Este resumo descreve um livro que analisa como as novas tecnologias digitais estão transformando o mundo do trabalho através da "uberização" e da "indústria 4.0", levando à precarização das condições laborais. O livro discute como conceitos como "empreendedorismo" mascaram a exploração do trabalho e criam um "precariado". Apesar das conclusões preocupantes, os autores buscam notas positivas sobre novas formas de organização dos trabalhadores.
Este resumo descreve um livro que analisa como as novas tecnologias digitais estão transformando o mundo do trabalho através da "uberização" e da "indústria 4.0", levando à precarização das condições laborais. O livro discute como conceitos como "empreendedorismo" mascaram a exploração do trabalho e criam um "precariado". Apesar das conclusões preocupantes, os autores buscam notas positivas sobre novas formas de organização dos trabalhadores.
Este resumo descreve um livro que analisa como as novas tecnologias digitais estão transformando o mundo do trabalho através da "uberização" e da "indústria 4.0", levando à precarização das condições laborais. O livro discute como conceitos como "empreendedorismo" mascaram a exploração do trabalho e criam um "precariado". Apesar das conclusões preocupantes, os autores buscam notas positivas sobre novas formas de organização dos trabalhadores.
Este resumo descreve um livro que analisa como as novas tecnologias digitais estão transformando o mundo do trabalho através da "uberização" e da "indústria 4.0", levando à precarização das condições laborais. O livro discute como conceitos como "empreendedorismo" mascaram a exploração do trabalho e criam um "precariado". Apesar das conclusões preocupantes, os autores buscam notas positivas sobre novas formas de organização dos trabalhadores.
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MANA 27(1): 1-4, 2021
e271803
RESENHA
http://doi.org/10.1590/1678-49442021v27n1r803 Público do Trabalho (MPT). Os artigos
ANTUNES, Ricardo (org.). 2020. dessa obra revelam uma nova dimensão Uberização, trabalho digital e do mundo do trabalho precarizado, indústria 4.0. 1. ed. São Paulo: cujo objetivo é trazer uma melhor Boitempo. 333 pp. compreensão dos múltiplos significados do universo laborativo nas plataformas digitais nos mais distintos setores Rômulo Bulgarelli Labronici1 produtivos. 1 Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Aqui, o termo “uberização”, uma Universidade Federal Fluminense (PPGA-UFF/ derivação do nome da plataforma de InEAC-LAESP), Niterói/RJ, Brasil transportes Uber, é empregado como um https://orcid.org/0000-0002-9860-0244 processo no qual as relações de trabalho E-mail: [email protected] são cada vez mais individualizadas e invisibilizadas, sendo o assalariamento e a exploração cada vez mais encobertos. Na contemporaneidade, as possib- Apresentado como uma espécie de ilidades da vida e as potencialidades de generalização e espraiamento de ação econômica encontram-se cada vez características estruturantes da vida de mais na ponta dos dedos. Atualmente, trabalhadores da periferia, que transitam basta o toque em um aparelho eletrônico em uma trajetória de instabilidade e ligado à internet para que seja possível ausência de identidade profissional, comprar, vender, produzir, trocar e permeados por insegurança e pela falta realizar todo tipo de serviço e transação de redes convencionais de proteção. Esta imaginável. Entretanto, para que essas é uma tendência em curso implementada “maravilhas” (aspas minhas) do mundo por corporações globais e que se moderno se desdobrem diante dos nossos intensificou com o advento da pandemia olhos, novas formas de elaboração das de SARS CoV-2, que assolou o mundo forças produtivas são criadas, produzindo nos anos 2019/2020, estando ainda em novos arranjos no mundo do trabalho. curso. Facilitada pelas Tecnologias da Tais arranjos geram uma série de Informação e Comunicação (TIC), a questionamentos sociológicos para com expansão dos aplicativos desenvolve os seus efeitos, muitas vezes danosos, e amplia de modo exponencial o do que se convencionou chamar de infoproletariado ou ciberproletariado “capitalismo de plataforma” (:62). É nisso (Antunes & Braga 2009). que se desdobra a coletânea organizada O termo “indústria 4.0”, muito pelo professor Ricardo Antunes, que traz utilizado aqui, aponta para a ampliação 19 artigos de importantes pesquisadores dos processos produtivos cada vez mais brasileiros e estrangeiros em uma automatizados e robotizados em toda a parceria entre a Unicamp e o Ministério cadeia de valor controlada digitalmente, 2 RESENHAS
o que, segundo os autores Ricardo prestado. Ideologicamente acionada, a
Antunes (cap. 1) e Rafael Grohmann categoria mencionada acima atua aqui (cap. 6), vem produzindo um vilipêndio com o intuito de, por um lado, mascarar em relação ao trabalho, destruindo a as contradições de classes produzidas separação entre o tempo de vida dentro pelo capital, por outro, explicita e e fora dele, originando uma “escravidão coloca em evidência suas diferenças. O digital” (Antunes 2018). Tal separação é trabalhador converte-se assim em um evidenciada no papel dos “parceiros” que “quase-burguês” (:16) que “autoexplora” trabalham com/para estas plataformas, seu próprio trabalho. tendendo a permanecer longas horas do O ambiente de trabalho moderno, dia “on-line” para adquirir uma renda, com ênfase no curto prazo, não permite muitas vezes insuficiente ou abaixo das que as pessoas desenvolvam narrativas condições mínimas para a sobrevivência. coerentes para suas vidas, reforçam A noção de “parceria” aqui empregada os autores Tonelo (cap. 9) e Filgueiras utiliza-se largamente de tecnologias, e Cavalcante (cap. 11). Realçado pela algoritmos e inteligência artificial, “força dos laços fracos” (Granovetter canalizados para o lucro das empresas 1973), as for mas passageiras de com um caráter onipresente e automático associação se apresentam mais úteis de supervisão e controle disciplinar que as ligações de longo prazo, sobretudo dos trabalhadores detalhadamente nas qualidades de produção de relações explorado por Jamie Woodcook (cap. 2). sociais duráveis e sustentáveis. Tal As parcerias, como novas modalidades argumento vai ao encontro da expressão de trabalho digital, passam ao largo das “capitalismo flexível” (Sennet 1998) no regulações contratuais, transformando que diz respeito à imposição feita aos o “trabalho assalariado em prestações trabalhadores para que sejam ágeis, de serviços” (:11). Tal forma poderia ser estejam abertos a mudanças de curto entendida outrora a partir do conceito prazo, assumam riscos e dependam de “infor malidade”, mas este foi cada vez menos de leis e procedimentos historicamente esvaziado para indicar formais. Esta dinâmica entre o trabalho e processos mais gerais de “flexibilização”, a vida pessoal não pode ser programada “terceirização” e “desregulamentação”, e ou adequada, impondo o constante vem sendo recorrentemente substituído receio de uma falta de disciplina ética. pelos termos empregabilidade, ou mais Assim, é possível assimilar na obra a ainda, empreendedorismo, como novos inexistência atual de longo prazo, pois modos de exploração capitalista (Silva a redução do trabalhador a um fator 2002). de produção utilizado na exata medida A categoria “empreendedorismo” das demandas do capital coloca- o aqui é exemplar, pois trata-se de uma inteiramente disponível ao trabalho, forma oculta de trabalho assalariado mesmo que nem sempre remunerado apresentada como “independente e para isso. autônoma” (:23), uma vez que impõe As empresas se apresentam como ao trabalhador uma autoimagem de mediadoras da oferta e da procura, proprietário e proletário de si mesmo. Ele embora sejam elas que detêm os meios detém um grau de liberdade (por mais de controle sobre o gerenciamento, a que ilusória) para a realização da função, distribuição e a definição de valores sendo também ele quem assume os riscos pagos pelos serviços prestados. Aqui, e os custos da realização do serviço a própria categoria de “trabalho” RESENHAS 3
pode ser expressa a partir de seu (Standing 2011), distinta do assalariado,
contraponto, o “não trabalho”, haja inserido em atividades desprovidas de vista que ambas possuem, segundo o direitos, estabilidade e garantias de antropólogo Mariano Perelman (2014), renda, não sendo algo estático, mas um definições historicamente carregadas processo (:77) que ora amplia, ora reduz de sentidos objetivos e subjetivos que a capacidade de resistência, revolta e são valorados independente da tarefa organização. em si. Enquanto algumas atividades são Notadamente, os autores mais legitimamente consolidadas como reforçam que é inegável apontar para tal, outras, muitas delas exploradas pelo a importância do papel da tecnologia capitalismo de plataforma, encontram-se na elaboração da “natureza do trabalho em uma zona cinzenta entre o trabalho e digital” (:48). A ligação entre o tempo e o não trabalho. A forma como são vistas a distância foi, assim, quase inteiramente impacta os modos como as pessoas se rompida, permitindo que a questão relacionam (consigo mesmas, umas com geograficamente localizada do trabalho as outras e com as instituições) e como fosse superada. Tal superação insere vivem e expressam suas conformidades uma condição de concorrência entre e desconformidades referentes aos seus os trabalhadores de todo o mundo, modos de vida. diminuindo cada vez mais o seu poder A noção de “precariado ”, ou de barganha. precariedade, conceito elaborado por Apesar de conclusões não muito diversos autores das mais variadas esperançosas, os autores que contribuem correntes de pensamento, é empregado nesta obra, tal como Ludimila Abílio aqui por Graham e Anwar (cap. 3), (cap.7) e Marco Gonsales (cap.8), Filgueiras e Antunes (cap.4) tal como na buscam finalizar com uma nota sociologia do trabalho, tanto no sentido positiva, explorando as novas formas de das condições de trabalho quanto na associação, sindicalização e organização experiência subjetiva de insegurança de trabalhadores que visam contra- vividas por empresas e por trabalhadores. atacar as narrativas empresariais e os Se, por um lado, as empresas forçam vilipêndios aos direitos adquiridos pela os trabalhadores à precariedade, elas nova regulação trabalhista. As disputas também operam precariamente como pela “inovação” movem-se para o campo plataformas enxutas. Com isso, o político e de marcos regulatórios legais modelo imprime duas ilusões inter- que possuem um centro de gravidade relacionadas. A primeira é a ilusão do ainda desfavorável às demandas e controle por parte das empresas, que às exigências dos trabalhadores. A dependem inteiramente da coleta de assimetria de forças evidenciada entre dados para a determinação da força o capital e o trabalho não é parte de de trabalho; a segunda é a ilusão da um processo inexorável, mas resultante liberdade por parte dos “parceiros”, de constantes disputas na assimilação que têm suas rotinas inteiramente desta narrativa, cuja designação entre gerenciadas por parte das plataformas, organização da produção e do trabalho mas sem o “espetáculo da autoridade” no capitalismo atual é respondida (:44), muitas vezes personificada na criticamente. figura do chefe. As pressuposições O livro fecha com uma série de aqui são de que o “precariado” seria o capítulos que abordam estudos de surgimento de uma nova classe social caso, pesquisas qualitativas e análises 4 RESENHAS
etnográficas que contêm discussões de abordagens e formas com as quais
e diálogos diretos, tais como: direito o capitalismo de plataforma tem se ambiental (Schinestsck, cap. 5); direito inserido nos processos produtivos atuais. do trabalho (Praun & Antunes, cap. 12); Assim, a obra, além de ser uma referência cadeia de automação (Pinto, cap. 13; aos pesquisadores do tema, se torna uma Festi, cap. 10); trabalho digital e educação leitura essencial e obrigatória para quem (Previtali & Fagiani, cap. 14); o trabalho se interessa em explorar as questões digital nos bancos (Nogueira, cap. 15); mais atuais e originais referentes a este saúde de trabalhadores (Nogueira, cap. universo. É, sem dívida, uma leitura de 16); “ walmartização” (Lemos, cap. 17); peso que contribui de maneira veemente transnacionalização (Aguiar, cap. 18) para a consolidação dos debates das e ciberativismo e sindicalismo (Roque, ciências sociais contemporâneas. cap. 19), evidenciando a multiplicidade
Referências bibliográficas
ANTUNES, Ricardo (org.). 2020. Uberi- SENNET, Richard. 1998. A corrosão do
zação, trabalho digital e indústria 4.0. caráter: consequências pessoais do 1. ed. São Paulo: Boitempo. 333 pp. trabalho no novo capitalismo. São ANTUNES, Ricardo. 2018. O privilégio Paulo: Ed. Record. da servidão: o novo proletariado se SILVA, Luiz Antônio Machado da. 2002. serviços na era digital. São Paulo: “Da informalidade à empregabilida- Boitempo. de (reorganizando a dominação no ANTUNES, Ricardo & BRAGA, Ruy mundo do trabalho)”. Caderno CRH, (orgs). 2009. Infoproletráios: degra- Salvador, n. 37:81-109, jul./dez. dação real do trabalho virtual. São STANDING, Guy. 2011. The precariat: Paulo: Boitempo. the new dangerous class. Londres: GRANOVETTER, Mark. 1973. “Strength Bloomsbury Academic. of the weak ties”. American Journal of Sociology, 78:1360-80. PERELMAN, Mariano. 2014. “Vivendo el trabajo. Transformaciones sociales cirujeo yventa ambulante”. Trabajo y Sociedad, n. 23:45-65.
Do proletariado ao cibertariado: a concepção de um Estado Democrático de Direito de dimensão dromológica para o enfrentamento do desemprego tecnológico no Brasil