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RESUMO
Os autores, aceitando que a tectónica de placas operava no Precâmbrico, discutem os vários modelos propostos para a for-
mação da crosta no que concerne a África. Rejeitam para o Pan-Africano (600-900 m. a.) um modelo assente na acreção por arcos vul-
cânicos; demonstram que pelos 900 m.a. existiam bl9cOS constituídos e chamam a atenção para o Lúrio Belt, ignorado pelos autores que
têm discutido o Pan-Africano na região oriental de Mrica (Mozambique Belt). •
O modelo sugerido para o desenvolvimento crostal no Precâmbrico é transicional, dominantemente ensiálico com colisões
de pequena amplitude (subducção intracontinental) sendo o Pan-Mricano um episódio tectonotermal.
ABSTRACT
The authors discuss the models regarding the crust evolution in Precambrian based on plate tectonies.
The vulcanic ares model for the Pan-Mrican (900-600 m. y.) ignore the Lúrio Belt and the existence of continental crust within
the Mozambique Belt prior to 900 m. y. The model suggested is transitional predominantly ensialic (Arcaic) with small colisions (intercon-
tinental subduction) being the Pan-Mrican a tectono-thermal episode. An explanation for the Lurio BeIt is suggested although the authors
are aware of scarce data.
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Pan-Africano). É relevante notar, neste contexto, que Proterozóico, designadamente o bloco S para
a idade mínima do Lúrio é de 1000 m. a. o qual se admite um desenvolvimento domi-
Os dados observados em Moçambique parecem nantemente ensiálico com forte actividade
pois mostrar que o Pan-Africano corresponde a intracratónica.
episódio tectono-termal, possivelmente ligado a movi- b) O Pan-Africano, entendido como o resultado
mentos infraplaca, impresso numa crosta constituída de uma acreação de arcos vulcânicos, não
ensialicamente, ainda que no Proterozóico se hajam tem em conta a existência de uma crosta
dado colisões de pequena amplitude. Ao desenvolvi- continental em Moçambique anterior ao pe-
mento ensiálico do Arcaico, seguir-se-ia desenvolvi- ríodo 900 m. a.
mento dinâmico no Proterozóico, constituindo-se c) O Pan-Africano é dominantemente um pro-
assim, neste período, um grande continente na linha cesso tectono-termal.
de evidência paleomagnética de J. PIPER (1976).
d) O modelo aqui tentativamente apresentado
4 - DESENVOLVIMENTO DO <<LúRIO BELT» para o Lúrio, parte do princípio de que o
bloco N estaria constituído no início do Pro-
Os «mobile belts» com orientação NE-SW de terozóico, no todo ou em parte, e actuaria
África, são englobados como Kibara-Irumide como margem activa.
(~ 1000 m. a.). Observa-se, também, no mapa de
limites tectónicos e suturas elaborado por K. BURKE
et ai. (1977), que uma linha bem marcada corre da BIBLIOGRAFIA
Namíbia até ao Malavi, esbatendo-se em Moçam-
bique. ARAúJO, J. R. (1976) - Mozambique Belt: Uma interpretação
O posicionamento do «Lúrio Belt» neste quadro geocronológica. Mem. e Notícias, Coimbra, n.O 81, pp.86-
geral é muito difícil, o mesmo acontecendo com -102.
a verificação, à escala global, de mudança de estilo BLACK, R. (1978) - Propos sur le Pan-Africain. Buli. Soc. Geol.
France, Paris, t. XX, fase. 6, pp. 843-850.
estrutural entre o Arcaico e o Proterozóico, devida BURKE, K., DEWEY, J. & KmD, W. (1977) - World distribution of
à estabilização dos cratões iniciais, seguida de impor- Sectores. Tectonophysics, vol. 40, pp. 69-79.
tante pulso termal (1200-900 m. a.). Existindo escas- CLIFFORD, T. N. (1974) - Review of African granulites and selected
sez de dados sobre esta faixa, nomeadamente geo- rocks. Geol. Soc. Amer. Sp. paper, 49 pp.
físicos, parece contudo aos autores que os dados geo- DEWEY, J. F. (1977) - Suture zone complexities: a review. Tec-
lógicos apontam para uma colisão com subducção tonophysics, vol. 40, pp. 53-67.
intracontinental, não ignorando porém o facto de ser GASS, I. G. (1977) - The evolution of the Pan African cristalline
mais fácil aceitar outro modelo, deduzindo uma basement in NE Africa and Arabia. J. Geol. Soc. Lond.,
vol. 134, pp. 129-138.
extensão da linha de sutura através de Moçambique. HOLMES, A. (1951) - The Sequence of Precambrian orogenic belts
A definição da zona de sutura dada por J. DEWEY in South and Central Africa. lnt. Geol. Comp., vol. 18 (14),
(1977) facilitaria a adopção de um modelo baseado pp. 254-269.
em subducção e subsequentemente ajustamento intra- KENNEDY, W. (1964) - The structural diferentiation of Africa
continental. in the Pan-Africa (+ 500 m. y.) tectonic episode. Res. lnst.
Sugere-se, contudo, um modelo (Fig. 2) partindo Afr. Geol. Univ. Leeds, 8th Am. Rep., pp. 48-49.
do pressuposto que a crosta oceânica é pouco espessa, KRôNER, H. (1977) - Precambrian mobile belts of Southem and
Westem Africa-ancient sutures or sites of ensiálic mobility?
contrastando com a espessura da crosta continental A case for crustal evolution towards plate Tectonic. Tecto-
(inexistência de movimentos extensivos de grande nophysics, vol. 40, pp. 101-135.
amplitude). O modelo implicará um gradiente geo- - (1979) - Pan-African mobile belts or evidence for transitional
térmíco de 27 + 7. o/km. (granulitos P. média). Os tectonic regime from intraplate orogeny to plate margin
aspectos transicionais W-E indicados em 2. e a orogeny. ln TAROM, S. A. (ed), Evolution and mineraliza-
tion of the Arabian-Nabian. Pergamon Press, Oxford, pp.
existência de granulitos s. 1., anfibolitos e metasse- 121-137.
dimentos, a par de escassos ofiolitos, podem implicar OBERHOLZER, W. & ARAúJO, R. F. (1968) - Metamorphic map of
certas profundidades e/ou cavalgamentos parciais. Mozambique. Ser. Geol. Minas Moçambique, Lourenço-
-Marques.
PlPER, J. D. (1973) - Geological interpretation of paleomagnetic
5 - CONCLUSÕES results from African Precambrian. ln Implication of conti-
nental drift to the earthscience. Bd. Tarling Runcorn, Academic
Press London, pp. 19-32.
Estando convictos da escassez de dados que apoia- - (1976) - Paleomagnetic evidence for a Proterozoic Supercon-
riam proposta mais fundamentada, os autores podem tinent. Phil. Trans. R. Soc. London, A 280, pp. 469-490.
contudo sugerir as seguintes conclusões: SUTI'ON, J. & WATSON, J. V. (1974) - Tectonic evolution of con-
tinents in Proterozoic times. Nature, n.O 247, pp. 133-145.
a) A maior parte da crosta precâmbrica de SHACKLETON, R. M. (1976) - Pan African structures. Phil. Trans.
Moçambique estava delineada no início do R. Soc. London, A 280, pp. 491-497.
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