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AS ORIGENS DA ARQUEOLOGIA CLÁSSICA

Entre a Arqueologia e a História não existe fronteira definida" Charles Leonard Wooley, Digging up the past, 1954. LA N G ER , J. As origens da Arqueologia Clássica. Rev. do M useu de A rqueologia e Etnologia, São P au lo , 9: 9 5 -1 1 0 , 1999.

R ev. d o M u s e u d e A r q u e o lo g ia e E tn o lo g ia , S ã o P a u lo , 9: 9 5 -1 1 0 , 1999. AS ORIGENS DA ARQUEOLOGIA CLÁSSICA J o h n n iL a n g e r* “Entre a A rqueologia e a H istória não existe fronteira definida” Charles Leonard Wooley, Digging up the past, 1954. L A N G E R , J. A s o rig en s d a A rq u e o lo g ia C lássica. Rev. d o M u se u d e A rq u e o lo g ia e E tn o lo g ia , São P a u lo , 9: 9 5 -1 1 0 , 1 999 . R E S U M O : O p resen te trab a lh o p rete n d e rec u p e ra r asp ecto s h istó ric o s da c iê n c ia arq u e o ló g ica , d e m o n stra n d o a in te rfe rê n c ia de elem e n to s c u ltu rais e im aginários em sua constituição. U N IT E R M O S : H istó ria d a A rq u e o lo g ia - A rq u e o lo g ia g re c o -ro m a n a E g ip to lo g ia - M ito s arqueológicos. E m um a serena e quente manhã, sob a base do monte Vesúvio, ecoam repetidos ruídos provocados por insistentes instrumentos de escavação sobre o solo árido da Itália setecentista. H á m uitas décadas, nesse mesmo local, haviam sido descobertas várias relíquias romanas, m otivo pelo qual o estudioso lograva ad­ quirir novas peças em sua atual pesquisa. Cuidado­ so, observa m eticulosam ente todos os objetos vis­ lumbrados à m edida que o nível da escavação au­ menta. Seu olhar tom a-se mais m inucioso à m edida que o tem po passa, e eis que um sorriso brota em seu rosto quando descobre algo realm ente sensacional. Não são m oedas ou objetos de prata e bronze, que teriam feito a alegria de caçadores de tesouros, ou estatuetas e peças exóticas que teriam atraído a aten­ ção dos antiquários. Tratava-se de objetos femininos pessoais, espelhos e caixinhas para cosm éticos. Indubitavelm ente, esse escavad o r faz parte de um a nova geração d e acadêm icos, de um a nova (*) U n iv e rsid a d e F ed eral do P aran á. P ó s-G ra d u a ç ã o em H istó ria. D o u to ram en to . tendência disciplinar e m etodológica, inaugurada ao final do setecentos: a A rq u eo lo g ia m oderna. Suas raízes, enquanto form a de conhecim ento, são m uito antigas. M uitos aspecto s criado s d esd e a Idade M édia ainda se faziam notar ideologicam en­ te, assim com o diversos m itos propagados até re ­ centem ente. O que diferenciou o arqueólogo após 1770 de seus predecessores, foi a utilização de um m éto d o de in vestigação, centralizado na o bserv a­ ção sistem ática dos restos m ateriais d eixados so ­ b re o solo. A lguns aspectos d essa trajetória são im portantes p ara perceberm os com m aiores d eta­ lhes a pró p ria A rq u eo lo g ia p raticada atualm ente. R u ín as g lo rio sa s e viajan tes: a A rq u eo lo g ia C lássica A p alav ra A rqu eo lo g ia nasceu, efetiv am en ­ te, co m a c u ltu ra g reg a c lássica . A e tim o lo g ia ap on ta para o con h ecim ento do passad o h istó ri­ c o , m a s d e m a n e ir a m u ito v a g a : a p x a i o ç ( a r c h a io s ) - a n tig o ; A ogoç ( lo g o s ) - tra ta d o ( D ic. Enc. H isp a n o -A m e ric a n o 1887: 671). 95 L A N G E R , J . As o rigens da A rqueologia Clássica. Rev. do M useu d e A rqueologia e E tnologia, São Paulo, 9 :9 5 -1 1 0 , 1999. A utilização d a p alav ra pelos gregos era ap li­ ca d a a q u alq u er evento distante de sua época, e m esm o a instituições políticas e sociais m ais re­ m otas ( E n c ic lo p é d ia U n ive rsa l 1920). A antigüidade sem pre m anifestou interesse por seu p a ssa d o m o n u m e n ta l. H isto ria d o re s co m o D ionisio (A n tig ü id a d es R o m a n a s 29 a.C .), F lávio Jo sefo ( A n tig u id a d es Ju d a ica s) e P ausânias (Iti­ n erá rio da G récia séc. II d.C .) criaram obras que p ro curaram resg atar os períodos longos de sua his­ tória clássica. M as a palavra arqueologia não tinha um sentido sistem ático, m as genérico: designava um p eríodo m aterial de um a nação ou país. D io n i­ sio de A licam ássio , p or exem plo, em sua obra A r ­ queologia R om ana (20 - 5 a.C .) abrangia um vasto panoram a m onum ental d a história de R om a (D aux 1948: 5). Q ualquer tratado acerca de monumentos e ruínas, desta m aneira, p ossuía o caráter de arq u e­ ologia. V iajantes, historiadores e cronistas de R o ­ m a realizaram obras que registravam a cultura m a­ terial de u m a fo rm a curiosa e im itativa (principal­ m ente nos tem plos gregos): “A vant de devenir une Science, 1’archéologie est une attitude” (Daux 1948: 18). D urante a Idade M édia, ocorreram da m esm a m an eira alguns fo rtu ito s estudos e registros ar­ queológicos, geralm ente relacionados com assun­ tos eclesiásticos. P or exem plo, o cardeal G iordano O rsini (1159-1181) iniciou um a coleção de objetos rom anos e F ederico II di S vevia (1184-1250), o r­ g anizou o púlpito do B atistério de P isa com o b ­ je to s clássico s ( E n ciclo p é d ia Ita lia n a 1949: 30). M as a falta de in teresse p or tem as da antigüidade clássica, acabou d esfavo recen d o m aiores p reo c u ­ p aç õ es co m v estíg io s arq u e o ló g ico s, que eram co n sid erad o s d esp erd ício s - não tin h am u tilid a­ de nem significado entre os hom ens (Pom ian 1983: 76). A arqueologia com o processo erudito de in­ v estig ação com preende três períodos distintos: a fase hum anista, dos antiquários e dos escavadores m odernos. m anistas ,' o colecionar de peças artísticas antigas, convivia com o estudo detalhado de certos vestí­ g io s re la c io n a d o s co m e s se s o b je to s , c o m o a epigrafía e a num ism ática (M ousse 1978: 294). E ruditos interessados no restab elecim en to da g ló ria clássica, os hum anistas to rn aram -se co le­ cionadores e escavadores, tendo com o guia a lite­ ratura e a história. M oedas e lápides com inscri­ ções tiv e ram um in teresse esp ec ial, origin and o estudos com parativos com textos antigos. D ante A lighieri (1265-1321) estudou caracteres de m a­ nuscritos antigos, pergam inhos e palim psestos; Pe­ trarca (1304-1374) analisou com grande interesse m oedas greco-rom anas; M ichelangelo e Rafael exa­ m inaram a arquitetura e a epigrafía das ruínas clás­ sicas. D esconheciam -se, no R enascim ento, m inú­ cias lingüísticas e paleográficas. A língua grega era confundida com o rom ano e ignorava-se a etrusca: “para ellos A rqueología era el conocim iento de la antigüedad , no de las a n tigüedades ” (Dic. H ispano A m eric a n o 1887: 674). A cerám ica pintada grega era tom ada com o etrusca até o séc. X V m (Levi 1996: 22). T am bém essa falta de conhecim ento e crítica, im possibilitava a autenticidade de m uitos objetos ar­ queológicos, principalm ente estátuas greco-romanas. Era com um o com plem ento físico de esculturas m u­ tiladas, com o fim de usá-las com o objeto de adorno. As fronteiras entre o apócrifo e o autêntico ainda eram desconhecidas (Dic. H ispano A m ericano 1887:347). Q uando os príncipes italianos com eçaram a financiar as coleções da antigüidade, iniciaram -se grande quantidade de escavações p o r toda a pe­ nínsula. A esca va çã o 2 h um anista estav a m uito dis­ tante do que se realizaria no séc. X IX . P reocupavase basicam ente em resgatar objetos antigos de urna m aneira aleatoria, sem grandes cuidados com re­ gistros ou qualquer vinculação do achado com um contexto histórico. O objeto só p ossuía valor por sua própria e intrínseca im portância m aterial. M as 1. O s h u m a n ista s (1300-1600) (1) N om e d ad o aos e ru d ito s e litera to s qu e, n os sé cu lo s X V e X V I, re stab elec eram o p restíg io das ob ras d a A n ti­ gü id ad e clássica, trad u zin d o -as, e d ita n d o -a s e c o m e n ta n ­ do -as ( G ra n d e L a ro u sse 1998: 3038). A m aioria dos especialistas considera o Renas­ cim ento com o o período em que foram criadas as raízes m odernas do m étodo arqueológico. Isso se ex­ plica pelo interesse despertado pelos novos estudos clássicos, principalm ente na Itália, o berço da civili­ zação m editerrânea. U m a das características dos hu­ (2) A té o séc. X V III, as esc a v a ç õ e s eram a leató rias; após esse p erio d o in iciaram -se d iv erso s m éto d o s: o d e se n te rra m ento d e estru tu ras am p las, a esca v a ç ã o e sta tig rá fic a (p o r n íveis artificiais ou natu rais), p o r q u a d ríc u la s, trin c h e ira s etc. (S o u z a 1997: 49). A e sc a v a ç ã o e s ta tig r á fic a im p lica qu e os estrato s d o sítio sejam retirad o s, se g u n d o su a c o lo ­ cação e c o n fig u ra ç ã o o rig in a l, no se n tid o in v erso ao que foram d ep o sita d o s (F u n a ri 1988: 80). 96 L A N G E R , J. As origens d a A rqueologia C lássica. Rev. d o M u s e u d e A rq u eo lo g ia e E tnologia, São Paulo, 9: 95-110, 1999. a escavação já era percebida enquanto evo ca çã o d e um a ép o c a , o resgate atem poral de um a co n ti­ nuidade h istó rica (B ittencourt 1997: 10). O s o b je­ tos encontrados apresentavam -se com o se tivessem sido congelados no tem po, no qual o processo histó ­ rico teria sido paralisado - é obvio que a m ateria­ lidade intrínseca do objeto ainda é fundam ental, mas p ercebem -se representações ex ternas a ele. O utro detalhe im portante do hum anism o foi criar a prim eira escola de A rqueologia. O po eta e m ecenas Lorenzo de M ediei (1449-1492) foi quem a instituiu em F lorença neste p eríodo (D ic . H is­ p a n o -A m erica n o 1887: 674). A A rq u eo lo g ia to r­ na-se, assim , instrum ento político de revitalização das glórias do passado. O fam oso estad ista C ola Di R ienzo (1310-1354), com o objetivo de restau ­ rar a grandeza de R om a e u nificar a Itália, tam bém dedicou g ran d e aten ção p ara a resta u raçã o dos edificios, esculturas e inscrições latinas (Daux 1^48: 21). A Igreja tam bém iniciou diversos finan cia­ m entos de coleções, restaurações e aquisições de valiosas peças. As viagens de exp loração arq u eo ló g ica to r­ naram -se com uns a partir do hum anism o. U m dos m ais fam osos exem plos, é com C yriaque D ’Ancône (1391-1452). V iajou pela p enínsula itálica, G récia, E gito e a T urquia, sem pre com referenciais de um a exó tica curiosidade, aliada a um m eticulo­ so registro epigráfico (D aux 1948:21-22). A ncône foi o prim eiro a revelar as riquezas arqueológicas da G récia, m as as suas sistem atizações geo g ráfi­ cas a respeito de sítios gregos eram confusas. A identificação de algum as ruínas foi feita de form a errada (Levi 1996: 207). E m um a reprodução de relevo de dançarinas de pedra de S am otrácia (séc. IV a.C.), A ncône d em onstra um exem plo da répli­ ca arqueológica com a p erspectiva cultural do ar­ tista. O original apresenta sete m ulheres com lon­ gos vestidos e em posições idênticas, todas o lh an ­ do para a m esm a direção. As m ãos posicionam -se para o chão e existe um a uniform idade nos gestos e na sua com postura. A s dançarinas reproduzidas por A ncône possuem guirlandas de flores n a ca ­ b e ç a e a lg u m a s p o rta m ta m b é m f ita s , to d a s in ex isten tes no o rig in a l. A s v e stim e n ta s fo ram substituídas por vestidos europeus e cada um a re­ cebeu um nom e separadam ente. O olhar ren ascen­ tista sem pre prevalecia: o ex plorador-artista, em um m undo pouco sistem atizado e conhecido, op­ tou por formas familiares ao seu con tex to p sic o ló ­ gico: “O fam iliar será, sem pre, o ponto de partida p a r a a r e p r e s e n ta ç ã o d o d e s c o n h e c i d o ” (G om brich 1995:72). A principal m o tiv ação das ex p ediçõ es e d es­ crições era a form ação de coleções: m oedas, ar­ m as, estatuetas, vasos e outros objetos antigos. O referencial hu m an ista de reto m ar os clássicos fa­ v orecia tam bém um a no va aproxim ação com os aspectos m ateriais da h istó ria e, p or co n seq üên ­ cia, da p ró pria natureza física - a nascente ciên cia m oderna tam bém reform ulou os referenciais m a­ terialistas dos gregos, instituindo os p rim eiros es­ tudos de astronom ia e física m oderna (séc. X V II). L o cais en ig m ático s são v isitad o s na Itália, com o as ca ta cu m b a s 3 rom anas, que em 1568 fo­ ram catalog ad as p o r O no frio P an v inio (M ousse 1978:294). O peculiar dessas ruínas é que ajudaram a in stitu ir os aspectos m iste rio so s da A rq u e o lo ­ gia, presentes no im aginário social, e que se fa­ zem presentes até nossos dias, relacionados a o u ­ tras representações com o as cavernas, a selva e as cidades perdidas. A s ru ín a s 4 são representações fundam entais presentes no im aginário social, vinculadas à A r­ queologia. S igno criativo para as artes plásticas, escultura e arquitetura desde o renascim ento, co ns­ tituem um “testem unho do poder destrutivo do tem ­ po e do triunfo d a natureza sobre a cultura, as ru í­ nas conferem todavia à paisagem um a m arca h u ­ m ana que as contém , abrindo-a para u m a dim en­ são h istórica” (C arena 1983: 129). Os hum anistas concebiam as ruínas com o um a m aneira de evocar os diversos aspectos da antigüidade. S om ente no setecentos surgiram as sugestões m elancólicas e d e c ad e n te s p ara tem as ru in ístic o s (B itte n c o u rt 1997: 14). Os hum anistas concebiam as estruturas (3) A s c a tacu m b as ( k a -ta -k o n -b e - g reg o , k a ta , em b aixo; k u m b o s , c a v id a d e . L a r o u s s e 1871: 5 3 9 ) são c e m ité rio s ro m an o s dos sé cu lo s I a IV , feitos em g alerias su b te rrân eas, às v ezes u tilizad o s p elo s c ristã o s p ara re u n iõ e s ou cu lto s. F o ra m d e s c o b e r to s no p e río d o r e n a s c e n tis ta ( G r a n d e L a ro u sse 1998: 1244). (4 ) L atin ru in a - d estru íd o . L es ru in es d o n t to u t l ’an cien e t to u t le n o u v e a u m o n d e s o n t s e m é s p e u v e n t ê tr e c o n sid é ré e s à deux points de vue, au point de vue de l ’ar­ c h é o lo g ie et au p o in t de vu e de la p h ilo so p h ie histo riq u e. L es ru in es atte ste n t parto u t la p u issa n c e d e l ’h o m m e d an s sa lu tte co n tre la nature, qui rep re n d , a u ssiô t q u e l ’h o m m e re tire sa m a in , le d o m a in e q u ’il lui a v a it p é n ib le m e n t a rra ch é; e lles a tte ste n t au ssi, p ar le u r n o m b re e t p a r le u r a n tiq u é , la lo n g u e su ite d e ses e ffo rts, q u i o n t eu p o u r th éâtre p resq u e to u tes les p a rtie s d e l ’u n iv e rse ( L a ro u s se 1871: 1513). 97 L A N G E R , J . A s o rigens da A rqueologia Clássica. Rev. d o M u seu de A rqueologia e E tnologia, São Paulo, 9: 95-110, 1999. d a a n tig ü id a d e co m o su p o rte s de e v o c a ç ã o d a é p o c a c lá ssic a , n ão im p o rta n d o ta n to suas c a ­ r a c te r ís tic a s m a te ria is - o d e s m a n te la m e n to , tran sp o rte e reap ro v e ita m en to d e inú m ero s ed i­ fício s rom ano s d essa ép o ca são reflex o disso. A p artir do final do séc. X V I, a palav ra arqu e­ olog ia novam ente é resgatada no pensam ento eru ­ dito. O francês Jacques Spon utilizou os term os a rc h éo lo g ie e a rch éo g ra p h ie (1599); na Inglater­ ra surge a exp ressão a rc h a eo lo g y (1607); Itália a rc h eo lo g ia (séc. X V II) e P ortugal arch eo lo g ia (1789) (D aux 1948: 5, S ilva 1789: 200). O caráter m aterial dos estudos arqueológicos, desde então, p assa a ser ressaltado freqüentem ente. No setecentos, o filólogo A ntônio Silva definiu a ciência com o “tratado sobre as antigüidades, estudo dos m onu­ m entos e costum es antigos” (Silva 1789: 200). 2. Os an tiq u á rio s (1600-1730) A s preocupações estéticas dos a n tiq u á rio s,5 basicamente, eram as m esm as dos humanistas, com certas mudanças. Buscavam recuperar a tradição clás­ sica, mas de um a maneira muito mais detalhista, com muito m aior devoção e cuidado que seus predecessores. As coleções receberam sistematização acurada, beneficiadas pelo aumento dos estudos de Paleografía e Numism ática. E por outro lado, o desenvolvim en­ to do aspecto com ercial do antiquário, o coleciona­ dor especializado, a serviço dos nobres diletantes. O s estudos paleográficos continuam a tradi­ ção anterior dos hum anistas, sem pre buscando reu ­ n ir a m aior quantidade possível de inscrições anti­ gas, com o em Inscriptions antiquae totius orbius rom ani (1603), de G ruter. O utro filólogo holandês, Jacques G ronovius, com as m esm as intenções, p u ­ blicou a grande enciclopédia T hesaurus antiquitatum graeca ru m (1702), vasta com pilação do m un­ do grego em treze volum es. G rupos de antiquários são form ados po r toda a E uropa, com o objetivo de divulgar as coleções (5) O a n tiq u ário é o “ sábio que se o cu p a dos m o n um ento s e objetos antigos, no m esm o sentido em que se em prega, m o d ern am en te, a p a la v ra arq u eó lo g o . O léx ico distin g u e en tre o v alo r d as d u as palav ras, e o an tiq u ário , co m o te m ­ po, p asso u a se r co n sid erad o o am ado r, aq u ele qu e, sem p o ssu ir estu d o s esp e c ia is, faz co leção de frag m en to s, de m e d a lh a s, de o b je to s an tig o s ou q u e eles v en d em com o ta l” (C o sta 1936: 36). 98 existentes em cada região. A mais antiga dessas agre­ m iações, a S ociedade dos A ntiquários de Londres, foi fundada inicialm ente em 1572. Sua principal finalidade era a conservação dos m onum entos na­ cionais, m as não tinha caráter oficial. O rei Jacques I dissolveu-a em 1604. N o início do setecentos, foi reconstituída diretam ente pela m onarquia, instala­ da em um palácio ( Larousse 1871:452). U m a das ra­ zões do sucesso da sociedades de antiquários foi a direta proteção dos nobres e m onarcas. Luis XIV criou a Academ ia de Inscrições e Belas Letras (1633), que além de reforçar a arte e cultura francesas no período, incentivou o financiam ento dos sábios e exploradores. N a Espanha, F elipe V, im itando o rei francês, fundou a A cadem ia de H istória e financiou a exploração do m arquês de Valflores pelas antigüi­ dades de seu país (Dic. H isp a n o -A m erica n o 1887: 674). Esse financiam ento para as pesquisas dem ons­ tra as prim eiras form ulações d a idéia de nação com um passado arqueológico viável, isto é, pelo qual os resquícios m ateriais p odem ser aplicados dire­ tam ente em ideologias políticas, fom entando glo­ rificações geográficas ou correlacionando filiações do p resente histórico com o passado esquecido. N o aspecto geo-arqueológico, a península itá­ lica deixa de ser o único grande alvo de interesses, passando agora as desconhecidas regiões da G récia, Egito, Á sia e Á frica a receber expedições m ais por­ m enorizadas. A busca incessante pelo objeto, pelo docum ento m aterial to m a-se cada vez m ais supre­ m a em relação ao docum ento escrito. As escava­ ções tam bém tom am -se constantes em outras regi­ ões da E uropa, com o os países nórdicos. O natura­ lista dinam arquês O laus W orm em preendeu estu­ dos nos m onum entos m egalíticos pré-históricos da região e no alfabeto rúnico. A lém disso, foi o res­ ponsável pela organização de um m useu-gabinete de curiosidades (1655), repleto de artefa to s 6 anti- (6) T o d o e q u alq u er o b jeto p ro d u zid o p elo hom em , in clu ­ ind o ferram en tas, uten sílio s, o bjeto s de a d o rn o etc. (S ou ­ za 1997: 20). T o d o p ro d u to do trab alh o hum ano. P ossui, necessa riam en te, duas facetas in se p aráv e is: u m a m ateria­ lid ad e física (do q u e é feito o artefa to ) e u m a ativ id ad e h u m an a d e tran sfo rm aç ão . P o dem se r d iv id id o s em artefa­ tos fix os ou m onu m en tos (m uros, co lu n as etc.) e artefato s m óveis (vasos de cerâm ica, in stru m en to s de p e d ra etc.). C o n s titu e m , ju n ta m e n te c o m o s e c o f a to s ( e v id ê n c ia s am b ientais) e bio fato s (v estíg io s de p la n ta s e anim ais), o ob jeto d e estu d o d ireto d a A rq u eo lo g ia (F u n a ri 1988: 7879). L A N G E R , J. As origens da A rqueologia Clássica. Rev. d o M u s e u d e A rq u eo lo g ia e E tnologia, S ão Paulo, 9. 9 5 -1 1 0 ,1 9 9 9 . gos, e um elaborado catálogo do m esm o (B itten­ court 1997: 4-6). Iniciava-se a relação da A rq u e­ o lo g ia co m o esp aç o m u seo ló g ic o , este ú ltim o com m etodologia e sistem ática próprias, m as d e­ pendente m uitas vezes do acervo de escavações. U m dos pioneiros franceses d a exploração ar­ queológica, N icolas Peiresc, visitou grande q u an ­ tidade de m onum entos d a Á sia M enor e Á frica. A grande divulgação das antigüidades clássicas pela F rança, no entanto, d ar-se-ia p ela obra de M ontfaucon e Caylus, dois dos m ais célebres arq u eó lo ­ gos do séc. X V III. O estudo dos objetos j á é realizad o no seiscentos por um referencial de seriação e classifica­ ção, o que leva o estudioso A lain S chnapp a co n ­ siderar a A rqueologia deste período com o: “une science du disparate, de l ’accum ulation” (Schnapp 1982: 760). N ão se consid erav a suficiente apenas observar e publicar, era n ecessário tam bém classi­ ficar os vestígios encontrados dentro de d eterm i­ nadas corpos de doutrinas e interpretações. A apro­ xim ação com a A rqueologia m oderna já se efetua­ va em m uitos eruditos. U m deles é especialm ente apontado pelos especialistas com o um antecipador dos princípios m odernos desta ciência: B ernard de M o n tfa u c o n .7 S u a p rin c ip a l o b ra, L ’A n tiq u ité expliquée et représentée en fig u r e s (1719) foi com ­ posta de extensos 15 volumes. Procurava um a cor­ respondência in trínseca en tre o texto e os objetos de investigação: “C es m onum ents se divisen en deux classes; celle des livres et celle des statues, basreliefs, inscriptions et m édailles, deux classes, disje, qui se prêtent des secours m utuels” (a p u d Sch­ napp 1982: 761). S egundo A lain Schnapp, a obra de M ontfaucon é em inentem ente reflexiva, sendo os objetos arqueológicos um m eio de ilustrar a his­ tória. A divisão estrutural da obra L ’a n tiq u ité ex­ p liq u é e , b asea d a em d escriçõ es m on u m en tais e explicações de aspectos coletivos, conduz a um a definição de arqueologia desen vo lvid a p o r apro­ xim ações sucessivas (Schnapp 1982: 761), ou se­ ja, a relação que um objeto possui com o contexto (7) (B en ed itin o da c o n g re g a ç ã o de S ão M a u ro (C astelo de S oulag e, D iocese de N arb o n n e, 1655 - P aris 1741). Foi um dos prim eiros eruditos que apoiou o estudo da h istó ria não ap en as no s tex to s, m as tam b ém no estu d o dos e d ifíc i­ os e m o n u m e n to s re la c io n a d o s c o m a é p o c a fo c a liz a d a . C om sua P a le o g ra p h ie g re c q u e (1 7 0 8 ) - foi q u em crio u a p alav ra - , é c o n sid e ra d o o fu n d a d o r d e ssa c iê n c ia ( G r a n ­ d e L a ro u sse 1998: 4 0 7 0 ). ao q ual ele pertenceu. D este m odo, M o ntfaucon rom peu com a tradição de sim ples curiosidade dos m onum entos, realizando um a te ntativ a de rec o n s­ titu ir gen ericam ente o passado. D uran te o século X V III, as ruínas to m am -se o tem a fav o rito da sensibilidade artística, co in ci­ dindo com o im enso interesse pela A rqueologia. Os próprios em ditos e arqueólogos realizavam ilus­ trações em seus estudos, integrando tam bém as ten­ dências culturais de sua época. U m a das m ais fam o­ sas m in as européias, o com plexo de S to n eh en g e (Inglaterra), fo m eee um panoram a ím par das trans­ form ações que as im agens de rum as sofreram desde o hum anism o até o séc. XIX. 3. A s ruínas de Ston eh en g e A s m ais an tig as rep rese n ta ç õ es d este sítio m egalítico surgiram durante o quatrocentos. A l­ guns m anuscritos ingleses de C am bridge rep resen ­ taram o local de m aneira errônea, com os m egálitos dispostos em um retângulo, sem os trilitos in te­ riores. B aseada em u m a origem m ágica do sítio, a uniform idade do desenho garante características divinas a S tonehenge. E m 1574, em um desenho anônim o constante no m anuscrito Su m m a rize o f the events o f E n gland, o conjunto to m a-se m ais próxim o do real, com sua form a circular. U m ca­ valeiro adentra o espaço interno em um cavalo, en ­ quanto um a p essoa toca um dos m egálitos. A aura divina desaparece do local, abrindo espaço p ara a hum anização dos vestígios d a antigüidade. A fa l­ ta de detalhes e a inexatidão do volum e e altura das pedras é um a característica renascentista, valorizando-se o resgate d a época do valor intrínseco do objeto. E m outro desenho anônim o, de 1575, a busca pela antigüidade é ainda m ais acentuada. D i­ versos indivíduos escavam e m ovim entam -se ao red o r do local. U m castelo (im aginário) surge ao fundo do sítio, em um a elevação, sugerindo talvez um a continuidade do período histórico com o res­ gate prom ovido pelos escavadores. E m 1600, na quinta edição da B ritanniae descriptio, de Cam den, o local volta a ser retratado de m aneira m isteriosa. As pedras p arecem se contorcer, dando ao conjunto um aspecto sim bólico de cham as, ao m esm o te m ­ po que parecem retratar silhuetas hum anas. A p lan­ ta possui m uitas in co erên cias estruturais, e a o r­ dem g eral parece ser influ enciad a p o r antigas le n ­ das fo lcló ricas. N o m esm o lo cal on de a n te rio r­ m ente era retratad a u m a fo rtaleza (segundo p la­ 99 L A N G E R , J. A s origens d a A rqueologia C lássica. Rev. d o M u seu d e A rqueologia e E tnologia, São P àulo, 9: 95-110, 1999. no), surge um a g rande cidade. O frontispicio do texto, abaixo d a ilustração de S tonehenge, é en ­ cim ado p o r um nobre, que aponta n a d ireção da cidade. U m a alego ria das ruínas in spirando o p re­ se n te, c ria n d o n o v as p e rsp e c tiv a s. O prim eiro antiquário a ilu strar S tonehenge foi Iñigo Jones, em 1621 (publicado em The m o st n o ta b le a n tiq u ity o f G rea t B rita in vu lg a ry ca lled Stone-H eng, 1655). Trata-se da m ais pura evocação renascentista. O s m o n um entos são ilustrados to ­ talm ente restaurados, com regularidade no corte e com o plan o geral disposto sim etricam ente em or­ dem . Jones evoca claram ente um a origem rom ana ao local, sendo a principal inspiração as co nstru ­ ções clássica s d a Itália. O utro an tiq u ário , John A u b rey , re a liz o u a p rim e ira p la n ta do sítio, A iconografia de Stonehenge (1666). P ercebe-se um a m aior valorização da ordem exata do conjunto, pela u nidade geral das ruínas. M as na questão da o ri­ g em de S tonehenge, A ubrey creditou aos druidas a sua autoria, popularizando um m ito que sobrevi­ ve até nossos dias. E m 1740, ou tro antiquário, W illiam Stukeley, reforçou essa teoria em seu Stonehenge, a tem ple restored to the Bristish Druids. O arquiteto John W ood realizou outra plan ta ( C h o ir G aur, 1747), ainda m ais precisa, atribuindo Stonehenge a um tem plo lunar dos antigos celtas. P or toda a E uropa setecentista, as ru ín as m egalíticas são con sid erad as obras dos antigos bárbaros celtas, vinculadas ob­ jetivam ente a m itos nacionalistas ingleses e fran ­ ceses (Demoulle 1982: 744). E m um a pintura de D. Logan deste período, Stonehenge, o lugar é retratado de m aneira exótica, sendo observado p or inúm e­ ros visitantes, cavaleiros, curiosos e até anim ais. C o m dois planos, face norte e sul do sítio, a im po­ nência é destacada pelo contraste de claro-escuro das pedras. E m am bos os desenhos, grossas e n e­ gras nuvens pairam acim a dos m egálitos, dando um aspecto obviam ente glorioso e grandioso ao p a ssa d o fra n c ê s, ta m b ém h e rd e iro dos an tig o s celtas. O auge do m ito celta pode ser vislum brado com a p intu ra de M eyrick e Sm ith, O fe s tiv a l dos b retõ es em Sto n eh en g e (1815). C entenas de p es­ soas reunem -se em frente ao im enso reduto pétreo, n um am plo festival de cores e entusiasm o. N um a S tonehenge reco n stitu ída, su po stam en te em sua é p o c a de uso, sacerd o tes dru id as reú nem -se no centro p ara celebrações rituais. E m volta, indiví­ duos assistem ao espetáculo sentados. S ím bolos ti­ picam ente celtas m isturam -se a tradições de ori­ 100 gem oriental, com o a A stro log ia e A lquim ia. A com plexidade deste ritual pagão revela toda a uni­ dade dos antigos bárbaros, que deve ser refletida - para o artista - na conjuntura política da época p re se n te . C om a A rq u eo lo g ia oitocentista, os m egáli­ tos europeus são atribuídos a culturas m uito mais antigas que a dos bárbaros, as do neolítico préhistórico. A representação das ruínas sofre influ­ ência do neoclassicism o e do rom antism o. Assim , p o r ex em p lo , a S to n e h e n g e d e Jo h n C o n stab le (1832) possui ao m esm o tem po conotações glori­ osas e sinistras. O s dois visitantes retratados já não contêm a vivacidade e curiosidade das antigas re­ p resentações, m as, antes, conservam -se um para­ do frente ao m egálito e outro sentado. M elancolia e m editação, traços característicos d a ruín a rom ân­ tica, unidas a um a rein terp retação clássica: as ro­ chas britânicas parecem ev o car as construções la­ tinas, m as a solidão nórdica triunfa. O todo parece am eaçador e soturno, com u m a tem pestade ao fun­ do. A s pedras são ainda m ais instigantes com for­ tes detalhes de escuridão, parecendo em ergirem do solo, num ám plo contraste do sentido religioso da n atureza e da história. 4. A s ruínas de P o m péia e H erculano A d esco b erta d e m aior im pacto cultural no século X V m , sem som bra de dúvida, foram as m i­ nas de H erculanum e P om péia. Influenciaram as artes plásticas, a escultura, a Arquitetura, a Filosofia e a sensibilidade. R ev ig orand o a m an eira de se p ensar a antigüidade, instituíram o neo-classicism o e renovaram a A rqueologia. A epopéia arqueológica das duas cidades ro­ m anas in ic io u -se co m seus so te rra m en to s pelo V esúvio em 79 d.C. M otivo d e algum auxílio logo após o ocorrido, foram abandonadas sob o dom í­ nio de T rajano e A driano. E m 196 d.C. o im pera­ d or A lexandre S evero interessou-se pelo resgate d a região, o que não ocorreu. O local de H ercu­ lano, enterrado a 15m de profundidade, com eçou lentam ente a ser repovoado p or um a aldeia acim a das m inas, denom inada de Resina. E m Pom péia, nunca houve repovoam ento efetivo. O nom e d es­ sas localidades tam bém foi perdido, sobrevivendo apenas em algum as cartas geográficas rom anas e m edievais (C orti 1958: 118-127). D urante o R enascim ento, ocorreram algum as r e fe rê n c ia s d isp e rs a s. N ic o lo P e ro tto (1 4 8 8 ), L A N G E R , J. A s origens d a A rqueologia C lássica. Rev. d o M u seu d e A rq u eo lo g ia e E tnologia, S ão Paulo, 9 : 95-110, 1999. Sannazaro (1502) e L eone (1513) m encionam as lo­ calidades em seus trabalhos. Em 1607, o historiador Cappacio cita a existência de ruínas antigas na região de Civita (amai Pompéia). O utro historiador italiano, Camillo Pellegrino (1688), faz a surpreendente reve­ lação que a co ntem po rânea R esina está construída acim a de H erculanum . O perários em trabalho de es­ cavação geológica descobriram fragmentos romanos, que foram interpretados pelo em dito Bianchini (1699) com o sendo d a cidade de Pom péia, em seu livro Storia U niversale (C orti 1958: 125-153). A pesar de todas essas evidências, a conjuntura do período não creditava a d esco b erta de ru íças e fragmentos antigos com o sendo de um a antiga povoação - no caso, das cid a d es p e rd id a s 8 de H erculano e Pom péia. Os resquícios clássicos não proporci­ onavam a identificação, pelos pesquisadores, de uma asssociação histórica com sua origem . D esta m anei­ ra, H erculano foi escavada entre 1 7 1 0 a 1738, sem a suspeita de que se tratava de um a urbe, apenas frag­ m entos isolados de tem plos ou pequenas vilas. Sob o financiam ento do príncipe d ’Elbeuf, diversas está­ tuas e colunas foram resgatadas do local, até que, em 1738, foi desco b erta um a inscrição que continha a frase T heatrum H ercu la n en sem , o que possibilitou o reconhecim ento da cidade. E m P om péia, as esca­ vações iniciaram -se a partir de 1748, m as som ente em 1763 foi feita a identificação de origem , através de uma inscrição do tribuno Svedius Clem ens (Corti 1958: 179). A técnica das escavações das cidades rom anas até 1770 consistia em recuperar jó ias, m oedas de ouro e prata e q u alqu er objeto valioso. A noção de tesouro m ovia os trabalhos de cam po: cada área da cidade escavada que não possuía objetivam ente al­ guma riqueza, era abandonada. Fortuitam ente, recu­ peravam -se esculturas soterradas, e, algum as vezes, murais e inscrições. As etapas de escavação não se­ guiam estratigrafia e nem registros de níveis ou de localização p recisa dos objetos na área urbana. O principal diretor dos trabalhos de desenterram ento em Herculano, Alcubierre, danificou diversos m onu­ m entos e registros (C orti 1958: 154-170). U m a p in tu ra a n ô n im a d e s ta é p o c a ( E s c a v a ­ ç õ e s em H e r c u la n o , 1 7 4 0 -1 7 5 0 ), n o s m o stra a (8) As c id a d e s p e r d id a s sã o re p re se n ta ç õ e s em to m o de sítios a rq u e o ló g ic o s, re a is ou im a g in á rio s, d o s q u a is os refe ren ciais h istó rico s e g eo g ráfic o s fo ram e sq u e c id o s p ela c iv iliz a ç ã o ocid en tal (L a n g e r 1997b: 76). c o n c e p ç ã o d e a rq u e o lo g ia p ra tic a d a n as c id a d e s p e rd id a s ro m a n a s. N o p rim e iro p la n o , d o is n o ­ b re s d is c u te m s o b re os o b je to s r e c u p e ra d o s , a m o n to a d o s em p ro fu sã o . V asos, e s tá tu a s f ra g ­ m e n ta d a s, c â n ta ro s, b lo c o s e p ed a ç o s de p ain é is e ca p ité is m istu ram -se in d ife re n tem en te . A id é ia p rin c ip a l d a p in tu ra é d e um g ra n d e g a b in e te d e c u r io s id a d e s , u m m u se u ao ar liv re .9 N o p la n o in term ed iá rio , d o ze pesso as o b se rv am com a te n ­ ção a im e n sa g aleria ab erta sobre o lo cal, de on d e são retira d o s os v e stíg io s ro m an o s. A q u i, o te m a d a c u r io s id a d e e x ó tic a é c a p ita l, d e te rm in a v a ­ lo re s e in stitu i m o d o s d e agir. A o la d o , um d e ta ­ lhe d e p ó rtic o , to ta lm e n te im e rso n a b ase d e um a m o n ta n h a e m al d istin g u id o do re sto d a p in tu ra p e lo so m b re a m e n to , p re ssu p õ e o c a r á te r m is te ­ rio s o e o c u lto d a A r q u e o lo g ia . Id e n tific a d o r de q ue o local é u m a ru ín a rom ana, tam bém fu n cion a co m o sím b o lo d a e n tra d a ao u n iv e rso m iste rio so do p assad o . O p ó rtic o é um d os sím b o lo s p rin c i­ p a is d as c id a d e s p e rd id a s no im a g in á rio so c ia l (L a n g e r 1997b: 169). N o p la n o d e fu n d o , tr a ­ b a lh ad o re s tra n sp o rta m os o b jeto s d a e sc a v aç ã o em c a rrio la s, su b in d o u m a ra m p a até o c im o do m o n te. N este lo cal, um g ru p o c o m a n d a a o p e ra ­ ção. O resg a te do p assad o c lássico p erm ite a e le ­ v aç ão do e s p írito h u m a n o , a lc a n ç a n d o a p e rfe i­ ç ã o m oral. U m d o s m o tiv o s do g ran d e im p a c to c u ltu ra l p ro m o v id o p elas cid a d e s ro m an a s so te rra d a s foi o de p e rm itir a r e c o n s titu iç ã o c o tid ia n a d a H is ­ tó ria . O q u e a n te s só se c o n h e c ia a tra v é s d a lite ra tu ra e das ru ín as tra d ic io n a is, ag o ra e ra r e ­ v e la d o p e la d e s c o b e rta d e o b je to s d o m é s tic o s n o c o n te x to d a p ró p ria re s id ê n c ia a n tig a . P rin ­ cipalm en te em P o m p éia, dev ido às facilid ad es na (9 ) A id é ia d e m u se u e x p o s to d e H e rc u la n o p o d e se r c o n s t a t a d a m a is e x p l i c i t a m e n t e a i n d a n a e s t a m p a A n tiq u itie s o f H e r c u la n e u m , d e T. M a rtin e J. L e ttic e (1 7 7 3 ). O q u a d ro p o s s u i se is q u a d ro s in te r c a la d o s na m e sm a fig u ra . A p rim e ira , e d e m a io r ta m a n h o , ilu stra um im e n so p ó rtic o c o m u m le ã o e m b le m á tic o ao c e n ­ tr o , e n c im a d o p o r u m a e x te n s a g u ir la n d a . A c im a d o p ó rtic o , u m a p e q u e n a p in tu ra p a is a g ís tic a re c o n stitu i o co tid ia n o d a c id a d e , d u ra n te su a g lo rio s a e x is tê n c ia a n ­ tes da c a tá stro fe . A b aix o d a ilu stra ç ã o p rin c ip a l, q u a tro d e ta lh e s a r tís tic o s c o m p le m e n ta m a c e n a . D u as re c o n stitu iç õ e s d e a c ro té rio s c o m e s tá tu a s m ito ló g ic a s, e ao cen tro , d e ta lh e s d e p in tu ra s m u rais. A id é ia p rin c i­ p al d a e s ta m p a é e x p o r d e ta lh e s a rtís tic o s r e c u p e ra d o s d a c id a d e ro m a n a , em u m a e sp é c ie d e m o stru á rio . 101 L A N G E R , J. A s o rigens d a A rqueologia Clássica. Rev. d o M u seu d e A rqueologia e E tnologia, São Paulo, 9: 9 5 -1 1 0 ,1 9 9 9 . e s c a v a ç ã o 10 e ao fato de não ex istirem so b rep o si­ ções de o u tra épocas, tudo ficou co m o estav a d e s­ de 24 de agosto de 79 d.C.: “a m agia do quotidiano interrom pido no auge da felicidade” (C arena 1983: 122 ). A região de N ápoles tom ou-se concorrente da m etrópole cultural de Rom a, totalm ente absoluta no classicism o desde a Renascença. E m Nápoles, o côn­ sul britânico Sir William Hamilton formou um a grande coleção de vasos, que se tom ou referência para os colecionadores (Jones 1985: 33). N o frontispício de seu C atalogue o fth e collection (1790), percebem os um a interessante alegoria arqueológica. N a base de um penhasco, um a escavação revela um túmulo antigo, com posto por um esqueleto e diversos vasos cerâm i­ cos. U m casal de nobres visita a descoberta, fascina­ do pelo exam e do vasilhame. N a base do túmulo, em prim eiro plano ao lado da escavação, repousam um a picareta e um a pá, sím bolos da ciência material. P er­ cebem os a total inclusão da A rqueologia na cultura erudita do período. H om ens de bom gosto, de boa tradição, visitavam e evocavam a antigüidade. Fazer um a viagem de estudos a R om a tom a-se parte indis­ pensável para a educação das pessoas bem nascidas. M ais que um a sim ples curiosidade turística, projeta a idealização de um a sociedade, de um mundo onde os v alores clássico s são refletid o s com o reg ras de convivência moral. A corte européia, com isso, tomase a projeção das sociedades míticas grega e romana, através da pintura, dos detalhes arquitetônicos expos­ tos em palácios, centros culturais (bibliotecas e m u­ seus), m oda e no com portam ento. É o auge do neoclassicismo europeu. Se p o r um lad o, as c id ad e s so te rra d as pelo V esúvio co n tin u a m d e sp erta n d o in te re sse e p e s­ q u isa s, ao n asce r do o ito c en to s o co rrem alg um as m u d a n ça s n a p e rc e p çã o d e sta s. O a rq u e ó lo g o F ra n ç o is M a z o is,11 em seu liv ro R u in e s d e P om p é i (1813), realizo u d iversas ilu straçõ es dos frá g ­ i l 0) A á re a de P o m p é ia foi so te rrad a p o r u m a g ran d e q u a n ­ tid a d e d e la p illi (p ed ra s vulcân icas) que, m istu rad as a c in ­ zas, fo rm aram u m a c am ad a m uito m acia e facilm en te re ­ m o v ív e l, n u m a p ro fu n d id a d e b e m m e n o r q u e a de H ercu lan u m (C eram 1956: 20). (11) A rq u eó lo g o e arq u iteto fran c ês (17 8 3 -1 8 2 6 ). O btev e o p riv ilé g io d e d e se n h a r os m o n u m en to s de P o m p éia, re ­ se rv ad o a p en as aos a c ad ê m ico s de N áp o les, en tre 1809 e 1811. O s re su lta d o s d os seus trab alh o s fo ram p u b licad o s em 1813, sob o títu lo de R u ín e s d e P o m p éi. O u tro s livros: P a la is d e S c a u ru s (1819); R u in e s d e P a estu m e T héàtre com p le t d e s L a tin s (L a ro u sse 1871: 1392). 102 m entos ruin ístico s ro m ano s, d em o n stran d o agora in flu ê n c ia s do ro m an tism o . N o q u a d ro C o m e si sc a v a v a a P o m p e i, p e rc e b e m -se as n o v as d ire ­ triz e s d as esc a v a çõ e s. A o c o n trá rio d a referid a p in tu ra se tecen tista de H ercu lan o , oco rre um a o r­ g an iz a ç ã o p la n e ja d a do resg ate, sem esp aço para o ex o tism o e c u rio sid a d e d o s fra g m en to s. S ob o aten to o lh a r de um supervisor, a retirad a dos entu­ lhos pelos trab alh ad o res é feita sistem aticam ente, ao final de um a grande av en id a calçada. C om o em grande p arte d a A rq u eo lo g ia C lássica efetuada du­ ran te o o ito c en to s, o p ro ce d im e n to d a escav açã o se g u e a té c n ic a do d e s e n te r r a m e n to ,12 a sim ples re tira d a dos e n tu lh o s ac im a d as e stru tu ra s so te r­ rad as. E m te rm o s d e o rg a n iz a ç ã o , o d e se n te rra ­ m ento atu a com um re sp o n sá v e l, o arq u eólo g o, e a m ã o -d e -o b ra b ra ç a l (F u n a ri 1988: 4 9). E m p ri­ m eiro plano, na extrem idade inferior direita, o qua­ dro de M azois osten ta u m a p á e u m a picareta, cru­ za d as e ap o iad a s em um m uro. P rin c ip a is fe rra ­ m entas d a técn ica de d esenterram ento, as suas po­ sições na ilustração, assim com o no frontispício do c a tá lo g o de H am ilto n (17 9 0 ), p e rm ite m su p o r o seu uso com o aleg o ria da A rq ueo lo gia, neste perí­ odo. T am bém u tiliza d a s fre q ü en te m e n te n a arte m a ç ô n ic a s e te c e n tista ,13 a p á e a en x a d a associam -se a sím bolos de m o d ificação d a natureza. No q u ad ro d e M a zo is, p o ssu e m um se n tid o de p e s­ q u isa , d a e n tra d a p a ra os m isté rio s do passado , p erd id o nas p ro fu n d eza s d a terra. E m outras ilustrações de Pom péia, M azois res­ sa lta u m fu n d am e n to da ru ín a ro m â n tic a , a m e­ lanco lia d a decadência. N a Villa d i D iom ede, For- (12) “A s estra té g ia s téc n ic a s b ásicas d e desen terram en to são as trin c h eiras e as son d a g en s. A q u elas se destin a m a d e sc o b rir a o rien tação geral d as e stru tu ras fix as a serem d e sen terrad as, facilita n d o , d ev id o à sim etria das plan tas, a sup o sição d a lo calizaçã o dos m uros e p rin cip ais estru tu ­ ras. E m caso de d ese n te rra m e n to lim ita d o , p o d em -se lo ­ c a liz a r os lug ares m ais in teressan tes (teso uro s, dep ósito s) a serem escav ad o s. A s so n d a g en s p erm ite m sab er a p ro ­ fu n d id ad e do sítio ” (F u n a ri 1988: 50). (13) Isso p o d e ser co n sta ta d o no in trig a n te fro n tisp íc io da F la u ta M á g ic a (1 7 9 1 ), d e M o z a rt. N o in te rio r d e um a ca ta c u m b a re p le ta de sím b o lo s eg íp cio s e o cu ltistas, o pri­ m eiro plano, na extrem idade in ferior direita, é o cu pado por um a p á e u m a picareta - na m esm a posição q u e o fro n tisp íc io d e H am ilto n (1 7 9 0 ) e o d esen h o d e M a zo is (1 8 1 3 ). Ao lad o d os in stru m en to s, rep o u sam frag m en to s d e cap itéis, u m a está tu a e u m a ánfora. M o z art ex p resso u suas id éias d a fra n c o -m a ç o n a ria , in flu e n c ia d o p e lo lib re tis ta S ch ik an ed er (B ain es & M álek 1996: 223). L A N G E R , J. A s origens d a A rqueologia Clássica. Rev. d o M u seu d e A rq u eo lo g ia e E tnologia, São P aulo, 9: 9 5 -1 1 0 ,1 9 9 9 . no e M u lin o e C a sa C h a m p io n n e t, su rg em p e s ­ soas sen tad a s, em p o siç õ e s re fle x iv a s. N e ste ú l­ tim o, em e sp e c ia l, o p o n to d e fu g a e x a to do q u a ­ dro, no p lano inferior, é ocup ad o p or um ca b isb a i­ xo e oprim ido soldado, ju n to a colunas derruidas e cobertas de m usgos. O s fragm entos ruinísticos são locais p ro p ício s p ara o cu lto do d esam p aro : “ Sua m elancolia reside no fato de ter-se ela to rnad o um m onum ento da significação perdida. S onhar nas ru­ ínas é sentir que n o ssa existên cia cessa de nos p er­ te n c e r e j á se u n e ao im e n so e s q u e c im e n to ” (S tarobinski 1994: 202). O s v estíg io s ad q u ire m o sentido d a m orte e d a vid a, m arcas d a tra g é d ia da n atu re za p e ra n te o cu rso d a h istó ria , re sg a sta d o s pela ciência. Em o u tra inq u ie tan te rep rese n tação artística, M azois retrata o c a ráte r m isterio so das ruínas. II p o zzo a p erto su lla ca v ea d e i teatro rep rese n ta o d esen terram en to parcial de um teatro rom ano em Pom péia. Em um am b iente escu ro e ten eb ro so lem bra-nos as pin tu ras de catacum b as, cav ernas e cem itérios - os escav ad o res são dim in u íd o s p ela im ensidão do local. O gosto rom ântico pelo horror, m anifestado pela literatura, tam bém é percebido na Arqueologia. 5. A s ruínas de P ira n esi G iovanni B a ttista P iran esi foi o g rande c a ­ talisador do n eo c la ssic ism o e d a A rq u eo lo g ia setecentista, no p lano artístico . A p esar de ser a rq u i­ teto e engenheiro, a principal produção de P iranesi foi a criação de ved u te (vistas), g ravuras de p aisa­ gens urbanas clássicas. O estilo de Piranesi era muito forte e denso, p o r vezes inseg u ro e p aran ó ico. O fro n tis p ic io d e P r im a p a r te d i A r c h ite tu r e e P ro sp e ctive (1 7 4 3 ), ro m p e com a trad ição das vedute e pinturas de ruínas. A o con trário dos frag ­ mentos ruinísticos de P annini,14com cores fortes em meio a cortejos e festas - um a visão hum anística da A rqueologia - , esse fronstispício já nos revela a sua interpretação de um p assad o com atm osfera fa n ­ tástica. N as T erm as d e C a ra co la (1748), as so m ­ (1 4 ) U m d o s p in to re s d e ru ín a s p r e fe rid o s n a E u ro p a setecentista. Giovanni P aolo Pannini (P iacen zac. 1691 - R om a 1765), foi aluno dos B ibiena, tom ou-se, antes de Canalleto, o prim eiro dos grandes vedutisti, indo bem além da m inúcia topográfica em suas vistas de R om a, suas com posições com m inas im aginárias e suas representações de cortejos e festas 0G rande L arousse 1998: 4416). b r a s to r n a m - s e m a is a c ir r a d a s , a la r g a d a s e escu recid as. A s fig u ras hu m an as são p eq u e n in a s frente à im p o nên cia dos restos d esm oronados. Em su a o b ra m a is im p o rta n te , A n tic h ità R o m a n e (1756), v islu m b ram o s to d a a co n cep ção da fo rça da antigüidade ressurgida nos tem pos modernos. Em esp ecial, u m a g rav u ra d essa p u b licação , S tra d a F elice, conseguiu cap tar toda a estética e im ag iná­ rio setecentista acerca da A rqueologia. D uas estra­ das são ladeadas por um a im ensa quantidade de m o­ num entos, em pilhados num a grande extravagância. M ais que um m odism o, o resgate do rem o to arcai­ co to rn o u -se o b se ssiv o , indo além dos lim ites do bom senso. M esm o a idéia do m ostruário de cu rio­ sidades ao ar livre, tran sfo rm a-se em um d elírio m onum ental ao extrem o, pelo q ual o o lh a r dos d i­ m inutos transeuntes tom a-se totalm ente perdido na esm agadora q uantidade de objetos. O m onum ento transm uta-se, na obra de P iranesi, em sig n o de um d estin o (S taro bin sk i 1994: 201), a su b m issão do presente (sim bolizado pelas figuras hum anas) pelo passado (as ruínas). A segunda m etade do séc. X V III foi caracte­ rizada pela grande quantidade de publicações ar­ queológicas, sistem atizadoras e catalogadoras de vestígios do m undo m ed iterrân eo ,15 todas dep en ­ dentes da fórm ula erudita m áxim a da época: o b ­ servar, registrar e publicar. Influenciadas d ireta­ m ente pelas pesquisas em P om péia e H erculano, essas pu b licaçõ es já corresp o nd em a um a no v a m aneira de realizar interpretações d a antigüidade, m as certam ente dois nom es canalizaram em suas obras este momento da Arqueologia: Conde de Caylus e Winckelmann. (15) E n tre as princip ais obras publicadas na seg und a m eta­ de do setecentos tem os: T ra ité d es p ie rre s g ra v ées, M ariette (1750); The ru in s o f P a lm yra , R. W oo d (1753); L 'a n tic h ità ro m a n a , P ira n ese (1 7 5 6 ); R e c u e il d e p e in tu r e s a n tiq u e s, B artoli (1757); The ru in s o f B a a lb e k, S tuart e R evett (1757); D escrip tio n d e s p ie r re s g ra v é e s d u b a ro n d e S to ch , W in ­ ck elm an n (1760); L a sc ien ce d e s m éd a illes, Jo b e rt (1760); A n tiq u ité s d ’A th è n e s, S tu a rt (1 7 6 1 ); R e c u e il d ’a n tiq u ité , C ond e de C aylu s (1767); The A n tiq u itie s o flo n ia , C h a ndler (1769); A n tiq u itie s o f H e rcu la n u m , T . M artin e J. L ettice (1773); D e sty lo in sc rip tio n u m la tin a ru m , M orelli (1780); B a s-reliefs a n tiq u es d e R o m e, Z o ega (1783); L ex ic o n universa e rei n u m a ria e veteru m , T asch e (1785); C h o ix d e p ie r re s g ra v ées du ca b in et im p éria l, E ckehl ( 1788); V oyage d u je u n e A n a c h a r s is en G rè c e , B a rth é lé m y (1 7 8 8 ); A r c h a e o lo g ia littera ria , E m e sti (1790); V ases a n tiq u e s p e in ts d e la c o lle c ­ tion d e W. H a m ilto n , T ischbein (1791); D o ctrin a n u m m o ru m veteru m , E ckehl (1792). 103 LA N G E R , J . As o rigens da A rqueologia C lássica. Rev. d o M u seu d e A rqueologia e E tnologia, São Paulo, 9: 95-110, 1999. 6. Os sistem a tiza d o res (1760-1790) N o plan o cien tífic o p ro p ria m e n te d ito , o e ru ­ dito C o n de de C a y lu s16 foi o p rim eiro a an tec ip ar um a n o v a d e fin iç ã o do m é to d o arq u e o ló g ic o . A in o v a ç ã o c o n s is tia em u m a te o ria d a c la s s ific a ­ ç ã o tip o ló g ic a ,17 p re se n te em seu liv ro R e c u e il d ’A n tiq u ité s (1 76 7 ): “L es m o n u m e n ts p ré se n té s sous ce p o in t de vue se d istrib u e n t d ’eu x -m ê m es en q u e lq u e s c la sse s g én é rale s re la tiv e s aux pays qu i les o n t p ro d u its et d ans ch a q u e ils se ran g e n t dans un ord re re la tif au tem ps qui les a vu n a ître ” (S c h n a p p 1982: 7 62 ). N o q u e p o d e se r c o n s id e ­ rado o m om ento cu lm in a n te da trad ição dos antiquários, o Conde de C aylus reuniu o conhecim ento e n c ic lo p é d ic o co m o e stu d o do o b je to . A s e v i­ d ê n c ia s a rq u e o ló g ic a s p a s sa m a ser c o n te x tu a liz a d a s em urna p e rsp e c tiv a c ro n o ló g ica , e e s tu ­ d ad a s atra v és de su as e stru tu ra s físic a s e m o rfo ­ lógicas. E s s a n o v a c o n c e p ç ã o se ria s is te m a tiz a d a pelo alem ão Jo h an n W in ck e lm a n n ,18 ain d a no sete c e n to s . A o d is tin g u ir d ife re n te s p e río d o s a r ­ tís tic o s b a s e a n d o -se nas p a rtic u la rid a d e s do e s ­ tilo , c rio u a h is tó ria d a a rte c lá s s ic a . A d a p ta r, p o r su a v ez, o c o n te x to d o s a rte fa to s a um a n te ­ c e d en te so c ial no m u n d o a n tig o , foi u m a c o n s e ­ q ü ê n c ia ló g ic a. M as qu e ta m b ém é u m a im ag em (16) A nn e C lau d e P hilip p e d e T u b iè res G rim o ard - arq u eó ­ logo, co lecio n ad o r, g rav ad o r e e sc rito r fran c ês (P aris 1692 - id. 1765). V isito u a Itá lia (1714), a G récia, a H olanda, a In g la te rra e, de v o lta a P aris, to rn o u -se am igo de W atteau e de P .-J. M ariette. P u b licou em esp ecial um im portante R e c u e il d ’a ntiquite's é g yp tien n es, étru sq u es, g re cq u es, rom a in e s e t g a u lo ise s (1 7 5 2 -1 7 6 7 ) ( G ra n d e L a ro u sse 1998: 1270). (17) A tip o lo g ia é to d a o rd en ação de um co n ju n to de a rte ­ fatos b a se a d a na c o n fro n taç ão sistem ática d os seus a trib u ­ tos in trín se c o s (m atéria-p rim a , fo rm a etc.) e ex trín seco s (co n tex to arq u eo ló g ico ), visa n d o à o b ten ção de in fo rm a ­ ções sob re a in ter-relação dos artefa to s no tem p o e no e s­ paço . A tip o lo g ia, en q u an to o p eração de c la ssificação p or se m elh an ças e diferen ç as, po de p a rtir de critério s fu n c io ­ nais (p elos u so s), m o rfo ló g ico s (p elas fo rm as) e assim p o r d ia n te (F unari 1988: 81). (18) H isto ria d o r d a arte e a rq u eó lo g o alem ão. E stev e em R om a, on d e fo i b ib lio tecário do V atican o e d ed ico u -se a um estu d o m etó d ico do s m o n u m en to s an tig os. D efen so r in co n d icio n al d a arte grega, co n trib u iu com seus escrito s p a ra o d esen v o lv im e n to s d a co rre n te n eo clássica, com em H istó r ia d a a rte na a n tig ü id a d e , 1764 ( G ra n d e L a ro u sse 1998: 60 17). 104 id e a liz a d a d a a n tig ü id ad e. A e s ta tu á ria g re g a to ­ m a d im e n sõ e s ap a ix o n a n tes e esp eta cu la re s com W in ckelm an n , que n u n ca ch e g o u a v isita r a G ré­ cia, m as co n c e b e u as e s tá tu a s h e lé n ic a s com o o e x e m p lo m á x im o do b e lo . A s is te m a tiz a ç ã o da A rq u e o lo g ia o c o rre u em u m a c o n ju n tu ra to ta l­ m en te fav o ráv e l. O sé cu lo X V III b u sc a v a in c e s­ s a n te m e n te a o rd e n a ç ã o do m u n d o e do p e n s a ­ m e n to , e p o r c o n s e q ü ê n c ia , a c la s s ific a ç ã o dos se re s e d as fo rm a s. E m 1751, a p a re c e u a p r i­ m e ira e d iç ã o d a E n c y c lo p é d ie d e D id e ro t e D ’A lem bert, o p ro jeto m áxim o do século das L u­ ze s, v is a n d o a c o m p ila ç ã o do c o n h e c im e n to . N este m o m en to, to d o e x p lo ra d o r do m u nd o b u s­ c a v a a c la s s ific a ç ã o s is te m á tic a d o se u o b je to d e estu d o , e a A rq u e o lo g ia ap e n a s a co m p a n h o u e ssa te n d ên c ia . C om relação ao m étodo de escavação, W in­ ckelm ann já m anifestava um a visão crítica, ao visitar H erculanoem 1764: “A d ireç ã o do s tra b a lh o s fo i e n tre g u e a um en g en h eiro espanhol, cham ado R oche Jo­ a q u im A lc u n ie rre (...) E sse h o m em , qu e en ­ tend ia tan to de antig ü idad es quanto a L ua en ­ te n d e d e la g o sta s, d eu , p o r su a in é p c ia , e n ­ sejo a que se p erd e ssem m uitas antigüidades (...) H av e n d o D on R och e, com o tem po, g a l­ g ad o um p o sto su p erio r, a su p e rin te n d ê n c ia e a d ireção das o bras m en cio n ad as foram co ­ m etidas a um o ficial suíço, cham ad o C harles W eber, h o je m a jo r; e é ao seu b o m senso qu e dev em o s to d as as m ed id as ju d ic io sa s to ­ m ad as, a p a rtir d e en tão , no in tu ito de trazer à luz esse te so u ro de an tig ü idad es. A prim ei­ ra c o isa que ele fez foi tra ç a r um m ap a exato e c o m p le to das g a le ria s s u b te rrâ n e a s e dos e d ifíc io s a q u e ela s c o n d u z ia m . E h istó ric o de to d o o d e s c o b rim e n to (...) D e am bo s os lado s de um fo sso to rn o u o m ap a ain d a m ais in te lig ív el, a c re sc en ta n d o -lh e m in u cio so re ­ la to p rin c ip a l, c a v a d o em lin h a re ta , os tra ­ balh ad o res, altern adam ente, esvaziam câm a­ ras, m ed em -lh es em p alm o s o co m p rim en to , a la rg u ra e a a ltu ra ; à m a n e ira q u e p ro s ­ seg u em , re tira m o en tu lh o d e c a d a u m a d e s­ sas câ m a ra s e le v a m -n o p a ra a c â m a ra fro n ­ teira, esv az ian d o p o r ú ltim o ” (W inckelm ann 1973: 58 -6 2 ). A p rim e ira e ó b v ia d ife re n ç a le v a n ta d a pelo sábio alem ão , em rela çã o às a n tig a s e sca v açõ e s, foi a q u estão do re g istro e sp a c ia l do sítio , se g u i­ L A N G E R , J. A s o rigens d a A rqueologia Clássica. Rev. d o M u seu d e A rq u eo lo g ia e E tnologia, São Paulo, 9: 95-110, 1999. do do a c o m p a n h a m e n to de to d a s as d e s c o b e r­ tas. A sim p le s b u sc a d e p re c io s id a d e s , os o b je ­ tos v isto s apen as p o r seu v alo r m a teria l, estav a m com os d ia s c o n ta d o s. O c o n tro le d as in fo rm a ­ çõ es o b tid as na p e sq u isa de ca m p o , to rn a -se im ­ p e ra tiv o , se ja a tra v é s d e d e s c riç õ e s te x tu a is ou com a u x ílio de ilu s tra ç õ e s. N a m a io ria d o s c a ­ sos, o co rreu u m a fu sã o d o s d o is p ro ce d im en to s, sendo m u itas vezes o a rq u e ó lo g o ta m b ém um a r­ tista. A s obras de W incklem ann to rnaram -se m uito p opulares n a E uropa. F oi o p rim eiro a p u b lic ar as descobertas de H erculano de um a form a crítica, Von d e n h e r c u la n is c h e n E n td e c k u n g e n (D re s d e n , 1762). E ra tam bém a prim eira obra livre de nom en­ claturas e term inologias totalm ente eruditas, escrita em linguagem popular, facilitan d o a com preensão das pesq u isas de cam po. E m 1764, v o lta à região d e N á p o le s e p u b lic a N a c h r ic h te n v o n d e n neu esten h e rcu la n isch e n E n td e cku n g e n , basead o em suas visitas às cid ad es soterradas. O C on d e de C a y lu s tra d u z iu e im p rim iu em fra n c ê s e s se memorial, popularizando ainda mais as pesquisas nas cortes européias. Em R o m a su rg iu o m ais in flu e n te e p o p u la r liv ro do e ru d ito g e rm â n ic o , M o n u m e n ti a n tic h i in e d iti (1 7 6 7 , co m 2 6 8 p r a n c h a s de c o b re e g rav u ras), b a lu a rte do n e o c la ssic ism o e p ro tó ti­ po da A rqueologia m oderna: “W inckelm ann trans­ cen d e l ’a rc h é o lo g ie n on s e u le m e n t p a r la p ertinence de ses analy ses, m ais p ar la q u alité de son style et l ’a m b itio n d e son e s th é tiq u e ” (S c h n a p p 1982: 7 6 2 ). C o in c id in d o c o m a g r a n d e q u a n tid a d e de p u b lic a ç õ e s d e a r q u e o lo g ia e c o m a su a s is te m a tiz aç ã o , te m o s d u ra n te a se g u n d a m e ta d e do s e te c e n to s a c r ia ç ã o d o s m u se u s m o d e rn o s : M useu B ritâ n ic o (1 7 53 ), M u seu P io -C lem en tin o (R o m a , 178 2 ) e M u se u N a c io n a l d a F ra n ç a (1 7 9 3 ). H e rd e iro s d o s g a b in e te s d e c u r io s id a ­ de, co m o o b je tiv o de d iv u lg a r a c iê n c ia , e s ta s in s titu iç õ e s a g o ra “ v o lta m -s e p a ra a g lo r if ic a ­ ção do E sta d o e d a H is tó ria ” (B itte n c o u rt 1997: 3 6). Im p o rta n te s e s p a ç o s d a c o n te m p la ç ã o f í ­ s ic a d a n a ç ã o , o n d e o s te s o u ro s , r e líq u ia s e m o n u m e n to s a r q u e o ló g ic o s s e rã o e x p o s to s , a u x ilia n d o n a in te r p re ta ç ã o p a ra o p ú b lic o do p a s s a d o h is tó ric o d a c iv iliz a ç ã o o c id e n ta l. A p e rc e p ç ã o e s p a c ia l d a s f r o n te ir a s n a c io n a is , m u it a s v e z e s ta m b é m s e r á e f e t u a d a c o m re fe re n c ia is a rq u e o ló g ic o s . 7. A A rq u eo lo g ia clá ssica o ito cen tista (1 8 0 0 - 1835) N o início do oitocentos, a quantidade de expe­ dições e escavações arqueológicas foi extrem am ente numerosa. Se por um lado, essas pesquisas já perten­ cem a um a nova concepção metodológica, dita cientí­ fica e moderna, estavam totalmente vinculadas aos prin­ cípios expansionistas das grandes potências mundiais. E muito difícil separar a Arqueologia clássica deste período do colonialismo europeu: “as ruínas e as obras-primas do passado constituem-se, paralelamente, em importan­ tes elementos ideológicos na manutenção das estruturas de poder, legitimando regimes políticos dos mais varia­ dos matizes” (Funari 1988:51). E m 1804, o oficial inglês W illiam L eake reali­ zou um levantam ento com pleto das ruínas e sítios gregos. Porém , o interesse central de suas incursões era o estudo geográfico grego, com finalidades m i­ litares (Levi 1996: 25). Se nos séculos anteriores, a retirada por estran­ geiros de objetos arqueológicos de sítios gregos e rom anos foi com um, agora incluía tam bém fragm en­ tos colossais. Entre 1803 e 1812, Lorde Elgin, m inis­ tro britânico na T urquia, retirou im ensa q u an tid a­ de de relíquias g reg as19 do P artenon para o M useu B ritânico. N a próp ria Inglaterra E lgin foi sev era­ m ente criticado. D urante o m esm o período, outro britânico, E dw ard Clarke, transportou a gigantesca estátua de E lêusis para C am bridge. N os dois casos, a população grega m ostrou-se severam ente co n trá­ ria às remoções dessas antigüidades (Levi 1996:210). Outros exem plos da retirada de preciosidades arque­ ológicas durante o oitocentos, foram o transporte da cabeça de Ram sés II por Belzoni (do Egito para Lon­ dres) e o tesouro descoberto por Schliem ann (da Tur­ quia para Berlim). N o aspecto operativo, as escavações tom am se m ais coletivas, financiadas diretam ente por ó r­ gão culturais ligados a instituições políticas. C ri­ am -se organizações especializadas, com o o In sti­ tuto do E gito (1798); M useu N acional de A n tig u i­ dades de C openhage (1818); Instituto di C orrispondenza A rcheologica (1829); Instituto A rqueológico ( 1 9 ) 0 inven tário consistia de escu lturas o riginais atenienses, estátu as, altos e b aix os-relevo s, capitéis, co rn ijas, frisos e colunas. D o P artenon fo ram retirados um cap itel, b a se s da c o lu n a e acanaladuras, tríglifos, m útulo s d a co rn ija e telh as de m árm ore do am bu lató rio (M em o ránd um 1811: 46). 105 L A N G E R , J. A s o rigens da A rqueologia C lássica. Rev. do M u seu de Arqueologia e Etnologia, São P aulo, 9: 95-110, 1999. de Berlim ; Sociedade de A rqueologia G rega (1835); E cole F rançaise D ’A rchéologie (1846). Surge outro m om ento da arqueologia, com método ainda mais or­ denado e a estética da arte unida à expedições coleti­ vas, investigando as diversas partes do M editerrâneo e do m undo. O s periódicos publicados pelos intitutos tom am -se comuns, atendendo aos mais diversos tipos de especialidades e temáticas da antiguidade material. Em um a outra perspectiva, saindo dos dom ínios turcos a partir de 1833, a G récia financia escavações procurando um resgate próprio, sem interferências da Inglaterra ou Alem anha. M as ainda com o auxílio de especialistas estrangeiros. A ssim com o o M éxico na m esm a época, os nacionalistas gregos recorrem às pesquisas arqueológicas para reforçar a noção de um a consciência nacional, resgatando as antigas gló­ rias esquecidas. D esta m aneira, o m étodo científico de investigar o passado tanto serve p ara legitim ar a dom inação colonialista quanto para propagar a liber­ dade nacional. P irâ m id es, h ieróglifos e m istério: A E g ip to lo g ía (séc. X V II - 1822) Se durante o setecentos, a erudição foi dom i­ nada pelo m undo clássico, advindo das descobertas de Pom péia e H erculano, durante o séc. X IX as via­ gens de exploração e colonização do mundo am plia­ ram as fronteiras do conhecimento arqueológico. Ru­ ínas, cidades perdidas, vestígios de antigas civiliza­ ções são encontrados na Á sia, Á frica, P olinésia e América. M as certam ente um a das regiões onde hou­ ve m aior interesse popular e erudito, acerca de te­ m as antigos, foi o Egito. Terra do m istério, suas ca­ racterísticas peculiares a transformaram num dos gran­ des marcos do im aginário oitocentista, influenciando a cultura, a ciência e a arte m oderna. O interesse pelo país dos faraós vinha já de m ui­ tos séculos. D urante o seiscentos, organizaram -se as prim eiras expedições ao E gito, que levaram para a E uropa preciosos m anuscritos em língua copta, pas­ síveis de serem traduzidos. O prim eiro grande estu­ dioso do E gito, A thanasius K ircher (1602-1680), u tilizou-se desses docum entos. K ircher, a exem plo de diversos outros hum anistas e antiquários, criou m uitas fantasias interpretativas a respeito do passado eg íp cio , devid o ao seu fra ca sso em trad u zir os hieróglifos. N a im possibilidade de com preenderem a cu ltu ra do E gito, tam bém os exploradores criaram reproduções carregadas de referenciais europeus. O 106 q uadro C olonne de C leo p a tre , de G em elli Careri (Voyage du to u r du m o n d e , 1729) é um exem plo. R e p re se n ta n d o o o b e lisc o d e S e só stris I, seus hieróglifos são estilizados e caricaturados, semelhan­ tes aos desenhos alquim istas e m edievais. A paisa­ gem de fundo p arece ev ocar as antigas ruínas de Rom a. D a m esm a maneira, G. Z oega no O belisco de P sa m é tic o II (D e o rig in e e t usu o b elisc o ru m , 1797), apresenta figuras mitológicas realizadas em um estilo distante do egípcio. D esde a Idade M édia, os escritos clássicos foram o grande referencial cultural sobre o E gito. A té m esm o a confecção de m apas e plantas, até 1800, era realizada a partir de fontes gre­ gas (B aines & M álek 1996: 22). O século X V m conheceu duas importantes obras sobre antigüidades egípcias, escritas por B em ard de M ontfaucon e pelo barão de C aylus. A m bos conce­ beram um im portante espaço para a descrição dos objetos e vestígios do Egito, abrindo cam inho para a form ação de diversas coleções na Europa. M as os estud o s m o dern os da eg ip to lo g ía, fo­ ram co n cebid os após a ex p edição de N apoleão ao C airo, em 1798. A s m o d ificaçõ es que se prod u zi­ ram no clim a intelectual da Europa, com seus resul­ tados em p íricos, afetaram o p ró p rio transcurso da A rqueologia. A cam panha francesa era, ao m esm o tem po, um p ro jeto de co n q u ista m ilitar, som ada a intentos naturalistas: levantaram -se dados geológi­ cos, astronôm icos, quím icos, botânicos, geográfi­ cos, arqueológicos, entre outros. Sendo a com issão co m p osta p o r 165 erud itos, tran sp o rtan d o inúm e­ ros aparelhos e instrum entos científicos. As investi­ gações arqueológicas praticam ente excluíram esca­ v a ç õ e s , c o n c e n tr a n d o - s e ep i r e p r o d u ç õ e s e m oldagens de estátuas, notas e desenhos de inscri­ ções d e sarcófagos. U m a das peças recuperadas, um bloco de basalto com inscrição em três línguas, foi c h am ad a P edra de R oseta, e co nstituiu a chave para solucionar a deciffação dos hieróglifos. O acha­ do c a u so u g ra n d e im p a c to , n o tic ia d o p e lo Le C o u rrie r de V E g yp te (1799). O s resu ltad o s das pesquisas francesas no E gito foram publicados en ­ tre 1809-1822, na o b ra D e sc rip tio n de V E gypte (10 volum es textuais e 12 de ilustrações), com d e­ senhos de D om inique V ivant D enon.20 (20) G rav ad o r e arq u eó lo g o fran c ês (G iv ry 1747 Paris 1825). N om ead o d ireto r-g eral d os M useus em 1802, foi o p rim e iro o rg an izad o r do L o u vre ( G ra n d e L a ro u s se 1998: 1818). L A N G ER , J. As origens da A rqueologia C lássica. Rev. d o M u seu d e A rq u eo lo g ia e E tnologia, São P aulo, 9: 95-110, 1999. D enon publicou seu próprio trabalho em 1802, Voyage dans la B ase et la H aute Egypte. Im presso em Paris, foi um estrondoso sucesso na Europa, tendo 40 edições consecutivas e traduzido para diversas ou­ tras línguas. O grande êxito dessa obra assim com o a D escription de / ’E gypte, deve-se em parte à inexis­ tência de bibliografia disponível sobre o tema na Euro­ pa. As livrarias européias, até 1810, praticam ente não tinham nenhum título a oferecer sobre tem as egípcios (Ceram 1956: 85). As duas obras ofereciam basica­ m ente descrições e desenhos reprodutivos, pois as interpretações de detalhes dos m onum entos e perío­ dos históricos eram desconhecidas, basicamente, pela ilegibilidade da escrita. O livro de D enon reforçou a m oda da egiptomania, reinante entre os intelectuais, artistas e popu­ lares. A principal característica de suas ilustrações é um encanto evocativo do Egito. Em O templo de Denderah, V ivant D enon caracterizou as ruínas sendo percorridas pelos militares e sábios franceses, em seu topo, nas laterais, adentrando-as, m edindo e contem ­ plando os monumentos. A idéia da cultura napoleónica dom inando o m undo antigo e o atual é em inente. No quadro de H iera cô m p o lis, essa concepção é ainda mais enfatizada. As pequenas ruínas, ocupando o cen­ tro, são esboçadas por um francês, de pé na extre­ m idade esquerda d a estam pa. N o outro lado, sen­ tados, dois beduinos observam o trabalho. O contraste entre a civilização erudita e a cultura prim itiva serve para ilustrar os propósitos da expedição francesa no Egito: levar as luzes do conhecim ento aos singelos povos orientais, descendentes inafortunados do glo­ rioso passado arq u eo lóg ico. E m o u tra estam pa, S phinx de G izeh, quatro eruditos m edem a cabeça da Esfinge, com o auxílio de um a escada. O curioso é que, ao contrário de outras reproduções m onum en­ tais egípcias que realizou, D enon criou um desenho totalm ente caricatural. A boca da estátua possui de­ lineam ento, assim com o os olhos e a sobrancelha. O ro sto foi a rre d o n d a d o , p ro d u z in d o u m e fe ito contrastante com os outros detalhes da escultura. O resultado final é a reprodução de um m am eluco-ára­ be. M ais um a vez, a oposição contrastante da o p e­ ração francesa com os habitantes da região tom a-se evidente. C ontrastando com essa visão pitoresca e co ­ lonialista da terra das pirâm ides, tam bém pode ser percebido no texto de sua o b ra um a ad m iração grandiosa pela terra redescoberta: “Ao exam inar o conjunto das ruínas, a im a­ ginação se cansa só de p en sar em descrevê-las (...) p a ra te r u m a id é ia a d e q u a d a d e ta n ta m agnificência, cum pre que o leitor se im agine diante de um sonho, pois o próprio esp ec tad o r não acredita no que vê (...) A en trad a d a aldeia de L uxor exibe surpreendente m escla de indigência e m agnificência e me proporciona um a idéia terrível da gradação dos grandes períodos no Egito. A figura-se-m e o grupo m ais pitoresco e a m ais pasm osa representação da história dos tem pos: nunca se sentiram os m eus olhos e a minha imaginação tão vividamente impressiona­ dos quanto à vista desse m onum ento. Eu vinha freqüentem ente a este lugar m editar: gozar do passado e do presente, co rtejar as sucessivas gerações de habitantes pelas respectivas obras, que se estendiam diante dos m eus olhos, e ar­ m azenar no espírito volum es de m ateriais para m editações futuras” (D enon 1973: 115-116). N esta descrição apaixonada das antigüidades faraônicas, percebe-se o caráter m editativo das ruí­ nas, tipicam ente rom ântico. O avistam ento dos ves­ tígios derruídos incita a um a reflexão poética, próxi­ ma do onírico, com petindo com um a visão m etódica da h istória. O u tro s ex p lo rad o re s e u ro p e u s m a­ nifestaram essa im pressão perante a im ensidão m o­ numental do Egito, com o Giovanni Belzoni em 1820: “Sentei-m e à som bra de um a das pedras do lado direito, que form am a parte do tem plo que se erguia diante da pirâm ide naquela direção. Os m eus olhos fitaram -se na m assa enorm e, que, durante séculos, desconcertaram as conjeturas de autores antigos e m odernos (...) A vista da obra m aravilhosa, que avultava à m inha frente, deixava-m e tão pasm ado quanto a total obscu­ ridade em que nos acham os no que respeita à sua origem , ao seu interior, à sua co nstrução ” (Belzoni 1973: 118). M esm o após a decifração dos hieróglifos, o ca­ ráter m isterioso do país das pirâm ides ainda vai deli­ near o im aginário ocidental. Belzoni, ao com entar as construções de G izé, não pôde deixar de m encionar o total desconhecim ento acerca desses m onum entos, tam bém belos e grandiosos. Do m esmo m odo Vivant D enon percebeu o caráter enigm ático do E gito, em sua ilustração A gra n d e g a leria de K éops (1822). Portando archotes, sábios franceses e guias beduínos penetram pelo corred o r estreito e escuro d a grande pirâm ide. Seus m ovim entos são controlados, com os olhos visivelm ente atenuados, denotando um a p er­ ceptível sensação de m edo. U m oficial tem as duas 107 L A N G E R , J . As origens da A rqueologia C lássica. Rev. d o M u seu d e A rqueologia e E tnologia, São P aulo, 9: 95-110, 1999. m ãos em posição de grande pavor. M ais um a vez, a continuidade do caráter m isterioso da A rqueologia prossegue no imaginário ocidental, característica pre­ sente desde o R enascim ento até a descoberta de ruí­ nas exóticas no oitocentos, cujo passado insiste em mostrar-se de m aneira oculta. M as esse véu em parte seria desfeito, com a genialidade de F rançois C ham pollion.21 D om inan­ do um a vasta quantidade de línguas arcaicas aos 17 anos, o jov em sábio instalou-se em Paris no ano de 1821. T endo com o base a idéia de que os hieró­ glifos seriam ao m esm o tem po ideogram áticos e fonéticos e, ainda, analisando a pedra de R oseta, as in scrições do obelisco de Philae, decifrou os nom es de alguns soberanos. C onhecendo os carac­ teres básicos do alfabeto, conseguiu chegar a d o ­ m inar todo o idiom a. E m 1822, escreveu a fam osa L ettre à M. D acier, revelando os segredos de sua descoberta. O trabalho ganhou aos poucos o reco­ nhecim ento acadêm ico, sendo ele nom eado cu ra­ d or das coleções egípcias do Louvre. U m a das conseqüências im ediatas do sucesso de C ham pollion, além de reforçar a m oda da egiptom ania, foi aum entar o interesse dos grandes m u­ seus pelos objetos egípcios. Todos queriam conhe­ cer as m aravilhas do m undo faraônico. D ezenas de expedições turísticas e de pesquisas foram rea­ lizadas p or esse período, assim com o viagens de aventureiros em busca de riquezas perdidas e o au ­ m ento de falsificações. O utro im ediato efeito das descobertas do sábio francês, foi a im portância que os estudos paleográficos receberam na A rqueolo­ gia oitocentista. Form aram o interesse para o estu­ do da escrita arcaica de outras civilizações (com o a dos b árb a ro s n ó rd ico s e os m e so p o tâ m ico s), fornecendo elem entos p ara o im aginário: as in s­ c riç õ e s a n tig a s são u m a im p o rta n te m a rc a do (21) Je an -F ran ço is C h a m p o llio n , o jo v e m arq u eó lo g o fra n ­ cês (F ig e ac 1790 P aris 1832), a p aix o n o u -se p elo estudo das lín g u as orien tais con h ecid as. O exam e m in u cio so da p ed ra de R o seta lhe fo rn ec eu , ao p e rm itir iso lar com se g u ­ ra n ç a os n om es p ró p rio s das perso n ag e n s, u m a base se g u ­ ra p ara p re p a ra r o d e c ifra m e n to dos hieró g lifo s. E m 1822 p u b lico u su a L e ttre à M r. D a c ie r re la tiv e à l ’a lp h a b e t d e s h ié r o g ly p h e s p h o n é tiq u e s , c arta de fu n d ação d a le itu ra dos h ie ró g lifo s, e, em 1824, seu P ré c is du sy stè m e h ié r o g ly p h i­ q u e. T o m o u -se c o n se rv a d o r do d e p artam en to eg íp cio do L o u v re em 1826. E n tre suas o u tras ob ras citam -se: M o n u ­ m e n ts d e l ’E g y p te e t d e la N u b ie (1 8 3 5 -1 8 4 5 ), G ra m m a ire é g y p tie n n e (1 8 3 5 -1 8 4 1 ) ( G ra n d e L a ro u sse 1998: 1328). 108 referen cial civ ilizató rio , in dicad oras do sintom a d a ev olu ção de um a so cied ad e no tem po. R efle x õ es fin a is E m co n c lu sã o , ob serv am o s no artigo algu­ m as etap as p o r que o m étodo arq u eoló gico p as­ sou d esd e a Id ad e M édia. A s in flu ências cu ltu ­ ra is d e c a d a p a ís e so c ie d a d e ,, a c re sc e n ta n d o n o v a s fo rm a s d e c o n c e p ç ã o do p a ssa d o . A s­ sim com o a in te rferê n cia de elem en to s sim bóli­ co s e m ític o s no im a g in á rio , cu lm in a n d o com c o n c e p ç õ e s n a c io n a lis ta s n o p e río d o m o d e r­ no. A A rq u e o lo g ia fo i um im p o rta n te in stru ­ m e n to na c o n stru ç ã o id e a liz a d a d a H istó ria, e até h o je é o p e ra c io n a liz a d a co m e ssas in te n ­ ções: “a a rq u e o lo g ia não é um estu do p assivo d as c u ltu ra s do p a s sa d o . A ssim , d ific ilm e n te se rá n e u tra e au tô n o m a, p o is o p e ra d en tro de um co ntex to só cio -cu ltu ral m ais am plo e desem ­ p e n h a um p a p e l a tiv o n o s p ro c e s s o s de m u ­ d an ças so c ia is” (R o d rig u es 1991: 193). A brin­ do c lareira s no ig n o to h u m an o , a A rq u eolo gia ta m b ém in stitu iu re p re s e n ta ç õ e s n as so c ie d a ­ des, q ue a in d a se fa z e m p re se n te s até nossos dias, com o a im ag em do arqu eó log o no cinem a e n a lite ra tu ra . O p ró p rio p ap e l do s cien tistas n e s te lo n g o p ro c e s s o , in ic ia d o c o m o s an tiq u á rio s re n a sc e n tista s, re m e te à in se rç ão des­ tes em seu tem po. P o rtan to , os lim ites entre a ciên c ia da cu ltu ra m aterial e a represen tação do p a s s a d o s ã o m u ito tê n u e s : r e m e te m aos m e ca n ism o s sim b ó lic o s de p o d er nas so c ied a­ des. A final, com o afirm ou L eo n ard W ooley, as fro nteiras en tre a A rq u eo lo g ia e a H istória não são in d e fin id a s? L A N G ER , J. A s o rigens da A rqueologia C lássica. Rev. do M u seu d e A rq u eo lo g ia e E tnologia, S ão Paulo, 9 :9 5 -1 1 0 ,1 9 9 9 . L A N G E R , J. T h e orig in s o f C lassical A rchaeo logy . Rev. d o M u se u d e A rq u e o lo g ia e E tn o lo g ia , Sao P a u lo , 9: 9 5 -1 1 0 , 1 9 99. A BSTR A C T: T he p resen t w o rk intends to reco v er historical aspects o f the archaeological science, dem onstrating the interference o f cultural and im aginary elem ents in its constitution. U N IT E R M S : H isto ry o f A rc h a e o lo g y - G ra e c o -ro m a n A rc h a e o lo g y E g iptology - A rchaeological m yths. 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