Instantâneos da Fotografia Contemporânea
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Sobre este e-book
Nascido de pesquisas realizadas nos últimos 10 anos, os textos deste livro acusam transições que ocorreram e ocorrem no percurso da fotografia. A análise dos problemas na nossa duração contemporânea dá espaço a perceber as relações como um jogo de vai e vem de referências, apropriações, retomadas, cortes e novas práticas sem precedentes. É um contemporâneo que, para a fotografia, elabora o campo de possibilidades e pressões que não se situa aprisionado no presente. Alternativamente, ele joga no presente com os repertórios diversos que questionam e trepidam as bases de como, e não somente o que, pensamos da fotografia.
Duas metáforas visuais orientam os textos. A apropriação da ideia do clique fotográfico, do instantâneo, que permite situar um pedaço de algo acontecido. É portanto, um fragmento incompleto, mas também amostra significativa do todo. A outra metáfora é o labirinto. Este, ao seu turno, reflete a miríade de caminhos possíveis. Alguns são explorados, outros abandonados, às vezes, há retornos. Alguns se bifurcam, se expandem e se entrecruzam. O caminho do labirinto, e o da fotografia têm esse aspecto em comum: são sempre incompletos, incertos, imprecisos. O estudo desse cenário, a partir das suas pistas, é o fio/método que liga esses instantâneos.
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Instantâneos da Fotografia Contemporânea - José Afonso Júnior
COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO
A todos e a todas que fazem da pesquisa, mais que a
produção do conhecimento, um ato de resistência.
AGRADECIMENTOS
Este livro é fruto de um percurso. Portanto, os agradecimentos estão espalhados ao logo do tempo em que os textos foram produzidos. Primeiro, à minha casa acadêmica, a Universidade Federal de Pernambuco onde tive espaço, oportunidades e incentivos para a produção de muito do que está aqui. Bem como dos meus colegas de ensino e pesquisa na área de Fotografia desta instituição.
Aos meus alunos e orientandos de graduação, de iniciação científica, mestrado, doutorado e dos seminários de pesquisa, por me darem motivos para sair de casa e ter o privilégio de trabalhar e ensinar/aprender fotografia como um ato de vida.
Aos meus amigos fotógrafos, especialmente Eduardo Queiroga, Mateus Sá, Fred Jordão, Ana Araújo, Ricardo Labastier, Fred Jordão, por me inspirarem com suas poéticas.
Aos colegas pesquisadores do GP de fotografia da Intercom, especialmente a Paulo Boni, Ana Tais e Wagner Souza e Silva, pela tradução luminosa do amor à fotografia em forma de diálogo, aprofundamento de questões, acolhimento, solidariedade e estímulo.
Ao conselho editorial deste livro, pelo interesse e apoio dado ao esforço de publicação.
Ao povo lá de casa
, sempre lembrando que desistir não é palavra nem opção no dicionário dos Bastos-Afonso.
À Bárbara (in memoriam) por me suportar nos momentos mais difíceis que atravessaram o tempo destes textos. Agradeço por tudo que foi presente e lhe peço perdão por quando esqueci disso.
PREFÁCIO
O que faz uma fotografia ser… uma fotografia? Em tempos de tamanha produção, circulação e consumo de imagens, já não saberíamos o suficiente, mesmo que empiricamente, sobre elas? Que estranho mistério nos compele a refletir sobre algo com o qual estamos tão familiarizados, algo que nos atravessa a vida, a existência, a permanência? Por que não nos basta a convivência, desfrutar de sua companhia? Bem, na verdade, a dinâmica da reflexão é alimentada pela complexa teia dos acontecimentos mundanos, daquilo que nos afeta. A teoria pressupõe uma prática, um acontecer sobre o qual ela se debruça e se constrói. Para o qual lança dúvidas, perguntas e questionamentos.
A reflexão, então, é esse aberto, um percurso, uma busca: tenta compreender o que acontece, experimenta, cruza informações, desenha definições – inclui aí o risco do concluso, encerrado, mas com a certeza de que muitas respostas passam para perguntas que permanecem. Um estudo observa a práxis, a questiona e, não raro, provoca revisões na própria prática estudada. É vetor de transformações.
A imagem fotográfica – que nos interessa e nos aproxima, especialmente – inaugurou a classe das imagens técnicas e germinou questões que tocam a reprodutibilidade, a autoria e a representação, entre muitas outras. Nos seus menos de 200 anos de existência, assumiu tantas materialidades e aplicações diferentes que se torna difícil tentar defini-la por esses caminhos. A convergência digital potencializou a posição de centralidade da imagem na sociedade contemporânea e explodiu as fronteiras – e reservas – entre consumir, fazer e, principalmente, publicar fotografias. Se estamos assistindo a mudanças radicais na maneira como trabalhamos, como estudamos ou nos relacionamos com amigos e familiares; se pensarmos que a imagem permeia todas essas esferas, temos muito o que aprender e entender sobre o papel da fotografia e as metamorfoses que esse papel vem sofrendo no mundo atual. E isso atinge usos profissionais
e amadores
.
Os textos que compreendem este livro se embrenham na fotografia por diferentes veredas. Ora as reflexões enfrentam mais diretamente reposicionamentos no campo do fotojornalismo, ora a fotografia vernacular ou o Instagram. O jogo de ficções e realidades desponta no equívoco composicional de Chichico Alkimim. A leitura dos capítulos me levava a diferentes viagens por esse terreno cujo interesse compartilhamos, mas também à conexão com a sala de aula – cabeça de professor visualizando a utilidade dessas páginas a tantas e tantas discussões presentes nos encontros com alunos e orientandos.
A fotografia é algo que José Afonso Jr. estuda, pesquisa, frequenta, desenvolve, cria, cura, critica, orienta, coleciona e ensina. Acumula muitos anos como professor da linguagem nos diversos cursos de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco. No programa de pós-graduação da mesma instituição, tem acolhido e estimulado muitas investigações de mestrandos e doutorandos cujos objetos orbitam em torno da fotografia. Ele contribui, dessa maneira, para uma maior propagação e descentralização da produção acadêmica envolvendo a imagem fotográfica: sublinha, reforça o traço que marca a participação do Nordeste – e de Pernambuco, mais precisamente – no mapa da pesquisa em fotografia no país. Colabora tanto com publicações científicas quanto com a imprensa cultural, amplia o diálogo com pesquisadores, fotógrafos e público em geral. É possuidor de uma biblioteca invejável sobre fotografia, cujos volumes não hesita em repartir para alimentar uma tese ou uma boa conversa. Com isso, condensamos algumas qualidades do autor deste livro que não poderíamos deixar de tocar: expansivo nas ideias e generoso no compartilhar, Afonso não poupa palavras nem esforços, não é sujeito dado a filtros, para ajudar ou para colocar uma pulga atrás da orelha.
Este livro é parte, portanto, de um elenco de aproximações que Afonso faz com a fotografia, incluindo aí sua produção autoral, sua criação como fotógrafo. Cumpre um papel importante na disseminação de ideias, na manutenção dos espaços de reflexão e na ampliação dos diálogos sobre a imagem, essa matéria tão fortemente presente na nossa sociedade contemporânea e ainda tão pouco compreendida na sua complexidade. Seu pé na produção, no consumo e na apreciação fermentam um saber delicado nas palavras de Walter Benjamin, que cita Goethe, que é citado por John Berger e por Afonso: existe uma terna empiria que se identifica intimamente com o objeto e com isso transforma-se em teoria
(BENJAMIN, 1995, p. 103). A passagem está na Pequena História da Fotografia, de Benjamin e também aqui no livro.
Se toda fala, todo discurso se constrói numa teia de falas anteriores, de citações, comporta também um arco inaugural, uma atitude que aporta o novo. A criação se faz nesse fio esticado entre o conhecido e o desconhecido.
Equilibrar-se nesse fio exige coragem e resistência. Lançar-se nessa empreitada é, em si, um ato de resistência, tão urgente e necessária, tão cara e valiosa. Como diz Afonso mais adiante, olhar para as bordas é perceber que mesmo quando não mostra ou explicita algo, a fotografia ainda é capaz de falar sobre o que não se vê
.
Recife, fevereiro de 2021
Eduardo Queiroga.
Fotógrafo, professor e pesquisador.
Na fotografia não existem sombras que não possam ser iluminadas.
(August Sander)
Conselho editorial deste livro
Prof.ª Dr.ª Ana Carolina Lima Santos.
Universidade Federal de Ouro Preto – Ufop.
Prof.ª Dr.ª Ana Tais Martins Portanova Barros.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
Prof. Dr. Antônio Fatorelli.
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
Prof. Dr. Benjamin Picado.
Universidade Federal Fluminense – UFF.
Prof. Dr. Fábio Gomes Gouveia.
Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes.
Prof.ª Dr.ª Greice Schneider.
Universidade Federal de Sergipe – UFS.
Prof. Dr. Joaquim Marçal Ferreira de Andrade.
Biblioteca Nacional.
Prof. Dr. Mauricio Lissovsky.
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
Prof.ª Dr.ª Nina Velasco.
Universidade Federal de Pernambuco – Ufpe.
Prof. Dr. Paulo César Boni.
Universidade Estadual de Londrina – UEL.
Prof. Dr. Rodrigo Rossoni.
Universidade Federal da Bahia – UFBA.
Prof. Dr. Ronaldo Entler.
Fundação Armando Álvares Penteado – Faap.
Prof. Dr. Silas de Paula.
Universidade Federal do Ceará – UFC.
Prof. Dr. Wagner Souza e Silva.
Universidade de São Paulo – USP.
Sumário
INTRODUÇÃO 19
Da foto à fotografia: Os jornais precisam
de fotógrafos? 23
Cinco hipóteses sobre o fotojornalismo em cenários
de convergência 41
Duas ou Três Observações Sobre o World Press Photo 57
A quem interessa a morte do fotojornalismo? 71
Polaroid, 70 anos da fotografia instantânea 75
Da fotografia Expandida à Fotografia Desprendida: Como o Instagram Explica a Crise da Kodak e Vice-versa 83
O livro perdido de Sander: A Fotografia, o vestir e a identidade no período entre guerras 95
O segundo clique da fotografia. Entre o registro do instante e o instante compartilhado 109
O terceiro clique da fotografia. Reindicialização das imagens efêmeras em telas flutuantes 123
Fotografia vernacular, uma história silenciada
da fotografia 139
O Retrato da tristeza. A representação do sujeito público na carte-de-visite oitocentista na Coleção Francisco Rodrigues 143
Diante de uma foto de Chichico Alkmim: equívocos entre as molduras de enquadramento e composição
no retrato fotográfico 159
O segundo pêndulo da fotografia documental. Entre os paradogmas de informar e os impasses do enformar 175
ÍNDICE REMISSIVO 187
INTRODUÇÃO
Este livro é resultado de duas transições. A primeira é da própria fotografia. Ou ao menos dos desdobramentos sobre ela. Após a consolidação da fotografia digital, algo que levou cerca de 20 anos, temos um conjunto de novos usos que apontam para alterações gritantes como, aliás, quase tudo nesse tempo em que vivemos.
O agrupamento destes textos não foi por uma motivação de exaurir determinado tema. Buscamos escolher trabalhos produzidos na última década que respondessem a tensões específicas, nas quais a fotografia se relaciona com o mundo tal qual uma interface. Ou seja, um espaço de negociações, de alterações das regras do jogo, das elaborações entre pessoas, sentidos e modos de uso da imagem em um mundo crescentemente complexo. Reforçamos ainda que os textos foram reescritos, passando por uma atualização de dados, remoção de algumas referências datadas e contextualização em uma escala mais atemporal. Mas esse redesenho em absoluto direcionou a intencionalidade original de cada texto – o esforço foi de se manter fiel às concepções presentes na elaboração de cada um deles.
Assim, os textos que aqui estão revelam questões entrelaçadas entre a fotografia e a nossa duração. Portanto pode, e deve, ser lido de modo não linear, abordando os capítulos aleatoriamente. A pouca interdependência entre os textos, escritos a partir de pesquisas do autor, monta-se como um labirinto de questões.
Nesse sentido, o fio que permite caminhar no labirinto, ou a chave de leitura sugerida, é se apropriar da ideia do clique fotográfico, do instantâneo que permite situar a cena como uma amostra de algo acontecido. Isso não significa que tratamos somente de problemas atuais. Mas também de questões históricas da fotografia que continuam a desembocar no presente.
Ao pensar a fotografia contemporânea, temos não só a presença de práticas inéditas historicamente, mas também a adaptação de usos e protocolos que se mesclam ao tempo atual. Assim, o sentido deduzível de contemporâneo que assumimos é mais que o presente, é uma sintonia no presente, um ambiente de encontros e reinvenções, ou uma experiência dilatada do tempo, de recuperação e ressignificação. Isso demanda a preocupação em fugir de tentações ontológicas, ditames dos grandes nomes da fotografia, ou correntes estéticas consagradas por um certo conjunto de historiadores e críticos.
Se a opção de leitura for a do começo ao fim, tentamos agrupar a sequência dos capítulos aproximando os temas. Essa ordenação acusa a segunda transição, a do próprio autor. Os primeiros textos refletem a saída de um campo de pesquisas em que trabalhou por mais de 10 anos, o da pesquisa em Jornalismo, para o campo da produção teórica e crítica em fotografia. Isso se nota nos quatro primeiros textos, que abordam alguns problemas que reconfiguram posições estruturadas no campo do fotojornalismo e da fotografia documental.
Prosseguindo, temos textos mais voltados para a prática cotidiana, instantânea, e seu reposicionamento de modelos na era digital. Não deixa de ser paradoxal, ou anedótico, que é a fotografia digital que nomeia toda fotografia existente antes como analógica. Este é mais um exemplo de como entender o contemporâneo que não aprisiona as experiências no tempo presente, mas o presente como tempo de articulação dos acontecimentos. A ideia é medir o pulso dessas mudanças no uso da fotografia por não especialistas, o público massificado. Falar da Polaroid, da Kodak, do Instagram e suas apropriações vernaculares é abordar não só a mudança dos modos de acesso à fotografia, mas também a conciliação dos procedimentos e regularidades percebidos em novos rituais.
Os textos seguintes abordam a estruturação da fotografia em torno dos dispositivos de composição e registro da imagem e suas intencionalidades sociais. Falar do retrato no século XIX é falar dos protocolos de encenação para a construção da imagem pública do sujeito. Falar das bordas e de quem as ocupa no enquadramento é falar de segregação. Olhar para o livro clássico de August Sander, Homens do século XX, e falar sobre moda e identidade. Todas essas questões, presentes na passagem entre os séculos XIX e XX permanecem válidas e jogam luzes sobre a ressignificação dessas intencionalidades nas formas de uso atuais. Labirintos entrecruzam caminhos.
Fechando o livro, os dois últimos textos já abordam relações ampliadas entre os usuários da fotografia e o dispositivo de clicar. Tratam-se das camadas que adensam o ato da captura da imagem, para fazê-la circular e registrar um mundo progressivamente dependente de suas telas.
Portanto o que dá unidade ao livro não só é tentar ler os conteúdos como um conjunto de flagrantes sobre a fotografia e seus problemas, mas também como um labirinto de possibilidades. Essa imagem não é à toa. Ela reflete a miríade de caminhos possíveis. Alguns são planejados, outros abandonados, e, às vezes, há retornos. Alguns não têm saída, outros se bifurcam, expandem-se. Há ainda os que se conectam de modo não previsto. O caminho do labirinto, como o da fotografia, tem esse aspecto: é sempre incompleto, incerto, impreciso. Precisa de um fio entre os deslocamentos para permitir uma saída. O fio é o método que liga esses instantâneos.
Da foto à fotografia: Os jornais precisam de fotógrafos?
Abordar o fotojornalismo na atualidade envolve as mudanças de dois conjuntos de práticas. Primeiro, do próprio jornalismo em crise, no esvaziamento dos seus lugares de prática em torno de mídias massivas; segundo, o da fotografia, essa por seu turno, sacudida por um sem fim de reposicionamentos dados pelos processos da cultura digital, hiperconectada. Dessa forma, a emergência de novas tecnologias da imagem complexifica a própria concepção do meio fotográfico no entorno do que entendemos como sociedade digital. De modo geral, a sua aparição não só supõe um câmbio nos modos de construir e criar imagens. A mudança entre bases tecnológicas foi, durante as décadas de 1990 e 2000, objeto de investigações centradas, sobretudo, no eixo de substituição ou transposição de práticas a novos suportes e rotinas. Depois de duas décadas e meia, vale observar o horizonte de problemas pelo prisma de um cenário de produção fotojornalística já consolidado e em interoperabilidade com outras possibilidades narrativas, produtivas e estéticas, assentes na vida digital. Investigar os fenômenos que orientam mudanças estruturais já inseridas em contextos de cultura profissional, como a convergência, orienta a compreensão das questões com desdobramentos futuros.
Um dado empírico que cristaliza esse momento de acúmulo de mudanças se deu ainda na primeira metade da década, em 2013. De modo inusitado, o jornal norte-americano Chicago Sun Times demitiu toda sua equipe de fotógrafos e atribuiu aos repórteres de texto a responsabilidade de fotografar e filmar suas reportagens. De um modo direto, a medida colocou na rua 28 profissionais de fotografia, sendo alguns