença de um professor
especialista da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, convidado para expor sobre o
tema e sanar dúvidas dos ouvintes. Estes podiam interagir por meio do chat e a mediação era
feita pela coordenadora do Projeto, contando também com o apoio dos bolsistas de extensão.
Dessa forma, a ação parte do pressuposto de um conhecimento construído pelos seus
74
BRAGA, G. A. et al.
participantes e em concordância com a crítica de Freire (2013) de não deve haver superioridade
de quem traz a informação e passividade de quem a recebe.
As oficinas do projeto Virtualidades podem ser relacionadas com o princípio freiriano
do homem como sendo capaz de transformar o mundo pela aplicação dos conhecimentos
adquiridos em sua realidade (SERRANO, 2006). Para a edição de 2020, foram ofertadas as
oficinas para a aprendizagem do Canva, Google Sala de Aula, Powtoon, Hot Potatoes,
PowerPoint e Mapa Conceitual, contando com recursos tecnológicos na educação como
audiomesa e fórum de debate.
Em 2021, visando a formação prática em temas que relacionam tecnologia e educação,
as oficinas para aprendizagem do Powerpoint, Canva e Audacity foram realizadas no Ambiente
Virtual de Aprendizagem (AVA) por meio da plataforma Moodle. Seguindo a ideia freiriana
(2013) da educação como um processo transformador, democrático e emancipatório, as oficinas
tinham como objetivo oferecer ferramentas para que seus participantes pudessem transformar
seu meio de atuação assim como um espaço de reflexão crítica sobre o emprego das próprias
ferramentas nos processos de ensino-aprendizagem.
Dessa forma, sabedor de sua tarefa na constante necessidade de “compartilhamento
entre o conhecimento científico e tecnológico produzido na universidade e os conhecimentos
de que são titulares as comunidades tradicionais” (PAULA, 2013, p. 16), o “Aproxime-se”
coloca-se em um diálogo constante com os métodos freirianos. Cara aos valores do “Aproxime-
se”, essa perspectiva metodológica reconhece que o ato de educar e educar-se não é, meramente,
estender algo desde a ‘sede do saber’ até a ‘sede da ignorância’, mas, ao contrário, “é tarefa
daqueles que sabem que pouco sabem […] em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam
que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco
sabem, possam igualmente saber mais” (FREIRE, 2013, p. 16).
Em outras palavras, sendo um espaço quase indissociável de atendimento às demandas
culturais, sociais e coletivas, alçando-as como objeto e produto de estudos, o “Aproxime-se”,
em seu caráter educativo, reconhece que “o que busca o extensionista não é estender suas mãos,
mas seus conhecimentos e suas técnicas” (FREIRE, 2013, p. 11), cujos impactos e resultados
não estejam restritos ao campus físico da Universidade, mas, de modo pioneiro, estendo (e
aproximando) conhecimentos e técnicas também na Educação a Distância.
75
BRAGA, G. A. et al.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desde 2013, o Programa “Aproxime-se” engaja-se em promover atividades educativas
voltadas para as cidades parceiras, trazendo um pouco da vivência da extensão universitária
para a comunidade dos polos mineiros de educação à distância. Para a execução das edições de
2020 e 2021, que precisaram passar por um processo de adaptação devido à pandemia,
destacou-se a relevância da adoção das concepções de Paulo Freire, que perpassaram também
as edições anteriores. Ademais, seguir uma metodologia que se estrutura nos três pilares da
universidade, o ensino, a pesquisa e a extensão, também foi fundamental para guiar o
desenvolvimento das ações dos quatro projetos interligados do “Aproxime-se”.
Assim, propondo uma interface entre o saber produzido pela comunidade universitária
e os aspectos socioculturais local, a equipe do “Aproxime-se” buscou selecionar temas a partir
de demandas da própria comunidade e atuar de modo crítico à verticalização do conhecimento.
Para isso, as atividades foram planejadas de modo que, mesmo em um ambiente virtual,
pudessem promover o diálogo, a participação ativa e a reflexão crítica. Além disso, visando a
aplicação dos conhecimentos adquiridos em suas realidades individuais e singulares, seus
participantes foram considerados também como agentes capazes de transformar coletivamente
o mundo por meio da Educação.
Por meio dessa visada metodológica, a principal meta do “Aproxime-se”, que é a
aproximação e o estabelecimento de um diálogo com as comunidades dos polos de EaD, foi
mantida por meio das adaptações realizadas a partir da edição de 2020. Dando continuidade ao
Programa e com os aprimoramentos realizados, as ações continuaram sendo planejadas,
promovidas e executadas de forma remota em 2021, também abrindo possibilidade para atingir
um público maior. As reuniões por videoconferência e o uso das redes sociais, para a realização
de lives, divulgação de material, dentre outros, passaram a ser fundamentais para a continuidade
das ações do projeto de extensão do CAED. Ao organizar-se com vistas aos princípios da
metodologia freiriana, as ações do “Aproxime-se”, sem abandonar os seus valores consagrados,
verteu-se com uma pluralidade que foi capaz de ampliar o seu alcance. Tal possibilidade é
aberta justamente pela mobilização de uma visão metodológica integradora, capaz de respeitar
as singularidades dos sujeitos envolvidos no ato educativo, ao mesmo tempo que provoca e
atende as demandas individuais.
O uso de um espaço de trabalho totalmente virtual, valendo-se de ambientes de
76
BRAGA, G. A. et al.
aprendizagem e de plataformas múltiplas para que os polos continuassem a ser atendidos pelas
ações extensionistas, mesmo com o cenário epidemiológico atípico e desafiador, fez com que
a interação entre a Universidade e a sociedade prevalecesse diante das adversidades impostas
pela pandemia, reforçando, em grande medida, a importância e protagonismo da extensão
universitária. Em conformidade com o pensamento de Paulo Freire, os quatro projetos do
“Aproxime-se” puderam contribuir socialmente em suas duas últimas edições, bem como seguir
demarcando a efetividade das ações de extensão no contexto remoto e para a EaD, mantendo,
de forma interligada, promover a transformação dos sujeitos e impactar na realidade e na
formação de todos os envolvidos.
REFERÊNCIAS
CORRADI, W. et al. Extensão universitária na EAD: desafios e experiências da
indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG,
2019.
77
BRAGA, G. A. et al.
78
ARTIGOS
XAVIER, M. O. et al.
RESUMO
Objetivou-se avaliar os métodos de superação da dormência nas sementes de Tectona grandis
L.f., (Teca), para se verificar a viabilidade dos mesmos na uniformização da germinação. Foram
testados cinco métodos de superação da dormência para cada substrato, são eles: Testemunha
(T1, T6); Sementes acondicionados sobre uma lona preta por 96 horas e submetidos a uma
temperatura média de 25°C (T2, T7); Imersão das sementes em água corrente por 48 horas (T3,
T8); Imersão das sementes por 72 horas (T4, T9); Imersão das sementes em água durante a
noite e durante o dia, colocando-as ao sol, sobre uma lona plástica, repetindo a técnica por três
dias e posteriormente colocar as sementes em água por mais 24 horas (T5, T10). Onde os
tratamentos de T1 a T5 foram utilizados no substrato areia lavada, e os tratamentos de T6 a
T10, foram utilizados no substrato areia + terra orgânica. Os principais parâmetros avaliados
foram: percentagem de germinação e índice de velocidade de germinação (IVG). Os dados
foram submetidos à análise de variância, sendo as médias comparadas pelo teste de Tukey com
nível de 5% de significância. Os maiores valores de percentual de germinação e IVG foram
obtidos nos tratamentos (T6) e (T7).
80
XAVIER, M. O. et al.
ABSTRACT
The objective was to evaluate the methods of overcoming dormancy in seeds of Tectona
grandis L.f., (Teca), in order to verify their viability in uniform the seed germination. Five
methods for overcoming dormancy were tested for each substrate, being them; Control (T1,
T6); Seeds packed on a black canvas for 96 hours and submitted to an average temperature of
25 ° C (T2, T7); Immersion of the seeds in running water for 48 hours (T3, T8); Immersion of
the seeds in water for 72 hours (T4, T9); Immersion of the seeds in water during the night and
during the day, placing them in the sun, on a plastic canvas, repeating the technique for three
days and then placing the seeds in water for another 24 hours (T5, T10). Where the T1 to T5
treatments were used on the washed sand substrate, and the T6 to T10 treatments were used on
the sand + organic soil substrate. The main parameters evaluated were: percentage of
germination and germination speed index (IVG). The data were submitted to analysis of
variance, and the means were compared using the Tukey test with a 5% significance level. The
highest values of percentage of germination and IVG were obtained in treatments (T6) and
(T7).
RESUMEN
El objetivo fue evaluar los métodos para superar la latencia en las semillas de Tectona grandis
L.f., (Teca), para verificar su viabilidad en la germinación uniforme. Se probaron cinco métodos
para superar la latencia para cada sustrato, que son: Testigo (T1, T6); Semillas empacadas en
una lona negra durante 96 horas y sometidas a una temperatura promedio de 25 ° C (T2, T7);
Inmersión de las semillas en agua corriente durante 48 horas (T3, T8); Inmersión de las semillas
durante 72 horas (T4, T9); Sumerja las semillas en agua por la noche y durante el día,
colocándolas al sol, sobre un lienzo de plástico, repitiendo la técnica durante tres días y luego
colocando las semillas en agua durante otras 24 horas (T5, T10). Donde los tratamientos de T1
a T5 se usaron en el sustrato de arena lavada, y los tratamientos de T6 a T10, se usaron en el
sustrato de arena + suelo orgánico. Los principales parámetros evaluados fueron: porcentaje de
germinación e índice de velocidad de germinación (IVG). Los datos se sometieron a análisis de
varianza, y las medias se compararon mediante la prueba de Tukey con un nivel de significancia
de 5%. Los valores más altos de porcentaje de germinación e IVG se obtuvieron en los
tratamientos (T6) y (T7).
INTRODUÇÃO
A Tectona grandis L.f., conhecida popularmente como teca, é uma espécie arbórea de
grande porte, rápido crescimento, e de origem asiática utilizada na produção de madeira para
as mais diversas finalidades. É uma planta de tronco retilíneo, fácil de cultivar, pouco sujeita a
pragas e doenças e muito resistente ao fogo. Figuereido et al., (2005, apud MENEZES, 2017,
81
XAVIER, M. O. et al.
p .16) diz que a teca é muito valorizada no mercado mundial, podendo alcançar preços até três
vezes maiores aos do mogno (Swietenia macrophylla King), sendo utilizada para todo tipo de
construções bem como barcos, móveis luxuosos e molduras.
Os primeiros plantios comerciais no Brasil, surgiram na década de 1960 no Estado do
Mato Grosso, apesar de que atualmente já ocorram em várias regiões brasileiras. Devido à sua
importância, a espécie tem sido destinada à produção de madeira para reflorestamento
comercial, evitando a exploração inapropriada de espécies nativas (RAPOSO et al., 2010).
Na Ásia, o ciclo de rotação da teca é variável de 60 a 100 anos. Segundo Favare (2013)
no Brasil os plantios comerciais iniciaram-se pela empresa Cáceres Florestal S.A., localizada
em Cáceres/MT devido aos fatores condicionantes como clima, fertilidade e os tratos
silviculturais mais adequados que contribuíram para reduzir o ciclo de produção. Quando
destinadas a obtenção de madeira para serraria, as plantações de teca apresentam rotação de
plantios que variam de 20 a 25 anos de idade, contudo, durante seu ciclo a madeira retirada nos
desbastes, são principalmente destinadas à construção civil.
O diásporo da teca é do tipo drupa, tetralocular, sendo esperado que contenha quatro
sementes, sendo uma por lóculo. As sementes são pequenas, delicadas e oleaginosas, medindo
de cinco a seis milímetros de comprimento. São protegidas por endocarpo e mesocarpo
impermeável, tornando a germinação lenta e irregular, o que ocasiona dificuldades na produção
de mudas, sendo necessário seu rompimento para a germinação das sementes. A estrutura
responsável pela impermeabilidade do endocarpo e mesocarpo à água é uma camada de células
paliçádicas, cujas paredes celulares são espessas e recobertas externamente por cutícula cerosa,
contribuindo com a dormência. Seu potencial germinativo é pouco explorado, pois o percentual
de germinação foi sempre menor do que os resultados dos testes de corte e de tetrazólio (DIAS
et al., 2009; PASA; BINSFELD, 2012).
Para Lamprecht (1990, apud BEZERRA; MORAES; OLIVEIRA, 2018, p. 140), a
produção de sementes de teca tem sido durante os últimos anos, uma das maiores dificuldades
para implantação de plantios florestais, pois são inseridas em um fruto, com o endocarpo e
mesocarpo duros, tornando a germinação lenta e irregular, ocasionando dificuldades na
produção de mudas. Dessa forma se torna importante avaliar métodos de superação de
dormência que melhor proporcionam uma boa germinação e desenvolvimento de mudas.
82
XAVIER, M. O. et al.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido no Laboratório de Sementes e no Viveiro Florestal de
mudas da Universidade Federal do Tocantins - Campus Universitário de Gurupi -TO, a 280 m
de altitude, sob as coordenadas 11°43’45’’de latitude Sul e 49° 04’07’’ de longitude Oeste. A
colheita das sementes deu-se após o completo amadurecimento dos frutos caídos ao solo, as
mesmas foram coletadas entre o mês de junho e julho de 2017 e acondicionados em sacos de
papel, em seguida foram transportadas até o Laboratório de Sementes-UFT, onde foram
beneficiadas e selecionadas manualmente, descartando-se as que apresentavam injúrias ou
deformações para a superação da dormência.
Foram testados cinco métodos de superação da dormência das sementes de Tectona
grandis L.f., para cada substrato utilizado (Tabela 1).
83
XAVIER, M. O. et al.
84
XAVIER, M. O. et al.
Os resultados foram submetidos à análise de variância, sendo as médias comparadas pelo teste
de Tukey, a 5% de probabilidade, através do software Assistat 7.7 (SILVA; AZEVEDO, 2016).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O início da germinação das sementes ocorreu a partir do décimo primeiro dia com o
tratamento T2 (sementes submetidas a uma temperatura média de 25ºC e colocadas sobre uma
lona preta por 96 horas), comprovando a melhor eficácia no rompimento do tegumento. Cabe
ressaltar que os valores de (VMG) encontrados para T2 foi superior ao encontrado por Dias et
al. (2009) que obtiveram o início da germinação na quarta semana utilizando o tratamento de
imersão das sementes em ácido sulfúrico (33,5%) por três minutos. Dessa forma, infere-se que
a superação de dormência utilizando ácido sulfúrico mostra-se perigosa ao usuário podendo
causar queimaduras e riscos durante o descarte da solução, pois se descartado de forma incorreta
ocasiona sérios problemas ambientais.
O tratamento Testemunha com areia e terra orgânica (T6) e o tratamento onde as
sementes foram acondicionadas sobre uma lona preta por 96 horas e submetidos a uma
temperatura média de 25°C com o substrato de areia e terra orgânica (T7) foram os tratamentos
que apresentaram o maior índice de velocidade de germinação (IVG) 1,40 e 1,07
respectivamente. Neste sentido vale lembrar que estes tratamentos foram os que obtiveram
85
XAVIER, M. O. et al.
86
XAVIER, M. O. et al.
Os resultados obtidos pelos tratamentos que utilizaram como substrato areia e terra
orgânica, apresentaram valores superiores de porcentagem de germinação em quase todos os
tratamentos quando comparado aos tratamentos que utilizaram apenas a areia como substrato,
dados estes que constatam com RESENDE et al. (2011), onde afirmam que, apesar da variação
ocorrida nas diferentes variáveis, os resultados indicaram que a presença da matéria orgânica
no substrato pode ter favorecido maior capacidade de retenção de água consequentemente
maior germinação.
O tempo médio de germinação (TMG) de Tectona grandis L.f. obteve valores que não
diferiram estatisticamente em quase todos os tratamentos, ou seja, apresentou-se o menor tempo
médio para o tratamento T2, seguidos pelo tratamento T7 e T8. O tratamento que obteve o
maior tempo médio de germinação foi o tratamento T1 (testemunha com substrato composto
por areia), demonstrando ser o tratamento menos eficiente para esta variável.
As sementes com os maiores índices de velocidade de germinação (Tabela 2)
começaram emergir a partir da segunda semana após a semeadura das sementes. Segundo
Vieira et al. (2009) os melhores desempenhos dos tratamentos é provavelmente resultado da
maior eficiência dos procedimentos em proporcionar o aumento da permeabilidade do
pericarpo sem danificar o embrião das sementes.
87
XAVIER, M. O. et al.
Figura 1. Taxa de germinação avaliada para as sementes de Tectona grandis L.f. submetidos
a diferentes tratamentos de superação de dormência.
70
% GERMINAÇÃO ACUMULADA
60
T1
50 T2
T3
40 T4
30 T5
T6
20 T7
T8
10
T9
0 T10
10 20 30 40 50 60
DIAS APÓS A SEMEADURA
88
XAVIER, M. O. et al.
CONCLUSÕES
Conclui-se que o tratamento (T6) testemunha com substrato composto de areia e terra
orgânica foi o mais eficiente, visto que os resultados indicaram que a presença da matéria
orgânica no substrato pode ter favorecido maior capacidade de retenção de água e
consequentemente maior germinação.
Contudo, vale ressaltar que o tratamento (T7) onde as sementes de Tectona grandis L.f.
foram submetidas a uma temperatura média de 25ºC e acondicionadas sobre uma lona preta por
96 horas, apresentou alta taxa de germinação dentre os outros tratamentos de superação de
dormência testados para essa espécie. Dessa forma, pode-se inferir que esse tratamento pode
ser uma alternativa viável e sustentável para a superação de dormência de Tectona grandis L.f.,
pois tratamentos de superação de dormência que utilizam ácido sulfúrico demostram ser
eficientes, entretanto podem ser custosos e perigosos aos usuários quanto a queimaduras e
riscos no descarte da solução, pois se descartado de forma incorreta ocasiona sérios problemas
ambientais.
REFERÊNCIAS
DIAS, J. R. M. et al. Quebra de dormência em diásporos de teca (Tectona grandis Lf). Acta
Amazonica, v. 39, n. 3, p. 549-554, 2009.
FIGUEIREDO, E. O. Teca (Tectona grandis L. f.): produção de mudas tipo toco. Embrapa
Acre. 2005.
89
XAVIER, M. O. et al.
SILVA, F. A. S.; AZEVEDO, C. A. V. The Assistat Software Version 7.7 and its use in the
analysis of experimental data. African Journal of Agricultural Research, v. 11, n. 39, p.
3733-3740, 2016.
90
TENÓRIO, P. P. et al.
RESUMO
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é causa frequente de mortes, sendo considerada um
importante preditor de risco para doenças cardiovasculares (DCV). Com a ocidentalização
observou-se aumento dos níveis pressóricos em populações indígenas antes pouco impactadas.
Diante da importância dessa temática, objetivou-se verificar qual o impacto da ocidentalização
nos níveis pressóricos dos indígenas. Para tanto, foi realizada uma revisão da literatura baseada
em estudos publicados nos principais bancos de dados: Pubmed, Medline, Scielo e Lilacs.
Verificou-se num coorte temporal de quatro décadas que os níveis pressóricos em indígenas se
situavam dentro dos padrões aceitáveis, enquanto que atualmente estão na faixa considerada de
alta de risco, ou seja, uma considerável parcela dos indígenas está hipertensa. Tal relação
permite estabelecer um nexo causal entre a adesão ao estilo de vida ocidental e as alterações
nos níveis pressóricos. Ademais, foi observado uma carência de estudos, além de subnotificação
de dados e negligência em relação a políticas públicas de saúde indígenas, levando ao
agravamento da situação. É imperativo a realização de mais estudos que descrevam o impacto
dos hábitos ocidentais nesta população, visto que, a morbimortalidade intrínseca à HAS só pode
ser controlada se o fenômeno for compreendido e publicitado, para que estratégias sejam
implementadas.
ABSTRACT
Systemic arterial hypertension (AH) is a frequent cause of death, being considered an important
risk predictor for cardiovascular diseases (CVD). With westernization, an increase in blood
pressure was observed in indigenous. In view of the importance of this theme, the objective
was to verify the impact of westernization on the pressure levels of the indigenous people. For
this purpose, a literature review was carried out based on studies published in the main
databases: Pubmed, Medline, Scielo and Lilacs. It was verified in a temporal cohort of four
decades that the pressure levels in indigenous people were within acceptable standards, while
currently they are in the range considered to be at high risk. This relationship allows
establishing a causal link between adherence to the western lifestyle and changes in blood
pressure levels. Furthermore, there was a lack of studies, in addition to underreporting of data
and negligence in relation to indigenous public health policies, leading to the worsening of the
situation. It is imperative to conduct more studies that describe the impact of western habits on
this population, since the morbidity and mortality intrinsic to AH can be controlled if the
phenomenon is understood and publicized, so that strategies are implemented.
RESUMEN
La hipertensión arterial sistémica (AH) es una causa frecuente de muerte, siendo considerada
un importante predictor de riesgo de enfermedades cardiovasculares (ECV). Con la
occidentalización, se observó un aumento de la presión arterial en las poblaciones indígenas
que anteriormente habían tenido poco impacto. En vista de la importancia de este tema, el
objetivo era verificar el impacto de la occidentalización en los niveles de presión de los pueblos
indígenas. Para este fin, se realizó una revisión de la literatura basada en estudios publicados
en las principales bases de datos: Pubmed, Medline, Scielo y Lilacs. Se verificó en una cohorte
temporal de cuatro décadas que los niveles de presión en los pueblos indígenas se encontraban
dentro de los estándares aceptables, mientras que actualmente están en el rango considerado de
alto riesgo, es decir, una parte considerable de los pueblos indígenas es hipertensa. Esta relación
permite establecer un vínculo causal entre la adherencia al estilo de vida occidental y los
cambios en los niveles de presión arterial. Además, hubo una falta de estudios, además del
subregistro de datos y la negligencia en relación con las políticas indígenas de salud pública, lo
que llevó al empeoramiento de la situación.
INTRODUÇÃO
92
TENÓRIO, P. P. et al.
METODOLOGIA
93
TENÓRIO, P. P. et al.
Foram utilizados os
Pubmed/Medline + no período entre seguintes descritores:
SciELO + LILACS 1991 a 2020 hipertensão, indígenas
e ocidentalização
40 publicações
Não houve restrição
selecionadas
de data, tamanho da
atingiram o critério de
amostra ou idioma
inclusão
DISCUSSÃO E RESULTADOS
94
TENÓRIO, P. P. et al.
a) Idade
Diversos estudos indicam que há uma associação linear entre a idade e a prevalência de HA,
relacionada ao aumento da expectativa de vida da população brasileira que atualmente é de 74,9
anos e ao aumento na população de idosos ≥ 60 anos na última década, de 6,7% para 10,8%
(IBGE, 2010). Um complexo estudo desenvolvido no Brasil em que foram incluídos 13.978
indivíduos idosos mostrou 68% de prevalência de HA (PICON et al., 2013).
b) Gênero e etnia
Diversos estudos indicam que o gênero e a etnia são considerados fatores de risco para
o HA. A prevalência de HA autorreferida, ou seja, aquela que o indivíduo indica que é
hipertenso, é maior entre as mulheres (24,2%) e pessoas de raça negra/cor preta (24,2%) quando
comparada a adultos pardos (20,0%) do que brancos (22,1%). Segundo dados obtidos do estudo
Corações do Brasil, observou-se a seguinte distribuição: 11,1% na população indígena; 10% na
amarela; 26,3% na parda/mulata; 29,4% na branca e 34,8% na negra (NASCIMENTO-NETO
et al., 2006), enquanto que o estudo ELSA-Brasil mostrou prevalências de 30,3% em brancos,
38,2% em pardos e 49,3% em negros (CHOR et al., 2015).
É sabido que há uma relação direta entre o peso de um indivíduo e a pressão arterial
sistêmica, configurando-se assim o sobrepeso e a obesidade como um fator de risco para a HA.
Recentemente uma publicação destacou que a obesidade aumentou de 11,9% para 17,9% no
Brasil, com predomínio em indivíduos de 35 a 64 anos e maior nas mulheres (18,2% vs 17,9%)
(VIGITEL BRASIL, 2014).
A ingesta elevada de sal é considerada um dos principais fatores de risco para HA. Está
associado tanto a distúrbios cardiovasculares, quanto a renais (ZHAO et al., 2011; HE;
MACGREGOR, 2010). No Brasil, dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), obtidos
em 55.970 domicílios, mostraram disponibilidade domiciliar de 4,7 g de sódio/pessoa/dia,
95
TENÓRIO, P. P. et al.
excedendo o consumo máximo recomendado que é de (2 g/dia), sendo menor na área urbana
da região Sudeste e maior nos domicílios rurais da região Norte (BRIASOULIS; AGARWAL;
MESSERLI, 2012). Apenas 15,5% das pessoas entrevistadas reconhecem conteúdo alto ou
muito alto de sal nos alimentos (VIGITEL BRASIL, 2014).
f) Sedentarismo
Pesquisa desenvolvida em Cuiabá, MT, com cerca de 1.298 adultos com idade ≥ 18
anos, revelou uma prevalência de sedentarismo de 75,8%, sendo que destes, 33,6% o
sedentarismo estava ligado aos momentos de lazer; 19,9% ao trabalho e 22,3% em ambos as
situações. Observou-se também uma associação significante entre HA e idade, sexo masculino,
sobrepeso, sedentarismo nos momentos de folga e durante o trabalho, escolaridade inferior a 8
anos e renda per capita < 3 salários mínimos (SCALA et al., 2015). Dados da pesquisa nacional
de saúde (PNS), apontam que indivíduos que não são ativos, ou seja, que não atingiram 150
minutos semanais de alguma atividade física, levando em consideração os momentos de lazer,
o trabalho e o deslocamento, representaram 46,0% dos adultos, sendo o percentual
significantemente maior entre as mulheres (51,5%). Destaca-se ainda os idosos com cerca de
62,7% e os adultos com nível de escolaridade fundamental incompleto (50,6%) (MALTA et
al., 2015).
96
TENÓRIO, P. P. et al.
g) Fatores socioeconômicos
Estudos indicam que os adultos com menor nível de escolaridade, destacando-se os sem
instrução ou ensino fundamental incompleto, apresentaram uma maior prevalência de HA
autorreferida (31,1%). Esse percentual diminuiu entre os que completaram o ensino
fundamental (16,7%), mas, em relação às pessoas com superior completo, o índice foi 18,2%
(SCALA et al., 2015). Resultados oriundos do estudo ELSA Brasil, realizado com funcionários
de seis universidades e hospitais universitários com maior nível de escolaridade, apresentaram
uma prevalência de HA de 35,8%, sendo maior entre indivíduos do sexo masculino (CHOR et
al., 2015).
As primeiras pesquisas sobre níveis pressóricos entre povos indígenas no Brasil, que
ocorreram nas décadas de 1950-1960, registraram ausência de HA (BRESAN et al., 2015). Em
outros estudos realizados entre os anos de 1970 a 1980, a HA era praticamente inexistente
97
TENÓRIO, P. P. et al.
(FILHO et al., 2015). Tal afirmação pode ser corroborada por uma pesquisa da década de 1980
em que se verificou a pressão arterial e a frequência cardíaca de 663 indivíduos de tribos do
norte do Brasil e não foram diagnosticados casos de HA. Em outra publicação de 1992, de 8
aldeias nos estados de Roraima e Amazonas, com 725 indivíduos Yanomamis, também não
houve diagnóstico de HA e praticamente nenhum outro fator de risco de doença coronária na
população estudada (MANCILHA-CARVALHO et al., 1992).
Esse quadro de ausência de indígenas hipertensos foi modificado ao longo do tempo.
As mudanças nos hábitos alimentares, em que merece destaque a substituição de uma dieta
tradicional rica em proteínas, tubérculos e fibras vegetais, por alimentos com alta quantidade
de sódio, óleo vegetal, carboidratos de absorção rápida, alimentos industrializados e
hipercalóricos, contribuíram para o surgimento, e consequente aumento, de distúrbios
cardiovasculares na população indígena, dentre eles a HA (MENEZES; SCHAUREN, 2015;
FLEMING; SANTOS; COIMBRA, 1991; GIMENO et al., 2007; ROCHA et al., 2015).
Além disso, o contato com os costumes ocidentais conduziu a uma alteração das suas
atividades de vida diária, que os levou a uma diminuição das atividades tradicionais como a
caça, o plantio e a colheita, e aumento da utilização de transportes motorizados, resultando na
redução das atividades físicas diárias (GIMENO et al., 2007; SANTOS et al.,2012). Tais
fatores, somados a adoção de vícios em cigarros e bebidas alcoólicas, atualmente muito
difundidos nas tribos, contribuíram para alteração no perfil epidemiológico, sendo possível
diagnosticar doenças que antes eram ausentes, como HA (BLOCH et al., 1993; SANTOS et al.,
2012).
No entanto, tem-se negligenciado a saúde dos indígenas, e as políticas de atenção que
deveriam ser voltadas a esse público são precárias, tanto no que se refere a prevenção quanto a
promoção de saúde, o que tem agravado ainda mais a situação desses povos nativos (GRACEY;
KING, 2009).
99
TENÓRIO, P. P. et al.
CONCLUSÃO
A partir das evidências encontradas nos artigos, é possível inferir que o processo de
ocidentalização de fato exerceu e ainda exerce um impacto negativo no que tange aos hábitos
de vida das populações indígenas no Brasil, tendo como consequência a elevação dos níveis
pressóricos. A transição epidemiológica estimada para a população em geral também está sendo
verificada em populações indígenas, visto que, até pouco tempo atrás, os indígenas não
apresentavam hipertensão. A ocorrência das doenças infectocontagiosas foram perdendo
espaço para as DCNT.
Diante da diversidade e heterogeneidade das tribos no Brasil, é necessária a
realização de mais estudos que investiguem quais os atuais efeitos que o processo gradual de
ocidentalização esteja impactando às comunidades indígenas, com o propósito de suscitar e
implementar políticas públicas mais direcionadas e efetivas de prevenção e promoção à saúde
indígena.
REFERÊNCIAS
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middle-income countries. The Lancet, v. 370, n. 9603, p. 1929-38, 2007.
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Brazilian Amazon: group- and sex-specific effects resulting from body composition, health
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v. 8, n. 8, p. 456-65, 2011.
103
MACIEL, L. M. et al.
RESUMO
O artigo busca refletir sobre uma experiência da extensão universitária em tempos de pandemia
do novo coronavírus (COVID-19). O objetivo foi apresentar um conjunto de ações
desencadeadas como alternativas para continuar apoiando bairros periféricos de São José dos
Campos/SP, em especial, o bairro Rio Comprido, onde um grupo de docentes/pesquisadores e
alunos/as de diferentes cursos de graduação da universidade do Vale do Paraíba, São José dos
Campos (SP) desenvolviam até dezembro de 2019. O projeto de extensão visava a construção
de Plano Popular de regularização fundiária por meio de metodologias participativas. Após a
divulgação do governo do Estado de São Paulo do plano de combate a pandemia do novo
coronavírus (COVID-19), o grupo de extensionistas, incluindo professores e alunos,
apresentaram como alternativas um conjunto de ações para apoiar o bairro. Como resultados se
desenvolveu atividades nos seguintes eixos: prevenção e combate a infecção por COVID-19,
informação “atenção” às Fake News, segurança alimentar, cuidados com a saúde física e
emocional e fortalecimento da Escola Municipal do bairro atendido, e geração de renda.
ABSTRACT
The article aims to reflect on an experience of university extension (still ongoing) in times of
pandemic of the covid-19. The objective is to present a set of actions triggered as alternatives
to continue supporting peripheral neighborhoods of São José dos Campos / SP, in particular,
Keywords: Black scientists and inventors. Science teaching. PIBID Women in Science.
RESUMEN
El artículo tiene como objetivo reflexionar sobre una experiencia de extensión universitaria
(aún en curso) en tiempos de pandemia de la covid-19. El objetivo es presentar un conjunto de
acciones desencadenadas como alternativas para continuar apoyando los barrios periféricos de
São José dos Campos / SP, en particular, el barrio del Rio Comprido, un asentamiento irregular,
donde un grupo de profesores / investigadores y estudiantes de diferentes cursos. a saber,
estaban desarrollando, hasta diciembre de 2019, un proyecto de extensión destinado a construir
un Plan Popular para la regularización de la tierra a través de metodologías participativas.
Después de que el gobierno del estado de São Paulo anunció el plan para combatir la pandemia
del nuevo virus corona (Covid-19), el grupo de extensión, que incluía a maestros y estudiantes,
comenzó a reflexionar sobre las posibilidades de apoyar al vecindario a través de acciones
específicas. en los ejes: prevención y lucha contra la infección por covid-19, información
“presta atención” a Fake News, seguridad alimentaria, atención con salud física y emocional y
fortalecimiento de la Escuela Municipal del barrio en el que se atiende. Se espera que el artículo
colabore para reflexionar sobre la extensión universitaria en tiempos de pandemia y para
difundir las posibilidades de acciones que puedan inspirar otras iniciativas en todo el país.
INTRODUÇÃO
105
MACIEL, L. M. et al.
No âmbito das reflexões do grupo, compreende-se que a crise sanitária gerada pela
pandemia do novo coronavírus (COVID-19) se apresentou de maneira transnacional e falar de
diferenças culturais e ações orientadas em bases comunitária/territoriais no seu combate foi
quase inevitável. O sociólogo português Boaventura de Souza Santos em “A cruel pedagogia
do Vírus”, considera que as sociedades ocidentais estão cada vez mais vulneráveis às Fake
News, dessa maneira “imaginar soluções democráticas assentes na democracia participativa ao
nível dos bairros e das comunidades e na educação cívica orientada para a solidariedade e
cooperação, e não para o empreendedorismo e competitividade a todo o custo” (SANTOS,
2020, p. 15), tem sido fundamental para o combate a pandemia do novo coronavírus (COVID-
19) e dos impactos econômicos sociais causados.
Nesse sentido, o objetivo geral do relato e do trabalho é responder à questão de como
desenvolver estratégia de “estar lá” mesmo à distância? Ou como garantir uma presença em
um momento tão delicado, em que normalmente as diretivas institucionais sugerem o
distanciamento social e o cancelamento de atividades acadêmicas que envolviam aglomerações.
Apresenta-se um conjunto de ações nesse relato que surgiram da necessidade de apoiar a
comunidade no combate ao novo coronavírus, mantinha-se um diálogo profícuo desde 2018
sobre as questões derivadas da irregularidade fundiária que atinge sua população.
Esse bairro, como inúmeros outros aglomerados subnormais brasileiros, está na lista
daqueles em que a prática de isolamento social, que teria poder de combater o contágio por
COVID-19, dificilmente se realizaria. Como lembrado por Santos (2020, p. 15) “qualquer
quarentena é sempre discriminatória, mais difícil para uns grupos sociais do que para outros”,
dessa forma, no apanhado geral, os grupos periféricos, impedido de realizar o isolamento social
são os mais afetados. Então, nesse momento, o compromisso do projeto com o bairro foi
reafirmado por meio de um conjunto de ações propositivas de atenção a seus moradores.
O relato de experiência, está organizado da seguinte forma, além desta introdução,
explicita-se a metodologia utilizada no trabalho, para depois apresentar os resultados e
discussões, em que se pode ler sobre as ações e possibilidades abertas pelo projeto de extensão
que inspira esse artigo, e por fim, alguns ensinamentos da crise para a extensão universitária.
Esclarece-se que o projeto se inspira nos ensinamentos de Freire (1968); Thiollent (1985); e
Holladay (1988).
METODOLOGIA
106
MACIEL, L. M. et al.
Para este trabalho a metodologia se fundou, inicialmente por uma análise das condições
do estado de São Paulo, sobre a territorialidade do contágio por Covid-19, e ainda, um
levantamento sobre como as instituições universitárias estavam lidando com a questão, em
especial, os projetos ligados a extensão universitária. E em paralelo a esses dois levantamentos,
discutiu-se coletivamente por meio de encontros por videoconferência com os alunos
vinculados ao projeto as ações relacionadas ao combate a pandemia do novo coronavírus
(COVID-19).
107
MACIEL, L. M. et al.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O trabalho do projeto “Cartografias sociais e metodologias participativas na construção de
uma leitura técnica e comunitária da dinâmica socioespacial de São José dos Campos”, antes
da pandemia visava a construção de uma proposta de Plano de bairro para uma discussão de
um projeto de regularização fundiária que estivesse além do título da propriedade ou “papel”.
A Figura 1 ilustra um desses momentos, a composição de uma maquete com os moradores.
Nessa situação eles refletiram com o grupo de extensionista sobre as condições de vida no
bairro, por exemplo.
Até o final de 2019, o projeto havia envolvido mais de vinte alunos de graduação e pós-
graduação permanentes, além de alunos de disciplinas extensionistas, e mais de sessenta
moradores do bairro. Foram realizadas 7 oficinas na comunidade por meio da qual sistematizou
a experiência de vida no bairro. A partir dessa prática formaram-se quatro Grupos de Trabalho
(GT), Moradia e regularização fundiárias, Meio Ambiente e Vulnerabilidade, Cultura, e
Trabalho e Renda.
No entanto, no início de 2020, com as regras do estado de São Paulo que visavam o
combater à disseminação do novo coronavírus destaca-se que o primeiro questionamento do
grupo de extensionista, especialmente dos coordenadores do projeto, foi sobre a capacidade do
108
MACIEL, L. M. et al.
projeto de atendimento das novas demandas ocasionadas pela pandemia. Dada a diretiva de
distanciamento social, o calendário das oficinas de cartografia social entrevistas qualitativas em
curso foi alterado e as atividades interrompidas por tempo indeterminado. No entanto, a
compreensão que a construção do Plano Popular do bairro, exigia o compromisso com o
fortalecimento político da comunidade, fez com outras formas de se manter presente no bairro
emergissem.
O estudo socioeconômico do bairro do Rio Comprido já indicava uma frágil
estruturação da vida economia, registrava-se nas oficinas o argumento por parte dos moradores
que no bairro havia um número significativo de trabalhadores com baixo rendimento, muitos
dos quais vinculados às economias populares/informalidade, construção civil, setor de
comércio e serviço (MACIEL et al., 2021).
Nesta condição, já havia uma previsão/diagnóstico inicial que o bairro sofria os
impactos da pandemia de maneira direta. A vulnerabilidade social tendeu a aumentar,
considerando que foram exatamente esses setores os que mais sofrem com o aprofundamento
da crise que o país já vivia.
Logo, a primeira iniciativa do projeto foi ouvir os/as moradores/as por meio de
aplicativos de mensagens. A estratégia foi questionar os moradores/parceiros da pesquisa-ação
sobre a experiência durante as primeiras semanas de vigência do Decreto Estadual, nº 64.881,
de 22/03/2020 que estabelecia a quarentena. Dessa forma, no início de abril, foi enviado um
conjunto de mensagens particularizadas e iniciou-se a sistematização das primeiras
experiências da vida durante a quarentena. Essas mensagens trocadas com informantes chave
do bairro (10 moradores) orientaram algumas propositivas de ações.
A primeira ação, visou atender uma “reclamação” de uma mãe que relatou a dificuldade
de manter os filhos dentro de casa durante a quarentena, ela expunha a importância que a Escola
Municipal assumia na vida dos filhos, com a escola fechada, como manter as crianças em casa?
Dessa forma, o projeto de extensão organizou uma campanha de “solidariedade ativa” que
visava o recolhimento de livros infantis, jogos e brinquedos que foram distribuídos junto à
Escola Municipal.
Nessa etapa do projeto considerou-se que o mais importante era estabelecer uma rede
entre vizinhos e moradores de outros bairros, pressupunha-se que essa rede pudesse garantir o
acolhimento de diversas questões. A inspiração para pensar as ações vinha da rede de Educação
Popular “Emancipa” que considera que a “solidariedade ativa”, pode ser um método de
109
MACIEL, L. M. et al.
2
Ver Campanhas de Solidariedade Ativa Rede Emancipa - Disponível em:
https://redeemancipa.org.br/solidariedadeativa/. acesso em 11/07/2020.
110
MACIEL, L. M. et al.
fim, ações menores e aquelas ligadas às pastorais da Igreja Católica com dos Vicentinos que
apenas deram continuidade às atividades corriqueiras de arrecadação e doação de alimentos.
No mês de maio muitas famílias foram beneficiadas com o auxílio do Governo Federal,
o que foi fundamental para garantir a segurança alimentar no bairro. Então, em paralelo, à
disposição para realizar os contatos entre pessoas que necessitavam de cestas básicas e
organizações da sociedade civil, o projeto de extensão se concentrou na produção de
Campanhas Educativas por meio de vídeo, cartazes, esquetes que auxiliassem a população a
orientar nesse momento. Um material que pudesse ser compartilhado facilmente por meio das
redes sociais do bairro, em especial, aplicativos de mensagens.
Dentre o material produzido incluiu-se 1) cuidado de higiene e prevenção ao contágio
do Covid-19 – sintomas e locais de atendimento, como produzir uma máscara; como criar um
espaço em sua casa de desparamentar; 2) cartaz de prevenção da violência doméstica;
juntamente com mapeamento de rede de proteção, especialmente, a mulher em São José dos
Campos; 3) segurança alimentar – receitas simples aplicáveis ao dia-a-dia; 4) conexão de rede
de psicólogos que poderia atender gratuitamente durante a pandemia; 5) vídeo de técnica de
respiração – para conter crise de ansiedade; 6) acesso à informação – mapeamento de rede de
internet na cidade; 7) rede de atendimento de Centros de Referências de Assistência Social
(CRAS) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).
111
MACIEL, L. M. et al.
112
MACIEL, L. M. et al.
113
MACIEL, L. M. et al.
Esta ação orientou os trabalhos que passaram a ser desenvolvidos na nova etapa do
projeto, ainda em elaboração, mas que consiste no fortalecimento da economia local por meio
da produção de máscaras de tecido, que foram distribuídas gratuitamente em diversos bairros
periféricos de São José dos Campos. Nessa etapa, costureiras do bairro Rio Comprido fizeram
parte de um grupo maior de costureiras profissionais de bairros marcadamente periféricos/
vulneráveis de São José dos Campos. A parceria foi firmada com o grupo de trabalho do
Observatório das Migrações em São Paulo (NEPO/UNICAMP) e tem financiamento do
Ministério Público do Trabalho (MPT – Região São José dos Campos).
O projeto “Eu abraço essa causa: eu uso máscara” que em São Paulo e Campinas
consistiu na produção de máscaras de proteção contra o novo coronavírus por uma população
de pessoas em situação de vulnerabilidade social, como imigrantes, refugiados e transsexuais,
no caso de São José dos Campos, notadamente, a população em vulnerabilidade social se
localiza em bairros afastados do centro da cidade e com algum grau de precariedade. Em São
José dos Campos, espera-se colaborar para a geração de renda, por meio do trabalho de um
grupo de 20 costureiras, que se dedicaram à produção de 15 mil máscaras de tecido.
Deste processo, ainda em curso, destacam-se já de início alguns ensinamentos da crise
e da pedagogia do vírus Santos (2020), também para a extensão universitária e o projeto em
questão. As reflexões partem do questionamento sobre o futuro das cartografias sociais pós
pandemia e a própria construção ou escrita do Plano do Popular de Regularização Fundiária.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No recorte específico dos trabalhos de extensão em regularização fundiária, um dos
grandes desafios é a ampliação do debate popular do acesso ao título (a propriedade da casa) à
regularização fundiária - para a discussão de um projeto de futuro que venha com a
consolidação de direitos- regularização urbanística. Esta realidade levanta a reflexão sobre a
dimensão da regularização fundiária urbana em acordo às diretrizes da ReurbS (Lei
13465/2016) no que se refere a postura adotada pelos gestores públicos sobre fomentar a
regularização fundiária (a entrega do documento de posse) que tem sido ao longo da história
política prática de troca de ações públicas por votos, e não promover a regularização urbanística
que garantiria aos moradores acesso aos direitos como a moradia, a cultura, a educação, a saúde,
ou seja, atendendo a dimensão do direito à cidade.
114
MACIEL, L. M. et al.
115
MACIEL, L. M. et al.
aos frutos da produção e do espaço (como acesso a equipamentos públicos, saúde, moradia e
cultura), ou seja, potencializar o controle popular e a possibilidade de pensar o território com
bases nas expressões e fazeres do conhecimento local e a partir das redes locais existentes. Uma
estratégia para ampliar o debate na extensão universitária para o fortalecimento da economia
local pode se iniciar como ações mais próximas das demandas e necessidades e que possam
consolidar espaços coletivos de troca e de produção comunitária, tais como: hortas
comunitárias, redes de trabalhadores de beleza, grupos de esportes, grupo de leitura, projetos
de cultura, elaboração do censo comunitário, entre outros.
Este relato de experiência concentrou-se em apresentar um conjunto de reflexões
nascidas durante a pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Nesse momento as atividades
do projeto de extensão que vinha se realizando no bairro do Rio Comprido em São José dos
Campos foram redirecionadas para apoiar e criar ações que promovessem o fortalecimento local
ao combate ao contágio do vírus. A situação de irregularidade fundiária que vivencia o bairro
é um dos desafios no combate à pandemia. As casas são derivadas de autoconstrução e em sua
maioria apresentam algum grau de precariedade, muitas famílias dividem os cômodos
coletivamente, o que os impediriam, por exemplo, de realizar isolamento em caso de
adoecimento.
Para realizar o conjunto de ações contou-se com os estudos e redes de contatos
estabelecidas durante a construção das cartografias sociais, realizadas anteriormente. Elas
apresentaram-se como potentes nas análises dos conflitos socioterritoriais que orientaram as
ações extensionistas no momento da pandemia. De maneira central estas práticas ao
potencializarem o protagonismo da comunidade na leitura de suas problemáticas sociais e
colaborarem para a legitimidade das proposições avançam no debate da extensão ao romperem
com a dimensão da extensão meramente assistencialista e/ou de difusão de conhecimentos.
Dessa maneira, por fim, considera-se que a pandemia ao desnudar as perversidades da
lógica da política neoliberal coloca em xeque o papel das universidades não apenas na produção
de soluções técnicas e científicas, como também no seu papel social e de apoio às comunidades
e aos grupos que sofrem as mais variadas vulnerabilidades.
116
MACIEL, L. M. et al.
REFERÊNCIAS
MACIEL, L. M. et al. Por uma cartografia social dos espaços de vida irregulares: um estudo de
caso da reconstrução comunitária do território em São José dos Campos (SP). Revista De
extensão do IFSC, v. 14, p. 25–40. 2021.
117
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
Mateus Victória1
Luciana Rodrigues
RESUMO
Este trabalho apresenta um relato de experiência do projeto de extensão “Afroconto:
construindo uma experiência antirracista na articulação entre psicologia e educação infantil”,
vinculado ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O projeto
aposta em uma política antirracista através da contação de histórias infantis com protagonismo
negro que, ao oferecer uma experiência de percepção positiva da negritude para as crianças,
apresenta possibilidades de futuro diferentes daqueles naturalizados pelos estereótipos sobre a
população negra brasileira. Nosso relato se refere a realização do Projeto em um Serviço ligado
à Política Nacional de Assistência Social - um Centro de Convivência e Fortalecimento de
Vínculos (SCFV) para crianças e adolescentes em um bairro periférico de Porto Alegre. Como
possibilidade de enfrentamento ao racismo, destacamos a potência do Projeto para o trabalho
com crianças e adolescentes em espaços como o SCVF, bem como, as implicações que essa
experiência oferece para uma formação em Psicologia que assuma como base uma ética
antirracista. Por fim, apontamos a necessidade de políticas públicas antirracistas que
intervenham na realidade de opressão que pessoas negras enfrentam desde seu nascimento
como forma de reparação e, também, vivência e aprendizado tanto sobre a igualdade na
diferença como amar a negritude.
ABSTRACT
TThis work presents an experience report of the extension project “Afroconto: building an anti-
racist experience in the articulation between psychology and early childhood education”, linked
to the Institute of Psychology at Universidade Federal do Rio Grande do Sul. The project bets
on an anti-racist policy through the telling of children's stories with black protagonism. Offering
an experience of positive perception of blackness for children, it presents possibilities for the
future different from those naturalized by stereotypes about the Brazilian black population. The
report refers to the realization of the Project in a Center for Coexistence and Strengthening of
Bonds (SCFV) of the National Social Assistance Policy offers for children and adolescents in
a peripheral community in Brazil. As a possibility to face racism, we highlight the power of the
project for working with children and adolescents, as well as the implications that this
experience offers for a Psychology degree based on anti-racist ethics. Finally, we point out the
need for anti-racist public policies that intervene in the reality of oppression that black people
have faced since birth as a form of reparation and, also, experience and learning both about
equality in difference and loving blackness.
RESUMEN
Este trabajo presenta un relato de experiencia del proyecto de extensión “Afroconto:
construyendo una experiencia antirracista en la articulación entre psicología y educación
infantil”, vinculado al Instituto de Psicología del Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
El proyecto apuesta por una política antirracista a través del relato de cuentos infantiles con
protagonismo negro. Al ofrecer una experiencia de percepción positiva de la negritud para los
niños, el presenta posibilidades de futuro diferentes a las naturalizadas por los estereotipos
sobre la población negra brasileña. Nuestro relato se refiere a la realización del Proyecto en um
Centro de Convivencia y Fortalecimiento de Vínculos (SCFV) de la Política Nacional de
Asistencia Social brasileña, oferecido para niños y adolescentes. Como posibilidad de afrontar
el racismo, destacamos la potencia del proyecto para trabajar con niños y adolescentes, así como
las implicaciones que esta experiencia ofrece para una formación en Psicología basada en una
ética antirracista. Finalmente, señalamos la necesidad de políticas públicas antirracistas que
intervengan en la realidad de la opresión que los negros han enfrentado desde su nacimiento
como una forma de reparación y, además, experimentar y aprender tanto sobre la igualdad en
la diferencia como la negritud amorosa.
INTRODUÇÃO
119
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
construção deste país, justificando a necessidade dessas ações na luta por uma sociedade justa
e igualitária. Faremos isso a partir do relato de um dos encontros realizado entre o bolsista do
Projeto e um convidado, bolsista voluntário do Núcleo, (incluiremos seus nomes após avaliação
dos pareceristas) com as crianças que usufruíam do Serviço de Convivência e Fortalecimento
de Vínculos (SCFV) - serviço com o qual estabelecemos parceria para a realização do Projeto.
Ressaltamos que o Projeto almeja possibilitar espaço para a construção de uma
experiência antirracista a partir da contação de histórias, como estratégia de intervenção, que
apresentem personagens negros/as. Junto a isso, buscamos desenvolver também, ações de
formação com as/os trabalhadoras/es dos serviços onde as contações ocorreram, discutindo
temas como racismo e diversidade racial. Apostamos na oferta de experiências literárias onde
crianças negras possam se sentir representadas contribuindo para a construção de sua
autoestima e uma experiência positivada da negritude, ao mesmo tempo em que crianças
brancas também possam experienciar narrativas com diversidade étnico-racial. Nesse sentido,
essa experiência de trabalho buscou valorizar a diversidade racial e de gênero; combater o
racismo nos espaços e relações escolares; problematizar temas como racismo, violência e
preconceito; estimular o uso da linguagem oral para expressar desejos, necessidades,
sentimentos e opiniões.
Desse modo, utilizar a literatura infantil afrocentrada possibilita a constituição de um
espaço lúdico onde sejam desnaturalizadas práticas preconceituosas e racistas. Para o campo da
Psicologia (campo no qual nos inserimos), essa ação é relevante para que as/os profissionais
psis possam pensar criticamente sobre o trabalho desenvolvido junto a crianças e adolescentes
para além dos pressupostos da branquitude – enquanto sistema de opressão às pessoas negras e
não-brancas e de manutenção de privilégios para pessoas brancas (BENTO, 2002; CARDOSO,
2010). A branquitude, como nos explica Lourenço Cardoso (2010, p. 611), “é um lugar de
privilégios simbólicos, subjetivos, objetivo, isto é, materiais palpáveis que colaboram para
construção social e reprodução do preconceito racial, discriminação racial “injusta” e racismo”.
O público com o qual trabalhamos no Afroconto são crianças e adolescentes das mais
variadas idades e também, trabalhadoras/es dos serviços parceiros, uma vez que, não basta que
as crianças vivenciem uma proposta de educação antirracista através de nosso trabalho uma vez
por semana, sem que a prática antirracista seja discutida com as/os trabalhadoras/os, pois as
crianças e adolescentes seguiriam num contexto diário de preconceitos enraizados no cotidiano
da nossa sociedade que, também, atravessam as práticas de quem as acompanha
120
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
diariamente Como nos fala Eliane Cavalleiro (2001), a luta antirracista no campo da infância
precisa do envolvimento e atuação de educadores/as no sentido de desenvolver um pensamento
crítico sobre as desigualdades sociais e raciais, bem como, para poder olhar para suas próprias
atitudes e comportamentos relacionados ao preconceito e a discriminação. E o mesmo se
estende aos demais trabalhadores/as do campo da infância.
No ano de 2019, desenvolvemos o Projeto em dois espaços diferentes, uma Escola de
Educação Infantil do município e um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos
(SCFV) para crianças e adolescentes – serviço ligado à Política Nacional de Assistência Social
que tem como base a garantia de direitos e o enfrentamento das vulnerabilidades sociais.
Tanto falei nós, mas afinal quem somos nós? Envolvidos no Projeto estavam três
bolsistas negro/as de extensão, cursando graduação em Psicologia: eu (Mateus Victoria), Ellen
Romero e Eliane Abreu; e um bolsista branco voluntário, Rafael Figueira, cursando magistério.
Essa era nossa composição de "contadores de histórias”, que junto a duas docentes
coordenadoras do Projeto - Luciana Rodrigues, uma professora negra, e Raquel Silveira,
professora branca, formavam a equipe do Afroconto. Três bolsistas trabalharam com crianças
de uma Escola de Educação Infantil, em uma faixa etária de idade mais restrita (de 3 a 5 anos)
e eu trabalhei com as crianças do SCFV que apresentam uma faixa etária bem ampla (de 6 a 15
anos), abrangendo em torno de 20 crianças e adolescentes que participavam de nossos
encontros2. Aqui entra o desafio de tornar interessante a contação de histórias para todos/as, por
isso há uma diversidade de histórias que buscamos utilizar e que são escolhidas conforme o
contexto, faixa etária e interesse das crianças e adolescentes3. Como o SCFV foi meu local de
trabalho durante o ano no Projeto, é sobre a experiência nesse espaço que irei lhes contar.
O SCFV, que integra a rede de Proteção Social Básica do Sistema Único de Assistência
Social (SUAS), referenciado ao Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) e
complementar ao Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família – PAIF, “possui um
caráter preventivo e proativo, pautado na defesa e afirmação de direitos e no desenvolvimento
de capacidades e potencialidades dos usuários, com vistas ao alcance de alternativas
emancipatórias para o enfrentamento das vulnerabilidades sociais” (BRASIL, s.d., p.2). Sua
oferta deve garantir as seguranças afiançadas pela PNAS de acolhida, de convívio familiar e
comunitário, assim como o desenvolvimento da autonomia dos/as usuários/as.
O SCFV no qual desenvolvi o projeto tinha um espaço muito rico, semelhante ao de
uma escola, com um pátio bem grande com pracinha nos fundos, refeitório, um espaço de leitura
e outro que era usado para a realização das oficinas, para ver filmes e outras atividades.
Costumava fazer a contação de histórias no pátio ao ar livre, onde todos/as ficavam a vontade
e em roda para que pudéssemos ver uns/umas aos/às outros/as. Escrevo no passado pois a escrita
é posterior à experiência, uma vez que o SCFV foi fechado devido ao processo de desmonte
das políticas públicas voltadas à assistência social que vem ocorrendo na nossa cidade e país
(este fato, inclusive, foi o disparador dessa escrita).
Escolhemos apostar na potência da partilha do trabalho que construímos junto com as
crianças e adolescentes como ferramenta antirracista para desenvolver suas autoestimas,
confiança e ampliar suas perspectivas de futuro, mesmo que o trabalho tenha sido interrompido
por uma política governamental de desinvestimento em serviços ligados a saúde e assistência
social como política pública. Visto que, um Estado capitalista, forjado através de um passado
escravocrata e, portanto, desigual, não se interessa em ver pessoas pretas buscando mais do que
o lugar de subalternidade historicamente reservado a elas.
122
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
fisicamente, ele alija, pelo silêncio, a consciência tanto das vítimas quanto da sociedade como
um todo, brancos e negros.
Como nos mostra Lélia Gonzáles (1988), o processo e a dinâmica do racismo no Brasil
se diferenciam de outros contextos como nos Estados Unidos da América (EUA) e África do
Sul, onde a discriminação racial foi institucionalizada formal e legalmente por leis de
segregação como as de Jim Crown (EUA), o Apartheid (África do Sul), assim como, o regime
de segregação imposto pelo governo nazista aos seus domínios durante a Segunda Guerra
Mundial. Contudo, a violência colonial sofrida pelas pessoas africanas em diáspora (que incluía
o rapto de suas existências, o estupro de mulheres negras – e, também, de homens com o intuito
de retirar a sua masculinidade – o trabalho forçado, as mutilações e a desumanização) não foi
finalizada com a assinatura da Lei Áurea, de 1888, que extinguiu a escravidão no país, mas não
a discriminação racial. Mesmo com a Lei tendo sido sancionada, não houve fiscalização das
casas de engenho verificando se os pretos escravizados haviam sido realmente libertados,
fazendo com que a lógica de escravização se perpetuasse - uma vez que jamais houve um
processo de reparação a essas pessoas que recém haviam se tornado cidadãos4 do país que
construíram durante 362 anos (NASCIMENTO, 2017).
Corroborando uma organização social pautada na hierarquia racial, vemos no século
XIX, uma série de teorias ditas científicas, que foram contrapostas pelos estudos do campo da
genética no século seguinte (GUIMARÃES, 1999), pautadas em ideais eugenistas que
afirmavam a inferioridade racial de pessoas negras (e todas aquelas consideradas “outras” na
relação com a produção da superioridade branca) sustentando que estas não eram iguais as
pessoas brancas, subdividiam a espécie humana em raças
grosseiramente identificadas com as populações nativas dos diferentes
continentes e caracterizadas por particularidades morfológicas tais como cor
da pele, forma do nariz, textura do cabelo e forma craniana. Juntavam-se a tais
particularidades físicas características morais, psicológicas e intelectuais que,
supostamente, definiam o potencial das raças para a civilização
(GUIMARÃES, 1999, p. 147).
4A chamada Lei Áurea (Lei n.º 3.353 de 13 de maio de 1888) aboliu a escravidão no país, no
entanto, não garantiu à população negra, recém liberta, direitos políticos e sociais que a
população branca tinha possibilidades de acesso, tais como direito à educação, saúde, trabalho,
moradia – fundamentais ao exercício da cidadania.
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VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
construir uma determinada história para o país, uma busca por identidade nacional advinda do
mito da miscigenação entre negros, indígenas e brancos – miscigenação posta em curso tanto
pelo estupro de mulheres negras como pela efetivação de uma política de branqueamento da
população brasileira que implicou no genocídio da população negra (NASCIMENTO, 2017).
Para Freyre (2006), o Brasil era um paraíso racial uma vez que, aqui, ninguém seria
negro ou branco, mas todos mestiços e, portanto, não haveria preconceito de raça. Essa
suposição de uma democracia racial é usada ainda hoje para justificar que o preconceito sofrido
pela população negra e indígena no Brasil é devido a desigualdade econômica e não racial.
No entanto, diariamente, pessoas negras sofrem preconceito que podem vir, por
exemplo, de um porteiro ou da vizinhança de seus prédios que não esperam que estas pessoas
estejam morando em lugares como um condomínio em áreas valorizadas e/ou nobres da cidade.
Nesse contexto, outras práticas, igualmente racistas, discriminam negros/as quando saem para
correr pela vizinhança e são, então, vistas causa de temor para vizinhos/as; ou, ainda, quando
uma mulher negra, ao entrar no prédio onde reside, é interpelada como diarista. Como evidencia
Grada Kilomba (2019), há interpelações (como essas) na relação entre negros/as e brancos/as
que colocam em cena heranças coloniais, atualizando lógicas de servidão.
Essa visão de mundo racista que faz alguém indagar se um homem negro é bandido, se
uma mulher negra é empregada doméstica, é algo que é da experiência coletiva dessa população
e, portanto, não se coloca para pessoas brancas. Contudo, como costuma se dizer, "quem é
branco" não se discute e as autoridades policiais sabem fazer essa diferença facilmente. Uma
vez que vidas negras são passíveis de morte, vidas brancas devem ser protegidas, poupadas a
todo custo. Como diz o rapper brasileiro Dudu Mc, na música Poetas no topo 3.3 parte 2: "Vi
o sistema de perto afundando a quebrada e matando o problema/ Antes mesmo deles saber que
é/ Playboy viciado é doença sem escolha/ Favelado na boca é doença sem cura/ Cortar o mal
pela raiz é operação fronteira5”.
O discurso propagado pela democracia racial tenta nos convencer de que não vemos
pessoas negras, nem pessoas brancas, pois seríamos todos/as brasileiros/as. No entanto, vivendo
em uma sociedade pautada em valores supremacistas branco, desde que nascemos somos
ensinados/as de modo nos encaixarmos no mundo branco, buscarmos sua admiração, sua
5EP de Pineapple StormTV, MV Bill, Knust, Dudu, Chris MC, Souto MC, Gali, Black, Projota, César
Mc, Kamau (2019).
124
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
aceitação e fazermos de tudo para sermos o mais parecido possível com o ideal da branquitude
(SOUZA, 1983).
Homens pretos que se interessam mais por mulheres brancas dizem agir dessa maneira
“por gosto”, mulheres pretas que buscam alisar seu cabelo dizem fazer isso “por gosto”, mas o
que ocorre é que somos subjetivados e subjetivadas a seguir os padrões da branquitude para nos
aproximarmos da noção de humanidade. Assim, desde que nascemos somos bombardeados/as
pela pressão estética e pelos padrões de beleza difundidos pela mídia em uma sociedade de
dominação supremacista branca (HOOKS, 2019a).
Portanto, a verdade é que no Brasil o racismo funciona de uma maneira extremamente
injusta e desigual, pois frequentemente ocorre de maneira sutil sem ser declarado
diretamente. Como aponta Munanga (2017) o racismo à brasileira dificulta a mobilização, nos
divide entre pretos e pardos, impedindo a constituição de uma identidade, incentivando uma
iludida busca por branqueamento, enfraquecendo movimentos sociais e contando as mesmas
mentiras para justificar as suas ações. Como mencionou o vencedor do Prêmio Nobel da Paz,
Elie Wiesel, citado por Munanga (2017, p.36), "O carrasco mata sempre duas vezes, na segunda
é pelo silêncio". E assim, sem a necessidade de uma segregação racial declarada ou legalizada,
o racismo como produto de uma sociedade supremacista branca, cria uma imagem negativa,
inferiorizada do povo preto, lhes oferecendo as piores condições de moradia, estudo e trabalho,
enchendo as favelas de drogas, retirando a perspectiva de futuro e a representatividade das
crianças negras e lhes incentivando ao crime.
Essa sociedade produz e sustenta a ideia de que somos todos iguais e nos incentiva a
competir através da meritocracia, ignorando, conscientemente, as marcas violentas da
escravização, a possibilidade de reparação dos nossos direitos, somando a isso o desinteresse
em diminuir as desigualdades raciais. Diante da produção de inúmeras condições precárias de
existência a população negra, continuamos na base da pirâmide social com os maiores índices
de violência e desigualdade, como mostram as estatísticas relacionadas ao acesso à educação,
trabalho e renda, violências contra mulheres e jovens (IBGE, 2020). Segundo o Atlas da
Violência de 2020 “uma das principais expressões das desigualdades raciais existentes no Brasil
é a forte concentração dos índices de violência letal na população negra” (CERQUEIRA et al,
2020, p. 47). Em relação àqueles/as que conseguem o seu “lugar ao sol”, são usados/as (na
lógica meritocrática) como exemplo de sustentação de ideais individualistas que afirmam que
“quem quer consegue” – quanto mais dura a trajetória de vida do sujeito mais ela é exaltada
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VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
sem ser considerado o quão difícil e desgastante foi para a pessoa negra esse processo de
ascensão (em comparação às pessoas brancas).
Como Eliane Cavalleiro (2000) narra no seu livro Do silêncio do lar ao silêncio escolar:
racismo, discriminação e preconceito na educação infantil, os espaços públicos reproduzem os
valores da sociedade da qual fazem parte (no nosso caso, uma sociedade doente com dois vírus
em comorbidade: o machismo e o racismo). Sendo assim, é inevitável que nossas escolas,
ambientes de trabalho e qualquer espaço de convívio social sejam infectados pelos efeitos do
machismo, racismo e, também, exploração de classe que, como mostra Bell Hooks (2019a),
constituem sistemas interligados de dominação na sociedade em que vivemos.
Por habitarmos uma sociedade que normaliza relações hierarquizadas entre pessoas
negras e brancas, que forma sujeitos brancos racistas e preconceituosos, os/as trabalhadores/as
do campo da infância serão, também, pessoas que foram socializadas, subjetivadas de tal
maneira e, portanto, poderão assumir uma visão negativa pré-estabelecida de pessoas negras
que lhes foi ensinada durante toda a vida, seja no convívio familiar, na escola, na mídia ou nos
programas televisivos, pois o racismo estrutural é parte da ordem social brasileira (ALMEIDA,
2019). Visão que atualiza imagens forjadas durante a empreitada colonial europeia, através da
qual negros/as são associados a ideia de inferioridade, animalidade, exotismo e, nesse caminho,
não são considerados verdadeiramente humanos (NASCIMENTO, 2017; MBEMBE, 2018).
Assim, desde o nascimento, a criança negra é introduzida em um mundo que carrega a
herança das relações coloniais de violência e racismo que a marca com percepções pré-
estabelecidas que denotam inferioridade (como malcriada, suja, miserável, cabelo ruim). Como
aponta a psicanalista Maria Lúcia da Silva (2017), para as crianças negras “os significados do
racismo já se iniciaram em seu nascimento, ou seja, as pressões raciais já se iniciaram e estão
inscritas, umbilicalmente, naquilo que a criança traz para sua existência material e emocional”
(SILVA, 2017, p. 83).
Portanto, se vivemos em uma sociedade que se fundou sob práticas que sustentam o
racismo estrutural, no que se refere ao contexto socioassistencial de um serviço que oferece um
espaço de convivência e fortalecimento de vínculos para crianças e adolescentes, experiências
marcadas pelo racismo cotidiano também se fazem presentes.
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VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
Nesse sentido, podemos fazer algumas aproximações desse cotidiano com as situações
de racismo no contexto escolar através do que Eliane Cavalleiro (2001) nos mostra em sua
pesquisa. Segundo a autora, além de práticas discriminatórias de professoras direcionadas
aos/as alunos/as negros/as, conflitos e hierarquizações raciais entre as crianças também ocorrem
no espaço da educação infantil. Como efeito dessas práticas, as crianças negras recebem menos
carinho e afeto das cuidadoras, menos reforço positivo e elogios das professoras – esses últimos,
quando ocorrem, se relacionam apenas às tarefas cumpridas e não à capacidade ou talento de
cada estudante (como se não fossem capazes de exercer as mesmas funções esperadas em
relação aos/as brancos/as).
Além disso, nenhum tipo de incentivo é direcionado a sua autoestima ou elogio à beleza,
como acontece com crianças brancas (CAVALLEIRO, 2001). Os cabelos, por mais belos e
tratados que sejam, podem ser vistos como sujos e piolhentos e os meninos como "pestes
agitadas" e, assim, se inicia um ciclo de opressões e violências que vai nos subjetivando e
violentando desde muito cedo.
Esta sociedade racista, cuja norma é a branquitude, segue uma série de padrões aos
quais, desde cedo, as crianças negras devem se assujeitar se almejam ser aceitas - tanto em
termos de aparência (cabelos lisos, pele clara); de vestimenta (as roupas e a maneira que se
apresentam ao chegar na escola), comportamento e fala. No entanto, mesmo que se esforcem
para se adaptar aos padrões da branquitude, uma criança negra jamais é vista ou tratada como
a branca. Franz Fanon (1964) traz, em Grifos Meus, que é nesse momento que o negro entende
que é negro, pois independentemente dos seus esforços, compreende que jamais será branco –
e então, encontra possibilidades para assumir de vez a sua negritude.
Eu sinto que somos tratados diferentemente das outras pessoas e eu não gosto
de como somos tratados só por causa da nossa cor e isso não significa nada
para mim […] nós somos negros e não deveríamos ter que nos sentir desse
jeito, não deveríamos ter que protestar porque vocês estão nos tratando mal,
estamos fazendo isso porque deveríamos ter direitos. [...] Eu não suporto a
maneira como somos tratados [...] é uma vergonha que nossos pais e mães
sejam mortos e não possamos mais vê-los, é uma vergonha que tenhamos que
ir ao cemitério e enterrá-los. [...] Nós precisamos dos nossos pais e das nossas
mães do nosso lado (OLIFANT, 2016).
demonstra conhecimentos e preocupações que não deveriam passar pela consciência de uma
criança. Desde cedo, crianças negras experienciam a dor da perda, o descaso, a discriminação,
o desamparo, a solidão em virtude da sua cor, o que, com efeito, lhes introduz o desejo da
brancura. E, como afirma Noble (2009), o “embranquecimento é um ataque psicológico ao
senso fundamental dos afro-brasileiros do que significa ser uma pessoa humana (p. 287). Em
trecho de uma das entrevistas de pesquisa, apresentada pela psicanalista Neuza Santos (1983)
em seu livro Tornar-se negro, vemos novamente o efeito do racismo na subjetividade infantil:
Um dia me percebi com medo de mim no espelho e um dia tive uma crise de
pavor, foi horrível. Eu sou feia, não quero casar com gente feia, vou ser freira.
Eu era negra- branca: eu era como aquelas pessoas, mas não queria ser igual
a elas de jeito nenhum. Não tinha nenhuma menina como eu, todas as meninas
tinham o cabelo liso, nariz fino, minha mãe mandava por pregador de roupa
no nariz para ficar menos chato (SANTOS, 1983).
128
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
No que diz respeito à criança branca, esta será capaz de se reconhecer no outro (o negro),
perceber semelhança e humanidade, promovendo assim, uma concepção de igualdade na
diferença, ou seja, não somos todos iguais – pois desde muito cedo as crianças percebem a
diferença fenotípica (BENTO, 2011) – somos diferentes, pois o ser humano é diverso, mas isso
não implica uma relação de hierarquia entre nossas diferenças. Temos origens e modos de vida
diferentes, contudo, todos/as temos os mesmos direitos e merecemos respeito e dignidade.
Introduzindo essa noção as crianças, facilitamos o entendimento futuro de luta por equidade
(que pressupõe justiça visando a igualdade), de reconhecimento dos privilégios de branquitude
e, consequentemente, da luta por uma sociedade antirracista.
6 Projeto que também utiliza a estratégia de contação de histórias com personagens negras e
negros para crianças e adolescentes da região.
129
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
região. Assim que minha, então, colega, (incluiremos o nome após avaliação dos pareceristas),
que participou comigo dessa atividade e nosso convidado especial, o poeta Hércules Marques,
vulgo, Jovem Preto Rei, chegaram, fomos até o SCFV encontrar as crianças e adolescentes
atendidas pelo serviço.
O ambiente do SCFV é parecido com o de uma escola, um pátio grande, uma pracinha,
dois ambientes de estudo, banheiros. Quando chegamos haviam em torno de 20 crianças, cerca
de 12 negras e 8 brancas (entre meninos e meninas). Geralmente, eu escolho uma história, a
partir do tema que ela discute: ancestralidade, cultura africana, história afro-americana,
autopercepção positiva (exaltação da pele negra, dos traços africanos, do cabelo crespo),
bullying, respeito às diferenças, entre outros, propondo atividades a elas relacionadas. Mas,
desta vez, fiz uma proposta diferente: levei o Hércules para declamar as suas poesias para as
crianças e adolescentes e conversar com elas sobre sua produção textual, o seu processo de
escrita e a sua trajetória de vida.
Essa ideia me surgiu após propor a realização de um sarau com as crianças no final do
ano, onde cada uma seria convidada a recitar uma poesia, de preferência de sua autoria. Por
isso, pensei que seria positivo e representativo trazer um poeta preto que havia publicado
recentemente seu próprio livro para conhecer e ajudá-las nesse processo. Um jovem negro que,
crescendo em uma comunidade marcada pelos efeitos das vulnerabilidades sociais, tem uma
experiência de vida semelhante às crianças e adolescentes que utilizam o SCFV.
Assim, perguntei se elas e eles aceitavam o desafio de exercitar a sua escrita (com o
nosso apoio) e recitar suas produções para o coletivo. Imediatamente, elas/es concordaram com
um brilho no olhar. Sentamos em roda no pátio e depois de fazermos o famoso grito do Jovem
Preto Rei7, Hércules, que ainda estava um tanto nervoso, começou a declamar seus versos que
trazem um olhar da sociedade, de um jovem que cresceu com diversos traumas domésticos e
achou na escrita um lugar de fala, até então, negado e uma perspectiva de futuro possível. Como
eu, o Hércules é um homem negro, hétero e periférico, por isso eu sabia que as crianças e
adolescentes iriam se identificar e se sentir representadas por ele. Os versos de "Todos Os Olhos
Em Mim" ecoaram pelo espaço:
7 Antes de entrar no personagem e começar a poesia o Hércules grita: “Jovem Preto Rei…” e o público
responde: “Nascido pra vencer!”.
130
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
e eu tava tentando entender como que, quando era menino, aguentava aquele
fardo
meu pai cheirando na cozinha
minha mãe chorando no quarto
(...) me perguntam:
"como você fez pra se destacar na escrita?"
eu respondo:
"experimenta não ter outra opção" (MARQUES, 2019, p.161).
E foi assim que ele começou, com garra, paixão e a sagacidade que o definem. Eu sabia
que as palavras poderiam chocar, mas também gerariam identificação, esperança e, talvez, até
uma resposta ou reflexão para as crianças e adolescentes que vivenciam um contexto parecido
em suas casas (de sofrimento, violência, ambientes onde presenciam abuso de álcool e drogas,
o que lhes traz sentimentos de dor, raiva, tristeza e lhes faz aprender a adotar essas condutas
como modos “normais” de se relacionar e lidar com a frustração). Escutar Hercules, naquele
momento, representaria ver alguém que, frente a tudo isso, enxergou na educação uma
oportunidade de fuga dessa realidade.
Sua escrita exalta a negritude e a qualidade de vida que merecemos, ao mesmo tempo,
que denuncia a realidade sofrida que vivemos graças ao racismo estrutural e ao patriarcado. Sua
voz é forte, é pungente e expressa nitidamente seus sentimentos, entra pelos ouvidos e nos fixa
o pensamento sobre cada palavra, nos faz refletir sobre como e porque estamos vivendo a nossa
vida e o que devemos melhorar, principalmente, no caso dos homens pretos, onde este alerta
para a importância de desconstruir o machismo que nos é introduzido e de aprender a lidar com
os nossos sentimentos. Sua interpretação prende o olhar, emociona e dá sentindo a cada
sílaba proclamada.
Por isso, eu tinha convicção da potência que esse encontro teria de imediato no
imaginário das crianças e adolescentes. Eu queria ver os meninos escutando os versos sobre
masculinidade tóxica e os diferentes tipos de masculinidade. Eu queria que todos ouvissem os
versos sobre a infância tão difícil que o Hércules teve e vissem o que ele se tornou, apesar disso,
pois conheço o efeito das lógicas de funcionamento de uma favela em nossas famílias, sei que
muitos se identificaram com a dura realidade que Jovem Preto Rei traz em sua poesia, ao mesmo
tempo, em que ficaram encantados/as ao ver que também podem ser mais do que o lugar que a
131
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
opressão de uma sociedade racista insiste em nos reservar. Queria muito que eles ouvissem:
"Eu ouvi o mv bill dizer: "menor, não larga o estudo/ eu fiz isso de escudo/ e não tem nada a
ver com cocaína / mas eu vou voltar pra casa com canudo” (MARQUES, 2019, p.24)
Todos precisamos de referências positivas, de alguém que seja um exemplo, para além
do círculo familiar, que nos represente. MV Bill, Racionais, Tupac e tantos/as outros/as artistas
foram/são fundamentais na nossa vida. Nunca esqueci o recado do Mano Brown no fim da
música “Eu sou 157”: “alô molecadinha eu tô de olho em vocês hein, vamos estuda, trabalha,
respeita o pai e a mãe, não vai pra grupo que a cena é triste8”, foi algo que me subjetivou por
toda a infância e adolescência e, nós, só ouvíamos eles no rádio enquanto, ali, as crianças
poderiam ter a presença, o contato, o acesso ao Hércules sendo esse exemplo, trocando ideias
e tirando suas dúvidas. A cada verso eu via o público extasiado, olhando pra mim como quem
diz "sor9 ele é demais". Entre as poesias nós abrimos para perguntas, todos participaram,
perguntaram, olharam o livro do Jovem Preto Rei, declamaram as poesias favoritas escritas
neles e absorveram as suas ideias como esponjas.
Até nos tornarmos os homens que somos hoje – com consciência sobre afrocentricidade,
pró movimento LGBT e com a noção da necessidade de se quebrar os padrões de masculinidade
tóxica – eu e o Hércules nos reconstruímos muitas vezes, estudamos muito, para entender a
posição das mulheres, aprendemos sozinhos nosso papel no fim da desigualdade de gênero,
nosso papel na luta antirracista, na luta LGBT, através de pesquisas e busca por leituras sobre
os temas conforme fomos nos deparando com eles, já que nem no ambiente familiar nem nas
escolas esses assuntos surgiam, afinal aula de sociologia, no ensino médio, se resume a autores
como Karl Marx, Foucault e os contratualistas. Essas questões que nos formam como cidadãos
e homens são fundamentais e muito pouco discutidas em espaços como o SCFV, oferecidos às
crianças e adolescentes, posto que a discussão racial é algo que a própria política de assistência
social, promulgada em 2004, não tencionou10 – o que se afirma como o mito da democracia
racial ainda segue operando em nosso país.
8 Música do álbum do Racionais MC’s intitulado “Nada como um dia após o outro dia, vol.1 & 2”,
lançado em 2002.
9 Modo afetuoso que as crianças se dirigiam a mim, mesmo que eu não lhes desse aulas, nem conteúdos
escolares propriamente ditos, uma vez que não faz parte das diretrizes do SCFV.
10 Nos anos posteriores à promulgação da política foram produzidos documentos que trabalham
questões raciais, como a Cartilha SUAS sem Racismo, de 2018.
132
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
Em lares de baixa renda em sua maioria formado por famílias negras – pois como afirma
Sueli Carneiro (2011), pobreza no Brasil tem cor – muitas vezes não há o hábito, nem tempo
para o debate sobre questões sociais que geram desigualdades raciais, sexistas e de classe, as
mães chegam tarde da noite em casa, cansadas, as vezes, carregando compras; o pai
frequentemente pode ser uma figura ausente ou quando está, às vezes, era melhor que não
estivesse e quando, felizmente, é um exemplo positivo, também trabalha muito. Em condições
como essas, nós tivemos que aprender por conta. Por isso, queremos tanto trabalhar, desde cedo,
a igualdade racial (assim como a de gênero e sexualidade), o orgulho preto, a masculinidade
que, frequentemente, não são debatidos (no mundo, quiçá no Brasil). E para tanto, precisamos
estar juntos/as, oferecer espaços de convivência entre as diferenças, o que o Projeto Afroconto
proporciona tanto em relação às histórias que se propõe a contar, quanto em relação a ter
bolsistas negros/as realizando esse trabalho. Como afirma Sodré (2017, p. 19) “[s] o
reconhecimento no plano dos afetos não se cria a solidariedade imprescindível à aproximação
das diferenças”.
Política do desmonte
Quando serviços e práticas ligados às políticas sociais avançam em direção a garantia
de direitos e a igualdade racial, buscando mudar cenários marcados pelos efeitos da
vulnerabilidade social, como o trabalho oferecido pelo SCFV, que apostou e abriu espaço para
que um trabalho pautado em uma política antirracista, como nosso Projeto do Afroconto, fosse
desenvolvido, presenciamos uma ação que, em tempos como o nosso, pactua com um desmonte
das políticas públicas brasileiras11.
Naquele dia, ao final das atividades, ficamos sabendo que o SCFV estava para ser
fechado, as funcionárias seriam demitidas, sem previsão de retorno/recontrato e as crianças
ficariam sem um espaço seguro de convivência para desfrutar. Fomos do “céu ao inferno” em
minutos ao pensar que todo o trabalho desenvolvido naquele espaço e sua continuidade estavam
comprometidos, que tamanho investimento naquelas crianças poderia se apagar com o tempo.
Este foi apenas um dos exemplos que ilustram o desmonte de serviços que garantem direitos
sociais básicos como saúde, educação, assistência social, que vêm ocorrendo no nosso país
inteiro. O que vem ocorrendo com trabalhadores/as contratados/as pelo Instituto Municipal de
Estratégia de Saúde da Família - IMESF, do município de (incluiremos o nome após avaliação)
é outro exemplo, com o fechamento dos postos de saúde, redução e trocas de equipes de clínicas
da família - locais que oferecem serviços de fundamental importância a suas comunidades e
com muito maior proximidade e intimidade com os/as usuários/as atendidos/as. Esses, agora,
se veem desamparados e aglomerados nas emergências dos hospitais (que não são próximos
das suas casas, como os postos) tudo em prol da iniciativa privada.
É necessário pontuar que desmantelar/ desmontar serviços e políticas públicas tem sido
muito mais rápido do que a longa construção que é preciso para fazê-los ganhar existência, o
que se torna conveniente aos interesses da lógica mercadológica, pois parece que é só nesses
momentos que o nosso governo age com eficiência. Nessa lógica, as crianças acabam sendo
realocadas em outros serviços que se tornam sobrecarregados frente às demandas de
atendimento. Nesse processo, perdem os vínculos estabelecidos pelo trabalho desenvolvido
com equipes que as acompanhavam anteriormente e, ainda, há sempre o risco de que nem todas
as crianças tenham o acesso e garantia a outros serviços.
No seu livro “Olhares negros: raça e representação”, Bell Hooks nos alerta para a
importância de amarmos a negritude como forma de superarmos a supremacia branca:
REFERÊNCIAS
135
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
http://aplicacoes.mds.gov.br/snas/documentos/Perguntas%20e%20Respostas%20SCFV.pdf.
Acesso em: 2 ago. 2020.
CARNEIRO, S. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.
EMICIDA (2020). Programa Roda Viva. Entrevista 27 de julho de 2020. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=VQaTpXmkHIw. Acesso em 4 de agosto de 2020.
HOOKS, B. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. São Paulo: Elefante,
2019a.
HOOKS, B. Amando a negritude como resistência política. In: Olhares negros: raça e
representação. São Paulo: Elefante, 2019b. p. 44-63.
136
VICTÓRIA, M. & RODRIGUES, L.
MARQUES, H. Jovem Preto Rei: nascido para vencer. São Paulo: Sb edições, 2019.
OLIFANT, Z. Discurso de criança sobre tratamento com negros nos EUA emociona.
Canal Jovem Pan News. 2016. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=Hhuo6LCCHhU. Acesso em: 7 ago. 2020.
SILVA, M. L. Racismo no Brasil: questões para psicanalistas brasileiros. In: KON, N. M.;
SILVA, M. L.; ABUD C. C. (org.). O racismo e o negro no Brasil: Questões para a
psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2017, p. 71-89.
137
NASCIMENTO JÚNIOR, B. J. et al.
RESUMO
Este artigo contém resultados de projeto de extensão PIBEX 2019. Promover e contextualizar
o ensino da saúde em benefício de adolescentes escolares, através do teatro popular, da música
educativa e da literatura de cordel. As etapas foram: seleção dos participantes, oficinas de
capacitação, formação dos grupos de trabalho, criação, ensaios e apresentação. A avaliação do
aprendizado imediato foi realizada através de teste, contendo 5 questões de múltipla escolha. A
análise estatística foi feita através de médias, percentagens e na comparação entre as variáveis,
o teste qui-quadrado de Pearson (p<0,05). Os participantes produziram uma peça teatral, um
cordel e duas paródias musicais. Participaram dos testes 52 alunos com idades variando de 10
a 15 anos. A média do pré-teste foi 6,2 e a do pós-teste foi 7,7. Houve significância estatística
quando se comparou o gênero com os conhecimentos prévios e após a apresentação, nas
questões 4 e 5, respectivamente. As meninas demonstraram maior conhecimento sobre drogas
1 Cirurgião dentista pela FOP-UPE, Doutor em Ciências Farmacêuticas pela UFPE. Coordenador do
GEPALES Vale. Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF).
2 Graduandos em Farmácia - Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF)
3 Enfermeira pela UNIT, Graduanda em Farmácia. Universidade Federal do Vale do São Francisco
(UNIVASF)
4 Jornalista pela UEPB, Mestranda em Extensão Rural pela UNIVASF. Universidade Federal do Vale
do São Francisco (UNIVASF)
138
NASCIMENTO JÚNIOR, B. J. et al.
ABSTRACT
This article contains results of the PIBEX 2019 extension project.Promote and contextualize
health education for the benefit of school adolescents, through popular theater, educational
music and chapbook. The stages were: selection of participants, training workshops, formation
of working groups, creation, rehearsals and presentation. The evaluation of immediate learning
was performed through a test, containing 5 multiple-choice questions. Statistical analysis was
performed using means, percentages and when comparing the variables, Pearson's chi-square
test (p <0.05). Participants produced a play, a chapbook and two musical parodies. 52 students
participated in the tests with ages varying from 10 to 15 years old. The pre-test average was 6.2
and the post-test average was 7.7. There was statistical significance when comparing gender
with previous knowledge and after presentation, in questions 4 and 5, respectively. The girls
demonstrated greater knowledge about illicit drugs and depression. The approach of different
themes, with different instruments and the participation of different actors, innovated the
teaching-learning process with community interaction.
RESUMEN
Este artículo contiene resultados del proyecto de extensión PIBEX 2019. Promover y
contextualizar la educación para la salud en beneficio de los adolescentes escolares, mediante
el teatro popular, la música educativa y la literatura de cordel. Las etapas fueron: selección de
participantes, talleres de capacitación, formación de grupos de trabajo, creación, ensayos y
presentación. La evaluación del aprendizaje inmediato se realizó a través de una prueba, que
contiene 5 preguntas de opción múltiple. El análisis estadístico se realizó utilizando medias,
porcentajes y al comparar las variables, la prueba de chi-cuadrado de Pearson (p <0.05). Los
participantes produjeron una obra de teatro, um cordel y dos parodias musicales. 52 estudiantes
participaron en las pruebas con edades que varían de 10 a 15 años. El promedio previo a la
prueba fue de 6.2 y el promedio posterior a la prueba fue de 7.7. Hubo significación estadística
al comparar el género con el conocimiento previo y después de la presentación, en las preguntas
4 y 5, respectivamente. Las niñas demostraron un mayor conocimiento sobre las drogas ilícitas
y la depresión. El enfoque de diferentes temas, con diferentes instrumentos y la participación
de diferentes actores, innovaron el proceso de enseñanza-aprendizaje con la interacción de la
comunidad.
Palabras clave: Uso del lúdico. Educación rural. Extensión Universitaria. Contextualización.
INTRODUÇÃO
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Esse artigo contém os resultados de um projeto de extensão PIBEX 2019, que foi
desenvolvido para atender alunos da UNIVASF e estudantes adolescentes da escola municipal
João Francisco Félix na zona rural, no distrito de Poço de Fora, Curaçá, Bahia.
Como se sabe, a função da universidade não está limitada às suas fronteiras físicas, o
ensino e a pesquisa precisam de divulgação comunitária, para que através da extensão
universitária as pessoas sejam beneficiadas. Para isso, a academia deve cumprir o papel de
construtora do conhecimento para sociedade, sem deixar de incluir o saber popular, essencial
para a transformação do paradigma impositivo unilateral, no qual, os pesquisadores e
educadores são os únicos detentores do conhecimento. As trocas de saberes são necessárias e
os discentes precisam se aproximar da população para se tornarem mais humanos e mais
sensíveis às realidades sociais, pois terão que interagir com as pessoas durante o desempenho
de suas profissões no futuro.
Para isso, o projeto LUDARTE utilizou metodologias didáticas como o teatro popular,
a literatura de cordel e as paródias musicais. Ainda, foram abordados temas do interesse do
público alvo, como promoção da saúde, uso de drogas lícitas e ilícitas, prática regular de
exercícios físicos, alimentação saudável, infecções sexualmente transmissíveis (IST) e
depressão na adolescência.
REFERENCIAL TEÓRICO
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Dessa forma, uma das maneiras de se colocar em prática a saúde nas escolas é através
da educação permanente em saúde. No entanto, metodologias tradicionais como aula
expositiva, se tornam defasadas por serem cansativas, monótonas e unilaterais, não permitindo
que os educandos interajam com os educadores. No caminho contrário, o uso do lúdico se
tornou mais interessante, por remeter a diversão, espontaneidade, participação e a criatividade.
Sobre o assunto, Melo e Santiago (2015) afirmam que:
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Nesse sentido, ainda sobre o lúdico, o nosso projeto trabalhou com o aprendizado
divertido, utilizando três instrumentos didáticos que foram: o teatro popular, a literatura de
cordel e a música educativa na forma de paródias musicais. Esses recursos lúdicos foram usados
na criação do enredo cênico, das paródias musicais e das poesias de cordel. Sobre os vários
recursos lúdicos, Barros (2014) relata uma metodologia que utiliza a música na preparação de
oficinas de teatro e de literatura de cordel que tiveram a finalidade de conquistar e atrair o
interesse e gosto do aluno pela arte, além de desenvolver o improviso, a cultura popular e
percepção de mundo diante das diferentes visões.
O teatro popular é uma arte dramática, embasada nas representações de momentos,
situações ou problemas, envolvendo uma prática coletiva e social, muito presente em nossos
dias atuais, despertando criatividade e o faz de conta. Muito se sabe a respeito da importância
do Teatro na Educação em todos os campos de atuação. Os princípios pedagógicos do Teatro
traçam relações claras entre teatro e educação, considerando essa arte como uma forma humana
de expressão, a semiótica e a cultura (CAVASSIN, 2008). Para Jorge et al. (2011), O teatro
pode ser...
...ressaltado como uma estratégia não convencional de promoção da saúde,
que se desenvolve a partir do lúdico, mediante a linguagem teatral, e que é
capaz de enriquecer as ações educativas, na medida em que se trata de um
adequado instrumento de comunicação, expressão e aprendizado. Trata-se de
uma modalidade de ensino-aprendizagem criativa, estimulante, integradora e
participativa, que intensifica as diversas trocas de saberes, favorecendo o
conhecimento e a construção de novas relações entre as pessoas e o ambiente
(JORGE et al., 2011).
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Diante de tudo que foi exposto, o objetivo desse artigo foi promover e contextualizar o
ensino da saúde em benefício de adolescentes escolares, através do teatro popular, da música
educativa e da literatura de cordel.
METODOLOGIA
A execução das atividades deste projeto seguiu as seguintes etapas:
1. Seleção do Grupo de Trabalho (GT): Um grupo de alunos da graduação foi selecionado,
levando-se em consideração determinadas como: A. Tocar um instrumento musical; B. Saber
cantar; C. Saber interpretar e D. Ser criativo e saber escrever peças de Teatro, Poesias e Cordéis.
A seleção foi presencial. Os candidatos preencheram uma ficha cadastral com dados de contato
e fizeram demonstrações de suas habilidades e foram classificados.
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2. Capacitação do GT: Esse curso teve carga horária de 12 horas e foi ministrado na forma de
oficinas. Teve como finalidade capacitar os acadêmicos para a execução das atividades do
projeto. As oficinas utilizaram como metodologias didáticas, a exposição oral dialogada,
discussões em grupo, atividades práticas, construção de material coletivo, técnicas corporais de
encenação, execução de instrumentos musicais e canto, prática de escrita de cordéis, seminários
e pesquisas. O cronograma foi o seguinte: Aula 1 (4 horas) –Oficina de literatura de cordel,
ministrado por uma cordelista convidada; Aula 2 (4 horas) - Oficina de teatro popular;
ministrado pelo aluno bolsista que é ator; Aula 3 (4 horas) - Oficina Música educativa,
ministrada pelo coordenador do projeto que é músico amador.
3. Estabelecimento de contato com a escola: Durante as primeiras visitas nas escolas, os
estudantes e professores foram questionados sobre quais os assuntos que eles gostariam que
fossem abordados nas apresentações. Os temas que os alunos e professores escolheram foram:
os perigos dos medicamentos para emagrecer, uso do álcool, infecções sexualmente
transmissíveis (IST), Aedes aegypti, drogas ilícitas e depressão na adolescência.
4. O processo de criação dos roteiros, paródias e cordéis: Durante essa etapa, foram
formados grupos de trabalho segundo a afinidade de cada participante. A peça teatral foi criada
pela bolsista do projeto e foi intitulada: “A arte de vivenciar”. O enredo foi dividido em cinco
contos: conto 1 – O espelho; conto 2 – O nerd burro; conto 3 – O príncipe desencantado; conto
4 – E se eu pudesse voltar; conto 5 – o palhaço. Os cordéis e as paródias foram incorporados
ao enredo da peça teatral.
5. Os ensaios: Ocorrem com uma frequência média de duas vezes semanais por três meses.
Foram realizados nas salas de aula da universidade, com a participação de todos os graduandos
envolvidos no projeto, com a direção do aluno bolsista e a supervisão do coordenador.
Inicialmente, os ensaios eram mais rápidos, porque os cincos contos foram ensaiados
isoladamente, um de cada vez. Quando todos os contos foram ensaiados, os ensaios passaram
a ser mais demorados e completos, com a participação geral dos atores e simulando a futura
apresentação na escola.
6. A apresentação: O projeto foi apresentado na escola municipal João Francisco Félix, zona
rural, distrito de Poço de Fora, Curaçá, Bahia e teve a duração de 60 minutos.
7. Tipo de pesquisa: A pesquisa realizada foi classificada como do tipo intervenção
pedagógica. Ou seja, buscamos avaliar o aprendizado dos estudantes com o uso da nossa
metodologia lúdica. Para isso, os estudantes responderam a um pré-teste e a um pós-teste
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imediato, contendo cinco questões, com quatro alternativas cada. Para Damiani et al., (2013),
a pesquisa do tipo intervenção pedagógica é...
...realizada quando se deseja realizar investigações que envolvem o
planejamento e a implementação de interferências (mudanças, inovações),
destinadas a produzir avanços, melhorias, nos processos de aprendizagem dos
sujeitos que delas participam e a posterior avaliação dos efeitos dessas
interferências (DAMIANI et al., 2013, p. 58).
8. O teste aplicado: Utilizou-se um teste que serviu no preparo das atividades e como forma
de sondagem no aprendizado imediato na intervenção didática. O teste teve cinco questões
objetivas que abordavam os temas do projeto e foi o seguinte:
1. A mídia valoriza o corpo magro, fazendo com que esse padrão de beleza seja aceito
e espalhado na sociedade. O culto à juventude e ao corpo em forma exige alguns cuidados.
Sobre esse assunto marque a resposta errada. A. Devo procurar um médico para tomar remédio
para emagrecer se eu for gordo (a), afinal quem vai querer namorar alguém que parece uma
baleia fora da água? B. Medicamentos para emagrecer podem causar dependência química,
Irritabilidade, Insônia ou sono superficial, Tremores, Depressão, Bipolaridade, Agitação,
Transtornos compulsivos e impulsivos, Aumento da pressão arterial e outros diversos
problemas à saúde. C. Para perder peso devo procurar me alimentar melhor e de forma saudável,
fazer atividades físicas regularmente; D. Os anorexígenos são medicamentos à base de
anfetamina que funcionam como moderadores de apetite. São receitados em tratamentos contra
obesidade, em geral quando dieta e exercícios não dão os resultados pretendidos.
2. Sobre o álcool, marque a resposta errada. A. O álcool atua como um depressivo do
sistema nervoso central quando consumido em altas doses. Os seus efeitos podem causar
mudanças emocionais e comportamentais e uma redução na concentração, percepção e
memória, um alto consumo de bebidas alcoólicas pode resultar em atrofia das células nervosas
e redução dos tecidos cerebrais; B. O álcool é classificado como uma droga estimulante do
sistema nervoso; causando batimento rápido do coração, pressão alta, perda de peso e morte.
C. Um homem só será livre do vício, do alcoolismo, quando ele reconhecer que é um alcoólatra.
Mas enquanto este disser: - Bebo socialmente; - Bebo quando quero e paro quando quero. Com
toda certeza continuará sendo um escravo do vício. D. Toda forma de vício ou dependência é
ruim, não importa que seja droga, álcool ou qualquer outra coisa.
3. As relações sexuais podem ser perigosas se forem feitas de forma irresponsável, pois
além de transmitirem infecções sexuais, podem levar a uma gravidez não planejada e
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Comitê de Ética (CEP) e se encontra na Plataforma Brasil, com o título: “Saúde e Educação:
Arte e Cultura Popular aplicadas na Promoção da Saúde no Semiárido”. O “projeto guarda-
chuva” foi aprovado em 2013, pelo Comitê de Ética e Deontologia em Estudos e Pesquisas da
UNIVASF, com protocolo nº 0001/140613.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As atividades desse projeto PIBEX foram realizadas em 2019, com a participação de 22
discentes de graduação em Farmácia (21 voluntários e um bolsista), uma mestranda em
Extensão Rural, sete professores, dois técnicos administrativos, uma cordelista e 52 estudantes
da escola participante (Figura 1).
Figura 1. Apresentação do Projeto LUDARTE.
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Participaram dos testes 52 alunos com idades variando de 10 a 15 anos. A média das
idades foi de 12,28 anos; a mediana foi de 12 anos; a moda de 11 anos e o desvio padrão de
1,42. Em relação ao gênero, 28 eram do sexo masculino e 24, do sexo feminino. Quanto à
religião, 41 católicos e 11 afirmaram que eram protestantes. Quanto à raça autodeclarada, 43
eram pardos; 5 se achavam brancos; 3 afirmaram que eram negros e 1 era amarelo. Em relação
à renda familiar, 42 tinham renda de um salário mínimo e 10 tinham renda de 1 a 3 salários
mínimos (Tabela 1). Podemos afirmar que o grupo estudado era formado por adolescentes, com
leve predominância de meninos, de maioria católica, pardos e com baixa renda familiar.
Esses resultados estão de acordo com estudo realizado na cidade de Niterói, no Rio de
Janeiro, onde os autores estudaram adolescentes escolares. Os pesquisadores concluíram que a
maioria dos estudantes era menino (54%), com idade entre 10 e 17 anos e de baixa renda
(AGATHÃO et al., 2018).
O Brasil é considerado o país com a maior proporção de negros e pardos depois da
África. Essa quantidade se concentra nas regiões Norte e Nordeste do País. Em alguns estados
dessas regiões, a exemplo da Bahia e do Maranhão, os negros chegam a representar cerca de
80% da população (QUEIROZ, 2003).
Dado interessante foi que as religiões citadas foram catolicismo e protestantismo.
Nenhum aluno afirmou que era espírita, do candomblé e de outras religiões. Em pesquisa sobre
a prevalência das religiões no Brasil, os autores colocam o catolicismo como a religião de maior
número de adeptos, seguida do protestantismo, mas também afirmam que os evangélicos estão
em processo de expansão e os católicos, de retração no Brasil (ALVES et al., 2017). Segundo
o Censo de 2010, os católicos ainda eram a maioria, mas vinham perdendo fiéis ao longo dos
anos, de forma que este grupo poderá deixar de ser a maioria religiosa em 2030.
Tabela 1. Dados gerais. LUDARTE: educação em saúde de estudantes em escola rural através
do teatro popular, músicas educativas e literatura Cordel.
Variável Número %
10 anos 5 9,6
11 anos 14 26,9
Idade 12 anos 9 17,3
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13 anos 11 21,2
14 anos 11 21,2
15 anos 2 3,8
Gênero Masculino 28 53,8
Feminino 24 46,2
Religião Católica 41 78,8
Protestante 11 21,2
Pardo 43 82,7
Raça Branco 5 9,6
autodeclarada Negro 3 5,8
Amarelo 1 1,9
Renda Familiar Até um salário mínimo 42 80,8
Entre 1 e 3 salários 10 19,2
mínimos
Fonte: Produção própria dos autores.
A média dos pré-testes foi 6,2 e a média dos pós-testes foi 7,7. Isso significou que houve
melhoria no conhecimento imediato, após a apresentação no grupo estudado. A questão com
menor percentual de acertos foi a pergunta 2, que versava sobre o uso do álcool. A questão com
maior percentual de acertos foi a primeira, que abordava medicamentos emagrecedores (Tabela
2).
O consumo de bebidas alcoólicas entre os adolescentes é alto no Brasil, principalmente
entre os meninos. Em estudo realizado no município de Paulínia, em São Paulo, os autores
detectaram a prevalência de 62,2% no consumo em algum momento de álcool pelos
adolescentes. Os dados revelaram alta prevalência de consumo de álcool e fácil acesso às
bebidas alcoólicas, inclusive por menores de idade. Os autores concluíram que esses
adolescentes estão em risco, apresentaram consequências negativas do consumo de álcool
(mortes, acidentes) e recomendaram a necessidade de ações imediatas em relação às políticas
públicas para o consumo de álcool no Brasil (VIEIRA et al., 2007).
O uso de medicamentos emagrecedores também é comum entre adolescentes e jovens,
principalmente quando associado a transtornos alimentares, como a anorexia nervosa (AN) e
bulimia nervosa (BN), em jovens entre 15 e 24 anos. Os autores afirmaram que os principais
emagrecedores eram os anorexígenos, os laxantes e os diuréticos e concluíram que era
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necessário investir na educação e prevenção para evitar o risco dos transtornos alimentares
nesse público (SILVA et al., 2018).
Quando se comparou as variáveis, encontrou-se significância estatística (p<0,05) no
cruzamento de dados em duas questões. No pré-teste, 13 (46,4%), dos 28 meninos e cinco, das
24 (20,8%) meninas, erraram a questão 4, que abordava o uso de drogas ilícitas, crack, maconha
e cocaína. Isso significou que no grupo estudado, as meninas tinham mais conhecimento prévio
sobre essas drogas. No pós-teste 13 (46,4%) meninos e quatro (16,6%) meninas erraram a
questão 5, que retratava a depressão na adolescência. Isso significou que as meninas tiveram
um melhor aprendizado imediato, após a apresentação, no grupo estudado (Tabela 2).
Tabela 2. Resultados dos pré e pós testes. LUDARTE: educação em saúde de estudantes em
escola rural através do teatro popular, músicas educativas e literatura Cordel.
Questão Acertos Pré- Média Pré- Acertos Pós- Média Pós- Teste Qui-Quadrado
Teste testes Teste testes
01 46 (88,5%) 46 (88,5%) p>0,05
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NASCIMENTO JÚNIOR, B. J. et al.
que assumam maior cuidado em relação ao seu corpo e a saúde, repercutindo também nos
hábitos e comportamentos” (VIEIRO et al., 2015).
Em relação à produção do projeto, a peça teatral intitulada: “a arte de vivenciar” foi
escrita pelo aluno bolsista PIBEX que é acadêmico de Farmácia, ator e escritor teatral. O cordel
sobre dengue foi produzido por um dos alunos voluntários do projeto que é estudante de
Farmácia e cordelista.
Conto 1 - O espelho
O espelho fala da personagem Joana, que era inconformada com seu corpo, estava acima
do peso e contracenava com um espelho mágico que sempre a inferiorizava, chamando-a de
gorda. Certo dia, o espelho recomenda à protagonista uns medicamentos para emagrecer. Ela
atende o conselho e compra uma medicação anorexígena. Então começa a tomar o remédio,
mas escuta um locutor de rádio entrevistando um farmacêutico e esse profissional da saúde
explica que os medicamentos para emagrecer podem causar dependência química,
irritabilidade, insônia ou sono superficial, tremores, depressão, bipolaridade, agitação,
transtornos compulsivos e impulsivos, aumento da pressão arterial e outros diversos problemas
à saúde. Ao saber disso, Joana se arrepende, confessa à mãe que pegou dinheiro escondido e
deixa de consumir a medicação. A personagem conclui a sua fala: “E pra vocês fica a dica, não
seja influenciado pela mídia, redes sociais, amigo. Aprenda a se amar, se valorize, pois o
importante é sim, ter saúde! E o espelho? Não dê cordas a ele, se possível quebre-o e se liberte
da prisão que existe em você”. A protagonista quebra o espelho e passa a entender que com
alimentação saudável e exercícios físicos, poderia perder peso e se manter saudável.
Em estudo realizado em uma escola de ensino fundamental em Sobral, no Ceará, os
pesquisadores perceberam que os hábitos alimentares e a prática de atividade física entre os
adolescentes não eram costumes comuns. No entanto, os adolescentes perceberam a
importância da adoção de modos saudáveis para a promoção da saúde e qualidade de vida. Os
autores verificaram que o estilo de vida adotado por alguns adolescentes contribuiu na
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NASCIMENTO JÚNIOR, B. J. et al.
manifestação de doenças e sugeriram que práticas saudáveis de vida eram essenciais, pois
possibilitavam o autocuidado e a coparticipação na adoção estilo de vida salubre
(CAVALCANTE et al., 2016).
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NASCIMENTO JÚNIOR, B. J. et al.
Preocupada contou para sua mãe o ocorrido. A sua genitora depois de reclamar sobre a atitude
irresponsável da filha, a levou para atendimento médico. E a mãe de Sabrina conclui o conto
com um conselho: "lembre-se: nunca devemos confiar em pessoas que não se mostram quem
são de primeira. A internet e as pessoas que a utilizam para o mau, tendem a pensar que são
invisíveis e que nunca serão descobertas, porém existem leis que nos protegem. Para vocês
deixo um recadinho, escutem seus pais e responsáveis, nunca falem com estranho e se
conhecerem pessoas pelo App e for encontrá-las, avise a alguém e não vá sozinha. Vale lembrar
de nunca dar sua localização espacial e sempre se encontrar com desconhecidos em local
movimentado”.
Sobre os encontros marcados em sites de relacionamentos, os psicólogos não chegaram
a uma conclusão, mas cabe lembrar que é necessário ter cautela, principalmente com aquelas
pessoas que em algum momento querem promover um encontro fora da ‘segurança’ que a
interface da internet pode proporcionar. A todo o tempo pode-se deparar com pessoas que só
querem ser amigos virtuais, e qualquer possibilidade de um encontro pode ser desconfortante
para as mesmas. Além disso, deve-se ficar atento com a veracidade das palavras ou até fotos
que essa pessoa possa vir a postar, muitas vezes com o intuito de enganar (CANEZIN;
ALMEIDA, 2015).
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vistas. Hoje, no entanto, o uso de cocaína fumada expandiu se, não só pelo Brasil como pelo
mundo, tendo em vista seu preço e a maneira fácil de uso, o cachimbo é improvisado sem
maiores dificuldades com a utilização de latinhas e recipientes plásticos; basta fumá-la, e este
fato tem levado a sérias preocupações em razão dos seus efeitos devastadores. É denominada e
conhecida como a “droga da morte” (MUAKAD, 2012).
Conto 5 – O palhaço
Esse último conto foi um monólogo de um palhaço chamado “Girafinha”, que mesmo
depressivo, fazia as pessoas sorrirem. Em seu histórico de vida, em uma consulta médica, relata
que desde a infância e adolescência era ansioso e depressivo. Seguem falando de depressão
como uma prisão sem grades, onde os pensamentos e a razão de viver não fazem sentido. O
personagem afirma: “A depressão exige que você tenha um guarda-roupa de máscaras para usar
ao longo do dia. Por baixo da máscara tem um mundo desmoronando lentamente. Chegar a essa
conclusão não se tornou uma coisa muito difícil, eu não sirvo para nada. Do que adianta estar cercado
de pessoas e se sentir só, do que adianta dinheiro, fama”. O palhaço conclui a sua fala dizendo que: ”a
vida tem começo, meio e fim. É preciso salientar que não existe cura para a depressão. Existe controle.
Não se pode abandonar o tratamento, pois uma recaída pode ser fatal. Faça um bom meio para que o
começo e o final tenham sentido!”
A depressão no adolescente exige muita atenção por estar associada ao maior índice de suicídios.
Essa patologia se caracteriza por uma ampla gama de sintomas que podem incluir sentimentos de
tristeza, autodepreciação, desvalia, abandono, culpa, desesperança, ideias de suicídio, apatia,
incapacidade de sentir prazer e mesmo uma angústia tal que suplanta as experiências que conhecemos
como ditas normais. Trata-se da dor d’alma, da dor de existir e designa as perdas da vida de um sujeito,
que podem até se manifestar por meio de sintomas psicóticos, como as ideias delirantes e alucinações.
Acrescenta-se a esse quadro as alterações físicas; sono, apetite, sexualidade e perda ou o ganho de peso
(BRASIL, 2008).
Também, foi produzido um cordel sobre o Aedes aegypti, na forma de sextilha, ou seja, com
seis versos em cada estrofe. O cordel apresentou versos rimados (2, 4 e 6) e versos brancos (1, 3 e 5)
nas suas 12 estrofes. Essa poesia popular foi recitada como prévia da apresentação, enquanto os atores
se preparavam para o espetáculo.
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Durante a apresentação foram cantadas duas paródias, baseadas nas músicas “Bebi liguei”,
interpretada pela cantora Marília Mendonça e “Anunciação” do cantor e compositor Alceu Valença.
Paródia 1
Música Anunciação (Alceu Valença) Paródia “Anunciação”
Na bruma leve das paixões que vêm de dentro A minha história vou escrevendo, vou vivendo
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal Tu não duvides, pois a tua vida é igual
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento E as consequências, com certeza, vou colhendo
E o Sol quarando nossas roupas no varal. Se as decisões são para o bem ou para o mal.
A voz do anjo sussurrou no meu ouvido A minha história vou escrevendo, vou vivendo
Eu não duvido, já escuto os teus sinais Tu não duvides, pois a tua vida é igual
Que tu virias numa manhã de domingo E as consequências, com certeza, vou colhendo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais Se as decisões são para o bem ou para o mal.
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Paródia 2
Música Bebi liguei (Marília Mendonça) Paródia “Bevi liguei”
Composição: Philipe Pancadinha / Victor Hugo /
Thales Lessa / Gabriel Agra
Acordei mais uma vez embriagado Hoje acordei sem entender, fui enganada,
E o seu cheiro impregnado na minha roupa E com seu cheiro impregnado pelo meu corpo
Só ficou o resto do seu beijo na minha boca Só ficou a marca dessa noite no meu rosto
Você deu corda e o coração entrou na forca Você deu corda e o coração entrou na foço.
Minha saudade já tinha tomado um rumo na vida A minha vontade de namorar já não existia.
Mas desandou com a sua ligação perdida, ah. Pois desandou quando vi sua covardia, ah
Faltou coragem pra dizer que não Faltou coragem pra dizer que não
Bebi, liguei, parei no seu colchão Sofri, gritei, chorei no seu colchão
Chego apaixonado e saio arrependido Cheguei apaixonado e sai arrependido
Amar por dois só me dá prejuízo. Não dá pra amar quem é desconhecido.
Faltou coragem pra dizer que não Faltou coragem pra dizer que não
Bebi, liguei, parei no seu colchão Pedi, gritei, chorei no seu colchão
Chego apaixonado e saio arrependido Cheguei apaixonado e sai arrependido
Amar por dois só me dá prejuízo Te conhecer só meu deu prejuízo
Só me dá prejuízo. Só me deu prejuízo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse projeto de extensão buscou contextualizar os conhecimentos científicos para
popularizar a ciência e procurou também se aproximar das pessoas da academia através da arte
popular. Dessa forma, promovendo a saúde e valorizando a educação no semiárido nordestino.
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De tal forma que a interação com a comunidade escolar foi muito importante no
desenvolvimento do aprendizado em geral, pois se entende a importância do diálogo e da
parceria que a extensão universitária proporciona na boa formação acadêmica, mas também,
com um olhar abrangente, comparativo e reflexivo da sociedade.
O aprendizado imediato dos escolares foi percebido através da melhoria das médias nos
pós-testes. A metodologia ativa adotada para os graduandos colaborou na assimilação dos
conteúdos, pela oportunidade da aplicação teórica-prática e a correlação com as competências
da vida profissional, já que teve personagem Farmacêutico na ficção.
O projeto contribuiu na formação de um profissional mais humano, voltado para
sociedade na qual está inserido e coparticipante da sua formação acadêmica, e não apenas
passivo ou relegado a absorver conhecimentos.
A abordagem de temas variados, as participações de diversos atores (professores,
estudantes das escolas e graduandos, etc.), inovou o processo ensino aprendizagem com a
interação comunitária. Com isso, disseminando, popularizando o conhecimento em saúde,
através de instrumentos didáticos peculiares na região, com aspectos inerentes da educação do
campo. Dessa forma, promovendo a saúde e valorizando a educação contextualizada no Sertão
nordestino.
REFERÊNCIAS
AGATHÃO, B. T et al. Qualidade de vida relacionada à saúde de adolescentes escolares.
Ciência & Saúde Coletiva, v. 23, n. 2, p. 659-668, 2018. Disponível em:
https://www.scielo.br/pdf/csc/v23n2/1413-8123-csc-23-02-0659.pdf. Acesso em: 27 jul 2020.
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NASCIMENTO JÚNIOR, B. J. et al.
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NASCIMENTO JÚNIOR, B. J. et al.
SILVA, R. L. et al. Literatura de cordel e educação em saúde: análise textual do cordel HIV/
AIDS. Revista Brasileira de Saúde Funcional, v. 1, n. 2, p. 57-75, 2017.
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CASTILHO, L. S. et al.
RESUMO
A literatura relata que pessoas com deficiências do desenvolvimento tendem a possuir uma
saúde bucal pior do o restante da população. O objetivo deste estudo foi investigar a saúde bucal
do paciente medicado com anticonvulsivantes. Para isso, foram levantados dados de 628
prontuários do projeto de extensão “Atendimento Odontológico a Pessoas com Deficiências do
Desenvolvimento” de pacientes de 0 a 33 anos de idade que recebem tratamento reabilitador,
médico e odontológico na Associação Mineira de Reabilitação, Belo Horizonte, Minas Gerais.
As variáveis analisadas foram: uso de medicação anticonvulsivante, sexo, presença de paralisia
cerebral, bruxismo, respiração bucal, xerostomia, movimentação involuntária, gengivite, cárie
dentária e refluxo gastroesofágico. A análise estatística foi realizada pelo qui-quadrado
separando-se grupos por uso de medicação anticonvulsivante e sexo. Indivíduos do sexo
masculino medicados com anticonvulsivantes apresentam chances 2,65 vezes maiores de
apresentarem refluxo gastroesofágico do que indivíduos do sexo feminino e têm 1,92 vezes
mais chances de terem gengivite do que indivíduos masculinos que não são medicados com
anticonvulsivantes. O consumo de anticonvulsivante está associado em ambos os sexos com
paralisia cerebral, respiração bucal, bruxismo e movimentação involuntária. Conclui-se que o
uso de medicação anticonvulsivante é um fator associado às alterações bucais e hábitos bucais
deletérios.
ABSTRACT
The literature reports that people with developmental disabilities tend to have worse oral health
than the rest of the population. The aim of this study was to investigate the oral health of patients
receiving anticonvulsants. For this, data were collected from 628 medical records of the
extension project “Dental Care for People with Developmental Disabilities” of patients from 0
to 33 years of age who receive rehabilitation, medical and dental treatment at the Minas Gerais
Rehabilitation Association, Belo Horizonte, Minas Gerais General. The variables analyzed
were: use of anticonvulsant medication, sex, presence of cerebral palsy, bruxism, mouth
breathing, dry mouth, involuntary movement, gingivitis, tooth decay and gastroesophageal
reflux. Statistical analysis was performed using the chi-square, separating groups by use of
anticonvulsant medication and sex. Male individuals taking anticonvulsants are 2.65 times
more likely to have gastroesophageal reflux than female individuals and are 1.92 times more
likely to have gingivitis than male individuals who are not medicated with anticonvulsants. The
use of anticonvulsants is associated in both sexes with cerebral palsy, mouth breathing, bruxism
and involuntary movement. It is concluded that the use of anticonvulsant medication is a factor
associated with oral changes and deleterious oral habits.
Keywords: Dental care for people with disabilities. Cerebral palsy. Oral Health.
Developmental deficiencies. Dental cavity. Gingivitis.
RESUMEN
La literatura informa que las personas con discapacidades del desarrollo tienden a tener peor
salud bucal que el resto de la población. El objetivo de este estudio fue investigar la salud bucal
de los pacientes que reciben anticonvulsivos. Para ello, se recolectaron datos de 628 registros
del proyecto de extensión “Atención Dental a Personas con Discapacidad del Desarrollo” de
pacientes de 0 a 33 años que reciben rehabilitación, tratamiento médico y odontológico en la
Asociación de Rehabilitación de Minas Gerais, Belo Horizonte, General de Minas Gerais. Las
variables analizadas fueron: uso de medicación anticonvulsivante, sexo, presencia de parálisis
cerebral, bruxismo, respiración bucal, boca seca, movimientos involuntarios, gingivitis, caries
y reflujo gastroesofágico. El análisis estadístico se realizó mediante la chi-cuadrado, separando
los grupos por uso de medicación anticonvulsivante y sexo. Los hombres que toman
anticonvulsivos tienen 2,65 veces más probabilidades de tener reflujo gastroesofágico que las
mujeres y 1,92 veces más probabilidades de tener gingivitis que los hombres que no están
medicados con anticonvulsivos. El uso de anticonvulsivos se asocia en ambos sexos con
parálisis cerebral, respiración bucal, bruxismo y movimientos involuntarios. Se concluye que
el uso de medicación anticonvulsivante es un factor asociado a cambios bucales y hábitos
bucales deletéreos.
Palabras clave: Atención odontológica a personas con discapacidad. Parálisis cerebral, salud
bucal, deficiencias del desarrollo, caries dental. Gingivitis
.
162
CASTILHO, L. S. et al.
INTRODUÇÃO
A epilepsia é uma doença crônica de múltiplas etiologias onde há transmissão elétrica anormal
dos impulsos nervosos no cérebro, causando alterações neurológicas no indivíduo e apresenta
alta prevalência na população mundial (GOLDENBERG, 2010; GHAFOOR et al., 2013).
A doença tem como sinal recorrente convulsões (JACOBSEN; EDEN, 2008) que são
caracterizadas por alterações comportamentais e de percepção assim como a perda temporária
da consciência. No entanto, essas convulsões são reversíveis (MEHMET et al., 2012). A
epilepsia afeta aproximadamente 50 milhões de pessoas em todo o mundo e cerca de 340 mil
pessoas por ano no Brasil (LEITE FILHO et al., 2010) e começa a se manifestar na infância em
60% dos casos (SUNEJA et al., 2016).
O tratamento para o controle das convulsões envolve a administração de medicamentos
anticonvulsivantes (JOSHI et al., 2013; ORTEGA et al., 2014), que podem estar associados a
várias alterações bucais entre pacientes com deficiências do desenvolvimento, especialmente a
paralisia cerebral (VERR et al., 2008; ORTEGA et al., 2014; CASTILHO et al., 2016).
Na maioria dos aspectos de saúde oral, a condição do paciente epilético se apresenta
pior que a de um paciente não epilético. Dentre os pacientes epiléticos, encontram-se aqueles
que possuem deficiência mental e motora (GURBUZ; TAN, 2010), o que pode contribuir para
uma baixa qualidade de saúde bucal devido a precários procedimentos de higiene (JOSHI et
al., 2013).
O projeto de extensão “Atendimento Odontológico a Pacientes com Deficiências do
Desenvolvimento” é um trabalho em conjunto da Faculdade de Odontologia da UFMG e
Associação Mineira de Reabilitação. Dentre os pacientes atendidos por este projeto, a epilepsia
é muito comum e a medicação empregada para o seu controle é bastante consumida
(CASTILHO et al.,2016).
O objetivo deste estudo é investigar alterações bucais estratificadas por sexo em função
do consumo de medicamentos anticonvulsivantes. Nossa hipótese é a de que o fato de que o
uso de medicação anticonvulsivante e ser do sexo masculino pode aumentar a incidência das
alterações bucais. Por isso, este estudo se justifica, pois grande parte dos pacientes do referido
projeto são usuários de medicação anticonvulsivante.
163
CASTILHO, L. S. et al.
MATERIAIS E MÉTODOS
Este é um estudo transversal observacional. Os dados foram coletados através de
prontuários de 628 pacientes com idades entre 0 e 33 anos. Estes indivíduos são pacientes de
um serviço odontológico que funciona num centro de reabilitação de crianças com deficiências
do desenvolvimento- Associação Mineira de Reabilitação (AMR)- em Belo Horizonte, Minas
Gerais em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais. Os prontuários a serem
analisados são de consultas feitas entre os anos de 1998 e 2019. Este estudo foi aprovado pelo
comitê de ética em Pesquisa em Seres Humanos da UFMG sob o número ETIC 219/03.
Dentre os 628 prontuários analisados, os pacientes foram classificados entre os que
fazem e os que não fazem uso de medicamentos anticonvulsivantes. A partir dos dados obtidos,
a prevalência do uso de medicamentos anticonvulsivantes foi categorizada de acordo com o
sexo. Levando em consideração estes dois parâmetros, outras características foram analisadas.
As demais variáveis estudadas foram: bruxismo, respiração bucal, xerostomia, trauma dentário
anterior, movimentos involuntários, gengivite, cárie em decíduos e na dentição permanente,
refluxo gastroesofágico e diagnóstico de paralisia cerebral, definido pela lista de Classificação
Internacional de Doenças (CID).
A cárie dentária foi registrada a partir dos critérios da Organização Mundial de Saúde.
Na dentição decídua registrou-se se o elemento era cariado, obturado ou hígido. Não foi anotado
se o elemento foi perdido em função de não ser possível saber na primeira consulta se a perda
era por exfoliação natural ou pela cárie dentária (WHO, 2013).
164
CASTILHO, L. S. et al.
A gengivite foi anotada nos prontuários tomando por base Modified Gingival Index
(MGI) ou Índice Gengival Modificado de Lobene et al. (1986).
As demais variáveis foram registradas a partir do relato dos pais ou cuidadores e o registro do
CID, que é dado pela equipe médica, foi tomado do prontuário médico eletrônico da AMR.
A análise estatística foi realizada por análise bivariada através do cálculo do teste do
qui-quadrado. O cálculo do qui-quadrado foi realizado para verificação de associação entre
cada uma das variáveis e o uso de medicação anticonvulsivante, estratificado pelo sexo. A razão
das chances (odds ratio) foi calculada a partir da relação entre a chance de que cada uma das
variáveis (bruxismo, respiração bucal, refluxo gastroesofágico, hipercinese, xerostomia,
movimentação involuntária, trauma dentário anterior, gengivites e cárie dentária em decíduos
e permanentes) ocorrer entre os sexos separadamente e em seu total, com intervalo de confiança
de 95%. As associações estatisticamente significativas foram as que apresentaram valor de
p<0,05. O programa estatístico usado foi o Epi Info versão 7.1.4 (CDC, 2016).
RESULTADOS
As idades dos pacientes variaram de 0 a 33 anos com média de 4.06 anos e mediana de
3 anos. Do total de 628 prontuários, 274 eram do sexo feminino (43.63%). Em 619 prontuários
havia o registro sobre o uso de medicamentos. Os pacientes consumiam anticonvulsivantes em
310 (50.10%) dos casos. Em 457 prontuários havia a informação sobre o Código Internacional
de Doenças e destes 330 (72.20%) eram códigos que correspondiam ao diagnóstico de paralisia
cerebral.
Os medicamentos anticonvulsivantes mais consumidos foram o ácido valpróico,
registrado em 138 prontuários, e o fenobarbital em 84. Os demais anticonvulsivantes e suas
frequências se encontram na Tabela 1. O consumo variou de um a três medicamentos
anticonvulsivantes por prontuário.
Indivíduos do sexo masculino que são medicados com anticonvulsivantes apresentam
2.65 vezes mais chances (IC:1.39-5.05) de apresentarem refluxo do que os que não usam esta
medicação. O mesmo não ocorre com indivíduos do sexo feminino. Quando são analisados os
dois sexos em conjunto, indivíduos que são medicados com anticonvulsivantes possuem 2.12
vezes mais chances de apresentarem o refluxo gastroesofágico (IC:1.30-3.50). Da mesma
forma, meninos que são medicados com anticonvulsivantes possuem 1,92 vezes mais chances
165
CASTILHO, L. S. et al.
166
CASTILHO, L. S. et al.
Feminino
Refluxo 17 12 0,29
Não refluxo 113 121
Total 0,00 2,14 (1,30-3,50)
Refluxo 53 27
Não refluxo 254 277
Masculino 0,10
Xerostomia 33 21
Não Xerostomia 146 151
Feminino 0,41
Xerostomia 22 18
Não Xerostomia 107 116
Total 0,07
Xerostomia 55 39
Não Xerostomia 253 267
167
CASTILHO, L. S. et al.
Masculino
Trauma 15 20 0,18
Não Trauma 137 113
Feminino
Trauma 11 9 0,59
Não Trauma 102 107
Total 0,50
Trauma 26 29
Não Trauma 239 220
168
CASTILHO, L. S. et al.
Bruxismo 79 57
Não bruxismo 90 108
Feminino 0,03 1,78 (1,04-3,04)
Bruxismo 49 33
Não bruxismo 79 95
Total 0,00 1,70 (1,21-2,39)
Bruxismo 128 90
Não bruxismo 169 203
Masculino
Cariados e obturados 32 37 0.23
>1
Cariados e 144 121
Obturados =0
Feminino
Cariados e obturados 22 29 0.53
>1
Cariados e 94 102
Obturados =0
Total 0.19
Cariados e obturados 54 66
>1
Cariados e 238 223
Obturados =0
Masculino
CPOD>1 6 4 0.42
CPOD=0 35 40
Feminino
CPOD>1 8 3 0.08
CPOD=0 18 23
Total
CPOD>1 14 7 0.07
CPOD=0 53 63
Fonte: Produção própria dos autores. Nota: dados para algumas variáveis foram perdidos.
169
CASTILHO, L. S. et al.
DISCUSSÃO
Os medicamentos anticonvulsivantes mais utilizados neste estudo estão em
concordância com os listados por Ghafoor (2013) e seu consumo esteve associado em ambos
os sexos aos diagnósticos de paralisia cerebral e presença de movimentação involuntária.
De fato, a paralisa cerebral tem como característica uma série de desordens posturais e
de movimentação que podem estar associadas com o quadro de epilepsia. A apresentação mais
comum, que representa 50-70% dos casos, é a paralisia cerebral espástica que se caracteriza por
espasticidade muscular, hiperreflexia, postura anormal e dificuldades em realizar movimentos
voluntários (MIHI-MARTINEZ et al., 2014). Os indivíduos com paralisia cerebral tornam-se
mais propensos a desenvolver movimentação extra-piramidal que pode se originar ou que é
exacerbada por barbituratos (ORTEGA et al.,2014).
Outra associação encontrada foi entre o bruxismo e anticonvulsivantes observada em
ambos os sexos. Segundo Ortega et al. (2014) os barbituratos (especialmente o fenobarbital)
usados como anticonvulsivantes estão associados à ocorrência de bruxismo entre pacientes com
paralisia cerebral. Os autores não encontraram o bruxismo associado ao uso de ácido valpróico,
carbamazepina e benzodiazepínicos. A terapia com fenobarbital para tratar discinesia tardia
mostra melhores resultados para pernas e braços do que para a região orofacial. Para estes
autores, o efeito inibitório significativo sobre o SNC causado pelo uso de barbitúricos, não
diminuiu o bruxismo e, portanto, a ocorrência de um maior número de indivíduos apresentando
esta desordem neste grupo particular poderia ser considerada como um efeito colateral
produzido pela medicação.
O uso de anticonvulsivantes também se associa a ambos os sexos no caso da respiração
bucal. A possível explicação é que os benzodiazepínicos, drogas frequentemente empregadas
para o controle do quadro de epilepsia, estão associados à depressão respiratória,
hipoventilação, hipóxia e apneia do sono obstrutiva. O mecanismo que causa estas alterações
na respiração pode estar relacionado à eliminação pela medicação do controle químico e
nervoso da respiração ou por diminuição do estado de alerta por alteração dos estágios do sono
ou ainda por diminuição da duração do sono REM (Rapid Eye Movements) (SEDA et al.,
2014). Desta forma, respirar pela boca seria uma alternativa para a captação de ar pelos
pulmões. Em pacientes deste projeto, na variação de 0 a 14 anos, o problema se mantém apenas
no sexo masculino após a realização de regressão logística múltipla como relatado
170
CASTILHO, L. S. et al.
171
CASTILHO, L. S. et al.
através do arcabouço teórico que embasou sua revisão da literatura quais são as razões para que
alguns eventos estivessem associados ao sexo masculino.
Reconhecemos estas limitações, mas conhecer mais detalhadamente, estudar o perfil de
uma população alvo de um projeto de extensão e envolver alunos nessa construção do
conhecimento é uma forma de contemplar a diretriz de indissociabilidade ensino/pesquisa e
extensão. Ao conhecer mais os nossos pacientes podemos propor soluções técnicas mais
eficazes no controle do processo saúde/doença atingindo a diretriz de transformação social.
Conhecendo melhor a população, podemos propor também abordagens de educação em saúde
que também sejam mais envolventes e resolutivas alcançando a diretriz de interação dialógica
com a sociedade.
CONCLUSÃO
O consumo de medicação anticonvulsivante está associado significativamente em
ambos os sexos com paralisia cerebral, respiração bucal, bruxismo e à movimentação
involuntária. No caso do refluxo gastroesofágico e gengivite, a associação só é observável em
relação ao sexo masculino.
REFERÊNCIAS
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. EPI Info TM7 [internet].
Version 7.1.4. Atlanta, 2014. Disponível em: http://www.cdc.gov/epiinfo. Acesso em: 10 out.
2021.
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GURBUZ, T.; TAN, H. Oral health status in epileptic children. Pediatrics International,v.
52, p. 279–283, 2010. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1442-200X.2009.02965.x.
JACOBSEN, P. L.; EDEN, O. Epilepsy and the Dental Management of the Epileptic Patient.
Journal of Contemporary Dental Practice, v. 9, n. 1, p. 054-062, 2008. Disponível em:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18176649/. Acesso em: 10 out. 2021.
KÁROLYHÁZY, K. et al. Dental status and oral health of patients with epilepsy: an
epidemiology study. Epilepsia, v. 44, p.1103-1108, 2003. DOI:
https://doi.org/10.1046/j.1528-1157.2003.04003.x.
LOBENE, R.R. et al. A modified gingival index for use in clinical trials. Clinical Preventive
Dentistry, v. 8, n.1, p. 3-6, 1986. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3485495/.
Acesso em: 10 out. 2021.
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OGUNBODEDE, E. O. et al. Oral Health and Dental Treatment Needs in Nigerian Patients
with Epilepsy. Epilepsia, v. 39, n. 6, p. 59C-594, 1998. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1528-
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SEDA, G. T. et al. Medication effects on sleep and breathing. Clinics in Chest Medicine, v.
35, p. 557-569, 2014. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ccm.2014.06.011.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Oral Health Surveys: Basic Methods. 5th ed.
Geneva: World Health Organization; 2013. Disponível em:
http://www.who.int/oral_health/publications/9789241548649/en/. Acesso em: 10 out. 2021.
174
COSTA, T. P. et al.
RESUMO
A percepção e interpretação ambiental possibilitam reflexões sobre o presente, para o
planejamento de um futuro almejado. O projeto de extensão "Construções rurais sustentáveis:
tecnologias criativas voltadas para agricultores familiares nos territórios do Sertão do São
Francisco" foi realizado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco junto aos alunos
do Curso de Educação Profissional Técnica de Nível Médio em Agropecuária Integrado ao
Ensino Médio da Escola Família Agrícola de Sobradinho, Bahia. Os objetivos foram: despertar
o senso crítico entre os/as estudantes da EFAS a respeito da organização do espaço escolar, por
meio de metodologias participativas, dentre as quais destacaram-se as técnicas de percepção e
interpretação ambiental; e incentivar o emprego de materiais e tecnologias construtivas
alternativas sustentáveis. O projeto possibilitou a realização de palestras e oficinas, com
intervenções no espaço escolar. A troca de experiências entre a equipe executora e a
comunidade externa retificou a importância da extensão na formação universitária, fortalecendo
a tríade ensino, pesquisa e extensão na academia e na educação básica e profissional.
ABSTRACT
Education in the fields of Geography and Architecture allows the interpretation and planning
of the inhabited space, aiming at solving the present problems for the consolidation of a future
sought by the community. The project "Sustainable rural constructions: creative technologies
aimed at family farmers in the territories of the Semiarid Zone of San Francisco River" was
carried out by the Universidade Federal do Vale do São Francisco together with the students of
the Technical School in Agriculture and Livestock of the Escola Família Agrícola located in
Sobradinho city, BA (Brazil). The main objectives of this project were: to disseminate and
expand knowledge about sustainable alternative building materials and technologies in the
semi-arid region; and encourage creativity and innovation. The project made possible the
realization of lectures and workshops, with interventions in the school space. The exchange of
experiences between the executing team and the external community confirms the importance
of extension in university education.
RESUMEN
La educación en los campos de Geografía y Arquitectura permiten la interpretación y
planificación del espacio habitado, buscando la resolución de los problemas presentes para la
consolidación de un futuro deseado por la comunidad. El proyecto de extensión
"Construcciones Rurales Sostenibles: Tecnologías creativas pensadas para agricultures
familiares en los territorios del Sertão de São Francisco" fue realizado por la Universidad
Federal del Valle de São Francisco junto a los alumnos del Curso Técnico en Agropecuaria
Integrado a la Escuela Secundaria Familia Agrícola de Sobradinho, Bahía (Brasil). Los
principales objetivos fueron: divulgar y ampliar el conocimiento sobre los materiales y
tecnologías constructivas alternativas sostenibles, en el semi árido; y fomentar la creatividad e
innovación. El proyecto permitió realizar charlas y talleres, con intervenciones en el espacio
escolar. El intercambio de experiencias entre el equipo ejecutor y la comunidad externa
confirma la importancia de la extensión en los estudios universitarios.
INTRODUÇÃO
A organização do espaço escolar reflete no comportamento dos estudantes e
professores/as, e inclusive nos métodos de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, a Escola
Família Agrícola de Sobradinho (EFAS), localizada no estado da Bahia, aplica a pedagogia da
Alternância, na qual os/as estudantes ficam alojados durante quinze dias na escola e outros
quinze nas comunidades de origem (COSTA, 2017).
O ensino é integral, e os/as estudantes cumprem, além dos componentes curriculares
obrigatórios da Base Nacional Comum Curricular e da parte diversificada, outras relacionadas
176
COSTA, T. P. et al.
A Escola Família Agrícola de Sobradinho (Figura 1), possui desde 2016 o Curso de
Educação Profissional Técnica de Nível Médio em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio.
A escola possui espaços relacionados à produção de alimentos, tais como viveiro de mudas,
horta, pomar, setor de caprinos e de aviário. O sistema produtivo tem fundamento na
agroecologia. Para Costa (2017) o processo formativo na EFA de Sobradinho-BA, visa a
177
COSTA, T. P. et al.
formação integral dos e das estudantes do campo, perpassa pela compreensão da teoria,
fundamentada no conhecimento historicamente construído pela humanidade (conhecimento
clássico, acadêmico e técnico), assim como, através da prática, tendo as relações de trabalho
como um princípio educativo, através das unidades/setores de produção e aprendizagem, e das
tarefas (limpezas, lavar, arrumar, organizar, etc.).
178
COSTA, T. P. et al.
METODOLOGIA
As ações de extensão realizadas na EFAS dividiram-se em três etapas processuais: 1-
Interpretação ambiental; 2- Planejamento do espaço; 3- Intervenções no espaço escolar.
179
COSTA, T. P. et al.
180
COSTA, T. P. et al.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
(a) (b)
Fonte: Arquivo dos autores (2017).
181
COSTA, T. P. et al.
Os espaços identificados como qualificados, pelos alunos, foram aqueles que faziam
parte da rotina diária de cuidado pelos alunos, como a horta, jardins e viveiro. O enquadramento
dos alojamentos, banheiros e lavanderia como espaços desqualificados, se justificava pela
necessidade de reparos, reformas e adequações para os usos específicos, que foram acatados e
executados pela EFA em momento posterior. O abrigo de caprinos encontrava-se inativo
naquele momento, e também requeria uma reforma, para que os animais, que estavam soltos no
riacho, pudessem ser transferidos para o local correto. Alguns cuidados ambientais, como a
deposição de entulhos no riacho e locais com riscos, como a Caixa d’água sem tampa, foram
destacados pelos alunos e poderiam ser também incorporados nas disciplinas relacionadas ao
meio-ambiente, com ações práticas de recuperação.
Desta maneira, os resultados obtidos indicam que as ações para a construção e para a
manutenção do espaço escolar devem ser incorporadas na rotina diária dos alunos da EFA,
integrados ou não às disciplinas. Os alunos passam a ser os protagonistas na construção do seu
próprio espaço – lugar, e esta identidade desperta a responsabilidade e o cooperativismo entre
os membros do grupo.
182
COSTA, T. P. et al.
(a) (b)
Fonte: Arquivo dos autores (2017).
183
COSTA, T. P. et al.
Quadro 2. Planejamento das intervenções nos espaços da EFAS, realizado pelos alunos, e
orientados pelos membros do projeto de extensão da UNIVASF.
Prioridade no
tempo
Área / Setor Ação C - curto prazo
M - médio prazo
L - longo prazo
Lavanderia Sombrear com cobertura M
Refeitório Organizar / aumentar ou otimizar o espaço M
Alojamento Organizar / aumentar ou otimizar o espaço C
feminino
Alojamento Organizar / aumentar ou otimizar o espaço L
masculino
Melhorar higiene, consertar vazamentos, organizar o C
Banheiros
espaço
Setor de Construir e reformar C
Caprinocultura
Setor de Aviário Construir e reformar C
Riacho Retirar lixo C
Cozinha Reaproveitar águas cinzas por meio de biodigestor C
Viveiro de mudas Organizar M
Canteiros Otimizar e proteger L
produtivos
Sala de aula Melhorar condições de conforto térmico e luminoso C
Reservatório de Tampar C
água
Jardins Plantar, limpar e promover sombreamento L
Realizar mutirão para limpeza e ativar o campinho, a fim C
Campo de futebol
de promover prática esportiva diária
Fonte: Organização dos autores (2017).
184
COSTA, T. P. et al.
de ervas.
Figura 4. Intervenção no jardim do pátio escolar, com a construção de uma espiral de ervas
pelos alunos da EFA Sobradinho e equipe de extensão da UNIVASF.
185
COSTA, T. P. et al.
Esta oficina foi bastante instrutiva, pois os alunos perceberam que a falta de espaço ou
de privacidade, pode ser resolvida com a reorganização do mobiliário, e nem sempre requer
obras de reforma. Além disso, aprenderam sobre a representação de objetos em escala.
Por fim, a equipe de extensão realizou a manutenção de torneiras e outros pontos de
vazamento de água, finalizando este ciclo de ações na EFAS.
Em visita recente à escola, observamos novas intervenções, como o sombreamento da
lavanderia, reforma completa dos alojamentos e a ampliação de novas salas de aulas.
CONCLUSÕES
O projeto de extensão complementou os componentes curriculares ofertados aos
estudantes da Escola Família Agrícola de Sobradinho (EFAS), principalmente a disciplina de
construções e instalações rurais. Assim, identificou-se, no decorrer no projeto, que os conteúdos
apresentados eram muito importantes para a formação dos estudantes do Curso de Educação
Profissional Técnica de Nível Médio em Agropecuária Integrado ao Ensino Médio, sendo
inovador no âmbito da intervenção sociotécnica e na aplicação das metodologias participativas
para formação de adolescentes e jovens do campo.
Os estudantes apresentaram afetividade para com o espaço escolar, que neste caso
também é espaço de moradia, uma vez que os/as estudantes ficam alojados na escola, em regime
de internato através da Pedagogia da Alternância. Isto facilitou o desenvolvimento das
186
COSTA, T. P. et al.
REFERÊNCIAS
BASTOS, M. Análise SWOT (Matriz): Conceito e Aplicação. Portal Administração. São
Paulo, 2014. Disponível em: https://www.portal-administracao.com/2014/01/ analise-swot-
conceito-e-aplicacao.html. Acesso em: 01 mar. 2020.
187
COSTA, T. P. et al.
188
GUEDES, D. D. et al.
RESUMO
A Organização Mundial da Saúde considera as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT)
a principal causa de mortes e incapacidades prematuras do mundo. Os fatores de risco como
tabagismo, alcoolismo e sedentarismo, são frequentemente associados a patogênese das
doenças, assim, este trabalho objetiva-se a correlacionar a ocorrência de doenças crônicas com
estilo de vida autorreferidos em uma microárea de um município do oeste mato-grossense.
Trata-se de um recorte do Projeto de Extensão PET Saúde GraduaSus, ocorrido no município
de Cáceres/MT, entre 2016-2018. A coleta de dados ocorreu simultaneamente ao mapeamento
de uma microárea. Os dados coletados foram categorizados e realizada análise estatística
descritiva e análise estatística inferencial. Constatou-se a prevalência de mulheres e faixa etária
adulta. 39,3% se consideraram com excesso de peso, 60,7% referiram ter o peso adequado ou
estarem abaixo do peso, ou seja, sem excesso de peso. Quanto ao Tabagismo, 88,7% negaram
o hábito, e 11,3% afirmaram o consumo do Tabaco. 80,2% dos indivíduos referiram não
consumir álcool, enquanto 19,8%, referiram o seu uso. Os achados nesse estudo, possibilitaram
correlacionar as DCNT com fatores de risco ligados ao estilo de vida nesta localidade.
ABSTRACT
The World Health Organization considers non-transmissible chronic diseases (NTCD) to be the
leading cause of premature death and disability in the world. Risk factors, such as smoking,
alcoholism and physical inactivity, are often associated with the pathogenesis of diseases, thus,
this work aims to correlate the occurrence of chronic diseases with self-reported lifestyles in a
micro area of a municipality in western Mato Grosso. This is an excerpt from the PET Saúde
GraduaSus Extension Project, which took place in the municipality of Cáceres/MT, between
2016-2018. Data collection occurred simultaneously with the mapping of a micro area. The
collected data were categorized, and descriptive statistical analysis and inferential statistical
analysis were performed. We found a prevalence of women and adult age group. 39.3%
considered themselves overweight, 60.7% reported having adequate weight or being
underweight, that is, not overweight. As for smoking, 88.7% denied the habit, and 11.3% stated
tobacco consumption. 80.2% of individuals reported not consuming alcohol, while 19.8%
reported using it. The findings in this study made it possible to correlate NTCD with risk factors
linked to lifestyle in this location.
RESUMEN
La Organización Mundial de la Salud considera que las Enfermedades Crónicas No
Transmisibles (ENT) son la principal causa de muerte prematura y discapacidad en el mundo.
Los factores de riesgo, como el tabaquismo, el alcoholismo y la inactividad física, suelen estar
asociados con la patogenia de las enfermedades, por lo que este trabajo tiene como objetivo
correlacionar la ocurrencia de enfermedades crónicas con estilos de vida autoinformados en
una microárea de un municipio del occidente de Mato Grosso. Este es un extracto del Proyecto
de Ampliación PET Saúde GraduaSus, que tuvo lugar en el municipio de Cáceres/MT, entre
2016-2018. La recolección de datos ocurrió simultáneamente con el mapeo de una microárea.
Los datos recolectados fueron categorizados y se realizó análisis estadístico descriptivo y
análisis estadístico inferencial. Encontramos una prevalencia de mujeres y grupo de edad
adulta. El 39,3% se consideró con sobrepeso, el 60,7% informó tener el peso adecuado o estar
bajo de peso, es decir, no tener sobrepeso. En cuanto al tabaquismo 88,7% niega el hábito. El
80,2% de las personas informó no consumir alcohol (19,8% informó que lo consumía). Los
hallazgos de este estudio permitieron correlacionar las ENT con los factores de riesgo
relacionados con el estilo de vida en este lugar.
INTRODUÇÃO
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) são aquelas que tendem a ter longa
duração e estão relacionadas a causas genéticas, fisiológicas, comportamentais e ambientais
(ONU, 2018). De modo que as Doenças Cardiovasculares, o Câncer, as Doenças respiratórias,
e o Diabetes Mellitus são as principais DCNT, bem como as causas mais prevalentes de
190
GUEDES, D. D. et al.
morbimortalidade no mundo e no Brasil. Estima-se que em 2019, 54,7% dos óbitos registrados
no Brasil foram causados por DCNT e 11,5% por agravo (BRASIL, 2013, 2021; WHO, 2014).
A patogênese das DCNT está diretamente relacionada aos fatores de risco que podem ser
categorizados em três agrupamentos conforme Botrel et al. (2000), sendo eles: Fatores não
modificáveis (sexo, raça/cor, histórico familiar, outros), Fatores potencialmente modificáveis
(tabagismo, Hipertensão, Diabetes); e Fatores com menor implicação prognóstica (como
excesso de peso e sedentarismo).
Para a Organização Mundial de Saúde (WHO, 2010), as DCNT são causadas em grande
parte, por quatro fatores de risco comportamentais como, o tabagismo, dieta não saudável,
atividade física insuficiente e o uso nocivo de álcool. Para Campos et al. (2013), a obesidade,
a hipertensão e o alcoolismo estão fortemente associados a uma pior saúde física, e quando
associados ao tabagismo, representam uma pior saúde física e mental.
Estudos sobre as DCNT e sua associação aos fatores de riscos têm possibilitado a
delimitação do perfil epidemiológico dos pacientes com algum problema crônico. Assim que
conhecido, o perfil epidemiológico desses pacientes torna possível a melhor tomada de decisão
e adequações das práticas de saúde (CARVALHO et al., 1994).
Diante das evidências da relação dos fatores modificáveis e as DCNT, o objetivo deste
trabalho é correlacionar a ocorrência de doenças crônicas com estilo de vida autorreferidos em
uma microárea de um município do oeste mato-grossense.
MÉTODOS
O presente trabalho é um recorte do Projeto de Extensão PET Saúde GraduaSus,
ocorrido no município de Cáceres/MT, entre os anos de 2016 e 2018, no qual participaram os
cursos de Medicina, Enfermagem e Educação Física da Universidade do Estado de Mato Grosso
(Unemat). Este projeto de extensão teve como interface um projeto de pesquisa, que foi
submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unemat nº 2.656.455.
Dentre as imagem-objeto propostas pelo projeto PET estava a territorialização de
microáreas pertencentes às Estratégias de Saúde da Família participantes. O referido estudo
realizou o mapeamento da microárea 43 pertencente à ESF Vitória Régia. Esta microárea situa-
se no bairro Vitória Régia, e estava sem cobertura por Agente Comunitário de Saúde há mais
de 10 anos, portanto desconhecia-se a situação de saúde e de moradia dos indivíduos da área
adscrita.
191
GUEDES, D. D. et al.
Critérios de inclusão
Das informações coletadas foram selecionadas variáveis de interesse para o presente
estudo que pertenciam aos cadastros individuais. As variáveis selecionadas foram: de
Identificação do usuário como sexo, data de nascimento; e do Questionário autorreferido de
condições/situações de saúde os itens “Sobre seu peso, você se considera? Abaixo do peso,
Peso Adequado, Acima do Peso”; Está fumante? Sim ou Não; Está dependente ou abusa de
Álcool? Sim ou Não; Tem Hipertensão Arterial? Sim ou Não; Tem Diabetes? Sim ou Não.
Critérios de exclusão
Dos 522 indivíduos cadastrados na territorialização foram excluídos neste trabalho os
indivíduos com idade inferior a 18 anos; gestantes, indivíduos com resposta em branco nas
variáveis de interesse, restando 318 indivíduos que compuseram a amostra final (Fluxograma
1).
192
GUEDES, D. D. et al.
Reconstrução de Variáveis
Para definição das faixas etárias Adulto e Idoso foi utilizado o dado Data de Nascimento,
e posteriormente calculado a idade de cada indivíduo. E foi considerado “Idoso” todos com
idade igual ou maior que 60 anos, e Adulto os com idade entre 18 e 59 anos. Para a análise do
dado “Sobre seu peso, você se considera? Abaixo do peso, Peso Adequado, Acima do Peso”,
foi criada nova variável chamada “Excesso de Peso”, sendo considerado para esse fim as
respostas “Acima do Peso”. As respostas Abaixo do peso e Peso Adequado foram consideradas
como “Não possuem excesso de peso”.
Análises estatísticas
Foi realizada análise estatística descritiva, por meio de medidas de frequências, e
intervalos de confiança. E análise estatística inferencial pelo teste de Qui-quadrado que foi
utilizado na análise bivariada de variáveis categóricas. Em todos os testes, foi fixado em 0,05
ou 5% (α = 5%), o índice de rejeição da hipótese de nulidade. Todas as análises foram realizadas
no Programa Epi InfoTM 7.
193
GUEDES, D. D. et al.
RESULTADOS
Neste estudo constatamos a presença de mais mulheres (59,4%) residindo na microárea
cadastrada, e com relação à faixa etária 88,7% são adultos, e 11,3% são idosos (Tabela 1).
Com relação aos fatores de risco para doenças crônicas analisadas neste estudo, 39,3%
(125) indivíduos se consideraram com excesso de peso, e 60,7% (193) referiram ter o peso
adequado ou estarem abaixo do peso. Quanto ao Tabagismo, 88,7% (282) negaram o hábito, e
11,3% (36) afirmaram o consumo do tabaco em seu cotidiano. No que se refere ao etilismo,
80,2% (255) dos indivíduos referiram não consumir álcool, enquanto 19,8% (63), referiram o
seu uso (Tabela 1).
Sexo
Faixa etária
Excesso de Peso
Consumo de Álcool
Tabagista
194
GUEDES, D. D. et al.
Diabetes
Hipertensão Arterial
Observou-se neste trabalho a prevalência de excesso de peso em 58,6% das pessoas que
se referem portadoras de diabetes. Nas pessoas que referiram ter hipertensão arterial o excesso
de peso foi de 50,7%. Nos dois desfechos, identificou-se significância estatística para este fator
de risco (Tabela 2).
No fator de risco tabagismo encontramos associação tanto para o diabetes como para a
hipertensão arterial com prevalência de 27,6% e 18,7% respectivamente.
O consumo de álcool apresentou prevalências aproximadas para os dois desfechos (DM:
24,11% e HAS: 22,7%), contudo sem significância estatística (Tabela 2).
OR OR OR
Prevalência Prevalência Prevalência
(IC) (IC) (IC)
respectivamente), como para os com HAS (61,1% x 23,8% respectivamente), sendo o excesso
de peso associado à ocorrência de DM e HAS em adultos na população estudada. Para o fator
de risco tabagismo tivemos uma inversão das prevalências se comparado ao fator de risco
anteriormente citado, sendo, mais frequente nos idosos diabéticos do que nos adultos (36,4%
versus 22,2% respectivamente). Analisando a hipertensão arterial, as prevalências se
comportaram de forma semelhante ao fator de risco excesso de peso, com aumento da
prevalência nos adultos e redução nos idosos (20,4% x 14,3% respectivamente). O consumo de
bebida alcoólica também teve suas prevalências modificadas na estratificação por faixa etária.
Nos diabéticos a prevalência foi maior nos idosos (36,4% x 16,7%), e nos hipertensos foi
superior nos adultos (25,9% x 14,3%). A significância estatística foi observada nas variáveis
excesso de peso em adultos tanto diabéticos como hipertensos, na exposição tabagismo em
adultos hipertensos, e no consumo de álcool em idosos diabéticos (Tabela 3).
196
GUEDES, D. D. et al.
DISCUSSÃO
Os resultados obtidos nesta pesquisa demonstraram a prevalência de adultos com idade
inferior aos 60 anos e do sexo feminino entre os residentes entrevistados na microárea estudada.
Os dados de 2008 da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD) apontaram que os
problemas crônicos de saúde são maiores nos grupos com melhores condições
socioeconômicas, possivelmente por estes terem melhores condições de vida e serem mais
velhos (ALMEIDA et al., 2002). Destacando o fator idade, estudos trazem variações da
prevalência de DCNT entre as faixas etárias de 45 anos e 60 anos ou mais (ALMEIDA et al.,
2002; BARROS et al., 2006; IBGE, 2008). Assemelhando-se a essa pesquisa, na qual, 11,3%
da amostra são idosos e 88,7% adultos (entre 18 e menos de 60 anos), se enquadrando na faixa
etária de mortalidade prematura (30 a 69 anos) por DCNT apontada pelo Conselho Nacional de
Secretários de Saúde - CONASS (BRASIL, 2015).
Quanto à variável sexo, a literatura demonstra a prevalência de DCNT entre as mulheres,
devido à maior autopercepção de saúde destas em relação aos homens (IBGE, 2008).
O excesso de peso foi apontado como fator de risco predominante entre os indivíduos
portadores DCNT em destaque nesse estudo.
A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2000), define sobrepeso e obesidade como o
acúmulo anormal ou excessivo de gordura, que apresenta riscos à saúde. Estimativas apontam
que mais de 4 milhões de pessoas no mundo morrem a cada ano como resultado dessa patologia.
No Brasil, a frequência do excesso de peso correspondeu a 51% na população adulta,
sendo que do total 54,5% predominaram sobre o sexo masculino e 48,1% no feminino
(BRASIL, 2012). No que diz respeito à idade, acredita-se que a obesidade esteja associada ao
aumento da idade. Mariath et al. (2007) verificaram que indivíduos entre 21 e 39 anos
apresentaram 2,34 vezes mais chances de estar com sobrepeso quando comparados aos mais
jovens. Enquanto indivíduos acima de 40 anos apresentavam 5,49 mais chances de sobrepeso
quando comparado aos jovens menores de 20 anos.
Outros estudos brasileiros têm demonstrado prevalências elevadas de
sobrepeso/obesidade em indivíduos com algum tipo de DCNT, como os produzidos por Gerab
et al. (2012), que identificaram sobrepeso/obesidade em 41,9% dos pacientes com DM e/ou
HAS, e por Nóbrega et al. (2019), no qual, 57% dos pacientes com sobrepeso/obesidade eram
diabéticos. Resultados como os desses estudos, auxiliam no apontamento do excesso de peso
197
GUEDES, D. D. et al.
como um dos fatores de risco para o desenvolvimento de DCNTs, assim como foi verificado
neste estudo.
No presente estudo, verificou-se a prevalência do excesso de peso na população adulta
sobre a população idosa com diagnóstico tanto para diabetes quanto para hipertensão.
Provavelmente esses dados se devem à crescente taxa de diagnósticos de DCNT em jovens
adultos em associação com a instrução em saúde e tempo de escolaridade como apontado pelo
relatório do Vigitel de 2018 (BRASIL, 2019).
Em relação ao tabagismo, observou-se através da análise estatística, a sua associação
tanto ao diabetes quanto à hipertensão. O tabagismo no Brasil atinge cerca de 12,1% dos
indivíduos, sendo os homens seu maior consumidor (BRASIL, 2012). Um estudo realizado por
Rocha-Brischiliari et al. (2014), apontou que o risco para o desenvolvimento de DCNT é duas
vezes maior para fumantes. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer
(INCA, 2020), do total de óbitos anuais envolvendo o tabagismo, 34.999 correspondem a
doenças cardíacas, 31.120 DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), 23.762 por câncer
de pulmão, 10.812 por AVE (Acidente Vascular Encefálico).
O diabetes mellitus é uma doença global de incidência crescente. Segundo a
Organização Mundial da Saúde (WHO, 2016). Cerca de 422 milhões de pessoas em todo o
mundo possuem diabetes, e 1,6 milhões de mortes por ano são atribuídas a essa doença. Além
de sua associação às complicações como Infarto Agudo do Miocárdio, AVE, Insuficiência
Renal, Amputação de Membros, perda da acuidade visual, e danos a nervos, que potencializam
o risco de óbitos. No Brasil, o diagnóstico médico prévio foi de 7,4% da população adulta,
sendo prevalente no sexo masculino (BRASIL, 2012).
Neste estudo houve a predominância do tabagismo em idosos com diabetes, contudo,
embora não tenha apresentado significância estatística, consideramos essa provável associação
digna de relevância na saúde da população. No que se refere a associação entre o tabaco e a
Diabetes, Eliassom (2003), estimou que indivíduos fumantes possuem 50% a mais de risco para
o desenvolvimento de diabetes. E ainda afirmou que, para os pacientes diabéticos tipo 1 e 2, as
complicações micro e macrovasculares provocadas pelo tabaco aumentam o risco de nefropatia
e neuropatia diabética. Os dados apresentados pelo relatório Vigitel em 2018 revelaram que
9,3% dos brasileiros são fumantes, enquanto em 2006 esse percentual correspondia a 14,8%.
Atribui-se essa redução nos dados ao sucesso das práticas de educação em saúde adotadas no
198
GUEDES, D. D. et al.
Brasil nas últimas décadas na intenção de controlar o tabagismo entre os jovens (BRASIL,
2012, 2019).
O cigarro possui a nicotina como um de seus componentes, sendo que esta produz vários
efeitos graves no organismo, como no sistema cardiovascular, ao provocar: vasoconstrição
periférica, aumento da frequência cardíaca e elevação da pressão arterial (HOCAYEN;
MALFATTI, 2010). O que justificaria, a sua associação à Hipertensão Arterial Sistêmica
(HAS).
Estima-se que a HAS tenha sido a responsável por 9,4 milhões de mortes no mundo,
além de ser caracterizada como um dos principais fatores de risco para os problemas
cardiovasculares (WHO, 2014). Em estudo nacional, segundo relatório do VIGITEL (BRASIL,
2012) a frequência de diagnóstico médico prévio de Hipertensão correspondeu a 24,3% da
população adulta, sendo predominante no sexo feminino. O relatório também apontou que os
diagnósticos de HAS são mais frequentes com o aumento da idade tanto para o sexo feminino,
quanto masculino (ROCHA-BRISCHILIARI et al., 2014). A associação entre o tabagismo e a
hipertensão arterial também foi verificada na população adulta do presente estudo.
Casado, Vianna e Thuler (2009), reuniram e analisaram 12 estudos brasileiros
relacionados à DCNT e seus fatores de risco, nos quais, a prevalência de hipertensão arterial
variou de 5,3% a 30,0% entre as mulheres e entre os homens de 10,9% a 34,0%, atribuindo as
altas diferenças estatísticas às mudanças no valor de classificação da Pressão arterial ao longo
dos anos (1997-2004).
Quanto aos resultados relacionados ao consumo de bebida alcoólica estratificado por
idade, a população idosa e portadora de DM apresentaram-se associadas ao consumo de álcool.
Para a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2018), o consumo de álcool é um fator
de risco de maior impacto para a morbidade, mortalidade e incapacidades em todo o mundo.
Conforme o último relatório global Alcohol and Health de 2018, no ano de 2016 cerca de 3
milhões de mortes em todo o mundo foram atribuíveis ao consumo de álcool. Correlacionando
às DCNT, o mesmo relatório ainda relacionou 1,7 milhões de mortes por DCNT ao consumo
nocivo de álcool, sendo incluídos cerca de 1,2 milhões de mortes por doenças digestivas e
cardiovasculares (0,6 milhões para cada) e 0,4 milhões de mortes por câncer.
No Brasil, os homens são os consumidores predominantes do álcool, com frequência de
ingesta decrescente com o avanço da idade (BRASIL, 2019). Porém, alguns estudos realizados
na última década têm apontado o crescimento do consumo de bebidas alcoólicas entre os idosos.
199
GUEDES, D. D. et al.
CONCLUSÃO
As doenças crônicas não transmissíveis (hipertensão arterial, diabetes mellitus) foram
associadas ao excesso de peso e o tabagismo na microárea estudada. Quando estratificado por
faixa etária, nos adultos (menores de 60 anos de idade) o excesso de peso foi correlacionado
tanto aos diabéticos como aos portadores de hipertensão arterial. Neste mesmo grupo houve
uma associação da hipertensão arterial ao tabagismo.
O consumo de álcool apresentou associação aos portadores de diabetes e idosos. Diante
disso, sugere-se que novos estudos sejam realizados na mesma cidade, objetivando conhecer a
situação de saúde e fatores de risco relacionados ao estilo de vida representativos de todo
município, para assim formular políticas preventivas apropriadas à realidade local.
200
GUEDES, D. D. et al.
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CASADO, L.; VIANNA, L. M.; THULER, L. C. S. Fatores de risco para doenças crônicas
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201
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retornos-financeiros-e-de-saude. Acesso em: 3 ago. 2020.
202
GUEDES, D. D. et al.
https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/biblioteca/diretrizes-da-sociedade-brasileira-de-
diabetes-2019-2020/. Acesso em: 9 dez. 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION - WHO. Global status report on alcohol and health
2018. Geneva: World Health Organization, 2018.
203
SOUSA, L. C. C. et al.
RESUMO
A extensão rural, a assistência técnica, o crédito rural e principalmente as empresas que
fornecem serviços de ATER estão diretamente ligadas aos produtores e precisam cada vez mais
de fortalecimento para que levem as políticas públicas para esse público alvo. Este trabalho
teve como objetivo geral estudar a relação entre a assistência técnica e extensão rural,
desenvolvida pelo Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), e pequenos produtores rurais
do município de Belém do São Francisco – PE. Trata-se de estudo descritivo, realizado a partir
de dados quantitativos e qualitativos obtidos via observações de campo, aplicação de
questionários, entrevistas e visitas. Foram entrevistados 50 agricultores no município e foi
observado que 68% dos entrevistados não receberam nenhum tipo de assistência técnica, houve
também levantamentos sobre análise socioeconômica de alguns produtores da região.
ABSTRACT
Rural extension, technical assistance, rural credit and especially companies that provide ater
services are directly linked to producers and increasingly need strengthening to bring public
policies to this target audience. The general objective of this work was to study the relationship
between technical assistance and rural extension, developed by the Agronomic Institute of
Pernambuco (IPA), and small farmers in the municipality of Belém do São Francisco - PE. This
is a descriptive study, based on quantitative and qualitative data obtained through field
observations, application of questionnaires, interviews and visits. Fifty farmers were
interviewed in the municipality and it was observed that 68% of the interviewees did not receive
any type of technical assistance, there were also surveys on socio-economic analysis of some
producers in the region.
RESUMEN
La extensión rural, la asistencia técnica, el crédito rural y especialmente las empresas que
prestan servicios de ater están directamente vinculadas a los productores y cada vez necesitan
más ser fortalecidas para acercar las políticas públicas a este público objetivo. El objetivo
general de este trabajo fue estudiar la relación entre la asistencia técnica y la extensión rural,
desarrollada por el instituto agronómico de pernambuco (ipa), y los pequeños agricultores del
municipio de Belém do São Francisco - PE. Se trata de un estudio descriptivo, basado en datos
cuantitativos y cualitativos obtenidos a través de observaciones de campo, aplicación de
cuestionarios, entrevistas y visitas. Cincuenta agricultores fueron entrevistados en el municipio
y se observó que el 68% de los entrevistados no recibió ningún tipo de asistencia técnica,
también hubo encuestas sobre análisis socioeconómico de algunos productores de la región.
INTRODUÇÃO
205
SOUSA, L. C. C. et al.
Ao decorrer dos anos, medidas acabaram fazendo com que a extensão rural quase que
deixasse de existir, na extinção da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural
(EMATER), por exemplo, o governo federal atribuiu para os estados e municípios a
responsabilidade de execução das políticas de extensão e, logo depois disso, a estabilização do
agronegócio através dos sistemas agroindustriais fizeram com que os produtores tivessem bem
menos espaço na construção de uma agricultura que deveria ser inclusiva, quando se fala de
políticas assistenciais.
Nos anos 2000, as políticas públicas rurais começaram a ser adotadas para os produtores
a fim de ganhar espaço no mercado nacional e internacional, o Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), surge justamente com uma perspectiva de
estabilização da agricultura familiar e dos movimentos rurais trazendo a importância social
dessas organizações para a construção de uma identidade política.
O município de Belém do São Francisco é uma dessas áreas onde o possui uma das
estações experimentais do IPA, ela é localizada em uma das ilhas que abrangem a cidade. Esta
área é responsável pela produção de produtos agropecuário que por muito tempo foi o setor que
mais favoreceu a economia da região, vem atuando hoje diretamente com o crescimento e
desenvolvimento da horticultura e da fruticultura fortalecendo assim a produção e as práticas
sociais, que beneficiam diretamente a agricultura camponesa e fortalece as políticas públicas
voltadas para a mulher e o homem do campo.
206
SOUSA, L. C. C. et al.
Este trabalho teve como objetivo geral estabelecer a relação entre a assistência técnica
e extensão rural e o IPA, e como eles estão ajudando os pequenos produtores do município de
Belém do São Francisco – PE. Como objetivos específicos: Obter um registro socioeconômico
sobre os agricultores da cidade; entender como funciona as ações de assistência técnica;
Identificar como o IPA trabalha com ATER, para os produtores rurais do município.
DESENVOLVIMENTO
A extensão rural no Brasil
As empresas de pesquisa agropecuária e os agricultores rurais têm um dos principais
veículos de contribuição no processo de desenvolvimento rural, a Assistência Técnica e
Extensão Rural, que tem o papel de dialogar justamente com essas empresas e produtores
(LIMA et al., 2014). Segundo Peixoto (2008) podemos entender a extensão de várias maneiras,
uma delas é entendê-la como políticas públicas que são organizadas pelo governo e traçadas
para diversos empreendimentos, sejam eles do setor público ou privado.
207
SOUSA, L. C. C. et al.
A PNATER é uma política pública conquistada com muita luta envolvendo além dos
movimentos rurais, lideranças organizacionais e setores governamentais, esta é proposta de
forma democrática a fim de sanar as problemáticas sociais que afetam a agricultura diretamente
nos produtores rurais (LUSA, 2013).
Devido à grande pressão, tanto das organizações quanto dos sindicatos, as políticas de
extensão rural começaram a ganhar espaço e junto com essas propostas surgem também alguns
programas governamentais que começam a trazer os produtores rurais para atuarem como
sujeitos participativos e ativos na construção político-social evidenciada pelo PRONAF, onde
este programa tem a finalidade da disponibilização de crédito rural e apoio institucional aos
produtores (SCHNEIDER et al., 2004).
208
SOUSA, L. C. C. et al.
O município possui 20.729 pessoas segundo censo de 2019, a cidade possui 115 anos
de história, e muitas pessoas dizem que seu nome é originado do Rio São Francisco que corta
a cidade. Belém como é chamada se desenvolveu em terras que seriam do município de
Cabrobó (IBGE, [s.d.]). Uma das principais características do município são as presenças de
ilhas e a forte produção agropecuária, que por muito tempo moveu a economia da cidade, a
presença de balsas e canoas que ajudam principalmente os produtores da região no transporte
do produto colhido para a cidade grande e para as feiras locais onde geralmente é distribuído
(CODEVASF, 2019).
209
SOUSA, L. C. C. et al.
Uma das mais importantes estações experimentais do IPA está localizada em Belém de
São Francisco. Responsável pelo desenvolvimento de cebola, tomate, feijão e diversos grãos,
localizada a 486 km de distância da sede principal (IPA, [s.d.]). Em Belém do São Francisco, a
empresa possui cerca de 180 ha, área localizada em uma das dezenas de ilhas que cercam a
cidade, consequentemente banhada pelo Rio São Francisco. A estação agronômica não mede
esforços e com cerca de 25 funcionários, produz em aproximadamente 14 hectares de diversas
210
SOUSA, L. C. C. et al.
variedades que circulam o Nordeste inteiro e por diversos agricultores da zona rural de
Pernambuco (GALVÃO, 2018).
METODOLOGIA
Este trabalho foi realizado com agricultores rurais do município de Belém do São
Francisco – PE, localizado nas seguintes coordenadas geográficas: latitude: 8° 45′ 31″ e
longitude: 38° 57′ 45″. A cidade possui cerca de 1830 km² de extensão, sendo uma das maiores
cidades da região em território, possuindo cerca de 20.729 habitantes. A região é caracterizada
como Sertão, sua principal vegetação é a Caatinga que possui baixos índices pluviométricos,
plantas que se adaptam às condições adversas e altas temperaturas onde variam de 28ºC à 36ºC.
211
SOUSA, L. C. C. et al.
Para a realização das entrevistas foi pedida autorização de cada agricultor da região
quando foram explicados os fins que destinavam a esta pesquisa, englobando perguntas sobre
a identificação, residência, propriedade e sobre assistência técnica para cada produtora e
produtor rural.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Por muito tempo Belém do São Francisco foi conhecida como terra da cebola graças ao
seu desenvolvimento na área da horticultura e principalmente devido ao seu clima, quente e
seco que beneficia a produção de cebola na região e também graças ao Velho Chico (nome
dado ao Rio São Francisco, que dá o nome a cidade) que propiciando uma boa adaptação a
produtos desse tipo de cultivo. Possuindo cerca de 20 729 pessoas segundo Censo do IBGE, de
2019, Belém divide-se em zona rural, onde ocupa uma população de 7.942 pessoas e zona
urbana, onde o número de cidadãos corresponde a 12.787 pessoas (BELEM, 2019), todos os
produtos são de produção da agricultura familiar e, as mercadorias comercializadas vão desde
212
SOUSA, L. C. C. et al.
Para os 50 entrevistados foram feitas perguntas sobre sua naturalidade onde foi
observado (Figura 2): 61% dos agricultores responderam que nasceram em Belém do São
Francisco, 13% das pessoas responderam que nasceram em Mirandiba – PE, 6% dos entre
visitados responderam ser de Chorrochó- BA, 4% dos entrevistados afirmaram ser de Floresta
- PE , os demais produtores responderam que nasceram em municípios como: Recife – PE,
Afogados da Ingazeira – PE, Fortaleza – CE, Brejo Santo – CE, Santana do Ipanema – AL,
Cachoeira – BA e Abaré – BA todas essas cidades corresponderam apenas 2% das pessoas
entrevistadas.
Abaré - BA
13% Floresta - PE
61%
Fortaleza - CE
Brejo Santo - CE
Igazeira - PE
Cerca de 39% dos entrevistados não eram naturais do município, mas enxergaram na
região um potencial agrícola, justamente devido as terras terem a disponibilidade de acesso a
um quantitativo proveniente do Rio São Francisco e que esse foi um dos principais fatores para
recorrerem a terras na cidade, para produzir tanto para feiras quanto para o próprio consumo,
foi observado que todos os entrevistados moram na região. Segundo Zellhuber & Siqueira
(2007), mesmo com a necessidade de revitalização do Velho Chico diversos são seus potenciais
econômicos o que de certa forma beneficia os agricultores da região quando se fala de escolha
do local para começar uma plantação.
213
SOUSA, L. C. C. et al.
2%
20%
Cidade
Propriedade
Não responderam
78%
Por outro lado, é bastante questionada a questão educacional, na qual os alunos da rede
pública que moram no campo têm bastante dificuldade em chegar até a cidade e prejudicando
muitas vezes os estudos dos jovens e adultos. Nos 2% dos entrevistados que optaram por não
responder, foi observado um receio em relação à pesquisa. Isso se dá ao fato de campo e
universidade estarem distantes e seja enfatizado como problemática para quem realmente
estamos produzindo conhecimento.
Pereira & Castro (2015) afirmam que as questões educacionais são bastante observadas,
principalmente quando comparamos o meio urbano com o rural, e analisamos o tipo de ensino
que é passado para essas crianças, jovens e adolescentes que moram no meio rural.
214
SOUSA, L. C. C. et al.
6%
16%
Meeiro
30% Posseiro
Arrendado
Associados
42%
6%
Não respondeu
Os agricultores afirmaram que as terras que eles tinham suas produções é uma conquista
principalmente do período da história de Belém de São Francisco – PE quando aconteceu a
enchente, os recursos fornecidos para os agricultores naquela época foram disponibilizados para
muitos deles no século XXI, e foram fundamentais para a conquistas de terras na região,
fazendo com que o município obtivesse essa extensão que possui hoje. Para Pereira (2019) os
movimentos sociais têm grande interferência nessa conquista territorial, aproveitando assim as
áreas que não estão cumprindo o seu papel social, sendo principalmente uma bandeira de luta
de diversos movimentos.
215
SOUSA, L. C. C. et al.
10%
18%
12% Contratados
Familiar
Autônomo
Não Responderam
60%
A agricultura familiar sempre se destaca pela questão de produção e acesso mais fácil
principalmente em feiras, ainda podemos encontrar em feiras além de produtos deste tipo de
agricultura, produtos originados da agricultura orgânica e agroecológica, elas chegam a nosso
acesso justamente devido ao incentivo a agricultura familiar e as feiras do município beneficiam
216
SOUSA, L. C. C. et al.
os produtores de certa forma, entretanto é necessário que as cidades observem mais a fundo
quais as condições sociais que esses produtores se encontram.
Nas entrevistas ocorreram diversas perguntas sobre assistência técnica em geral e sobre
o IPA, na região de Belém do São Francisco – PE. Foi perguntado se eles receberam ou recebem
algum tipo de assistência técnica nas suas áreas e 68% responderam que nunca tiveram nenhum
tipo de assistência, enquanto que 32% dos entrevistados afirmaram que receberam assistência
técnica (Figura 6).
32%
sim
não
68%
O serviço de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) é garantido por lei aos
agricultores e é indispensável para o desenvolvimento rural (Nascimento, 2005). Mas com o
fim da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMBRATER) na década de 90,
provocou o declínio dos programas assistencialistas rurais (MARIA et al., 2015).
Os pequenos produtores rurais foram os primeiros a sentir o impacto social que foi o
encerramento da EMBRATER, com a diminuição de serviços assistencialistas e extensionistas,
a realização de um Brasil agrário desenvolvido acabou sendo um sonho governamental e a vida
da mulher e do homem do campo se tornou cada vez mais difícil enfrentando tanto problemas
no meio rural quanto na área social, onde o processo de marginalização da profissão rural e das
pautas sociais que muitos dos movimentos que apoiavam a causa rural acabaram sofrendo.
217
SOUSA, L. C. C. et al.
Foi perguntado para os agricultores que recebiam assistência quais ações de assistência
o IPA fornecia para eles. Aproximadamente 56% afirmaram que forneciam sementes, 6%
evidenciaram o fornecimento de mudas, 13% no manejo de pragas e na orientação do plantio,
enquanto 6% afirmaram receber ajuda na apicultura e agropecuária e o mesmo percentual
afirmou ter acompanhamento técnico (Figura 7).
6%
6% Sementes
Mudas
13%
Orientaões de Plantio
56%
Manejo de pragas
13%
Apicultura e Pecuaria
6%
Acompanhamento Tecnico
Por muito tempo a assistência técnica foi bastante forte em todo o Brasil. Muitos dos
agricultores afirmaram que depois veio o fim da EMBRATER, no governo Fernando Collor.
Peixoto (2009) afirma que o grave problema no Brasil foi justamente a privatização das ações
de extensão, o que ocasionou uma diminuição dos serviços prestados pelo governo e de certa
forma assola por muitos anos os agricultores rurais. E, segundo afirma Diesel et al. (2008), a
privatização foi apresentada como modelo a fim de ajudar o homem e mulher do campo e que
os serviços seriam maximizados para as demais regiões, onde ocorreu justamente o contrário e
as empresas que já tinham um desenvolvimento foram sucateadas trazendo ainda mais prejuízo
para os pequenos produtores.
Os serviços acabaram se tornando restritos e escassos para algumas empresas que ainda
tinham esse modelo assistencialista e com o passar dos anos os serviços acabaram se tornando
218
SOUSA, L. C. C. et al.
quase inexistentes, já que o governo federal não observava a necessidade de um incentivo para
esses produtores e para essas empresas. Além de recursos o quadro de funcionários diminuiu
drasticamente e os profissionais remanejados para área de pesquisa que fornecia cultivares e
renda para as empresas beneficiando as grandes produções das diversas regiões dos municípios
onde se inserem.
CONCLUSÃO
O Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) tem grande papel na pesquisa e na
obtenção de materiais que servem para utilização dos pequenos produtores da região o que se
observa quando os produtores dizem que são utilizadas sementes e propágulos fornecidos,
porém a empresa ainda deixa a desejar quando se fala em extensão rural, o que os agricultores
muitas vezes dizem ser inexistente na região.
REFERÊNCIAS
BARATA-SILVA, A. W. et al. Experiência com extensão rural agroecológica em
assentamento de reforma agrária. Interagir - pensando a extensão, n. 24., p. 99-107, 2017.
DOI: https://doi.org/10.12957/interag.2017.22260
DIESEL, V. et al. Privatização dos serviços de extensão rural: uma discussão (des)necessária?
Revista de Economia e Sociologia Rural, v. 46, n. 4, p. 1155–1188, 2018. DOI:
https://doi.org/10.1590/S0103-20032008000400010.
GALVÃO, E. Após 8 anos de estudos, IPA de Belém do São Francisco-PE cria o Tomate
Ferraz, que tem qualidades superiores aos do mercado atual. Blog do Didi Galvão, Belém do
São Francisco, 4 jul. 2018. Disponível em: https://www.didigalvao.com.br/apos-8-anos-de-
estudos-ipa-de-belem-do-sao-francisco-pe-cria-o-tomate-ferraz-que-tem-qualidades-
superiores-aos-do-mercado-atual/. Acesso em: 25 jun. 2020.
220
SOUSA, L. C. C. et al.
221
JANUÁRIO, M. et al.
RESUMO
O pensamento crítico no ensino formal proporciona uma formação de qualidade ao estudante,
potencializando a resolução de problemas. Assim, faz-se necessário conhecer as características
dos alunos, para que a instituição de ensino promova ações adequadas ao seu público-alvo.
Com esse propósito, o presente estudo procurou, por meio da aplicação de questionários a
estudantes de Bandeirantes/PR, averiguar o perfil e, também, o entendimento acerca do direito
às cotas sociorraciais. Os resultados apontam que a maioria dos estudantes de escolas públicas
desconhece o direito às cotas e alertamos para a necessidade da Universidade atuar de forma
mais eficaz na divulgação e promoção deste direito.
ABSTRACT
Critical thinking in formal education provides quality training to the student, enhancing
problem solving.Thus, it is necessary to know the characteristics of the students, so that the
educational institution can promote appropriate actions for its target audience. For this purpose,
the present study sought, through the application of questionnaires to students in
Bandeirantes/PR, to ascertain their profile and also their understanding of the right to socio-
racial quotas. The results show that most public school students are unaware of the right to
quotas and we call attention to the need for the University to act more effectively in
disseminating and promoting this right.
RESUMEN
El pensamiento crítico en la educación formal brinda una formación de calidad al estudiante,
potenciando la resolución de problemas. Por ello, es necesario conocer las características de los
estudiantes, para que la institución educativa pueda promover acciones adecuadas para su
público objetivo. Para ello, el presente estudio buscó, mediante la aplicación de cuestionarios a
los estudiantes de Bandeirantes / PR, conocer su perfil y también su comprensión del derecho
a las cuotas socio-raciales. Los resultados muestran que la mayoría de los estudiantes de las
escuelas públicas desconoce el derecho a cupos y llamamos la atención sobre la necesidad de
que la Universidad actúe de manera más efectiva en la difusión y promoción de este derecho.
INTRODUÇÃO
A educação alicerça o desenvolvimento de um país, sendo indispensável para uma nação
se tornar próspera e solidária (BANDEIRA, 2019). No entanto, foi apenas na Constituição
Federal de 1934 que a educação se tornou um direito social assegurado a todos (RANIERI,
2017).
A Constituição Federal brasileira, promulgada em 1988, garante, no seu Capítulo III,
que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família (BRASIL, 2018), pois
é esta quem incentiva o processo educativo ao matricular e fazer o acompanhamento escolar.
E, posteriormente, a Lei nº 9.394/1996 estabeleceu as Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB), assegurando a educação básica obrigatória, organizada em educação infantil, ensino
fundamental e ensino médio (BRASIL, 1996).
Quanto ao Ensino Médio, ao longo dos três anos de formação, deve proporcionar ao
estudante uma base de conhecimento científico que assegure a sua formação como cidadãos
críticos, informados e participativos. Gomes (2021) enfatiza que é no âmbito educacional que
valores e princípios, essenciais à sociedade, serão ensinados aos estudantes, preparando-os para
o convívio social. Além disso, espera-se que o estudante, a fim de ampliar seus horizontes
cognitivos e sociais, ambicione cursar uma universidade. Neste quesito, é patente o desajuste
observado quando nos referimos aos jovens, em especial jovens negros oriundos de escolas
públicas.
Nesse cenário, buscamos obter informações sociodemográficas e dados das percepções
sobre políticas de cotas nas universidades públicas, especialmente na Universidade Estadual do
Norte do Paraná (UENP), de alunos das escolas públicas e particulares do Ensino Médio na
223
JANUÁRIO, M. et al.
224
JANUÁRIO, M. et al.
Como destacam Manchope et al. (2018), a implantação de cotas não encerrou o debate
institucional sobre este tema, iniciado em 2016, apenas ratificou o compromisso e o
comprometimento da UENP com o desenvolvimento da região norte do Paraná. Assim, os
trabalhos acadêmicos que já estavam sendo desenvolvidos nesta área, no âmbito da UENP,
poderiam, a partir deste momento, ser sistematizados e estruturados em grupos de pesquisa
específicos com a temática. De outra maneira, a introdução das políticas afirmativas
possibilitou aos docentes desta Universidade uma nova linha de atuação acadêmica, propondo,
por exemplo, projetos de Extensão Universitária como o já referido e ao qual se alinha o
presente artigo.
225
JANUÁRIO, M. et al.
ideias estabelecidas há muito tempo, como a meritocracia. Além de que, como prossegue o
mesmo autor, deve-se dar continuidade ao esforço da desmistificação do discurso de que no
Brasil vivemos uma democracia racial2, na qual as relações raciais se dão de forma harmônica,
que todos possuem os mesmos direitos, oportunidades e são tratados igualmente
independentemente da cor da pele. Na prática, vê-se que este é um tipo de distorção reforçada
cotidianamente por aqueles que se recusam a admitir existência do racismo, bem como o
envolvimento na luta antirracista.
Carrer e Penna (2019), identificando semelhanças/diferenças entre alunos de escolas
públicas e particulares chegaram à conclusão de que a escola ainda propaga a ideologia
meritocrática, dissimulando as desigualdades e naturalizando as diferenças sociais. Daí que
ampliar a visão sobre o assunto é uma tarefa bastante complexa e que, indubitavelmente, passa,
fortemente, pelo universo escolar. No entanto, os pesquisadores constatam que muitos
docentes, a pretexto de evitar conflitos, fogem de discutir sobre a questão racial com seus
alunos. Soma-se a isso, a já constatada falta de preparo dos professores para lidar com tais
questões.
Embora fuja ao escopo deste trabalho tratar especificamente de fatores relacionados à
figura do professor, seria ingênuo não aludirmos ao fato de que o notável despreparo no trato
de assuntos dessa ordem tem, ao longo da história, privilegiado certos grupos sociais e agido
no sentido de manter o status quo, contribuindo, sobremaneira, para a legitimação desses grupos
(dominantes), que acabam por estabelecer suas visões de mundo, criando e recriando
significados que lhes sejam favoráveis. Fato esse que se clarifica quando observamos mais de
perto o tratamento comumente dispensado às questões étnico-raciais pelo professor e, pior, o
modo como isso se reflete na (falta) de consciência de seus alunos, em especial, os negros que,
por conseguinte, não raras vezes, constroem uma visão acrítica e, até mesmo, deturpada acerca
de sua ancestralidade e de seus direitos como cidadãos.
Sem dúvida, a superação do racismo em seus diversos tipos de materialização na vida
da população negra não se restringe à consciência individual do professor, mas, no espaço
escolar passa por ela, corroborando e fortalecendo-a no campo das lutas sociais.
2O surgimento deste mito se deve ao sociólogo Gilberto Freyre (2006), que, em seu clássico livro Casa
Grande e Senzala, de 1933, inovou as análises sociais ao interpretar as relações sociais sem a presença
do racismo.
226
JANUÁRIO, M. et al.
Por certo, as desigualdades estão presentes nos diversos setores da sociedade brasileira.
E, mesmo que a população negra tenha, em número, ultrapassado nos últimos anos a população
branca, é possível encontrar, em todas as esferas de prestígio, dentre as quais a educação em
nível superior, uma representatividade de negros inferior à porcentagem populacional.
Paradoxo. Mesmo constituindo numericamente a maioria, a população negra continua a ser
designada como “minoria”, forma comumente utilizada para se referir aos grupos
marginalizados e, mais do que isso, continua a ser alvo de racismo, nos diversos campos de
atuação humana.
Um dos elementos fundacionais da temática minoritária é a ideia da subjugação, que
significa a total ou parcial exclusão de um determinado grupo da participação ativa nas relações
de poder (RAMACCIOTTI; CALGARO, 2021). Segundo os mesmos autores, os grupos
minoritários são excluídos do direito à cidadania plena, tornando visível a insuficiência do
critério numérico para os termos maioria/minoria.
Constata-se, portanto, que os grupos dominantes de nosso país, concomitantemente,
permanecem pregando a existência de uma democracia racial, que mascara e silencia os
discursos contrários; e alicerçados em argumentos e teses pretensamente científicos, sutilmente
impulsionam e legitimavam políticas eugenistas e de higienização racial. A esse respeito não é
demais lembrar que, no que se refere ao branqueamento do povo brasileiro, observa-se que foi
um processo inventado e mantido pela elite branca brasileira, embora apontado por essa mesma
elite como um problema do negro brasileiro (BENTO, 2020, p. 1).
Martins e Ribeiro (2017), pesquisando a visão de alunos do Ensino Médio Integrado ao
Instituto Federal Fluminense, afirmam que a reprodução do mito da democracia racial é um
fator decisivo para a compreensão da naturalização do racismo e da consequente resistência à
aceitação da política de cotas raciais no Brasil.
Embora o acesso às ações afirmativas tenha avançado nos últimos anos, ainda há uma
resistência orgânica na sociedade brasileira contra as cotas nas universidades públicas. O
conceito da meritocracia ainda é o limite a ser ultrapassado, especialmente entre alunos do
ensino médio. Muitos acreditam, pautados na concepção de que vivemos a tal democracia
racial, que as cotas são injustas, pois, segundo eles, se “somos todos iguais’’ e “temos os
mesmos direitos e oportunidades’’, não haveria razões para existir tal “benefício’’. Frases deste
tipo materializam a ignorância e distorção que circundam o conhecimento sobre a política de
cotas raciais para grupos historicamente marginalizados.
227
JANUÁRIO, M. et al.
METODOLOGIA
Nossa coleta de dados foi realizada na cidade de Bandeirantes/PR. O município de
Bandeirantes (Figura 1) situa-se na região denominada Território Integração Norte Pioneiro
(TINP) do Paraná, que é constituído por 29 municípios, e está situado na Microrregião Norte
Velho Paranaense entre o segundo e terceiro planaltos. Este território reúne 306.502 habitantes
(3% da população estadual), abrangendo uma área aproximada de 10.500 km2, correspondendo
a 5% do território estadual. A área territorial de Bandeirantes corresponde a 446 km2, com uma
população de 32.184 habitantes, com um grau de urbanização de 88%, sendo a maioria (52%)
composta por mulheres. A divisão étnico-racial corresponde a 63% de brancos, 36% de negros
(pretos e pardos) e 1% de amarelos (IPARDES, 2019).
228
JANUÁRIO, M. et al.
Fonte: http://www.portalpme.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=72
(adaptado).
229
JANUÁRIO, M. et al.
educacional. O trabalho pretendia alcançar todos os alunos. Apenas um colégio particular não
aceitou participar, pois, segundo a informação obtida junto ao estabelecimento de ensino, com
este trabalho, a instituição excederia o limite de projetos com os seus alunos. Com a não adesão
desta escola, o universo a ser pesquisado foi reduzido para cerca de 900 alunos.
Em nosso primeiro contato, alcançamos a colaboração desejada; as secretarias dos
colégios forneceram cada qual o total de alunos matriculados no Ensino Médio, divididos por
turma. Em uma segunda etapa, os questionários, separados em quantidades compatíveis aos de
números de alunos, foram disponibilizados para os professores, que estavam nas suas salas de
aula, e estes distribuíram para os alunos e, logo em seguida, recolheram em envelope específico.
A pesquisa, nas escolas mencionadas, ocorreu entre os dias 6 e 7 de novembro de 2018. O
número total da pesquisa atingiu 548 alunos. Posteriormente, as respostas foram sistematizadas
em forma de quadros e gráficos, a fim de tornar a etapa seguinte, a análise interpretativa, mais
compreensível.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foi apresentado um questionário semiestruturado, juntamente ao Termo de
Consentimento, aos alunos do Ensino Médio de Bandeirantes/PR, cuja validação do
questionário foi realizada a partir de um teste piloto junto a estudantes voluntários da
comunidade acadêmica da UENP. As incongruências de entendimento, verificadas neste
ensaio, foram eliminadas para o evento real. Foram aplicados 548 questionários em sete escolas
de Bandeirantes/PR, entre os alunos das três séries do Ensino Médio público e particular. Do
total de entrevistados, 56% correspondem ao sexo feminino, 49% se declararam brancos, 46%
pertencentes à raça negra (pretos e pardos) e 5% são amarelos (Quadro 1).
230
JANUÁRIO, M. et al.
Quadro 1. Dados de gênero e raça dos alunos pesquisados em escolas públicas e particulares
em Bandeirantes/PR, entre os dias 06 e 07 de novembro de 2018.
DECLARAÇÃO DE
GÊNERO
COR/RAÇA
NEGRA AMA
QUESTIONÁR MASCULI- (PRET -
NOME DA FEMINI BRANCA
IOS NO O+PAR REL
ESCOLA -NO (%) (%)
APLICADOS (%) -DO) A
(%) (%)
CYRÍACO RUSSO 171 37 63 43 55 2
P
MAILON
Ú
MEDEIROS 154 44 56 46 51 4
B
JUVENAL
LI
MESQUITA 52 46 54 21 74 6
C
HUMBERTO
A 16 69 31 31 56 6
TEIXEIRA
P ECEL 97 50 50 74 15 10
A SANTA ISABEL 46 44 56 72 19 9
R
TI
C
ESCOLA
U 12 42 58 42 58 0
BANDEIRANTES
L
A
R
44 56
TOTAL 548 49 46 5
Conforme pode ser visto no Gráfico 1, a maioria dos pesquisados (84%) está
compreendida na faixa etária de 15 a 17 anos.
231
JANUÁRIO, M. et al.
Os dados revelam uma pequena diferença entre alunos brancos e negros no universo
pesquisado. No entanto, ao separar em tipos de escola, vê-se claramente maior presença de
negros nas escolas públicas, e de brancos nas escolas particulares. Comparativamente, nas
escolas públicas, o número de negros é 2,8 vezes maior (divisão entre 56% e 20%) do que o
232
JANUÁRIO, M. et al.
número de negros nas escolas particulares (Gráfico 1). Ou seja, nas escolas públicas há 180%
mais negros do que nas particulares. A situação se inverte quando são comparados os grupos
de brancos nos dois tipos de escolas pesquisadas: nas escolas particulares o número de brancos
é aproximadamente 1,8 vez maior (divisão entre 71% e 40%) do que o número de brancos nas
escolas públicas.
Gráfico 2. Comparativo entre alunos que se declaram brancos, negros e amarelos em escolas
públicas e particulares em Bandeirantes/PR.
Os números apresentados, quando não analisados pela ótica dos estudos das relações
étnico-raciais, podem sugerir uma normalidade na ordem dos estados das coisas. A presença
maciça de jovens negros em escolas públicas, bem como a sua quase ausência em escolas
particulares, traduzem a força de um racismo, que, silenciosamente, atravessa a sociedade
brasileira – e, por sua extensão, a estrutura educacional de um município do interior do Paraná.
Nesta perspectiva, os números balizados merecem atenção porque seus resultados atentam para
necessidade de uma intervenção imediata na realidade encontrada, por meio de mecanismos
(políticas públicas e ações de extensão) já instituídos por uma Universidade, que, importa dizer,
possui campus universitário instalado na cidade de Bandeirantes.
Os Gráficos 3a e 3b expõem a escolaridade referente aos pais e mães dos alunos
pesquisados em escolas públicas e particulares, respectivamente. Fica evidente que a maioria
dos pais, que têm filhos nas escolas públicas, cursou até o Ensino Médio e uma pequena
porcentagem se graduou ou se especializou. No entanto, esse quadro descrito para a escola
pública se inverte quando se analisa os dados para os pais de alunos nas escolas particulares: a
233
JANUÁRIO, M. et al.
maioria tem Ensino Superior e Pós-Graduação. Além disso, nota-se que as mães que fizeram
Pós-Graduação são em número bem superior aos pais (40% contra 24%).
Gráfico 3a. Escolaridade dos pais e das mães dos alunos pesquisados nas escolas públicas em
Bandeirantes/PR.
Gráfico 3b. Escolaridade dos pais e das mães dos alunos pesquisados nas escolas particulares
em Bandeirantes/PR.
234
JANUÁRIO, M. et al.
implementadas políticas de acolhimento aos imigrantes europeus, com vistas a uma alardeada
“construção” de uma nação republicana, para a população negra pouco ou quase nada fora feito
(MUNANGA, 2012). Ignorados e, portanto, excluídos de uma política de reinserção social que
lhes propiciasse condições dignas de trabalho e, também, acesso à educação formal, a referida
população convive, ainda hoje, conforme os dados apresentados, com baixa escolarização, o
que constitui, deveras, uma sequela da escravidão.
A dificuldade de acesso à educação de qualidade e, por conseguinte, aos melhores
postos de trabalho, refletem sobejamente na renda da população negra - outro fator observado
quando se analisou a renda mensal do grupo familiar dos entrevistados. Conforme pode ser
verificado no Gráfico 4, aproximadamente 35% dos alunos de escolas públicas têm uma renda
mensal de até R$ 1 mil, mas, para as particulares, esse percentual chega a 2%. A proporção ou
quantidade de famílias cai progressivamente conforme sobe a renda, abrangendo apenas 7% na
faixa mais alta. No entanto, nas escolas particulares, o índice nesta faixa é de aproximadamente
23%.
Gráfico 4. Renda mensal do grupo familiar dos alunos pesquisados nas escolas de
Bandeirantes/PR.
Dos alunos entrevistados das escolas públicas, em cada grupo de 10, três trabalham. Nas
particulares, este número é de apenas um aluno que trabalha entre 10. Estes dados podem
indicar um conteúdo social que merece atenção: os alunos das escolas públicas, cuja renda
235
JANUÁRIO, M. et al.
familiar é menor do que àquela nas particulares (Gráfico 4), necessitam contribuir com os
proventos de suas famílias.
Sobre as políticas de ações afirmativas, que são mecanismos criados para atenuar as
desigualdades, os alunos foram indagados se eram contra ou a favor da reserva de vagas (cotas)
nas universidades públicas. Pode-se notar a opinião de todos os entrevistados (Gráfico 5a) e
diferenciando-os nas particulares e nas escolas públicas (Gráfico 5b). O Gráfico 5a destaca que
metade de todo o universo é a favor da política de cotas implantada nas instituições públicas;
uma parte significativa desconhece tal ação afirmativa e três alunos entre 10 são contra as cotas.
Quando os dados são analisados, discriminando o conjunto de pesquisados (Gráfico 5b),
nota-se, surpreendentemente, que há mais defensores das cotas nas escolas particulares (62,6%)
do que nas públicas (45,3%); muitos (22,5%) das escolas públicas não sabem que existem as
cotas. Mas o fato a ser mais bem observado é a alta porcentagem de alunos contrários, pois são
aqueles potencialmente beneficiários desta política afirmativa. No tocante à negação do direito
às cotas, embora não tenhamos nos detido sobre fatores de ordem psicológica, poderíamos
atrelá-la a fatores dessa ordem, ou seja, o possível contemplado com as cotas se sentiria
diminuído, humilhado, interpretando de maneira equivocada a política de ações afirmativas na
universidade. Assim, o aluno cotista pode carregar consigo a ideia de diferenciado ou inferior,
em relação aos alunos que ingressaram por ampla concorrência (COHEN; EXNER;
GANDOLFI, 2018). Os mesmos autores afirmam que o cotista negro sofre com a falta de
legitimidade no ambiente acadêmico e também com a questão do pertencimento e adequação a
um lugar que nunca foi seu, e sim dos brancos. Dentre os efeitos da política de cotas, destaca-
se a estigmatização dos estudantes cotistas, que ocorre quando cotistas e não cotistas passam a
dividir o mesmo ambiente (COHEN; EXNER; GANDOLFI, 2018). Ou seja, o estigma consiste
na não aceitação e combate da diferença, expressa em elementos que destoam do que é
socialmente estabelecido como normal (SOUZA; BORGES, 2020). Para os negros as cotas
poderiam serem entendidas como um assistencialismo, mas esta modalidade mais empregada
das políticas de ações afirmativas se constituem um direito fundamental dos negros, que vem
democratizando o acesso ao ensino superior ao possibilitar a diversificação do perfil racial e
social dos alunos deste nível de ensino. promovendo uma sociedade menos desigual, mas
plenamente democrática e equânime (CRUZ; HERNECK, 2021)
Fazendo uma filtragem somente para alunos que, na pesquisa, se declararam pretos ou
pardos, das escolas públicas somam-se 393 pesquisados. Destes, que são os favorecidos pelas
236
JANUÁRIO, M. et al.
cotas, quando questionados sobre a inscrição no vestibular pela política de cotas, 44% se
valeriam deste direito contra aproximadamente 55% que não o utilizariam.
237
JANUÁRIO, M. et al.
particulares sabe que esta política existe na UENP (gráfico 7). Tal desconhecimento dos
potenciais beneficiários das regras de acesso à Universidade deve ser motivo de muita
preocupação especialmente por parte da UENP. Nesse aspecto, cabe retomar o que dissemos
sobre a ambição de cursar uma Universidade. A vontade de cursar o ensino superior deve estar
aliada ao conhecimento das normas de ingresso e, portanto, caberia à universidade se utilizar
de todos os meios possíveis para a ampla divulgação dos direitos de acesso.
238
JANUÁRIO, M. et al.
Há que se pontuar que é a partir do quadro racista em que o Brasil se encontra que as
cotas raciais emergem como mecanismo de diversificação dos espaços sociais, a fim de torná-
los mais plurais e democráticos. Elas resultam do entendimento de que, para se atingir uma
sociedade mais equânime, é preciso investir em políticas focais (ou particularistas), que
elaborem medidas específicas voltadas aos grupos em desvantagem e marginalizados, tendo em
vista a sua plena inserção em sociedade, como forma de reduzir as desigualdades historicamente
construídas e reforçadas (SILVÉRIO, 2007). E isso é urgente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
239
JANUÁRIO, M. et al.
240
JANUÁRIO, M. et al.
REFERÊNCIAS
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2, n. 29, p. 416-421, 2019. Disponível em:
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FONSECA, D. J. Políticas públicas e ações afirmativas. São Paulo: Selo Negro, 2009.
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Fundação Cultural, Palmares, 2007.
243
TREMÉA, D. M. et al.
RESUMO
Este trabalho objetivou analisar as percepções dos estudantes, do curso de fisioterapia, sobre a
territorialização no processo de formação em saúde. Trata-se de um estudo de caráter
qualitativo e de natureza descritiva, realizado durante o estágio supervisionado de fisioterapia
na atenção básica que aconteceu em Unidades Básicas de saúde no município de Chapecó-SC.
O estágio foi mediado pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó. A coleta de dados
foi realizada por meio de um questionário com os estudantes do estágio, nos meses de setembro
e outubro de 2021. O questionário foi composto por questões sobre o reconhecimento do
território, conhecimentos adquiridos, contribuições no processo de formação acadêmica. A
análise dos dados se deu mediante as relações estabelecidas entre o questionário, diário de
campo e a literatura e agrupados em três eixos temáticos, tais como: percepções sobre a
territorialização em saúde; o olhar sobre processo de construção do território; as contribuições
do território para formação acadêmica e os conhecimentos e saberes na formação
profissional.Os estudantes apontam que conhecer o território permite entender o contexto da
população e o seu entorno para o planejamento das ações em saúde, reconhecendo as
potencialidades e fragilidades em e a aproximação com o sistema de saúde vigente. O
reconhecimento do território em saúde é uma ferramenta potencializadora da formação em
saúde, com vivências e práticas concretas, que oportuniza conhecer as realidades em saúde de
cada população e ampliar o olhar dos futuros profissionais.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the students' perceptions of the physiotherapy course on
territorialization in the health education process. This is a qualitative and descriptive study,
carried out during the supervised physical therapy internship in primary care that took place in
Basic Health Units in the city of Chapecó-SC. The internship was mediated by the Community
University of the Chapecó Region. Data collection was carried out through a questionnaire with
the students of the internship, in the months of September and October 2021. The questionnaire
consisted of questions about the recognition of the territory, acquired knowledge, contributions
to the academic training process. Data analysis took place through the relationships established
between the questionnaire, field diary and literature and grouped into three thematic axes, such
as: perceptions about territorialization in health; the look at the process of construction of the
territory; the contributions of the territory to academic training and the knowledge and
knowledge in professional training. The students point out that knowing the territory allows
understanding the context of the population and its surroundings for the planning of health
actions, recognizing the strengths and weaknesses in and approximation with the current health
system. Recognition of the health territory is a tool that enhances health education, with
concrete experiences and practices, which makes it possible to know the health realities of each
population and broaden the perspective of future professionals..
Keywords: Physical Therapy Specialty; Delivery of Health Care; Health Unic System.
RESUMEN
Este estudio tuvo como objetivo analizar las percepciones de los estudiantes del curso de
fisioterapia sobre la territorialización en el proceso de educación en salud. Se trata de un estudio
cualitativo y descriptivo, realizado durante el internado supervisado de fisioterapia en atención
primaria que se llevó a cabo en las Unidades Básicas de Salud de la ciudad de Chapecó-SC. La
pasantía fue mediada por la Universidad Comunitaria de la Región Chapecó. La recolección de
datos se realizó a través de un cuestionario con los estudiantes de prácticas, en los meses de
septiembre y octubre de 2021. El cuestionario constó de preguntas sobre el reconocimiento del
territorio, conocimientos adquiridos, aportes al proceso de formación académica. El análisis de
los datos se realizó a través de las relaciones establecidas entre el cuestionario, el diario de
campo y la literatura y se agruparon en tres ejes temáticos, tales como: percepciones sobre la
territorialización en salud; la mirada al proceso de construcción del territorio; los aportes del
territorio a la formación académica y los saberes y saberes en la formación profesional Los
245
TREMÉA, D. M. et al.
INTRODUÇÃO
As estruturas políticas de saúde no Brasil estão passando por mudanças a fim de
conduzir a consolidação do SUS. Para isso, a territorialização é um dos pressupostos básicos
do trabalho das equipes, que colabora para formação profissional visando sua adequação às
necessidades de saúde da população brasileira (ARAÚJO et al., 2017).
Essa dinâmica de trabalho torna o território um espaço vivo e dinâmico, capaz de
produzir saúde, que se encontra em constante evolução e transformação no que diz respeito aos
processos demográficos, culturais e epidemiológicos, políticos, tecnológicos, sociais e de riscos
de vulnerabilidade. Neste contexto, o processo de territorialização é determinado como uma
importante ferramenta de conhecimento e organização do contexto de trabalho e práticas de
saúde da atenção básica (SANTOS; RIGOTTO, 2010).
A construção do território representa o estado de pertencimento de um indivíduo, que
está inserido dentro de um espaço. Assim, a territorialização surge, na saúde, como um
mecanismo de obter mais informações sobre a população residente, podendo identificar quais
os riscos e as necessidades daquele grupo de pessoas (GONDIM; MONKEN, 2017). O território
precisa ser compreendido como um espaço dinâmico, em constante transformação, pois está
sujeito a vulnerabilidades (JUSTO et al., 2017).
Realizar o processo de territorialização torna-se essencial quando se trata da elaboração
e do planejamento das ações, visto que proporciona um contato mais próximo entre os
profissionais e a comunidade, promovendo saberes e conhecimento das dificuldades do grupo
populacional e nas intervenções para melhorar a qualidade de vida da população (ARAÚJO et
al., 2017). Além disso, permite aos profissionais a identificação dos condicionantes e
determinantes na saúde da população, possibilitando uma análise individualizada de cada área.
Este processo aproxima os profissionais, instigando-os a serem mais presentes e participativos,
246
TREMÉA, D. M. et al.
CAMINHO METODOLÓGICO
Esta pesquisa trata-se de um estudo de caráter qualitativo, e, de natureza descritiva,
realizado durante o estágio supervisionado de fisioterapia na atenção básica, do curso de
fisioterapia, da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), realizado nas
247
TREMÉA, D. M. et al.
Unidades Básicas de Saúde: Norte, Sul, Chico Mendes e Bela Vista, do município de Chapecó,
SC, Brasil.
O caráter qualitativo desta pesquisa observou a intensidade dos fenômenos, suas
singularidades e os significados, com a dimensão sociocultural que se expressa por meio de
crenças, representações, relações, percepções, comportamentos e práticas (MINAYO, 2017).
O curso de fisioterapia da Unochapecó forma profissionais com visão técnica,
humanista, crítica, e, um dos estágios curriculares fortalece este olhar, é realizado nas Unidades
Básicas de Saúde, do município de Chapecó/SC. Este fortalece o reconhecimento dos territórios
em saúde, o trabalho em equipe com inserção na comunidade, adquirindo consciência de seu
papel social, do trabalho interdisciplinar com foco centrado no usuário.
O projeto pedagógico do curso de fisioterapia aponta diversos aspectos importantes e
norteadores para o ensino-serviço assegurando uma formação generalista, estabelecendo a
atenção integral à saúde, com ações de educação, promoção, prevenção e reabilitação. Ainda
traz a importância da integração aos diferentes níveis de atenção, de forma individual e coletiva,
participando das atividades em saúde pública de maneira competente, humanista, ética e
inovadora (PPC, 2014).
Os participantes do estudo foram acadêmicos inseridos nas Unidades Básicas de Saúde
Norte, Sul, Chico Mendes e Bela Vista, no município de Chapecó/SC, Brasil, que realizaram
seu estágio supervisionado de fisioterapia na atenção básica. O período de coleta aconteceu nos
meses de setembro e outubro de 2021.
O instrumento utilizado nesta pesquisa foi um questionário online com questões
relacionadas sobre o reconhecimento do território em saúde, conhecimentos adquiridos e
contribuições no processo de formação acadêmica.
Os estudantes que participaram da pesquisa, vivenciaram e realizaram o reconhecimento
do território no momento em que estavam realizando o estágio curricular já mencionado, após
a construção do território que aconteceu com as saídas a campo no qual os estudantes se
dividiram em grupos menores. No reconhecimento do território foram observadas informações
sobre vulnerabilidade, áreas de risco, de lixo acumulado que estavam presentes, identificação
dos equipamentos sociais, empresas, e, após os mesmos responderam ao questionário.
Além do questionário foi analisado o diário de campo realizado durante o estágio pelos
estudantes. O diário de campo tem sido empregado como modo de apresentação, descrição e
ordenação das vivências e narrativas dos sujeitos do estudo e como um esforço para
248
TREMÉA, D. M. et al.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A pesquisa foi realizada com sete estudantes que cursavam o oitavo e nono semestre de
fisioterapia. Cinco estudantes se encontravam no oitavo período e dois no nono período. A
idade mínima dos participantes do grupo era de 22 anos e a idade máxima era de 33 anos, com
a média de idade de 21,1 anos. A maior parte do grupo era do sexo feminino.
Para garantir a privacidade e identidade dos sujeitos da pesquisa, foram identificados
com nomes de países europeus, tais como: Alemanha, Croácia, Espanha, Grécia, Irlanda e Itália.
Com a realização dos questionários os resultados foram agrupados em eixos temáticos e
realizada a análise dos dados segundo as bases de autoria de Minayo, estabelecendo relações
com a literatura e o diário de campo.
249
TREMÉA, D. M. et al.
Para Araújo et al., (2017, p. 5), a inserção nesse espaço possibilita uma compreensão,
por parte dos estudantes, sobre o ambiente onde se está inserido e do ser humano, de forma
ampla e integral, o que possibilita melhores condições de vida aos usuários e melhor
entendimento dos acadêmicos quanto aos processos de trabalho que gerenciam o SUS. Ainda,
o processo de territorialização, uma das diretrizes do SUS a serem operacionalizados na
Atenção Básica, comum a todos os membros da equipe de saúde, possibilita o conhecimento
dos principais problemas de saúde da população de determinada área, além dos aspectos sociais,
econômicos e ambientais, favorecendo intervenções epidemiológicas com atividades voltadas
às necessidades comunitárias (ARAÚJO et al., 2017).
Alinhada às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de graduação em
Fisioterapia que nos traz em “competências e habilidades” os profissionais de saúde, dentro de
seu âmbito profissional, devem estar aptos a desenvolver ações de prevenção, promoção,
proteção e reabilitação da saúde, tanto em nível individual quanto coletivo. Cada profissional
deve assegurar que sua prática seja realizada de forma integrada e contínua com as demais
instâncias do sistema de saúde, sendo capaz de pensar criticamente, de analisar os problemas
da sociedade e de procurar soluções para eles (BRASIL, 2002).
Pode-se observar com as falas dos estudantes e demais autores citados acima a
importância de tais vivências no territorialização em saúde, e, como isso tem impacto na
formação acadêmica. Não se mostra apenas como uma ferramenta de conhecimento da
população e do ambiente, mas sim como ações que envolvem o contexto de uma população e
250
TREMÉA, D. M. et al.
os profissionais da saúde atuantes naquele espaço. Como mostrado pelas DCN’s e nas falas dos
estudantes, as ações devem ser feitas de forma íntegra e contínua para o melhor entendimento
da equipe que atua naquele espaço, para que haja uma contribuição efetiva.
O processo constitui uma ação conjunta de toda equipe para melhor observar
as potencialidades e dificuldades do ambiente (Itália).
251
TREMÉA, D. M. et al.
A ambientação dentro das UBS me fez ter uma melhor visão sobre o trabalho
dentro do SUS e como o fisioterapeuta pode agir, contribuindo de forma
decisiva em ações de promoção, prevenção e recuperação dos agravos
populares (Itália).
No estudo realizado por Araújo et al., (2017, p. 3) foi constatada a importância das ações
e atividades durante o processo de conhecimento do território das comunidades. As atividades
realizadas durante a territorialização foram responsáveis pela intensificação do contato dos
usuários com a rotina e organização dos serviços das Unidades Básicas de Saúde, possibilitando
a consolidação dos conhecimentos adquiridos em sala de aula, como por exemplo nas
localidades onde residiam estudantes.
As falas dos estudantes convergem para o olhar dos autores pois mostra que aprender
sobre essa ferramenta traz uma visão mais ampla e decisiva para as ações de saúde que podem
ser aplicadas naquela comunidade. As visões de cada estudante sobre a contribuição dessa
experiência mostram que olhar o território como algo vivo e dinâmico melhora o entendimento
das ações a serem instituídas naquele ambiente. A ferramenta traz conhecimentos pessoais e
profissionais para desenvolver ações efetivas de prevenção, promoção e reabilitação naquele
espaço e naquela população.
253
TREMÉA, D. M. et al.
254
TREMÉA, D. M. et al.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O reconhecimento do território em saúde é uma ferramenta potencializadora no processo
da formação em saúde, aprendizado a partir de vivências e práticas culturais concretas, que
oportuniza conhecer as realidades em saúde de cada população e com isso ampliar o olhar dos
futuros profissionais.
A experiência proporcionada pelo componente curricular de estágio supervisionado em
atenção básica gerou um olhar crítico e reflexivo sobre o processo saúde-doença, pois os
participantes passaram a compreender o dinamismo social e estrutural daquele território,
desenvolvendo na prática o que já foi aprendido na teoria. Para tanto, foram direcionados a
desenvolver um olhar mais humanista e resolutivo, orientando e auxiliando a comunidade de
modo mais eficaz e assertivo.
A vivência possibilitou a compreensão de que o trabalho em equipe e a conduta
multiprofissional é essencial para identificação das reais necessidades em saúde daquelas
pessoas para intervir com ações de educação em saúde e proporcionar melhores condutas
naquele ambiente. Notou-se que a construção do território traz aprendizados profissionais e
pessoais a todos os integrantes, sendo que desenvolveram muitos conhecimentos com as
vivências dentro da realização do estágio.
Observou-se como limite de pesquisa, o número de participantes. Sugere-se ampliar os estudos
relacionados ao locus atenção básica, como foco no processo de territorialização ampliando e
desafiando os estudantes a buscar conhecimento e saberes, alinhando a teoria com a prática.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, L. F. S et al. Diário de pesquisa e suas potencialidades na pesquisa qualitativa em
saúde. Revista Brasileira Pesquisa Saúde, p. 53-61, 2013.
255
TREMÉA, D. M. et al.
256
TREMÉA, D. M. et al.
257
NUNES, V. S. et al.
RESUMO
Os órgãos de representação estudantil no Brasil foram, desde há quase um século, alvo
constante de regulação e controle por parte do poder público. A representação máxima dessa
intervenção foi o período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), no qual os estudantes que
participavam de movimentos políticos dentro do ambiente acadêmico ficaram sujeitos a
situações de perseguição flagrante e até prisão. Com a redemocratização, em 1985, a lei federal
vigente até hoje (7.395/1985) garantiu total autonomia de gestão aos órgãos de representação
estudantil, entre Diretórios e Centros Acadêmicos e Diretórios Centrais dos Estudantes. A
ABSTRACT
Student representation bodies in Brazil have been, for almost a century, a constant target of
regulation and control by the government. The maximum representation of this intervention
was the period of the Military Dictatorship in Brazil (1964-1985), in which students who
participated in political movements within the academic environment were subject to situations
of flagrant persecution and even imprisonment. With redemocratization, in 1985, the federal
law in force until today (7,395/1985) guaranteed total management autonomy to student
representation bodies, between Academic Directories and Centers and Student Central
Directories. Student representation at the Federal University of Vale do São Francisco
(UNIVASF) has 30 in-person undergraduate courses. In this scenario, the Academic Directory
of Biological Sciences (DACBIO) of UNIVASF represents the approximately 300 students of
this course, having achieved significant influence during the period from 2019 to 2021,
evaluated in this work. Thus, the objective of this research was to evaluate the perception of
UNIVASF Biological Sciences students about the performance of DACBIO/UNIVASF
between 2019 and 2021. A virtual questionnaire was applied among this public, showing, in its
results, high general rates approval for the evaluated parameters. In general, it can be seen that
the DACBIO mandate analyzed in the questionnaire was positively evaluated by the majority
of students, with emphasis on various initiatives to engage the student body through political,
extracurricular activities, and facilitating access to representative structures, contributing to the
strengthening of student representation at UNIVASF and serving as a model for other student
associations.
RESUMEN
Los órganos de representación estudiantil en Brasil han sido, durante casi un siglo, un objetivo
constante de regulación y control por parte del gobierno. La máxima representación de esta
intervención fue el período de la Dictadura Militar en Brasil (1964-1985), en el que los
estudiantes que participaban en movimientos políticos dentro del ámbito académico fueron
objeto de situaciones de flagrante persecución e incluso encarcelamiento. Con la
259
NUNES, V. S. et al.
redemocratización, en 1985, la ley federal vigente hasta hoy (7.395/1985) garantizó total
autonomía de gestión a los órganos de representación estudiantil, entre Directorios y Centros
Académicos y Directorios Centrales de Estudiantes. La representación estudiantil de la
Universidad Federal del Vale do São Francisco (UNIVASF) tiene 30 cursos presenciales de
graduación. En este escenario, el Directorio Académico de Ciencias Biológicas (DACBIO) de
la UNIVASF representa a los aproximadamente 300 estudiantes de este curso, habiendo logrado
una influencia significativa durante el período de 2019 a 2021, evaluado en este trabajo. Así, el
objetivo de esta investigación fue evaluar la percepción de los estudiantes de Ciencias
Biológicas de la UNIVASF sobre el desempeño del DACBIO/UNIVASF entre 2019 y 2021.
Se aplicó un cuestionario virtual entre este público, mostrando, en sus resultados, altos índices
generales de aprobación para el parámetros evaluados. En general, se puede ver que el mandato
DACBIO analizado en el cuestionario fue evaluado positivamente por la mayoría de los
estudiantes, con énfasis en varias iniciativas para involucrar al estudiantado a través de
actividades políticas, extracurriculares y facilitando el acceso a estructuras representativas,
contribuyendo a la fortalecimiento de la representación estudiantil en UNIVASF y servir de
modelo para otras asociaciones estudiantiles.
INTRODUÇÃO
260
NUNES, V. S. et al.
da coletividade”. Por fim, o Art. 107 versava sobre a constituição do Diretório Central dos
Estudantes, que poderia ser organizado para “coordenar e centralizar toda a vida social dos
corpos discentes dos institutos de ensino superior” (BRASIL, 1931). Cabe ressaltar que o último
parágrafo deste mesmo artigo condiciona a aprovação do regimento interno do DCE ao reitor
da universidade, evidenciando o notório controle institucional sobre as atividades do órgão de
representação estudantil (BRASIL, 1931).
A próxima peça legislativa de notória influência nas organizações estudantis é o Decreto
nº 37.613, de 19 de julho de 1955, sob a presidência de João Café Filho (BRASIL, 1955).
Diferentemente do primeiro, que assegurava a possibilidade de organização do Diretório
Central dos Estudantes, o Decreto nº 37.613/1955 condicionou a existência obrigatória de
associações estudantis para o reconhecimento e equiparação dos estabelecimentos de ensino.
Contudo, apesar de conferir maior autonomia ao funcionamento dessas associações, havia ainda
a previsão de que os estatutos dos Diretórios deveriam ser aprovados pelo Conselho Técnico
Administrativo de cada instituição e, em caso de celeumas, a última palavra caberia ao então
Ministério da Educação e Cultura (BRASIL, 1955).
Os critérios estabelecidos pelo Decreto Café Filho para participação dos estudantes nos
órgãos de representação incluíam o exposto no seu Art. 5º, que ressaltava a necessidade de
“estrita probidade na execução de todos os trabalhos e provas escolares”, entre outras
exigências. Ademais, impôs ainda o decreto ao funcionamento das associações estudantis a
criação obrigatória de três comissões permanentes em sua estrutura administrativa: comissão
de beneficência e providência, comissão científica e comissão social. A normativa, contudo,
não versa sobre quais seriam os papéis de tais comissões (BRASIL, 1955). Por fim, o decreto
garantia aos Diretórios o recebimento anual de subvenção repassada à associação pelo Conselho
Técnico Administrativo da instituição, fundo que requeria, obrigatoriamente, prestação de
contas ao fim de cada exercício (BRASIL, 1955).
O panorama das universidades e de todo o cenário político nacional foi, contudo,
duramente afetado pelo Golpe Militar que implantou o Regime Ditatorial no Brasil em 1964.
Nesse sentido, se procurou substituir as entidades estudantis existentes regidas pelo Decreto
Café Filho de 1955 por outras entidades controladas de maneira direta ou indireta pelo
Ministério da Educação (CUNHA, 2009).
Assim, destacam-se no período ditatorial cinco peças legislativas que versam direta ou
indiretamente sobre o papel dos órgãos de representação estudantil: a Lei nº 4.464/1964, o
261
NUNES, V. S. et al.
Decreto Lei nº 228/1967, o Decreto Lei nº 477/1969, a Lei nº 6.680/1979, e o Decreto nº 84.035,
de 1 de outubro de 1979, cada uma impondo maior controle sobre as atividades das associações
representativas discentes.
A primeira dessas normativas, a Lei nº 4.464/1964, instituiu a existência de um
Diretório Acadêmico (DA) em cada estabelecimento de ensino superior, do Diretório Central
dos Estudantes (DCE) em cada universidade, do Diretório Estadual dos Estudantes (DEE) em
cada capital de estado, território ou Distrito Federal onde houvesse mais de um estabelecimento
de ensino superior, e do Diretório Nacional dos Estudantes (DNE), com sede na capital federal
(BRASIL, 1964).
A Lei nº 4.464/1964 continha em seu texto, a despeito do contexto político vigente, a
prerrogativa da “luta pelo aprimoramento das instituições democráticas”, embora vedasse aos
órgãos representativos qualquer ação, manifestação ou propaganda de caráter político-
partidário, bem como expressamente os proibisse de incitar, promover, ou apoiar ausência
coletivas aos trabalhos escolares (BRASIL, 1964).
Ademais, o texto apresentava a condição obrigatória do voto nas eleições dos órgãos
representativos discentes, privando de prestação de provas parciais ou finais o aluno que não
comprovasse haver votado no pleito. A fiscalização dessas associações, de maneira similar às
normativas anteriores, cabia aos diferentes setores da administração universitária ou do
Conselho Federal de Educação (BRASIL, 1964).
Por outro lado, o Decreto-Lei nº 228, de 28 de Fevereiro de 1967 surgiu para impor
maior controle, apresentando-se, em seu título, como um “reformulador da organização da
representação estudantil”. Logo em seu início, esta peça legislativa extingue o Diretório
Estadual de Estudantes e o Diretório Nacional de Estudantes, deixando apenas a representação
dos Diretórios Acadêmicos e do Diretório Central dos Estudantes. Outra mudança significativa
é a imposição de eleições indiretas para o Diretório Central dos Estudantes, que passou a ser
eleito através de um colegiado formado por delegados dos Diretórios Acadêmicos (BRASIL,
1967).
Por outro lado, em relação à organização jurídica, a Lei nº 4.464/1964 já trazia, em seu
Art. 18, a possibilidade de constituição de fundações ou entidades civis de personalidade
jurídica para o fim específico de manutenção de obras de caráter assistencial, desportivo, ou
cultural de interesse dos estudantes. Esse texto abriu espaço para a organização jurídica de DAs,
CAs e DCEs como feita atualmente, através da constituição de associações civis sem fins
262
NUNES, V. S. et al.
lucrativos, como explorado mais adiante neste manuscrito. Por sua vez, o Decreto Lei nº
228/1967 ampliou essa caracterização de pessoa jurídica ao regulamentar a possibilidade de
recebimento de auxílios e donativos públicos e particulares (BRASIL, 1967).
Ademais, o Decreto Lei nº 228/1967 também cerceou, além da participação ou mera
manifestação em questões político-partidárias e incitação a ausências coletivas, o
posicionamento dos DAs e DCEs em matérias de cunho racial e religioso. De fato, esta peça
expunha ainda sonora admoestação de que sua inobservância acataria a suspensão ou dissolução
da entidade representativa, bem como ameaçava o reitor da universidade de incorrer em falta
grave se, por ação, tolerância ou omissão, não tornasse efetivo o cumprimento do decreto-lei
(BRASIL, 1967).
Adequando-se ao espírito da época, é decretado por Costa e Silva, em 1969, o Decreto
Lei nº 477 de 26 de fevereiro de 1969. Este decreto definiu uma série de infrações disciplinares
praticadas por professores, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino
públicos ou privados, instituindo nas instituições um estado semi-policial de flagrante
perseguição e vigilância. A peça normativa previa punições para situações como “aliciamento
ou deflagração de movimento que tenha por finalidade a paralisação de atividade escolar”, o
atentado “contra pessoas ou bens tanto em prédio ou instalações (...) dentro de estabelecimento
de ensino”, a “prática de atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas,
desfiles ou comícios”, a “condução, realização, confecção ou impressão de material subversivo"
e até o “sequestro ou cárcere privado de diretor, membro do corpo docente” ou o uso de
“dependência ou recinto escolar para fins de subversão”. As punições previstas variavam desde
o desligamento, proibição e matrícula em qualquer outro estabelecimento de ensino por três
anos, perda de bolsa de estudos, extradição (em caso de estrangeiros), além das medidas
cabíveis no Código Penal (BRASIL, 1969).
Já a Lei nº 6.680, de 16 de agosto de 1979, última lei nesse sentido publicada ainda no
regime militar, ceifou boa parte dos textos anteriores e resumiu todo o arcabouço legal da
representação estudantil no ensino superior a nove parágrafos, sem, contudo, acrescentar
qualquer coisa significativa aos textos anteriores. Merece destaque, todavia, o Decreto nº
84.035, de 1 de outubro de 1979. Publicado enquanto a ditadura militar já agonizava, o decreto
ameaçava de destituição os DAs e DCEs que participassem de qualquer entidade alheia à
instituição de ensino, trazendo ainda a inelegibilidade aos membros destituídos e eventuais
sanções disciplinares.
263
NUNES, V. S. et al.
Por fim, no cenário que abrange desde o período da redemocratização até os dias atuais,
a regulamentação da representação discente em associações estudantis, órgãos colegiados e
comissões institucionais se apresenta de forma bem distinta dos cenários intervencionistas
anteriores. As duas leis hoje vigentes que abordam diretamente esses pontos são a Lei nº
7.395/1985 e a Lei nº 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB).
A primeira reformulou a estrutura dos órgãos de representação estudantil e lhes garantiu
total autonomia de organização e funcionamento com base nos seus estatutos, aprovados em
assembleia geral ou congressos. Ademais, a lei sacramentou o papel da União Nacional dos
Estudantes como entidade representativa do conjunto dos estudantes das Instituições de Ensino
Superior (IES) no país, bem como das Uniões Estaduais do Estudantes em nível estadual e do
Distrito Federal. Cumpre salientar que esta peça legislativa introduziu ainda o conceito dos
Centros Acadêmicos (CAs) paralelamente aos Diretórios Acadêmicos (DAs), cuja função é
basicamente a mesma (BRASIL, 1985).
Já a LDB ressalta, em seu Art. 56, que as instituições públicas de educação superior
deverão obedecer ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos
colegiados e deliberativos, de que deverão participar os segmentos da comunidade institucional,
local e regional. Nesse sentido, os assentos em cada órgão colegiado e comissão deverão, com
base nessa lei, incluir 30% de representação não-docente, dividida entre Técnicos
Administrativos em Educação, discentes e comunidade externa (BRASIL, 1996).
Dessa forma, o panorama atual dos órgãos de representação estudantil no âmbito do
nível superior prevê sua organização como pessoa jurídica devidamente formalizada na forma
de associação civil sem fins lucrativos. As IES, por sua vez, não têm nenhuma ingerência na
gestão e prestação de contas dessas entidades (FRAUCHES, 2012). Portanto, de maneira
análoga, o papel jurídico dos DAs, CAs e DCEs se assemelha, no âmbito da educação superior
e em suas respectivas esferas, àquele dos sindicatos e associações de servidores, sendo os
discentes abrangidos pelo seu órgão representativo (associação) reconhecidos pela condição de
associados.
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sete campi localizados nas cidades de Juazeiro, Senhor do Bonfim e Paulo Afonso (Bahia),
Petrolina (Campus Sede e Campus Ciências Agrárias) e Salgueiro (Pernambuco) e São
Raimundo Nonato (Piauí) (UNIVASF, 2016).
A UNIVASF abriga atualmente 30 cursos de graduação presencial, 17 cursos de
mestrado, 4 doutorados e 14 especializações (UNIVASF, 2022). Desses 30 cursos, apenas 15
possuíam DAs ou CAs ativos na data da escrita deste manuscrito (março de 2022), com base
em consulta feita por e-mail aos colegiados acadêmicos de graduação da universidade. Além
disso, a UNIVASF conta ainda com um Diretório Central dos Estudantes ativo, dez
representantes discentes titulares e dez suplentes em seu Conselho Universitário, e membros
discentes nas Câmaras das Pró-Reitorias de Assistência Estudantil, Ensino e Extensão, além de
contar com efetiva participação discente em comissões temporárias e permanentes
estabelecidas pelo Conselho Universitário.
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“instigar entre seus representados debates de natureza política, educacional, jurídica, social,
econômica, cultural, humanitária e referente à profissão de biólogo, buscando a compreensão e
a solução dos problemas”, “promover a integração de seus associados, mediando conflitos, bem
como o diálogo destes com docentes e funcionários, desenvolvendo e apoiando atividades
culturais, desportivas e sociais”, e “relacionar-se com entidades congêneres, engajando-se na
construção e fortalecimento do movimento estudantil”.
Nesse contexto, o período de representação do DACBIO abrangido neste trabalho
compreende o intervalo de dois anos entre as gestões Chico Mendes (2019-2020) e Darcy
Ribeiro (2020-2021), ambas sob a mesma presidência. Assim, o objetivo deste trabalho
consistiu em avaliar a percepção dos discentes de Ciências Biológicas da UNIVASF acerca da
atuação do seu órgão imediato de representação, o DACBIO/UNIVASF, durante o período
mencionado (2019-2021), através da aplicação de um questionário.
Ademais, os autores deste manuscrito, entre membros da Diretoria Executiva do
DACBIO no período avaliado, docente orientador ou colaboradora externa, exploram neste
relato algumas das ações desenvolvidas pelo grupo durante os dois anos de gestão, as quais
serviram de base para a obtenção dos altos índices de aprovação obtidos para o mandato.
METODOLOGIA
A parte avaliativa deste trabalho foi desenvolvida com base em um questionário
aplicado entre o corpo discente do curso de Bacharelado em Ciências Biológicas da
Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), Campus Ciências Agrárias
(CCA), Petrolina, Pernambuco, Brasil. O questionário foi aplicado através de formulário online,
de preenchimento voluntário e espontâneo e disponibilizando durante 30 dias, consistindo em
22 perguntas subdivididas em duas seções: Seção I - Dados de Identificação (6 perguntas: nome
completo; CPF; período de ingresso; sexo; faixa etária; etnia/raça/cor); Seção II - Percepção
sobre o DACBIO (15 perguntas de múltipla escolha, 1 pergunta aberta). Foram feitas chamadas
vai e-mail institucional e redes sociais visando o aumento da adesão no preenchimento do
formulário entre o corpo discente.
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RESULTADOS E DISCUSSÃO
Segundo informações fornecidas pelo próprio Colegiado de Ciências Biológicas da
UNIVASF através de consulta feita via e-mail, o quantitativo de alunos matriculados no
primeiro semestre de 2022 era de 300 alunos. Dessa forma, sendo o questionário aplicado entre
os dias 27/09/2021 e 27/10/2021, obtiveram-se 72 respostas, o equivalente a cerca de 24% ou
quase ¼ do corpo discente matriculado à época.
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Outra questão que se relaciona com as outras duas abordadas no parágrafo anterior: “Na
sua opinião, em relação ao seu acesso enquanto estudante aos seus representantes, o Diretório
Acadêmico de Ciências Biológicas da UNIVASF, no período de 2019 a 2021, atuou de
maneira:”, mostrou um perfil de 48 respostas (ou 66,6%) “muito satisfatória”, 18 respostas (ou
25%) “satisfatória” 4 “indiferente” e 2 “não sei dizer”, aqui também com mais de 90% de
aprovação.
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Já a questão “Na sua opinião, em relação à utilização dos espaços e equipamentos sob
guarda representação estudantil (ex.: sala do DACBIO) o Diretório Acadêmico de Ciências
Biológicas da UNIVASF, no período de 2019 a 2021, atuou de maneira:” o cenário foi de 37
respostas (ou 51,4%) “muito satisfatória”, 20 respostas (ou 27,8%) “satisfatória” 8 “indiferente”
e 7 “não sei dizer”. Na Figura 3 é possível ver a mudança nas estruturas e equipamentos
disponíveis na sala ocupada pelo DACBIO no Campus Ciências Agrárias da UNIVASF, antes
e durante o mandato avaliado neste manuscrito.
Cumpre salientar ainda que o DACBIO, durante o período avaliado, procurou promover
ativamente iniciativas de atenção à saúde, bem estar e inclusão tanto de discentes quanto de
terceirizados. Isto foi feito através de eventos voltados à saúde sexual e psicológica da
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Por fim, a questão “Na sua opinião, em relação ao seu papel político, o Diretório
Acadêmico de Ciências Biológicas da UNIVASF, no período de 2019 a 2021, atuou de
maneira:” apresentou um cenário de 42 respostas (58,3%) “muito satisfatória”, 23 (31,9%)
“satisfatória” 4 “não sei dizer” e 3 “indiferente”, mostrando mais de 90% de aprovação por
parte dos(as) estudantes em relação ao papel político do DACBIO no período avaliado. A última
pergunta, “Na sua opinião, em relação à atuação da representação estudantil junto ao Colegiado
do curso, o Diretório Acadêmico de Ciências Biológicas da UNIVASF, no período de 2019 a
2021, atuou de maneira:”, apresentou 50 respostas “muito satisfatória”, 17 “satisfatória”, 2 “não
sei dizer”, 2 “indiferente” e 1 “ruim”.
Houve ainda uma caixa opcional para manifestações abertas ao fim do formulário. As
respostas desta seção são apresentadas no Quadro 1.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com esses resultados, esperamos contribuir com outros discentes que participem ou
desejem participar de entidades representativas estudantis, mostrando uma experiência de
sucesso na condução de um Diretório Acadêmico que alcançou altos índices de aprovação e
logrou promover várias iniciativas que foram bem recebidas pelo corpo discente.
Apesar dos desafios, a condução dessas entidades é uma experiência que oferece oportunidades
significativas tanto para quem participa, através da interlocução com elementos diversos da
comunidade acadêmica e externa, como para quem é alvo das ações realizadas, sendo atendidos
por representantes que entendem e compartilham sua realizada para juntos, melhorá-la.
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REFERÊNCIAS
BRASIL. Decreto nº 19.851, de 11 de abril de 1931. Dispõe que o ensino superior no Brasil
obedecerá, de preferencia, ao systema universitario, podendo ainda ser ministrado em
institutos isolados, e que a organização technica e administrativa das universidades é
instituida no presente Decreto, regendo-se os institutos isolados pelos respectivos
regulamentos, observados os dispositivos do seguinte Estatuto das Universidades Brasileiras.
Rio de Janeiro: Governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brasil, 1931.
Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-19851-11-
abril-1931-505837-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 11 maio 2022.
BRASIL. Lei nº 6.680, de 16 de agosto de 1979. Dispõe sobre as relações entre o corpo
discente e a instituição de ensino superior, e dá outras providências. Brasília: Congresso
Nacional, 1979. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-
1979/L6680.htm. Acesso em: 11 maio 2022.
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UNIVASF. Universidade Federal do Vale do São Francisco. Nossos Cursos. Disponível em:
https://portais.univasf.edu.br/apresentacao-univasf/nossos-cursos. Acesso em: 11 maio 2022.
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