Sheila C. Dos Santos - Experiência e Lugar PDF
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EXPERIÊNCIA E LUGAR
GEOGRAFIA ORAL COM JUDEUS
Porto Velho
2012
Sheila Castro dos Santos
EXPERIÊNCIA E LUGAR
GEOGRAFIA ORAL COM JUDEUS
S2373e
CASTRO, Sheila
Experiência e Lugar: Geografia oral com judeus / Sheila Castro dos Santos.
Porto Velho, Rondônia, 2012.
247f.: il.
CDU: 911:2
(CUNHA, 2010)
RESUMO
The construction of this thesis is substantiated in the areas of Human Geography and
Geography of Religion, and is meant to understand and highlight the place of the
Jewish rites practiced in Porto Velho. This was exposed by use of the
phenomenological-hermeneutic method and methodology in Oral Geography, which
has the stamp of this participatory research to understand how an advance in the
reflections of the readings and themes that served to consolidate the interpretations
relating to "place" "memory", "daily "," migration " and " religion ". To conductthis
work, we highlight Yi-fu Tuan, Eric Dardel, Paul Claval, Caldas, Halbwachs and
others working in various areas of study of Human Geography. The understanding of
these reflections that had points of intersection within the research, this way we
construct a study of man and the "place". The Geography of Religion was the basis
for conducting the interpretations it was possible to understand the religious space
formed by human attitudes full of feelings and actions directed to the supernatural or
the sacred, so we understand the signs that remain vividly transmitted through ritual
practice held in place determined. Was exposed through the experiences that the
narratives were interpreted, we find from the analyzes the symbolic, the value of the
place where the ritual is pract iced, the infighting and its organization.
IMAGENS
Capítulos 1 Shofar......................................................................................................13
Capítulos 2 Hamsah...................................................................................................37
Capítulos 3 Menorah..................................................................................................56
Capítulos 5 Mezuzah................................................................................................179
ORGANOGRAMA......................................................................................................26
FLUXOGRAMA..........................................................................................................48
FOTOS
MAPAS
A.E.C. significa Antes da Era Comum. Usamos esta sigla, e a sigla E.C., pois elas
estão presentes em quase todos os textos da história judaica.
AMISRAEL: Associação dos Amigos de Israel
CEJURON: Centro Judaico de Rondônia
E.C. significa Era Comum.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 9
CAPÍTULO 1. O JUDAISMO SOB O OLHAR DA GEOGRAFIA HUMANA ............. 13
1.1 Os Caminhos da Geografia ........................................................................................ 14
1.2 A Geografia cultural .................................................................................................. 17
1.3 A Geografia da religião .............................................................................................. 21
2.1 A busca pelo método.................................................................................................. 38
2.2 A Perspectiva Hermenêutica para a Geografia............................................................ 40
2.3 A Perspectiva da Fenomenologia para a Geografia..................................................... 43
2.4 O Percurso Metodológico .......................................................................................... 48
CAPÍTULO 3. MIGRAÇÕES JUDAICAS....................................................................... 56
3.1 De Anfictionia à Reino Unificado .............................................................................. 64
3.2 O Início das Diásporas ............................................................................................... 73
3.3 Judaísmo na Europa ................................................................................................... 75
3.4 Movimentos Ashkenazim e Sefaradim ....................................................................... 82
3.5 Os Livros Judaico .................................................................................................... 104
CAPÍTULO 4. AS EXPERIÊNCIAS NARRADAS ........................................................ 113
Narrador I ...................................................................................................................... 114
Narrador II .................................................................................................................... 131
Narrador III ................................................................................................................... 134
Narrador IV ................................................................................................................... 136
Narrador V .................................................................................................................... 154
Narrador VI ................................................................................................................... 163
Narrador VII.................................................................................................................. 170
CAPÍTULO 5. EXPERIÊNCIA E LUGAR UMA LEITURA GEOGRÁFICA ............ 179
5.1 O “Nascer” para o judaísmo ..................................................................................... 190
5.2 O Encontro com a comunidade de Porto Velho ........................................................ 193
5.3 Costumes e Ritos Judaicos ....................................................................................... 198
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 224
GLOSSÁRIO ................................................................................................................... 230
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................ 236
INTRODUÇÃO
9
Esta dissertação encontra-se estruturada em cinco capítulos elaborados de
maneira a evidenciar a espacialidade da experiência vivida pelos membros da
comunidade judaica de Porto Velho.
Na abertura de cada capítulo há uma ilustração que possui valor simbólico
para o judaísmo e logo abaixo desta há uma oração retirada do folder memorial
elaborado pelo rabino Salomon Manelaz’l, na tradução de cada oração a palavra
“Deus” está escrita conforme uso judaico, optamos por deixá-la desta maneira, para
fazer distinção quando a palavra “D’us” aparecer com apostofre e sem a vogal “e” é
uma indicação direta de como os judeus a usam, isto ocorrerá em citações e nas
narrativas. Outra ressalva importante é de quando nós fizermos referência a Iahweh,
usaremos a palavra “Deus” entre aspas para nossas interpretações.
O primeiro capítulo é referente à teoria, nele evidenciamos os percursos que
nos conduziram a entender a Geografia como fonte de pesquisa das experiências
humanas no espaço e lugar, com o uso de teóricos que nos embasaram diante
nossas reflexões. A imagem deste capítulo é de alguns instrumentos que são
denominados de shofar, estes são tocados em ocasiões muito especiais pelos
judeus, devido à particularidade do seu som. Ele só deve ser usado simbolicamente
para a lembrança de que Iahweh está com o povo judeu, e com isso incentiva-os,
dando-lhes força quando estão em alguma batalha.
Por nossa base teórica ser de extrema importância, e foi por meio dela que
fizemos as interpretações na categoria de análise geográfica de “lugar”, o valor
simbólico do shofar nos serviu bem. Nesse capítulo evidenciamos um dos percursos
realizado pela Geografia da Religião para propiciar a interpretação da espacialidade
religiosa do homem em seu lugar de vivência.
O capítulo dois é referente ao método hermenêutico-fenomenológico e à
metodologia de pontuação em Geografia Oral utilizada na pesquisa. A imagem na
abertura deste, é de uma Hamsa com desenhos de dna, nos dedos e ao fundo da
imagem há ilustrações de judeus dentro de uma sinagoga. Ela tanto é usada
individualmente como pingente em um colar, como também coletivamente quando
colocada como ornamento em uma casa. Para os judeus a Hamsa simboliza a
presença de “Deus” sobre a vida de quem a usa. Quando colocada no lar indica
proteção para quem adentrar nele.
O método e a metodologia foram aplicados em toda estrutura da pesquisa,
com a combinação entre a hermenêutica-fenomenológica e a Geografia Oral
10
entendemos e evidenciamos as especificidades que a comunidade judaica de Porto
Velho possui. A metodologia também propiciou-nos o alicerçamento dos teóricos
que nos respaldaram no decorrer deste trabalho, para ao chegarmos no capítulo que
corresponde a leituras interpretativas entendemos as experiências construídas no
lugar, e ao interpreta-las fizemos considerações pertinentes à comunidade e aos
estudos realizados para entendimento da religião judaica.
O capítulo três é referente à criação e aos percursos migratórios realizados
pelos judeus. A imagem de abertura é de uma réplica da Menorah. Ela é um antigo
símbolo judaico, é um candelabro onde há 07 lumes de lâmpadas, uma haste central
e 03 braços que saem de cada lado, este foi levado pelo Império Romano em 76 E.
C., como o significado da observância aos preceitos do judaísmo, e também a
lembrança da aliança de “Deus” com este povo. Essa imagem, neste capítulo,
reporta-se à lembrança e uma exposição de alguns fatos que foram de suma
importância para que o judaísmo fosse disseminado em diversos países.
Contudo, restringimos os fatos históricos que caracterizasse a migração
judaica para os territórios que hoje fazem parte do continente americano.
Escolhemos pontos que esclarecessem a permanência e a consolidação da religião
judaica dentro de um contexto macro, condizente com sua origem e sua dispersão
pelo Oriente e Ocidente. Logo após, conduzimos as dispersões judaicas para nosso
contexto de pesquisa, que é a comunidade judaica de Porto Velho. Deste modo,
conseguimos entender as especificidades deste judaísmo expressado neste lugar.
O capítulo quatro é referente às narrativas, essas foram num total de nove.
Contudo, utilizamos apenas sete por sentirmos que seriam apropriadas nesta
ocasião, pois estes narradores exporam suas experiências de modo, que nos
possibilitou evidenciar em sua narrativa as disparidades existentes na comunidade,
e desta maneira entendemos as questões, com isso as interpretações das
experiências que foram narradas.
Neste capítulo não colocamos nenhuma imagem, por entendermos que as
narrativas em si manifestam a religiosidade judaica. Ora como seguimos a proposta
da Geografia Oral para confecção da entrevista, deixamos o que foi narrado com a
temporalidade do que foi falado, o que fizemos foi termos a cautela para que no
momento da entrevista o narrador não fosse influenciado a responder o que
queríamos. Seguimos com rigor a metodologia proposta no capítulo dois, o que
capacitou a expor as interpretações, considerando as teorias, o método, as
11
narrativas e o que foi observado na trajetória das idas à campo foram exposto no
capítulo cinco. Pois são as experiências vividas pelo judeu, a externalização de sua
fé, a maneira que cada um enxerga o outro é que foram observadas nesta trajetória
e com convicção serviram para as interpretações que fizemos.
No capítulo cinco foram realizadas as interpretações, evidenciamos o
resultado encontrado na pesquisa, de modo que realmente ela fosse “a experiência
vivida no lugar Porto Velho”, trabalhamos a interpretação das entrevistas embasados
nas teorias estudadas. Nele também há nossa vivência no decorrer da pesquisa,
pois foi possível realizar as análises seguindo o método, a metodologia e a teoria, ou
seja a maneira como nos comportamos no campo de pesquisa, como nos portamos
com os entrevistados, e como entendemos as leituras realizadas.
A imagem que utilizamos neste capítulo é a de uma mezuzah. Esta é uma
caixa bem pequena, tem a forma retangular ou cilíndrica, pode ser feita de madeira,
metal ou acrílico. Colocada no umbral direito da porta, do lar, da sinagoga ou do
comércio indica a presença do “Deus” naquele lugar, dentro da mezuzah é colocado
um versículo da Torah.
Nós a usamos, para indicar a presença do rigor metodológico e do uso da
teoria, na leitura realizada das fontes bibliográficas e na interpretação das narrativas.
E, relatando também nossa experiência em campo, participando das reuniões e
conhecendo cada vez mais a cultura e a religião judaica presente em Porto Velho.
Neste capítulo evidenciamos a construção das experiências produzidas no lugar, e
conseguimos entender por quais motivos ainda, hoje, não construíram sinagogas em
Porto Velho, pois realizam as celebrações ritualísticas em seus lares ou no
CEJURON.
O texto continua após esse capítulo, com a consideração final da pesquisa,
em que escrevemos nossos argumentos finais. Logo em seguida apresentamos um
glossário, expondo algumas palavras e termos usados de difícil compreensão, por
estarem em outro idioma.
12
CAPÍTULO 1. O judaismo sob o olhar da Geografia Humana
http://mesillatyesharim.blogspot.com/2007/09/o-toque.html
Bendito és Tu, Adonai nosso D’us, Rei do universo, por cuja palavra tudo
veio a existir (Rabino Salomon Manelaz’l).
13
1.1 Os Caminhos da Geografia
1
Revolução francesa, que ficou caracterizada com a ascenção burguesa ao poder e com a
participação de toda população que vivia na miséria na França.
14
Ao entendermos os diversos caminhos percorridos pela Geografia Humana
até sua consolidação e, que durante o percurso o geógrafo sentiu necessidade cada
vez maior de compreender o humano. E, foi ao buscar nesse momento uma nova
forma de entender os aspectos que norteavam a vontade do homem, ou seja,
aspectos que lhes davam direção, motivos, impulsionam sentimentos ou estimulam
a busca de significados do que está à sua volta, ora o estudioso na ciência
geográfica aperfeiçoaram o método, a teoria e a técnica para que sua aplicação
pudesse sempre ficar melhor.
Capel observa que a Geografia Humanista tinha como objetivo “una mejor
comprensión del hombre y de su condición”, dessa maneira a geografia devia “se
distancia de las ciéncias de la Tierra” (1988: p. 443). Pois, ao propor como objetivo
uma melhor compreensão do homem e de sua condição enquanto ser que altera o
lugar onde habita e algumas vezes modifica seu modo de vida de acordo com o
lugar vivido é que a Geografia Humana conseguiu aos poucos distinguir-se das
ciências físicas que delimitam suas análises em dados factuais, com cálculos sem
levar em conta a dinâmica do sentimento e da vontade do homem enquanto ser
social que molda seu lugar em conciliação com suas posses.
Diante da concepção de antropogeografia desenvolvida por Ratzel (1882-
1891) a Geografia ganha nova percepção, pois percorre um novo caminho ao dar
ênfase a uma nova disciplina que propicia os valores humanos, pois estes até
aquele momento não faziam parte de suas interpretações. Com a concepção de
Ratzel passa-se a descrever as áreas onde vivem os homens, e mape-a-las com
mais minuciosidade; outro ponto é o estabelecimento das causas geográficas para
que os homens se dispersassem na superfície da Terra e também a defini-se a
influência da natureza sobre o corpo e o espírito dos homens. Sabemos que estes
princípios que nortearam a concepção de Ratzel não foram aprofundados por ele,
porém a partir de sua leitura começou-se a questionar mais sobre a ação humana.
Com a formulação da Antropogeografia, Ratzel observou atributos, que
acompanham a existência dos povos, que são a “essência” e a “mobilidade”. Em
seus estudos ele evidenciou que, cada povo domina diversas técnicas necessárias,
para que aconteça adaptação ao meio em que vivem, e para o desenvolvimento
necessário e continuação da sociedade, de acordo com Corrêa:
15
Ratzel desenvolve assim dois conceitos fundamentais em sua
antropogeografia. Trata-se do conceito de território e de espaço vital,
ambos com fortes raízes na ecologia. O primeiro vincula-se a
apropriação de uma porção do espaço por um determinado grupo,
enquanto o segundo expressa as necessidades territoriais de uma
sociedade em função de seu desenvolvimento tecnológico, do total
de população e dos recursos naturais (CORRÊA: 1995, p.18. Grifos
nossos).
16
outros, fez dentro deste seu lugar de trabalho e de morada, uma parte sua, onde
seus anseios são refletidos, ou seja, o lugar é um ponto menor que o território.
2
Sua primeira edição foi em 1952, contudo utilizamos a edição atual de 2011.
18
A geografia não designa uma concepção indiferente ou isolada, ela
só trata do que me importa ou do que me interessa no mais alto grau:
minha inquietação, minha preocupação, meu bem estar, meus
projetos, minhas ligações. A realidade geográfica é, para o homem,
então, o lugar onde ele está, os lugares de sua infância, o ambiente
que atrai sua presença. Terras que ele pisa ou onde ele trabalha, o
horizonte do seu vale, ou a sua rua, o seu bairro, seus
deslocamentos cotidianos através da cidade. A realidade geográfica
exige, às vezes duramente, o trabalho e o sofrimento dos homens.
Ela o restringe e o aprisiona, o ata à “gleba”, horizonte estreito
imposto pela vida ou pela sociedade a seus gestos e a seus
pensamentos. A cor, o modelado, os odores do solo, arranjo vegetal
se misturam com as lembranças, com todos os estados afetivos, com
as ideias, mesmo com aquelas que acreditamos serem as mais
independentes (DARDEL: 2011, p. 34).
A obra de Dardel durante muito tempo ficou olvida, sem seguidores para
darem continuidade ao seu estudo a respeito das sensações humana dentro do
espaço vivido demoraram um pouco mais para terem repercursão, contudo com o
avanço do estudo geográfico sua obra foi relembrada e constatada como uma das
pioneiras a referir-se ao estudo da Geografia buscando compreender o homem por
meio da fenomenologia. Observamos também que para Dardel,
19
Os questionamentos propostos até então pela Geografia Cultural
demonstravam o interesse maior pelos objetos e utensílios usados pelos homens,
para explorar, modificar e organizar a paisagem do seu habitat. Desse modo, com o
avanço tecnológico e a modernização do século XX, a maior parte dos estudos em
Geografia toma um novo rumo, este evidenciado nas pesquisas quantitativas e da
área da Geografia física. O pensamento naquele momento era de que a Geografia
deveria caminhar com as outras “ciências” e expor leis universais, por isso voltaram
suas pesquisas, para o entendimento da ação humana com a tecnologia e o
ambiente, deixando apática a compreensão do “porque” da ação humana “o que”
conduzia o homem a agir de determinada maneira.
A partir da década de 1970 que as pesquisas em Geografia Cultural
passaram por mudanças significativas, tendo como abordagem cultural a motivação
de entender a experiência dos homens no meio ambiente social, compreender a
significação, que estes impõem ao meio, e qual sentido percebido e concebido da
vida humana.
Essas questões só poderiam ser observadas e analisadas a partir de
pesquisas elaboradas e realizadas minuciosamente. Ao observar o trabalho
realizado por Clifford Geertz (1973), com a proposta da “descrição densa” buscou
não só descrever, mas também interpretar a descrição, seja da materialidade, ou da
subjetividade do valor simbólico atribuído a cada objeto ou posição social do povo
pesquisado. Geertz despertou em alguns geógrafos à reflexão e aprimoramento de
suas pesquisas em Geografia Cultural, visto que:
Para Geertz, toda ciência que empenhou-se para a compreensão das atitudes
humanas teve que realizar interpretações que buscassem o significado das
experiências vividas pelo sujeito, mesmo que essas ações sejam fenômenos
enigmáticos, elas devem ser investigadas. As adaptações realizadas pelos judeus
fazendo de acordo com o lugar em que estão teias para perpetuação do que
acreditam.
20
Foi a partir de meados do século XX que ficou evidente o amadurecimento
das pesquisas em Geografia Cultural e a Geografia consolidou também seu olhar
sob a Religião. Os geógrafos passaram a pesquisar a experiência religiosa como
valorização das atitudes humanas advindas de seu credo no lugar em que vivem.
A nova perspectiva da Geografia Cultural passou a interpretar com maior
intensidade a complexidade de cada sociedade. Ela, a cultura, possui variáveis
diferentes de sociedade para sociedade, conforme expõe Claval cultura é:
21
algumas diferenças. Contudo ele não interpretou as atitudes comportamentais do
homem e nem conseguiu desse modo, ir além das propostas científicas de sua
época, e não busca entender as subjetividades, que existem “dentro” do homem, e
que influencia seu cotidiano.
Foi a partir da abordagem cultural que ficou evidenciado a existência da
categoria espaço sagrado, que se diferencia do laico e do profano, em seus valores
simbólicos.
Claval (2008) ao levar em conta a experiência diferenciadora do espaço
sagrado, demonstrou que:
22
nós como seres humanos damos significado e buscamos sentido para tudo que
fazemos, conforme o autor demonstra:
3
Centro Judaico de Rondônia.
23
autor afirma que as atividades humanas são o que define o devir da
humanidade, de modo que a linguagem, o mito e a religião são
essenciais a esse propósito. […] A partir desse argumento do autor,
cada vez mais o homem afasta-se do universo dos fatos e aproxima-
se do universo simbólico. Esse homem, enquanto ser simbólico,
passa a reconhecer o mundo pelos seus significados. Dessa forma,
podemos identificar quatro meios de articulação do processo de
significação e ressignificação do mundo: a linguagem, as artes, os
mitos e a religião (GIL FILHO: 2008a, p.67).
24
Ao discutir em suas obras a experiência do ser humano relacionada
diretamente a concepção geográfica Gil Filho (2005; 2008a; 2008b; 2009 e 2010),
demonstra a necessidade do uso da Geografia da Religião, entendendo como ela é
necessária para que, o geógrafo busque compreender as relações e contínuas
mudanças realizadas pelo homem.
Este como ser simbólico participante ou não de uma religião, para
entendimento deste homem utilizamos o conceito de religião proposto por Durkheim:
26
Para que haja apreensão dos significados entendemos a estrutura religiosa, a
constituição e a organização que a norteia. Nos aprofundamos na interpretação dos
significados para evidenciarmos mais minuciosamente, dessa maneira foi possível
uma interpretação do fenômeno religioso, como concebe Cassirer:
27
ato solto, mais sim um exercício intelectual, de interpretação, Geertz evidencia o
conjunto de costumes e hábitos fundamentais no âmbito do comportamento e da
cultura de uma determinada coletividade:
28
O espaço como estrutura criada e produzida pelo homem, para consolidação
de suas necessidades sociais, permite ao homem localizar o lugar de morada onde
pode manifestar sua experiência com outros o
Tomamos por conceito de espaço sagrado o aplicado por Gil Filho, no qual “o
espaço de representação é pleno de valores e suporte da ação do homem” (GIL
FILHO: 2008a, p. 112). Nele, o homem cultiva e mantêm sua existência de ser
simbólico. No contexto de espacialidade, o fenômeno é a perspectiva de se pensar o
viver, estruturar o residir, com sentimentos que formam o processo de apropriação e
construção no lugar.
O ponto onde se evidencia os sentimentos de amor do homem para com o
lugar que habita chama-se “topofilia”, este foi desenvolvido por Bachelard que o
entendia como a ação que o homem possui que visa determinar “o valor que o
espaço possui”, ou seja, para ele o lugar é o ponto onde “forças adversas […] com
as diferenças que as nuanças poéticas comportam, formam são espaços louvados.
Ao valor de proteção, que pode ser positivo ligam-se também valores imaginados”
(BACHELARD: 2000, p. 20). Porém Bachelard não prosseguiu com o estudo sobre a
categoria “lugar”.
Outro autor que também escreveu sobre “topofilia”, o valor do sentimento
positivo do homem pelo lugar em que vive foi Dardel em 1954. Contudo Tuan
aprofundou e propagou este conceito com a perspectiva de pesquisa do simbólico.
Deste modo, empregamos para interpretação da categoria geográfica de
“lugar” o conceito explícito por Tuan (1980 e 1983). Este ao ampliar a concepção de
lugar constituído de valor simbólico pelo homem compreende as construções
simbólicas que o indivíduo impõe inconscientemente ou conscientemente ao lugar
de morada, de congregação religiosa, de intimidade, de amor ao lugar.
Tuan (1980) considera lugar o resultado do uso habitual, que adquire
densidade de significado e estabilidade sendo capaz de deter a atenção e onde os
sentimentos são vividos. Fani também trabalha com a categoria de análise
geográfica de lugar. E tanto ela quanto Tuan entendem o lugar a partir da
29
experiência pessoal. Contudo Tuan diferencia-se de Fani quando entende o espaço
como mítico-conceitual em que o homem vive e está ligado as experiências comuns
de outros indivíduos que fazem parte de seu grupo social. A casa, o recinto de
trabalho, de lazer são lugares. São espaços palpáveis onde nos deslocamos, e
modificamos a paisagem4, são os espaços moldados e sentidos pelo corpo, nas
palavras de Tuan e Fani:
4
Entendemos por paisagem o conceito de Silva (1991), que será melhor demonstrado a diante no
capítulo cinco.
5
Medo mórbido de certos lugares (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 3.0, 2010).
30
Com o passar do tempo os sentimentos de afeto para com o ambiente
material ao lugar vão sendo incorporados pela comunidade judaica. Esses são
primordiais para a caracterização de pertencimento ao lugar. Poder reconhecer e
possuir esse sentimento de pertencimento por determinado lugar é o elo afetivo,
chamado de topofilia por Tuan (1980).
Cada membro da comunidade judaica de Porto Velho produz pensamentos,
ações, experiências, as quais terão conexão direta ou indiretamente com o lugar
onde estão operando.
Estas experiências vividas advindas do espaço simbólico são redes intensas
que se confundem com o próprio lugar. Devem ser compreendidas através de uma
rede teórica que busca por meio das narrativas, nos textos, através dos sentidos e
do corpo, apreender a experiência vivida.
Deste modo, o mundo vivido é definido de acordo com as experiências
fenomenais e pelas comunicações, experiências cotidianas que envolvem os
indivíduos que possuem convívio sociabilizado. Por isso, é imprescindível
compreender o corpo e suas características, as especificidades e influência que são
demonstradas no lugar vivido.
Ao entendermos que Tuan evidencia o lugar através da experiência dos
indivíduos, esse conhecimento está ligado diretamente à memória, pois sem ela não
haveria como ensinar os elementos constituinrtes da cultura ou da religião de um
povo.
Destarte, entendemos que o social é composto por pequenos pedaços de
atitudes humanas, que com o decorrer do tempo vao sendo passadas de gerações
por gerações. Dessa maneira, nos embasamos em Halbwachs (1990) e Tedesco
(2004), ao nos referirmos à memória como passada de maneira coletiva. Ambos
concordam que a memória se forma a partir de compilações de informações
adquiridas por pessoas próximas, por mídias ou outros meios de informação, que
chegam ao indivíduo formando-o. Essas atitudes passadas são relatadas no
cotidiano pela fala ao serem lembradas, segundo Halbwachs:
31
consciência puramente individual que para distingui-lo das
percepções onde entram tantos elementos do pensamento social.
Admitiremos que se chame intuição sensível […] A memória
individual de um lado é no quadro de sua personalidade, ou de sua
vida pessoal, que viriam tomar lugar suas lembranças: aquelas que
lhes são comuns com outras não seriam consideradas por ele a não
ser sob o aspecto que lhe interessa, na medida em que ele se
distingue delas (HALBWACHS: 1990, p. 55).
34
nos conduzem a liminaridade, no caso dos judeus o shabat8, o rosh hashanah, que
os levam ao retorno cotidiano e as celebrações que os lembram de sua história,
8
Boas vindas ao sábado, dia de descanso e estudo da Torah.
35
parte de sua vida. Em Tedesco a memória é um elemento também constituído
socialmente, contudo o homem busca sua singularidade ao ir ao encontro do que lhe
agrada ao escolher o lugar por sentir-se seguro nele.
E, para fechar esse raciocínio de como o lugar é escolhido e moldado pelo
homem. Em Tuan o homem preenche e, é preenchido pelo lugar onde mantém suas
relações de amizades, de religião, de intimidade, ou seja onde experiencia sua vida.
Quadro I: Prospecção dos autores
36
CAPÍTULO 2. A experiência judaica interpretada pelo método hermenêutico-
femomenológico
http://www.coisasjudaicas.com/2011_02_11_archive.html
Que seja Tua vontade, Senhor nosso D'us, D'us de nossos pais, que
nossos méritos e virtudes sejam aumentados (Rabino Salomon Manelaz’l).
37
2.1 A busca pelo método
38
percepções sensoriais que o indivíduo mantem com o lugar vivido, dessa maneira
devem ser compreendidas pela Geografia.
Para Caldas (1999a: p.74), “o método não é neutro, mas crítico, político,
totalizador, histórico, vivo, negativo, dialógico e polifônico, devendo ser
constantemente renovado e desenvolvido, sem nunca se tornar saber instituído, sem
jamais se tornar estrutura estável”. Por isso a qualidade do método aplicado em
noss trabalho foi de suma importância, pois foi por meio dele, que conseguimos
galgar o caminho para sua elaboração e interpretação.
Por meio da fenomenologia observamos os fenômenos que transcendem o
objeto e dessa maneira podemos ir além da matéria procurando entender os
sentimentos expostos pelos membros da comunidade judaica em Porto Velho.
desenvolvemos pesquisas com leitura geográfica para entender o cotidiano
das expressões do homem enquanto agente modificador do seu espaço. Como
detentor de poder político, econômico, ou seja, delimitador de suas ações, como
indivíduo que identifica e é identificado no lugar que lhe pertence.
A construção do lugar advirá por meio da narrativa e da experiência que o
narrador possui. A relação com o outro, com a chegada e permanência, com todas
as combinações de experiências que foram criadas e recriadas dentro e fora do
lugar. Os fluxos das relações sociais podem ser expressos como
39
do pesquisador faz-se presente na redução do fenômeno para a sua
abordagem total (SPOSITO: 2004, p.38-39).
Pela fenomenologia houve análise do lugar exposto pela narrativa. Esta foi
observada conjuntamente com os fenômenos exteriores, o conhecimento das
estruturas de significação do narrador tornou-se importante, pois o que foi dito,
passou a fazer parte da interpretação.
Esta união clara entre hermenêutica e fenomenologia amplia a interpretação
das experiências encontradas no desenvolvimento do trabalho, onde observamos os
dois métodos distintamente para depois uni-los visando desta maneira o
enriquecimento maior de nosso trabalho.
40
ao terem necessidade de desenvolver seus estudos homéricos. Também é
observada na cronologia do uso da hermenêutica como método, a tradição dos
rabinos talmúdicos, especialistas na interpretação dos textos sagrados. Com o
desenvolvimento da semiologia e de outras disciplinas surgiu uma geografia
incumbida de descrever com maiores detalhes os dados, a fim de fornecer uma
correspondência entre o mundo lendário dos textos e o mundo real.
42
significado, temos certeza de que não é o verdadeiro; o verdadeiro é
um outro e assim por diante; os hylics – os perdedores – são aqueles
que terminam o processo dizendo “compreendi”. O leitor real é
aquele que compreende que o segredo de um texto é seu vazio
(ECO: 1997, p.46. Grifos nossos).
44
Quem deu início ao estudo do mundo-vivido na fenomenologia foi Husserl.
Este, como observa Relph entende que “através da aceitação crescente de uma
visão científica do mundo, os fatos imediatamente experienciados do mundo-vivido
são vagarosamente transmutados em abstrações – indivíduos e grupos de pessoas
tornam-se casos e exemplos de categorias, lugares tornam-se casos e exemplos de
categorias, lugares tornam-se localizações” (RELPH: 1979, p. 3). Todos esses
movimentos de criação e escolha do ser humano terá influencia em que o lugar é
apenas localização e qual será o ponto onde suas experiências serão vividas.
Observamos que Dardel identificou cinco formas de espaço geográfico, o
primeiro é o de “espaço material ou substancial este é toda parte do espaço
geográfico diluído numa substância móvel e invisível”. O segundo é o espaço
telúrico “envolve uma experiência imediata na qual sentimos a intimidade da matéria
da crosta da terra”. O terceiro espaço identificado foi o aquático sob “o domínio da
água está ao lado da vida” ou da morte “onde quer que a água esteja ausente, o
espaço é de algum modo incompleto […] desertos e superfícies secas dos platôs
calcários muito naturalmente” também “sugerem a ideia de morte” (Dardel: 2011, p.
21).
A quarta forma espacial encontrada foi à de espaço do ar “não é exatamente
visual – ele vibra e ressoa: é rasgado pelo trovão, geme numa ventania” é o
“atmosférico: um elemento sutil e difuso no qual todas as feições da terra estão
mergulhadas”. O último espaço foi o construído este é o perceptível “encontramos
em nossos mundos-vividos são, acima de tudo, espaços criados circundam-nos em
todas as escalas e em muitas formas […] estradas ou linhas de propriedade, por
meio das quais “a intensão humana inscreve-se na terra” (Dardel: 2011, p. 40)
Outro resultado das pesquisas de Dardel foi o desenvolvimento das bases
fenomenológicas da geografia que são “espaço, paisagem e lugar”, ao
desenvolvermos nossa pesquisa tempos como categoria de interpretação e análise
geográfica a espacialidade e o lugar onde os judeus que frequentam o CEJURON
vivenciam suas experiências.
A partir do início dos anos setenta, as publicações dos artigos de Relph e de
Tuan, impulsionaram o uso da fenomenologia com maior clareza na Geografia, como
aponta Gomes:
45
Os trabalhos de Yi-Fu Tuan partem de uma mesma crítica da ciência
objetiva. A ciência clássica, segundo ele, minimiza a importância e o
papel da consciência humana para o conhecimento. A
fenomenologia, ao contrário, dá a possibilidade de restabelecer o
contato entre o mundo e as significações, por possuir a verdadeira
medida da subjetividade; segundo suas próprias palavras, “conhecer
o mundo é conhecer a si mesmo”. […] Para Tuan, haveria duas
formas de produzir o conhecimento: a intelectual e a existencial. A
primeira trata do mundo como uma coleção de objetos, busca
resgatar dele uma ordem, uma hierarquia, e seu objetivo final é o de
produzir uma classificação teórica. Na forma existencial, o mundo é
composto por purposeffulbeings e o objetivo maior é reconhecer “o
domínio da vontade e a busca de sentido”. Na geografia, a estas
duas formas correspondem dois modelos de ciência: o modelo
ambientalista e o existencialista, ou ainda, o modelo nomotético e o
idiográfico (GOMES: 2000, p. 328).
46
A questão lugar/tempo/espaço pode ser observada em cada narrativa, com as
descrições das ações realizadas em um determinado lugar do espaço e em
determinado tempo.
A fonte oral proporciona o conhecimento da cultura, costumes e práticas,
sentidos pelo narrador como indivíduo praticante da ação mutacional do cotidiano e
possibilita o conhecimento das atitudes vividas dentro de seu contexto social, desse
modo utilizar-se da fenomenologia fez-se necessário para a realização da pesquisa.
A preocupação fenomenológica em interpretar a existência humana a partir de
sua experiência, a torna como informa Christofoletti uma ciência da experiência que
serve de maior conhecimento das atitudes do homem:
A fenomenologia preocupa-se em analisar os aspectos essenciais
dos objetos da consciência, através da supressão de todos os
preconceitos que um indivíduo possa ter sobre a natureza dos
objetos, como os provenientes das perspectivas cientifica, naturalista
e do senso comum. Preocupando-se em verificar a apreensão das
essências, pela percepção e intuição das pessoas, a fenomenologia
utiliza como fundamental a experiência vivida e adquirida pelo
indivíduo. Desta maneira, contrapõe-se às observações de base
empírica, pois não se interessa pelo objeto nem pelo sujeito. “A
fenomenologia não é nem uma ciência de objetos, nem uma ciência
do sujeito: ela é uma ciência da experiência” (CHRISTOFOLETTI:
1985: p. 22 apud Edie: 1962).
47
pela memória que são moldadas ou condicionadas algumas das atitudes humanas para
uma modificação ou permanência dos símbolos de determinada cultura ou religião.
48
Nosso trabalho foi marcado por idas a campo, entrevistas, leituras e
pesquisas bibliográficas, que nos fizeram compreender os eixos relacionais da
comunidade judaica em Porto Velho, suas espacialidades, sua identificação e
construção do lugar, que para o judeu é tomado de importância simbólica. Para
confecção da entrevista, dispusemos-nos para evitar qualquer tipo de transtorno
futuro de uma prévia autorização que foi devidamente assinada pelos entrevistados,
nos reapaldando dessa maneira juridicamente.
Quando buscamos compreender como se processam os fenômenos culturais
que permeiam as atividades dos judeus que frequentam o CEJURON, usamos o
método etnográfico de Clifford Geertz (1989), de “descrição densa”, com a pesquisa
participativa. Segundo o autor a descrição densa, propicia a apreensão das nuances
mais sutis da cultura observada pelo pesquisador:
9
Boas vindas ao sábado.
10
Celebração da páscoa judaica.
11
Celebração da libertação de Jerusalém dos romanos e o milagre do óleo do Templo.
49
texto – por esse motivo o Capítulo 6, trata-se de um glossário, onde o leitor pode
quando achar necessário buscar seu significado. Também usamos o recurso do
colchete dentro das entrevistas, para manter a singularidade da narrativa. O colchete
é usado, para auxiliar a compreensão da narrativa em momentos que possam
causar dificuldade de discernir o que o narrador quer dizer.
Fizemos um total de nove entrevistas, contudo só usamos nesta dissertação
sete12. Para cada entrevista, tivemos um período referente a transcrição tirando do
narrado e colocando no escrito, e outro período para pontuarmos a entrevista de
maneira que pudéssemos deixá-la o mais próximo possível do que havia sido dito.
Respeitamos dessa maneira a metodologia de Cápsula Narrativa em Geografia Oral
que foi proposta no projeto.
A Cápsula Narrativa diz respeito a um tipo de narrativa livre construída pelo
próprio narrador. Em que ele pode começar a expor sua experiência no instante que
lhe for apropriado. A Cápsula Narrativa não impõe questionários fechados, com
meras interrogativas de sim ou não, que conduz o entrevistado a ansiar o término da
entrevista.
A Cápsula Narrativa foi usada por entendermos que a posição de
sujeito/sujeito em uma pesquisa deve ser respeitada, e esse respeito começa com a
fala do narrador, com seu posicionamento enquanto membro de determinada
comunidade. Ela tem temporalidade específica produzida pelo próprio narrador. Em
um sentido estrito, ela começa com o diálogo não gravado, nesse momento nos
identificamos para o narrador e posteriormente damos início a entrevista. O
processo posterior é o de transcrição, logo em seguida o de pontuação e por último
a interpretação.
Ao fazermos uso da Cápsula Narrativa nos propomos em primeiro lugar a
conversar com os membros da comunidade judaica, dizer-lhes, que estamos
realizando pesquisa sobre sua comunidade. Essa informação não necessita ser
minuciosa, pois se assim o fosse, ao entrevistarmos eles, a narrativa seria
direcionada para o que tínhamos dito, e essa não é nossa intenção. Queremos
entrevistas livres de direcionamento, mesmo sabendo, que é difícil deixar o narrador
à vontade e calmo, para falar o que quiser, e não o que queremos ouvir. É dessa
12
Trabalhamos com esse coeficiente por que dois narradores não conseguiam dialogar, quando
falavam respondiam usavam palavras monossilábicas ou frases curtas que não expunham suas
vivências.
50
forma que a metodologia amalgamou-se ao método e com a teoria que utilizamos
para nossa pesquisa.
Após a entrevista chega o momento da transcrição, que é a passagem do oral
para o escrito, da maneira como foi dito, com erros gramaticais e entonações, esse é
o momento da cópia textual da Cápsula Narrativa, de acordo com Caldas:
Como o narrador entrega-se a suas memórias ele nunca está só, como
imaginamos, ele existe com o coletivo de pessoas que estiveram presentes no
51
decorrer de sua vida. Sempre há outros em sua memória pessoas, objetos, lugares,
sentimentos que são lembrados ou impulsionados no interior do narrador por alguém
ou alguma coisa como música, pintura, fotos e o pesquisador. É o ambiente, criado
ao redor do narrador, que lhe trará as lembranças, logo, elas estarão vivas no
momento de sua fala.
O amálgama entre a Geografia “Humana” “Cultural” e da “Religião”, com
metodologia de Cápsula Narrativa em Geografia Oral, aplicada com outras teorias
possibilitou-nos a interpretação do narrado.
Para que pudéssemos construir realmente uma pontuação que fosse a mais
próxima possível do narrado e que não fosse preciso trabalhar com uma
historicização cronológica do que foi dito, dessa maneira, não precisamos recorrer
aos recursos de temporalidade para transcrição das entrevistas.
Ainda assim as narrativas continuaram em um eixo metodológico da Cápsula
Narrativa, encontramos em Caldas (1999b, 2000 e 2011), essa metodologia agora
adaptada no viés para a Geografia, havendo assim mudanças mínimas no
procedimento anteriormente usado. Se antes havia a preocupação com a
temporalidade, cronologia, esta já não nos pertence mais, com a Cápsula Narrativa
em Geografia Oral, fomos conduzido a ultrapassar a temporalidade e
permanecermos no que nos é mais importante, as relações humanas no espaço
evidenciadas no lugar.
Contudo a necessidade de rigor metodológico faz-se indispensável, pois com
ele podemos solucionar os questionamentos da pesquisa que envolve o uso de
entrevista na Geografia, sem ter precisão de usar métodos históricos. A metodologia
de Caldas (2011) nos serviu de apoio suas etapas fizeram-nos entender a
construção geográfica do espaço-lugar. Utilizamos esta metodologia para ao invés
de perguntas e respostas propiciarmos a liberdade para a fala, para “o narrar”, para
os enfrentamentos físicos, sociais e culturais, do espaço-lugar físico e imaginado:
52
Foi por meio das narrativas construídas pelo narrador que parte de sua
experiência, no seu narrar, que posteriormente se tornará texto, Caldas afirma que:
53
Em pesquisas anteriores e até mesmo nesta uma das frases típicas que o
narrador diz é: “puxa logo eu, eu não sou importante para que escrevam sobre mim”.
Porém, é o produto da narrativa que expõe o social, pois o narrador ao falar
sobre sua vida expõe atitudes compostos por fragmentos da sociedade em que vive.
Enquanto cada membro da comunidade judaica de Porto Velho produz
pensamentos, ações e experiências as quais terão conexão direta ou indireta com o
lugar onde estão vivenciando. Estas experiências vividas, advindas do espaço
simbólico são redes intensas que algumas vezes se confundem com o próprio lugar,
e devem ser compreendidas em uma rede teórica que busca nas narrativas, nos
textos, por meio dos sentidos e da representação exposta no corpo, apreender
aquela experiência viva dos narradores e de seu lugar.
Aplicamos a metodologia enquanto especificidade concreta, capaz de
apresentar uma intersecção da fala com a experiência adquirida no lugar, garantindo
assim o entendimento do dito, das narrativas. Não há necessidade para o geógrafo
em seu métie dos recursos entonacionais, mostrando-os com arranjos literários,
descrever como fala foi emitida, descrevendo os detalhes que foram percebidos, não
só na fala mais também os recursos paralinguísticos, ou seja, os gestos, olhar e fala.
Todos esses recursos são usados dentro da transcriação e não tem necessidade de
serem escritos na Cápsula Narrativa em Geografia Oral.
A Cápsula Narrativa foi criada e usada durante muito tempo como auxiliar
para as pesquisas em História Oral. Nesse trabalho encontramos em Caldas (2011),
um novo aporte, que será de maior utilidade e eficiência para a pesquisa geográfica,
sem impor ao geógrafo que a utilize da mesma maneira que o historiador. Como por
exemplo, a disposição do texto em ordem cronológica, dando à fala do narrador
quando transcrita e pontuada uma cronologia que durante o narrativa não existia.
São diversos os temas que se condicionam para o estudo de um determinado
grupo, sociedade ou comunidade, dentro destes é onde a experiência é exposta por
meio da narrativa. Ao dispormos da Cápsula Narrativa em Geografia Oral como
método para realizar uma pesquisa hermenêutica-fenomenológica da experiência,
visando uma reconstituição da espacialidade a partir do narrado. É porque
entendemos que a oralidade cabe a quase todos os ramos de pesquisas, ela deve
ser útil e eficaz de acordo com a disciplina ou campo de atuação para o qual for
adaptada. Destarte, em nosso estudo desenvolvemos a proposta da Cápsula
Narrativa em Geografia Oral, como metodologia, pois nos fornece em sua estrutura
54
específica o melhor resultado possível em uma pesquisa participativa que dispõem
de entrevistas.
Como geógrafos ao trabalharmos com entrevistas tomamos cuidado na
escolha de uma metodologia apropriada para que, pudéssemos colocar
primevamente a necessidade das espacialidades ou seja, das experiências, que
foram vividas ditas por meio das narrativas. Dessa maneira, deixamos de nos
preocupar com a temporalidade, que antes era um fator principal para quem fosse
trabalhar com oralidade.
As disciplinas que lançam mão da oralidade como método e que possuem
como fator essencial a cronologia algumas vezes põe de lado, a ordem com que o
narrador fala, para que fique nos moldes em que o pesquisador deseja. Trazemos à
lembrança a afirmação de Gil Filho, que diz:
Desse modo, entendemos que um dos meios de haver linguagem é por meio
da fala e dos gestos corporais, portanto, conseguimos compreender melhor o
espaço de representações criados pelo homem, este apresentado a nós por meio da
narrativa. A experiência comum do narrador resulta em uma memória que pode ser
ativada com diálogo com quem viveu, esteve presente em algum momento no
decorrer de sua vida, ou alguém que, tem curiosidade de saber algo, alguém que
saiba ouvir. A experiência vivida será lembrada, narrada, organizada, evidenciada
enquanto texto esse é o trabalho que realizado com a Cápsula Narrativa em
Geografia Oral.
55
CAPÍTULO 3. Migrações judaicas
http://eretzisraelmv.blogspot.com/2010/08/menorah.html
Que seja Tua vontade, Senhor nosso D'us, D'us de nossos pais, que
nossas mitzvot sejam tão numerosas quanto os grãos da romã (Rabino
Salomon Manelaz’l).
56
A memória de um indivíduo é constituída por lembranças, experiências que
pertencem a ele, e aos que lhes são próximos, como parentes, amigos, também por
meio de notícias que chegam a seu conhecimento, tornam-se com o passar do
tempo parte da memória individual. Contudo ela não é simples, a complexidade com
que guardamos alguns detalhes e outros deixamos de lado, faz com que todo
emaranhado de informações sejam manuseados por nossa consciência a ponto de
evocar pela memória o que nos ajudará a entender o mundo ao nosso redor e
vivermos nele para Tuan a experiência é:
o mito passa de seu primeiro estágio por assim dizer “anônimo”, para
o seu oposto, isto é, o da “polionimia”. Cada deus pessoal reúne em
si uma profusão de atributos que originalmente pertenciam aos
deuses particulares, os quais encontram nele a sua síntese. Mas,
juntamente com os atributos, estes deuses transmitiram-lhe também
o nome: não como nome próprio, mas como apelativo, pois o nome e
a natureza do deus são uma só coisa. Daí que a multinomia dos
deuses pessoais constitua precisamente um traço necessário de sua
natureza e de seu modo de ser. “Para o sentimento religioso, o poder
de um deus se expressa na abundância de seus epítetos; a
multinomia é a exigência e o pré-requisito de um deus pessoal mais
elevado” (CASSIRER: 2006, p. 90).
A história do povo judeu partiu de Abraão, quando seu “Deus” ficou conhecido
por ele e este o apresentou a seu clã13 familiar. Depois fortaleceu-se em Moisés e
13
conjunto de famílias que se presumem ou são descendentes de ancestrais comuns (Dicionário
Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 3.0, 2010).
57
pelos escribas, até chegar aos rabinos, com a necessidade de fazer com que a
religião fosse ensinada de geração a geração usando para tal as escritas que deram
aos judeus por muito tempo a denominação de o povo do livro, pois registraram sua
história, ao ponto de evocar tanto as vitórias como as derrotas, para se unirem por
amor ao seu “Deus” ou por seus antepassados.
Ao tomar para si como mandamento de “Deus” a organização política do povo
de Israel Moisés talvez não fizesse ideia de como seria tão difundido o nome de seu
“Deus” e sua cultura. Não queremos dizer com isso, que Moisés entendia o quão
grandioso seria sua intervenção no povo que ele ajudou a formar, mas quando
Abraão estipula a adoração a Iahweh, e Moisés à impõe a uma nação determinando
a unidade das famílias por meio de culto e votos, que envolvesse a prática cotidiana
e a esperança voltada para as bênçãos cedidas por seu “Deus”, o primeiro dá
origem e o segundo estipula a divulgação e perpetuação do judaísmo.
Após a destruição do templo e as diversas diásporas o ensinamento seguiu
diretamente no âmbito familiar, estes deveriam realizar o culto e votos em sua
intimidade ou nas escolas onde aprendiam como realizá-los. Com o passar do
tempo criaram as sinagogas onde o estudo, as reuniões as celebrações ritualísticas
podiam ocorrer, estas permanecem até nossos dias. Dessa maneira o judaísmo
conseguiu que seu “Deus” e sua cultura perdurasse 5.772 anos. Para Esther
szuchman os percursos realizados pelo povo judeu seguiram
58
redes vivas de experiências repassadas a descendentes ou a futuros membros da
comunidade judaica.
Ao estudarmos sobre judaísmo, percebemos que a construção da memória
social possui valor simbólico altíssimo para a perpetuação de sua cultura e religião,
porque:
Os autores afirmam ainda que “a história do povo judeu começa com Abraão,
porém, a história da religião judaica com Moisés. Em seu início era uma religião de
59
devoção simples, com cerimônias realizadas pelo próprio patriarca”, na qual quem
fizesse parte do clã deveria converter-se a vontade de seu “Deus”. “Nisso ela diferia
bastante do politeísmo oficial da Mesopotâmia, que era clericalmente organizado”.
Já que Abraão não havia organizado o ritual de adoração e evocação a seu “Deus”
ele só havia até então estipulado o Brit Milah14. Outra diferença entre os judeus e
seus vizinhos era o modelo de seu culto “Diferia também dos cultos de fertilidade de
Canaã, que eram realizados com festas orgiásticas” (Goldberg & Rayner: 1989,
passim).
No contexto histórico e cultural onde ocorreu o livramento de Isaac, foi
suscitado um novo comportamento de imolação de animais em vez do filho para
sacrifício ao deus familiar. Abraão não o mata como sacrifício, diz que um anjo lhe
impede de cometer a ação, para alguns pesquisadores ele pode ter tido realmente
uma revelação, podia estar alucinado ou simplesmente não aguentou matar seu
filho. Porém com essa mudança de atitude, todo seu clã deixa de realizar sacrifício
humano gesto de adoração a “Deus”, pois até então o imolamento era praticado por
quase todas as sociedades no Oriente.
O favor de seu “Deus” passaria a ser possível por meio de sacrifício de
animais que seriam imolados, de ritos, e de conduta moral estabelecida como oferta.
Com essa atitude do clã hebreu começa uma transformação na forma de adorar e
agradecer as benesses concedidas pelo seu “Deus”.
Abraão e seu clã ao mudarem para a região hoje denominada Palestina,
“cultuavam uma deidade que era conhecida por diversos nomes: El, El Shadai, El
Elion” e, ainda possuía outros nomes de adoração e evocação. Abraão e os
patriarcas do clã, “evocavam um “Deus”, que para eles seria mais elevado, “de
poder mais duradouro, e que zelava pelos assuntos de Seu povo” (GOLDBERG &
RAYNER: 1989, p. 24).
Seguindo a historicização dos autores Goldberg & Rayner (1989), “foi Jacó, o
mais complicado, apaixonado e ‘arrebatado’ dos patriarcas, que, depois de uma
misteriosa luta na passagem de Jaboc, teve seu nome mudado. Ele foi ‘o que lutou
com El’”, com este acontecimento o clã ficou conhecido pelo nome de Israel.
Com a mudança em seu nome os “descendentes da família de Abraão”,
passariam a ser conhecidos pelo nome de Israel. Mas que sistematizou o “iavismo”
14
Circuncisão
60
foi Moisés, que colocou a adoração como modo de unir o povo descendente de
Abraão. A sistematização proposta por Moisés para o povo “adquire um conteúdo e
um significado especial”, uma razão para unirem-se e lutar para permanecimento de
sua cultura e religião com o passar do tempo e mesmo em terras estrangeiras.
Também foi por meio de Moisés que “Deus” retirou “seu povo” da servidão no
Egito. Foi com ele também, que “Deus” afirmou sua intolerância à outros deuses ou
a qualquer coisa que possa ser seu rival:
15
Tradução “Eu Sou Aquele que Sou”. Contudo, Armstrong (1994, p. 33) questiona esta afirmação
direta “o hebraico não tinha uma dimensão tão metafisica nesse estágio, e levaria quase 2 mil anos
para adquiri-la. Deus parece ter querido dizer alguma coisa mais direta. Ebyeh Asher ehyeh é uma
expressão idiomática hebraica para expressar uma indefinição deliberada. Quando a Bíblia usa uma
frase como “eles foram aonde foram”, quer dizer: “Não tenho a menor ideia de onde eles foram”.
Assim, quando Moisés pergunta quem ele é, Deus responde na verdade: “deixa pra lá quem eu sou!”,
ou “não é da sua conta!”, não haveria discussão da natureza de Deus, e com certeza nenhuma
tentativa de manipulá-lo como os pagãos às vezes faziam quando recitavam os nomes de seus
deuses. Javé é o Incondicionado ”
61
comum de amor ao mesmo “Deus”, afinal, Ele os uniria e os capacitaria para as
bênçãos vindouras.
Constatamos que a escrita judaida é antiga, sofreu algumas modificações,
com o decorrer de sua peregrinação. O uso do idioma semita16 foi modificado para a
chamada língua aramaica e depois para a hebraica.
Na Idade Média os judeus observaram uma dificuldade dos seus irmãos que
estavam espalhados pelos continentes para a leitura em hebraico então inventaram
um sistema de sinais diacríticos, constiuidos de pontos e traços, que serviriam para
representar o uso das vogais no hebraico. Porém este uso não foi geral, pois para os
judeus o hebraico é um alfabeto santo e não pode ser alterado.
A gente tem que saber a origem da Torá, que a gente compra aqui,
porque tem umas Torá, que são chamadas de Torá, mais não é uma
Torá, é uma tradução da Torá para o português, que eles falam, que
é a bíblia judaica. Aí nem tudo ali bate com o que, a Torá real tá
falando, porque quando se conversa quando se, aprende a ler e
escrever em hebraico, você vai ler o hebraico na Torá tem coisas,
que é uma coisa, e nessa tradução é outra (Narrador I, 2010).
A partir da compilação e divulgação dos livros que estão na Torá o judeu toma
posse dos mandamentos de seu “Deus”. Ele já pode sair de sua terra, pois tem a
certeza da presença de seu “Deus”, ele possui os mandamentos que foram
repassados pela própria divindade, Ela o guia, e estará com ele em todo lugar em
que adentrar e permanecer, desde que seja fiel e faça o que lhe é ordenado por seu
16
relativo ao grupo étnico e linguístico ao qual se atribui Sem como ancestral, e que compreende os
hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios e os árabes, ou membro desse grupo (Dicionário
Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 3.0, 2010).
17
Acompilação de cinco livros judaicos Gênesis, Êxodo, Levíticos Números e Deuteronômio.
62
“Deus”, pois “Ele” possui qualidades morais que lhe foram atribuídas pela tradição
judaica
Todo caminho percorrido, durante mais de quatro mil anos de judaísmo, não
pode ser compilado minuciosamente em um único trabalho e também não pode ser
visto de maneira separada do percurso que foi realizado pelo povo de Israel, e de
sua constituição política e administrativa. Por isso, iremos abordar um pouco desse
caminhar da religião desse povo, para entendermos como se deu a mudança para
sua atual denominação, também observamos que judeu é o nome dado não só a
religião e aos seus adeptos é também característica atribuída a quem possui
63
descendência de judeus, evidenciamos que nem todos que nascem na atualidade no
Estado de Israel são judeus, por isso são denominados de israelense.
A constituição dos filhos de Israel ou Israelitas em seu início fora mais uma
confederação de clãs unidos sob o domínio do único “Deus” Iahweh. Do que um
Estado político e administrativamente organizado e gerido por indivíduos que
dispusessem do cargo de governantes e que unissem o povo sob seu governo
Dessa maneira entendemos que foi a total submissão a Iahweh, que conduziu
a união permanente dos clãs por cerca de duzentos anos. Cercados por outros clãs
e por reinos já que estavam bem mais forte belicamente e que constantemente
estavam em guerra. O clã de Israel (Jacó) quando atacados uniam-se para defesa
de seus bens e de sua família, convém lembrar que viviam em tendas e migravam
pelo território de seus vizinhos. Contudo já não eram um simples clã possuíam
característica de tribo, pois durante o tempo que passaram peregrinando a
população aumentou e se organizavam em torno de um comando político-religioso.
O primeiro período que deixam a condição de nômades é quando, Josué sob
o comando de Moisés ataca o território amalequita Canaã e Jericó, ao cruzarem o
rio Jordão foi a primeira cidade destruída. Jericó foi considerada por alguns
estudiosos como a cidade mais antiga do mundo,
64
setentrional de Canaã para impedir a entrada dos intrusos israelitas
[…] Hazor foi completamente escavada pelo arqueólogo geral de
Israel, Yigael Yadin, em 1955-9 (JOHNSON: 1995, p. 54-55).
David consolidou seu reino (…). Após uns poucos anos de governo
em Hebron, ele capturou a cidade jebusita de Jerusalém, em cerca
de 1000 a. E. C. e fez dela sua capital. Foi uma hábil escolha.
Situada a meio caminho entre as tribos do norte e as do sul, mas em
terra de ninguém, era o local ideal para o governo […]. Firmemente
estabelecido como rei de um país que estava mais unido do que
sempre estivera – ou jamais viria estar. […] David governou quarenta
anos, aproximadamente. Israel prosperou. O santuário nacional em
Jerusalém despertou lealdade de todas as tribos e consolidou,
também o sucesso material e militar, uma unidade que antes fora
frágil (GOLDBERG & RAYNER: 1989, p. 46-47).
Ao escolher seu sucessor Davi já velho em seu leito antes de morrer, opta
pelo seu filho mais solerte, que se tornaria o terceiro rei de Israel, e o segundo a
conduzir o Estado de Israel.
65
Com toda sua sabedoria e astúcia, Salomão não percebeu que foi ao
empreender a construção do Templo em Jerusalém com mão de obra escrava, que
o reino de Israel viria a ruir. Pois seria abalado de tal maneira que nunca mais
voltaria a ser uma nação unida com as doze tribos, algo que seu antecessor havia
conseguido
18
Antes da Era Comum, podemos observar que o uso dessa abreviatura pelos historiadores judeus e
alguns rabinos, ela está ligada a aceitar Cristo como marco histórico.
66
para a maior parte dos moradores só restava insatisfação com os trabalhos e os
impostos cobrados por Salomão. Então ao reunirem-se com Reoboão os anciões
pedem melhorias e diminuição dos impostos.
Porém, Reoboão não foi um rei sábio e negou o pedido das tribos que
ficavam ao norte. Indignados com a incapacidade do novo rei de ouvi-los, mataram
seus servos e obrigaram Reoboão a fugir, proclamaram Jeroboão como rei. E dessa
maneira o reino de Israel foi divido entre o reino do norte chamado de Israel e o
reino do Sul chamado de Judá, de acordo com Goldberg & Rayner:
quando foi a Shechem (hoje Nablus), para ser aclamado rei de Israel
pelas tribos do norte, teve uma fria recepção. Os representantes das
tribos pediram, como preço de sua submissão, que o fardo imposto
por Salomão, especialmente a odiada corvéia, fosse aliviado. […]
Reoboão prometeu-lhes que, em lugar do látego de seu pai, eles
seriam agora chicoteados com escorpiões. Os representantes de
Israel anunciaram irados sua secessão, lincharam o chefe de corvéia
de Reoboão, obrigaram o rei a fugir ignonimiosamente e elegeram
em seu lugar Jeroboão, que voltara recentemente do exílio no Egito.
[....] Assim, o reino unificado e o extenso império construído
pacientemente por David e sagazmente mantido por Salomão,
chegou ao fim. Daí em diante, existiam lado a lado dois estados
separados, de segunda classe, às vezes em incômoda aliança, até
que o reino do norte, Israel, foi destruído pelos assírios em 722 e o
reino do sul, Judá, desapareceu sob ataque babilônico quase 150
anos depois. A glória fora breve – cerca de setenta anos. Daí em
diante estabelecia-se um padrão histórico: um longo e desgastante
esforço, no norte e no sul, para sustentar um pequeno reino contra
vizinhos rapaces (Id.: 1989, p. 49-50).
O reino de Judá ao sul, ficou com apenas duas tribos a de Benjamim, Simão,
o que havia restado de Dan e a grande tribo de Judá. Essa que deu seu nome ao
novo país, continuando na posse de Jerusalém. Contudo, ficaram unidos pela fé,
pois tinham Jerusalém como seu centro de culto a Iahweh. Israel reino ao norte ficou
com as antigas tribos de Efraim, Manassé, Isachar, Neftali, Asher, Gad, Rubem e
uma parte de Dan – as quais, depois da dissolução do reino de Israel, ficaram
conhecidas como as dez tribos perdidas. Isso porque, sua população fora levada
para o Egito e para outros lugares do Oriente primeiramente como escravos depois
acabaram misturando-se com a população local.
Em 721 A. E. C., o reino de Israel já tinha sido reduzido a uma superfície
muito pequena. Com o ataque e um cerco que durou cerca de dois anos à cidade de
Samaria, por Salmanasar que morreu em batalha e foi substituído por Sargão II.
67
Este conseguiu atravessar as defesas da cidade e a “reduziu a cinzas” a população
foi deportada.
Nos cálculos de Sargão II foram deportados mais de 27.000 cidadãos
exilados na Mesopotâmia onde passaram a conviver com a população local, dessa
forma, fora instinto o reino de Israel:
A reação de Josias, quando ouviu sobre o livro da lei, foi rasgar suas
roupas, em desespero. Tanto fora esquecido, tanto fora ignorado! Foi
sua consciência de ter traído o passado que lhe deu a convicção e o
ímpeto para as reformas. O povo respondeu de bom grado.
Santuários distantes foram abolidos, e Jerusalém firmou-se como o
único lugar legítimo para o culto. O estado, conduzido por seu rei,
estava oficialmente comprometido com a observância da lei da
Aliança. Esse apego à lei escrita, sua elevação ao status de
autoridade máxima, foi o primeiro passo no processo que iria
regularmentar a religião judaica – o judaísmo – por mais de dois mil
anos após o exílio da Babilônia. O reinado de Josias foi crucial para a
sobrevivência do povo através de sua religião (GOLDBERG &
RAYNER: 1989, p. 62).
68
marchou com seu exército dominando o Oriente Médio. Em seu caminho estava o
reino de Judá. Durante um cerco, ele conseguiu transpor as muralhas e vencer a
resistência de Judá. Dessa maneira, o fim de Judá como Estado tornou-se eminente:
19
Há em livros de história judaica uma contradição no nome deste personagem e por não ter sua
identidade confirmada, este recebeu o apelido de segundo Isaias, provavelmente ele era de
família pobre.
69
eleito por Deus, por causa de seu paganismo e de seus defeitos
morais. Num livro escrito brilhantemente, e muitas vezes
poeticamente, ele predisse a queda de Samaria. Deus faria em
pedaços seus ídolos: “porque semeiam ventos, e segarão
tormentas”. E a todos os pecadores adoradores de Iahweh, ele
adverte: “Araste a malícia, colheste a iniquidade” (JOHNSON: 1995,
p.81).
70
nação, nem aprenderão mais a guerra”. Ele já não falava para seu
povo, mas para o mundo (IZECKSOHN: 1973a, p. 134. Grifos
nossos).
71
Foi a insistência de Jeremias de que a oposição ao exército de
Nabucodonosor no cerco de Jerusalém era inútil, pois os babilônios
eram instrumentos de punição divina, que fez dele provavelmente o
homem mais odiado em Jerusalém. No entanto, mesmo quando a
cidade estava em sua agonia de morte e suas profecias se
consumavam, ele visualizou um futuro consolador, em que os
exilados retornariam e “Deus” faria uma nova aliança com seu
castigado e purificado povo. Como prova de sua certeza, Jeremias
comprou de um parente um pedaço de terra então ocupada pelo
exército invasor. Ele enviou uma encorajadora mensagem de alento
aos cativos da Babilônia, dizendo-lhes que lá reconstruíssem suas
vidas até serem reunidos em casa por seu “Deus” (GOLDBERG &
RAYNER: 1989, p. 66).
Jeremias não foi entendido pelo seu povo no contexto em que viveu, suas
palavras só foram ouvidas e entendidas algum tempo depois. Não lhe escutaram, e
ele acabou vendo seus compatriotas derrotados, uma parte levada presa para
Babilônia, outra ficando na terra em completo estado de pobreza. Mesmo podento
ter ido com os que foram levados para a Babilônia, ele preferiu permanecer em seu
território pregando o amor e ajudando os que ficaram. Contudo, após um tempo
houve um levante contra a Babilônia e quando este foi reprimido os conterrâneos de
Jeremias mesmo contra sua vontade levam-no para o Egito, este com o passar do
tempo experimenta a saudade de Jerusalém.
Cativeiro e exílio: tal foi o destino de Judá e seu povo, como o fora do
reino do norte um século e meio antes. Ao contrário das dez tribos
perdidas, no entanto, os cidadãos de Judá iriam sobreviver, e iriam
difundir sua mensagem de judaísmo onde quer que se
estabelecessem. Haviam perdido seu Templo, a morada de seu
“Deus”; mas tinham suas palavras guardadas no relicário de sua lei
escrita, uma lei que não dependia de nenhuma locação física. […] O
exército de Nabucodonosor tinha arrasado os maiores centros
populacionais (…) estimou-se que a população de Judá, que era de
250.000 habitantes no século VIII, reduziu-se para cerca de 20.000
(GOLDBERG & RAYNER: 1989, p. 64-65).
É isso que faz dele uma religião. Nas fontes clássicas do judaísmo, a
existência de “Deus” é sempre aceita, mesmo quando não é
73
explicitamente afirmada, e é vista como a mais importante de todas
as verdades. Desenvolver as implicações dessa crença é a
preocupação principal dos escritores judeus, dos tempos antigos à
modernidade (Id.: 1989, p. 267).
Mas foi só com Artaxerxes que Esdras foi enviado para Jerusalém para
ensinar a lei de Moisés aos judeus que ficaram para trabalhar na Babilônia
A união entre religião e o povo é alcançada por meio dos esforços de Esdras
e Neemias, desse modo a sobrevivência do judaísmo estava assegurada. Contudo o
país ainda estava sob o domínio persa, e a única coisa que tinham era a garantia da
autonomia religiosa, mas não podiam agir como Estado independente.
Aproveitando sua independência religiosa como informa Goldberg & Rayner
(1989), Esdras convocou a Grande Assembléia criando assim a nova classe dos
soferim (escribas), os intérpretes laicos da lei. Era essa lei que agora definia o
israelita. O que antes havia sido feito pela ocupação territorial e pela devoção
cultual. Os judeus – iehudim, isso é, habitantes de Iehudá (Judá) – estavam
dispersos em comunidades da Mesopotâmia e do Egito, pois
74
as gerações que sucederam Esdras submeteram-se de bom grado à
disciplina e às limitações da lei. Até mesmo o culto no Templo tornou-
se secundário à lei, porque a hierarquia sacerdotal e os rituais de
sacrifício só existiam na medida em que a Torá os exigia. O
sacerdote – mesmo o sumo sacerdote – tornou-se mais um
funcionário da leido que seu árbitro. Esse papel passou à classe dos
escribas, que se devotavam ao estudo da lei e de sua interpretação.
Foram com toda probabilidade os escribas e seus discípulos – que
funcionavam como sucessores de Esdras, e que foram coletivamente
conhecidos pela tradição judaica ulterior como os homens da Grande
Assembléia – os responsáveis pela canonização do Pentateuco em
400 A. E. C., e depois pela do cânone profético, estabelecido algum
tempo antes do século II (GOLDBERG & RAYNER: 1989, p. 75).
Sabe-se que durante sua luta contra essa última cidade, em 332 a.
E. A., Alexandre foi visitado por uma delegação de ierusalemitas,
chefiada pelo Sumo-Sacerdote, que lhe prestou homenagem e
obteve dele a concessão de que a cidade não fosse tocada, ao
contrário do que aconteceu com Samária, obrigada a receber tropas.
20
O Império Parta ou Parto (247 a.C.-224 d.C.), também conhecido como Império Arsácida (persa),
foi uma das principais potências político-culturais iranianas da antiga Pérsia.
75
[…] Pessoalmente ele só tinha estado em contato com os povos da
costa, os filisteus, e por isso deu a toda aquela região o nome de
Palestina (IZECKSOHN: 1973a, p.154).
Após a morte de Alexandre III, seus generais travaram lutas entre si, para
assumir o comando do Império grego.
Devido a luta pelo poder aquela região mudou de governante diversas vezes
em pouco tempo, pois os generais de Alexandre III, não conseguiam entrar em
consenso de quem deveria assumir o trono. Antípater, Ptolomeu, Crátero, Seleuco,
Pérdicas, Antígono, Eumenes, Leonato, Antipatro e Lisímaco. Entre estes quem
consegue apoderar-se do Egito e mais tarde da região da Palestina foi Ptolomeu
Este ao apoderar-se do Egito em 301 a. E. C., fundou a dinastia Lágidas, esta
que ficou conhecida como dinastia ptolomaica.
Ptolomeu não pode ocupar todo o território da Palestina, pois Jerusalém
tentou resistir a seu domínio. Após conquistá-la, pilhou-a, levando consigo, tesouros
e muitos habitantes para serem escravos em Alexandria.
Após a morte de Ptolomeu I com o reinado de Ptolomeu II a situação dos
judeus melhorou. Ele concedeu liberdade para os judeus, que seu pai aprisionou. E
ao iniciar a formação da Biblioteca de Alexandria com obras de todas as partes do
mundo solicitou ao Sumo-Sacerdote de Jerusalém uma Bíblia judaica e alguns
escribas conhecedores do grego, a fim de traduzir o livro sagrado a essa língua,
como mostra Izecksohn:
21
designação por que é conhecida a mais antiga tradução em grego do texto hebreu do Antigo
Testamento, feita para uso da comunidade de judeus do Egito no final do sIII a.C. e no II a.C.; teria
sido realizada por 72 tradutores (Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0, 2010).
76
educacional dos mandamentos de Moisés, para continuarem a cumprir a aliança de
Abraão com Iavé pelo Brit Milah.
O domínio ptolomaico sobre Jerusalém durou mais de cem anos. Com o
passar do tempo às disputas tornaram-se intenças. A luta entre fariseus e
saduceus22 pelo controle do estado eram cada vez mais constante. Os fariseus 23
foram um grupo fundado pelos Hassidim24 partidários dos primeiros Macabeus. Eles
acreditavam nos livros sagrados, e em vários acréscimos, que foram feitos pelos
escribas e, nas palavras de Izecksohn os “Homens da Grande Assembléia foram
introduzindo”, algumas convicções tais “como a crença na sobrevivência da alma, no
paraíso e no inferno, e numa série grande de detalhes da vida cotidiana, a que todo
judeu devoto devia sujeitar-se” (IZECKSOHN: 1973a, p.170).
Dos fariseus surgiram duas correntes que discordavam em relação de como
seria o advento do Meshiach25, as duas correntes concordavam que este deveria
aparecer a qualquer momento. A corrente dos Zelotes imaginavam o messias como
chefe material da revolta judaica e desse modo, ele seria um homem que reuniria
novamente Israel e sob seu comando conseguiriam a libertação.
Já a corrente dos Essênios26 esperava que o messias viesse como chefe das
hostes celestiais, ele só viria quando os judeus estivessem preparados, limpos dos
pecados. De acordo com Izecksohn “deveriam levar uma vida de pureza. E era o
que eles faziam, isolando-se em grupos nas grutas próximas ao mar Morto, e no
deserto. (foram eles os autores dos “Rolos do Mar Morto”)” (IZECKSOHN: 1973b,
p.22).
Outro grupo político que havia entre os judeus eram os saduceus, eles por
princípio de entendimento entendiam como afirma Izecksohn que não haveria “vida
ultratumba, e que, sem deixar de ser judeus, devia-se tirar da vida tudo o que ela
pode fornecer de agradável. Eram a favor das conquistas, porque lhes traziam mais
riquezas” (IZECKSOHN: 1973a, p.171).
Estando o país e onde havia comunidade judaica divididos entre esses grupos
ficou mais fácil para o império romano torná-los seus vassalos novamente. Quando
22
Os saduceus, por sua vez, eram pessoas da alta sociedade, membros de famílias sacerdotais,
cultos, ricos e aristocratas.
23
Significa separados, Dedicavam sua maior atenção às questões relativas à observância das leis de
pureza ritual.
24
Pio, religioso, caridoso.
25
Messias.
26
Eram comuns com a idéia de conservarem e restaurarem a santidade do povo num âmbito mais
reduzido, o de sua própia comunidade.
77
em 67 A. E. C., os dois descendentes ao trono buscaram apoio do general Pompeu
que favoreceu Hircano. No ano de 63 A. E. C., ocupou o Templo e elegeu Hircano,
não como rei, mas como Sumo Sacerdote
78
rebelião. Com o general Vespasiano longe, Nero foi morto e houve uma intensa e
violenta luta pelo poder do império romano. Dessa maneira, surgiram segundo
Izecksohn “três efêmeros imperadores: Galba, Oton e Vitélio, cada um deles
assassinando seu antecessor” (Id.: 1973b, p.36).
Ao se dirigir para Jerusalém, Vespasiano atacou primeiramente a fortaleza de
Jodfat, defendida por Josef ben Matatiau.
79
morreram sob os escombros ardentes. Na cidade alta Simão bar
Giora ainda resistiu durante alguns dias. Quando a batalha de
Jerusalém terminou, estavam espalhados pelas ruas e pelas ruínas
das casas mais de seiscentos mil cadáveres. Os romanos ainda
conseguiram aprisionar noventa e sete mil sobreviventes, quase
todos feridos e exaustos. Em volta da cidade todas as árvores
haviam sido cortadas para serem erguidas milhares de cruzes, onde
foram pendurados os mais rebeldes (IZECKSOHN: 1973b, p. 38).
80
A falta de unidade do senado romano com o rei e com o seu exército, somado
a sucessivas invasões por todos os lados e sem possuírem alimentos para saciar a
fome da população, tem-se o fim do império romano. Mas, nesse momento o
judaísmo já havia sido propagado, pois cada vez que foram colocados em cativeiro,
levaram consigo as palavras de Jeremias, Oséias e Isaías para perseverarem no
compromisso com Iahweh, que lhe daria forças para que sua religião perpetuasse.
O percurso da história judaica na Europa pode ser caracterizado como
história regional, pois em cada reino, país ou cidade, onde se estabeleciam
dependendo de quem governasse poderiam continuar a manter seus ofícios e o
culto a Iahweh era permitido. Mas havia um diferencial entre os judeus europeus,
eles não seguiam o modelo das academias babilônicas, cada comunidade passou a
ter sua própria maneira de fazer os rituais litúrgicos e os costumes também se
diferenciaram, alguns adaptaram a língua nativa para o culto, enquanto outros
continuaram a usar o hebraico.
Em Goldberg & Rayner (1989), constatamos que os judeus desde o Alto
Império Romano estavam instalados na Península Ibérica, e sua situação melhorou
muito após a conquista árabe-berbere de 711 da E. C. Após os trezentos anos da
conquista a posição dos judeus só melhorou, cresceram como comerciantes,
banqueiros, médicos, eruditos e penetraram o Oriente Médio da África do Norte.
Foram para a Espanha Setentrional, onde passaram a ser chamados de Sefaradim
(judeus espanhóis), esse período de prosperidade, ficou lembrado como a Idade do
Ouro dos Judeus na Espanha.
A partir daí começou a vigorar a principal divisão do judaísmo europeu na
Península Ibérica os sefaraditas, e na Alemanha e norte da França, os askenazitas:
81
Foi só com o avanço do islamismo, que o crescimento judaico passou a
desfrutar de vantagens. O Islã propiciou as condições necessárias para a expansão
do comércio na região do Atlântico à Índia, possibilitando assim, a ida dos judeus
para a cidade, onde eram permitidos comercializarem nos centros comerciais do
novo império, e se empregaram em vários ofícios tais quais a curtição, a tinturaria, a
tecelagem, a fabricação de seda e o trabalho em metal, também como banqueiros. E
puderam estabelecer uma rede de contatos nas cidades muçulmanas.
Outro fator importante foi à fluidez migratória que por volta do século XIII pela
primeira vez em sua história, a maioria dos judeus viviam na Europa, e não no
Oriente Médio. O Islã quando reconquistou seu território e alargou sua fronteira,
aplicou seu idioma, o árabe. Essa prática estimulou no judeu voltar a usar o hebraico
com mais intensidade, o que para algumas localidades já não o ocorria com
frequência.
27
Período aproximado 1315-1322 na Europa causou milhões de mortes.
28
A Peste Bubônica assolou a Europa durante o século XIV e dizimou aproximadamente um terço da
população, mais ou menos 75 milhões de pessoas. O bacilo que transmite a doença só foi
identificado e isolado em 1894, causada por uma bactéria denominada Yersinia pestis, esta é
transmitida ao ser humano através das pulgas Xenopsylla cheopis que vivem nos ratos-pretos (Rattus
rattus) ou em outros roedores.
29
Pogroms, significa destruição em russo, embora integre todas as línguas européias. Refere-se aos
massacres organizados contra judeus, bairros judeus, cidades e aldeias com apoio do governo
czarista. Visava forçar os judeus das pequenas cidades a emigrarem transformando-os em bodes
expiatórios face as populações insatisfeitas com a situação política e econômica na Rússia. Esses
movimentos foram inspirados por sentimentos anti-judaicos de origem econômica e pelo anti-
semitismo cristão (KAUFMAN: 2000, p. 253).
83
Os judeus europeus especializaram-se no comércio por terra e instalaram-se
nas terras germanas, polonesas, eslavas e boemias (Tchecoslováquia), outros
judeus dirigiram-se para Inglaterra. Por seus conhecimentos foram convidados pelos
reis e senhores feudais a permanecerem nelas por estimularem o comércio e a
indústria.
30
Maneira como a Igreja Catolica denominava todos aqueles que não estivessem de acordo com seu
credo.
84
As cruzadas marcam o primeiro de uma serie de eventos que se sucederam
no decorrer dos séculos que instigaram os judeus a procurarem um lugar onde
pudessem viver sem serem perseguidos. Desta maneira elucidamos algumas
questões referentes a disseminação do judaísmo. Agora faremos um breve
reconhecimento sobre a questão da inquisição, para poder esclarecermos a razão
da perseguição tão feroz aos judeus e entendermos como eles conseguiram vir para
o Brasil.
Em 1022, deu-se o início da Inquisição para punir alguns clérigos que eram
contra as práticas da Igreja. Mesmo antes de ser oficializada, houve julgamentos e
execuções de “hereges” em Orleans e Toulouse na França.
Foi a primeira vez que os atos da Inquisição foram colocados em prática pela
Igreja, para agir contra os clérigos que divergiam com a forma que a igreja estava
dispondo dos recursos para manutenção de ostentações, e a maneira como
conseguiam sua riqueza por meio de exploração contínua da crença dos indivíduos
sejam eles pobres ou da nobreza, um exemplo foi às vendas das relíquias e da
remissão dos pecados. Após serem identificados e presos, os clérigos foram
punidos com torturas e depois com a morte.
Só depois de algum tempo, foi que as perseguições voltaram-se contra
bruxas, judeus e qualquer pessoa que divergisse da igreja enquanto representante
de Deus.
Após 97 anos, em 1119, foi que o Concílio de Tolouse escreveu e deferiu
poder aos bispos de pronunciarem sentenças nas questões de heresia. Foi o Papa
Lucio III, apoiado por Frederico I, imperador do Império Romano-Germânico que
instituiu a inquisição Episcopal. Só anos mais tarde em 1184 quando ocorreu o
concílio de Verona, que foi estipulado a utilização e confiscação dos bens dos
“hereges” para serem divididos em partes iguais pelo Estado e pela Igreja.
Com o Papa Inocêncio III em 1198, é elaborada e disseminada com grande
ênfase a perseguição aos “hereges”, quem denunciasse um, ganhava dinheiro e se
o acusado possuísse algum bem imóvel ou móvel seria dada ao delator uma parte
do bem, e o restante iria para os cofres da Igreja Católica. O Papa Gregório IX foi
quem mandou publicar a constituição “Excommunicamus” regulamentando a
inquisição em 1231, centralizando dessa forma as decisões para o clero.
85
Em tese, a inquisição era um procedimento perfeitamente legal e
ordeiro. De acordo com as normas vigentes do direito civil, havia três
métodos padronizados de processo criminal: a acusatio, na qual um
queixoso acusava formalmente um réu; a denuntiatio, na qual uma
autoridade pública denunciava um criminoso; e a inquisitio, na qual
um funcionário da justiça era encarregado de investigar varias
denuncias de crime, convocar testemunhas e ouvir as refutações.
[…] Com base nesse sistema jurídico, a igreja foi aos poucos
construindo um sistema de terrorismo organizado. O primeiro passo
foi definir a heresia como crime, sujeito a julgamento clerical, e
depois fazer com que esse julgamento fosse cumprido através da
punição secular… nos termos desses decretos imperiais, emitidos
entre 1220 e 1239, toda heresia era proibida e qualquer um que
ajudasse ou defendesse os hereges seria passível de punição. e a
heresia não precisava ser comprovada. a suspeita de heresia era o
bastante para justificar o processo. Quem confessasse e se
arrependesse seria castigado. Quem se recusasse a confessar seria
julgado impenitente e entregue às autoridades seculares para
execução (FRIEDRICH: 2000, p. 120-126) (grigos nossos).
31
Ou em nome de Iahweh.
86
A estratégia da conversão deu certo por algum tempo. Os sefaradim se
aproveitaram de sua condição privilegiada e assumiram diversos cargos que antes
lhes era proibido. Desse modo, tornaram-se funcionários e bispos da igreja,
entraram no departamento de administração do estado casaram com pessoas da
nobreza e até mesmo da família real de Aragão.
Os judeus conversos de Toledo em 1449 foram atacados por cristãos
anticonversos, esses acusavam os judeus de estarem disfarçados, e mesmo dentro
da Igreja continuavam realizando suas cerimônias em segredo.
Em 1478 o Papa Sisto IV, autoriza os reis espanhóis a constituir a Inquisição
independentemente dos bispos para o que o processo seja concluído. Dessa
maneira os reis Fernando e Isabel puderam usar a Inquisição para perseguir com
mais veemência os judeus e mulçumanos que residiam ou tinham negócios dentro
de seus domínios.
Com o casamento de Fernando com Isabel os reinos de Aragão e Castela
foram unificados no ano de 1479 e um ano depois foi instalada a Inquisição
espanhola para investigar as acusações de heresia:
Outro fator que ajudou-os a saírem com vida da Península Ibérica foi a
participação judaica nas embarcações que exploravam os mares, este tipo de
conhecimento marítimo foi sua esperança para recomeçarem nos lugares novos,
pois expulsos de suas terras e degredados era o único modo de buscar a
sobrevivência. No decorrer desde tópico apresentaremos três mapas referentes a
saídas em massa de judeus de diversos lugares do mundo. O primeiro mapa faz
uma breve referencia a uma provável rota usada durante a fuga da inquisição
.
88
89
Ao observarmos o mapa do período da saída da saída dos judeus da
península ibérica, constatamos que as rotas prováveis de fuga coincidiam com o
“descobrimento” das Américas.
Para os reis católicos a exploração dos mares era uma chance de novas
conquistas e mais acumulo de riquezas extraídas do lugar a ser conquistado.
91
Contudo com a disseminação do semitismo, foi desenvolvido o termo anti-
semitismo criado por Wilhelm Marr sob o título de “A vitória do judaísmo sobre o
Germanismo” impresso em 1873 e 1879, para demonstrar a superioridade judaica, e
desse modo fazer com que as forças do estado e da sociedade alemã, fossem
instigadas contra os judeus. O termo criado por Marr caiu nas graças do chanceler
Bismarck, o qual deu apoio a propaganda anti-semita. Em 1881, Eugene Düring,
publicou seu livro intitulado “A Questão Judaica”, ele afirmava que a questão judaica
deveria ser estudada e compreendida como:
92
anos retirar dois terços desse povo. Para tal feito começou a comprar terras na
Argentina como informa Goldberg e Rayner (1989) para serem transformadas em
colônias agrícolas; mas apenas cerca de 6.000 emigraram para lá entre 1892 e
1894. Embora ulteriormente, 115.000 judeus tenham se radicado naquele país, era a
América do Norte o lugar que mais os atraia. E, dentre os países da América do Sul,
que os acolheram o Brasil teve um papel importante, pois eles puderam comprar
terras no sul do país para desenvolverem agricultura.
93
94
Ao observarmos o mapa, constatamos que o deslocamento desse período
não foi para a Palestina, mesmo que nesse período eles já estivessem comprando
as terras, não tinha como enviar judeus em massa para aquele território devido a
periculosidade existente.
Em uma sequência de acontecimentos adentramos no quarto período de
perseguição e extermínio ao povo judeu que teve seu início quando o partido de
Adolf Hitler, “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazistas)”
assumiu a maioria no governo da Alemanha.
Em um país descontente por passar por embargos econômicos em 1918,
devido à derrota sofrida na Primeira Guerra Mundial, e com o histórico dos pogroms
na Rússia, onde tinham descoberto em quem colocar a culpa, desapropriar bens e
expatriar, “limpar o país” e ao mesmo tempo crescer economicamente. O governo
alemão percebeu a oportunidade de agir contra o povo imediatamente, pois a maior
parte das empresas e indústrias, pertencia a descendentes de judeus e com o povo
alemão estava passando por diversas dificuldades, o Governo alemão e sua cúpula
entenderam que as empresas, indústrias e mão de obra, deveriam estar sob seu
domínio e administração e dessa maneira o Estado alemão poderia crescer.
Com o acordo feito com Stalin, Hitler partiu imediatamente para invadir a
Polônia. Em 1939 os judeus foram remanejados para os guetos, dentre eles, o maior
gueto era o de Varsóvia. De acordo com Goldberg em “1941, a Alemanha invadiu a
União Soviética. Em outubro, Moscou e Leningrado estavam sob assédio e a maior
parte da Ucrânia já havia caído. Aproximadamente 3,5 milhões de judeus se
encontravam sob o domínio alemão” (Id.: 1989, p. 202).
Os métodos de extermínio sistemáticos elaborados pelos alemães para com
os judeus, os ciganos, os prisioneiros de guerra e os homossexuais, passaram pelo
uso da mão de obra até a morte, a tortura, os experimentos médicos, e campos de
concentração foram criados para uma “limpeza mais rápida” e com menos gastos
96
carbono. Sobibor e Majdanek, ambos nas vizinhanças de Lublin,
foram responsáveis pela morte de 400 mil judeus do Leste europeu e
de muitos prisioneiros de guerra. No campo de Treblinka, perto de
Varsóvia, calcula-se que 800 mil judeus foram mortos por gás nos
quinze meses decorridos entre julho de 1942 e outubro de 1943. O
maior dos campos era o de Auschwitz. […] Os fisicamente aptos
eram separados para trabalhar até a morte [...] Autoridades nazistas
convidadas podiam observar o processo através de vigias. Depois
disso, as obturações em ouro eram retiradas dos cadáveres e o
cabelo das mulheres cortados em para uso industrial. Entre um e dois
milhões de judeus foram mortos em Auschwitz, entre 1942 e 1944. O
ministro da Propaganda de Hitler, Goebbels, anotou em seu diário,
em 1943, que os judeus estavam sendo exterminados por “meios
bastante bárbaros”, mas que “não se pode deixar que o
sentimentalismo predomine nesses assuntos” (GOLDBERG &
RAYNER: 1989, p. 202 e 203).
97
98
Ao observarmos o mapa citado, constatamos que é a partir da Segunda
Guerra Mundial que começa a acontecer em maior número uma parte do retorno a
Palestina, e foi com a ajuda de judeus do mundo inteiro que esses migrantes
juntamente com políticos pleiteiam e conseguem diante das ONU32 o status de
nação e, é criado o novo Estado de Israel.
Evidenciamos até então as possíveis trajetórias das migrações judaicas que
acarretaram a presença desse povo no Brasil e no reto do mundo. Faz-se
necessário que agora apresentemos os judeus na região amazônica.
Durante todo o século XVIII os registros sobre os judeus no Brasil são vagos.
Contudo, no século XIX, as referências já mostram uma nova frente migratória após
a colonização do Brasil. Eram judeus espanhóis, judeus marroquinos (Marrocos
Francês), judeus árabes e judeus da cidade de Tânger. Nesses lugares estavam
experimentando a perseguição de alguns sultões e a crise econômica lhes afligiam,
por isso decidiram vir para o Brasil.
Ao chegarem aqui buscaram a região Amazônica para viver, como aponta
Blay:
32
Organização das Naçoes Unidas.
99
Tanto Belém como Manaus a comunidade judaica mostrou-se ativa, com o
passar do tempo não só no setor comercial, industrial, mas também no setor da
educação e da cultura.
Quando adrentraram a região amazônica, os judeus viram a oportunidade de
crescimento econômico, no comércio feito pelo rio, pois a distância dos centros
comerciais e a dificuldade de locomoção por terra favorecia o único meio de
comércio na região no século XIX:
O mapa 4, mostra como adentraram na região norte, tendo como meio para
obter dinheiro o comércio realizado em embarcações que abasteciam o povoado e
vilarejos mais afastados das capitais, essa prática comercial ficou conhecida como
“regatões”. Este era uma forma de comércio usado pelos judeus e outros mascates
da região, que adrentavam a Hidrovia do Amazonas dentre elas o rio Madeira,
comercializando desde produtos alimentícios, remédios, munições e demais
produtos que ajudassem a preservação da vida na floresta.
100
101
Na Amazônia a presença judaica foi estudada por alguns pesquisadores
dentre eles Benchimol (1994), ao afirmar que a presença judaica ocorreu na
Amazônia desde o século XIX, e que as primeiras famílias vieram em 1820, com
suas particularidades, uma delas é que ao migrarem traziam a família com eles. Ao
contrário de outras correntes migratórias que muitas vezes chegavam
individualizados, os judeus chegaram com suas famílias, assim assegurando o
caráter doméstico e gregário de sua migração evidenciando, desse modo, a vontade
de permanecerem no lugar escolhido para viverem com a família.
As localidades da região amazônica que os judeus buscaram para morar e
trabalhar tinham algo em comum eram cidades que o acesso direto se dava por via
náutica. Estas localidades eram conhecidas como ribeirinhas33, por situarem sua
frente as margem de rio, nas palavras de Benchimol:
33
Entendemos por comunidade ribeirinha: (…) a quem mora às margens de um rio ou igarapé, mas
aquele que essencialmente mantém uma organização social diferenciada da urbana, com sua
sobrevivência econômica baseada principalmente na pesca, pequena produção agrícola
(caracteristicamente mandioca para a produção de farinha, frutos como a melancia, plantada nas
várzeas dos rios e plantações perenes como o cupuaçu, a pupunha e o açaí) e que pratica a coleta
de produtos da mata como a castanha-do-brasil, o açaí, a abacaba e o patoá nativos. Assim, fica
claro que não é somente o fato de morar às margens de um rio ou igarapé que caracteriza o
ribeirinho, isso seria uma classificação simplória diante da diversidade da forma de viver da
população amazônica (SILVA & SOUZA FILHO, 2002: 27).
102
Constatamos que na região Norte ocorreu um fenômeno pouco conhecido
pelos judeus, que foi o “esquecimento”, este notado pelo pesquisador e denominado
como “assimilação34”. Segundo Benchimol (1998), esse fenomenolo foi muito claro
na Amazônia,
E, eles se reuniam lá, eles tinham o Sefer Torá lá, e que depois com
o passar do tempo, se não me engano na década de sessenta ou na
década de setenta, algo assim levaram embora, levaram pra São
Paulo a Sefer Torá, porque as pessoas, que continuavam praticando
o judaísmo seriam as pessoas, que faziam o mitzvah, as mitzvot, que
são os preceitos judaicos, eles estavam ficando velhos. (…) O bispo,
ele andava socado na casa das pessoas que eram judias.
Justamente pra impedir que as pessoas fizessem o básico do
judaísmo, que é a brit-milá, que é a circuncisão no caso, e o Shabat,
essa coisa, iam muito perturbando as pessoas, e como as pessoas
viviam de comércio, então já tinha aquele estigma, porque o judeu já
é estigmatizado (narrador VI, 2011).
34
processo pelo qual um grupo humano, ger. uma minoria ou uma coletividade imigrante, é absorvido
pela cultura de outro(s) grupo(s) (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 3.0, 2010).
35
Comunidade judaica organizada
103
Esse cuidado com o Sefer Torá se tem porque ele não pode ficar em um lugar
que não seja para estudo aprofundado no espírito de respeito e temor as palavras
de Iahweh.
Em Porto Velho a organização também teve um período de desenvolvimento,
pois já existiam indícios de haver minian36, no início do século XX. Como nos
informa Eva Blay (1997), já havia a realização do brit milah em 1909, a autora da
referência a Porto Velho, mas provavelmente era na Vila de Santo Antônio.
Quando houve a desinstalação de toda administração política e econômica da
Vila de Santo Antônio, todos os postos foram transferidos para Porto Velho. Devido
o desenvolvimento acelerado com a criação da Ferrovia Madeira Mamoré,
provavelmente os judeus acompanharam a mudança da administração já que alguns
exerciam cargos de delegado e juiz.
O enfraquecimento da comunidade judaica de Guajará–Mirim foi eminente,
sem uma organização consolidada, com delimitação do lugar, e sofrendo influências
direta de religiosos de outras denominações, ficou difícil para os poucos judeus
permanecerem na fé e nos preceitos de seus antepassados. Contudo em Porto
Velho alguns perseveraram e conseguiram se organizar como comunidade civil, em
associação e centros de estudos, como podemos constatar com o Narrador III
(2010), “no final de 2005, lá por 2006 a gente instituiu como uma entidade jurídica
CEJURON”. Porém a ideia de um lugar para usofruto exclusivo de judeus não foi
unanime, é o que veremos a diante.
36
Significa "conta" em hebraico, se usado para indicar a oração, significa a contagem mínima para
poder dizer certos trechos das orações. Por exemplo: O Kadish, Barechú, Kedushá, leitura da Torah
etc, são partes da Tefilah que só podem ser realizadas se houver um minian de homens na sinagoga
que já possuam a maior idade judaica que é indicada com 13 anos.
104
maneiras que eles encontraram para divulgar os ensinamentos provenientes de seu
“Deus” foi o de compilação de livros.
Os livros de estudo da Lei judaica foram escritos em diversos momentos de
sua história e por diversos personagens. O primeiro personagem que temos
conhecimento foi Moisés, após ele outros homens que, faziam parte ou do
sacerdócio do Templo ou eram profetas, foram autores de diversos escritos, que
fazem parte dos ensinamentos judaicos.
Depois da destruição do Templo, houve uma modificação na forma de
adoração e culto a Iahweh. Essa modificação foi elaborada por homens estudiosos,
conhecidos como escribas, que legislavam e estudavam a Torá. Com o passar do
tempo surgiu uma nova classe de homens sábios, que passam a ser chamados de
rabi, e depois de rabino, que faziam as vezes dos escribas.
Faz-se necessário evidenciarmos alguns dos personagens que estruturaram a
literatura judaica, um dos mais importantes homens do judaísmo foi Moisés. Ele
liderou a saída do Egito, organizou as tribos de Israel, denominando-as conforme
seu patriarca. Criou o conselho dos anciões, dos Levitas e elaborou a Torá escrita.
Outros que tiveram papel importante na compilação dos livros judaicos foram
os profetas, estes eram grandes líderes, que em nome de Iahweh arriscavam sua
vida ao levarem suas mensagens aos governantes. Em nenhum momento da
história dos judeus eles foram vistos como simples adivinhos. Muitos foram mortos
por falarem como porta voz da palavra divina. Izecksohn afirma que “na luta contra a
idolatria deram tudo de si, porque compreendiam que a única maneira dos israelitas
sobreviverem era de se manterem fiéis às prescrições de Abrahão e Moshé, em
resumo, a Adonai. Caso contrário acabariam dissolvendo-se entre os outros povos”
(IZECKSOHN, 1973b, p. 109).
A atividade profética era diferente da atividade sacerdotal. O sacerdote era
unicamente vindo da tribo de Levi, enquanto os profetas eram “escolhidos” às vezes
no meio do povo por Iahweh, que lhe enviava com mensagens proféticas, aos
governantes do povo Judeu. Contudo também havia os que, eram adivinhos pagos.
105
vezes da mais alta qualidade literária. Suas palavras eram
apresentadas publicamente, lembradas, transmitidas tanto oralmente
quanto por escrito, e depois coligidas nos livros dos profetas, como
as conhecemos (GOLDBERG & RAYNER: 1989, p. 55-56).
Características Livros
37
No plural midrashim são: o Mechilta (o nome significa: “regras de interpretação”), sobre o livro do
Êxodo; o Sifra (que significa “o livro”), sobre o Levítico; e o Sifrei (“os livros”, forma abreviada de “os
livros da escola rabínica”), sobre os Números e o Deuteronômio (GOLDBERG: 1989, p. 244).
38
Ou Hagadá, que é um livro editado e reeditado através de gerações sem fim, fornece todas as
instruções dos rituais (IZECKSOHN: 1973a, p.60).
107
crescimento espiritual, pois a discussão do texto propicia crescimento de
conhecimento.
O halachá cobre os tópicos que são tratados em um tribunal judaico. Nele são
encontradas todas as normas que podem regular o comportamento humano.
Também pode ser obrigatório ou não, ele é uma prescrição do que, se deve ou não
fazer. Já a Agadá é uma narração, uma parábola, é uma descrição elaborada na
visão teológica quer o judeu deve seguir.
O primevo ensinamento foi o da Torah. Foi a partir da revelação da Torah,
que o judeu passou a viver pelo rigor de sua fé. Ela é fundamental ao judeu para a
manutenção de seu pacto com “Deus”. Está dividida em cinco livros que ficaram
conhecidos como Pentateuco. Estes livros tem sua organização atribuída a Moisés
A palavra Torah referia-se originalmente a uma instrução particular
transmitida ao povo por um porta-voz de “Deus”, que poderia ser um profeta ou
sacerdote, mas com o passar do tempo ela foi usada coletivamente, por todos os
judeus que buscavam no corpo desses ensinamentos a obediência ao seu Iahweh,
esses ensinamentos segundo se acreditava, “Deus” havia revelado, por meio de
Moisés, aos israelitas no monte Sinai.
108
do paganismo, e a atribuição da divindade ao Eterno39, também contextualiza sua
dedicação ao culto exclusivo do único e invisível Iahweh.
39
É um dos nomes usados para demonstrar um dos atributos do Deus judaico. Dessa maneira não
necessitam proferir o nome de Iahweh em vão.
109
Estes representam uma grande variedade de tons e temas: individuais e
nacionais; de louvor, ação de graças e lamentação, celebrações da realeza;
louvores à sabedoria para os adoradores de Iahweh, esses escritos não possuem
uma única autoria, pois são de diferentes períodos históricos sua confecção.
Observamos que em seguida dos livros de louvores, vêm os livros de
observância e permanência da identidade judaica. Todos eles interagem quanto da
continuação da fé, mesmo enfrentando problemas, a perseverança da integridade e
submissão a Iahweh, são encontradas em suas linhas.
110
Quadro III: Organização do Tanach – Bíblia Judaica
Gênese
Êxodo
PENTATEUCO Levíticos
Números
Deuteronômio
PROFETAS Josué
Juízes
Profetas Anteriores Samuel I e II
Reis I e II
Profetas Posteriores - Maiores Isaías
Jeremias
Ezequiel
Profetas Posteriores-Menores Oséias
Joel
Amós
Abadias
Jonas
Miquéias
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias
ESCRITOS Salmos
Provérbios
Jó
Cinco Pergaminhos Cântico dos Cânticos
Rute
Lamentações
Eclesiastes
Ester
Daniel
Esdras e Neemias
Crônicas I e II
Total de 35 Livros
Fonte: Goldberg & Rayner, 1989.
111
A Mishná foi elaborada tanto como um código legal, quanto como um livro de
textos reunindo ensinamentos que eram transmitidos de forma oral pelos escribas e
fariseus, desde o período do segundo Templo, ou seja:
40
conjunto de doutrinas religiosas de caráter sincrético, místico e iniciático, acrescidas eventualmente
de reflexões filosóficas, que buscam o conhecimento da divindade para alcançar a elevação
espiritual.
112
CAPÍTULO 4. As experiências narradas
113
Narrador I
115
cuidado, porque às vezes, vêm coisas na Torá, que pessoal põe na tradução. Põe
do gosto deles e, aí não é bem assim.
A gente tem que saber a origem da Torá, que a gente compra aqui, porque
tem umas Torá, que são chamadas de Torá, mais não é uma Torá, é uma tradução
da Torá para o português, que eles falam, que é a bíblia judaica. Aí nem tudo ali
bate com o que, a Torá real tá falando, porque quando se conversa quando se,
aprende a ler e escrever em hebraico, você vai ler o hebraico na Torá tem coisas,
que é uma coisa, e nessa tradução é outra, e na tradução cristã é outra, é totalmente
diferente.
Por exemplo, na Torá original, não se fala de descendente “ele”. Ele
descendente não fala ele, lá em Gênesis, fala ela. Mas no cristianismo tá ele, porque
tá ele? Pra dizer que aquela é a origem de Jesus Cristo, quando não é. Então,
quando mudamos a palavra de ele pra ela, é uma mudança muito grande, do
feminino para o masculino, lá fala ela, lá diz: que, sua tradição pisará a cabeça da
serpente, já na bíblia aí diz: ele na tradução, pela descendência ele, referencia a
descendência dela, da mãe, que quando Eva foi picada diz: que, ela iria pisar a
cabeça, então tá dizendo ela, sua descendência pisará a cabeça da serpente. Ela
sua descendência, não ele sua descendência pisará a cabeça da serpente, então
não é um homem, que pisa a cabeça da serpente, é uma mulher. Então não pode
ser Jesus, como eles tão dizendo, que era lá, que quando “Deus” fez o mundo tava
ele e o Jesus junto. Não, não existe plural no hebraico. O “ele” que se refere é
totalmente o reino.
Quando “Deus” fala, façamos o homem nossa imagem, ele consulta o reino
Dele, ele não consulta uma pessoa, como eles querem aqui. Façamos, esse é o
plural, não! Não... esse plural de façamos como eles querem. É o reino dele, é uma
colocação de reino, a tradução, que eles fazem, que dá essa diferença entre o
singular e plural, ele chamou o povo dele todinho, quando ele fala meu filho, todo
mundo diz, esse é o filho Jesus, não ele fala é pro povo, porque o povo chama-se
Israel, Israel é um só ser. Quando “Deus” mudou o nome de Jacó para Israel é uma
pessoa, e você chamará Israel. Então, quando ele fala, que é o povo dele, fala povo
meu, filho meu, ele se refere a um filho, como o todo sendo um filho. E os cristãos
chamam de Jesus, que é um homem, não é messias, até a tradução dessa palavra,
que eles falam lá o messias, messias quer dizer simplesmente ungido. Quem era
ungido? Os reis, sacerdotes e os profetas. Então não era uma pessoa específica,
pra se dizer assim, esse é o enviado de “Deus”, tal, é o ungido é o messias e o
salvador, não! Porque os ungidos sempre dizem: de onde vem minha salvação?
Olho pro alto, e vem de quem? Do eterno, nosso “Deus”, aí o messias não é
referência a isso, messias é ungido é um ser ungido, eu posso ser um messias,
qualquer um pode ser um messias. Nada impede isso é “Deus” que vai ungir, ser um
messias, um ungido do senhor. Eles já não querem assim, então tem uma diferença
nessas traduções, a virgem que eles falam Maria virgem, Porque eles, tão pregando
uma profecia que tem lá do velho testamento, e, lá não fala que a mulher é virgem
de virgindade sexual, ela é de moça nova, lá a palavra virgem é moça, e nascerá de
uma moça, mais a nossa tradução, judeu-hebraico, não quer dizer, que ela seja
virgem. Uma mulher casada sendo jovem é uma moça, e nessa aí, eles dizem, que
não, mas a tradução, que eles fizeram pro grego é, que trouxeram a palavra virgem,
porque a Torá não foi traduzida diretamente do hebraico para o português, ou latim.
Ela foi traduzida primeiro, pro grego, e os gregos traduziram do jeito, que eles
quiseram. Quando passou para o latim já passou com modificação do próprio grego.
116
E, quando passou para o português aí passou com modificações do próprio
latim, se nós formos pegar o nome de Jesus, será que Jesus é o nome do salvador?
Claro que não, porquê? Por que naquela época nem se falava português, porque
vou botar o nome Jesus, que é um nome português. Ah, é porque vem lá dos judeus
o nome de Jesus tal. Então, vamos pegar e vê se vem mesmo? Como é que
chamava Jesus quando foi morto? Iésus em latim. Então, já não é Jesus, não existia
‘jota’ em hebraico, e o ‘jota’ não era usado em latim, começou à ser usado depois
daqueles caras, que vieram catequizar o Brasil em 1400 e pouco, os jesuítas, aí
começou a se usar então. Se usou jota por causa do nome significado Jesus. Foi
Jesus por causa dos jesuítas. Que eles começaram a fazer a tradução para o
português e numa comunidade, que se chamava jesuíta com jota. Aí começaram a
falar Jesus, e houve a mudança e botaram o jota no lugar do i, aí troca, se tira o i, e
coloca-se jota, que fica Jesus, agora digo, já viram algum nome em inglês chamado
Jesus sem jota? Eu nunca vi, eu fui ver a lei japonesa tá lá Jesus, vai tá j, e, s, u, s,
Jesus, vou ler em inglês tá Jesus. Vou ler em português vai tá escrito Jesus,
qualquer língua, que eu for vai ser Jesus, então porque, eles não deixaram o
verdadeiro nome dele, que era Ieshuá, porque a pronúncia, que tem Jesus, que se
fala em inglês não é Jesus, é djezus, djezus, que eles falam. Um dj, djezus, que eles
falam que é a tradução. Mas tradução não pode, porque segundo a lei universal, não
se traduz nome.
Eles não lêem o hebraico, os dez mandamentos, o velho testamento, por que
se eles fossem ler, eles iam ver lá, que o próprio eterno diz, não porás apelidos em
meus filhos. O quê, que ele quis dizer com isso? Não muda o nome dos meus filhos,
todo judeu tem o primeiro nome de “Deus” no seu nome, todo judeu, que tem o
nome judaico contém o nome de “Deus” nele, porque ele disse o meu povo tem o
meu nome, que IES, IÁ é “Deus” IÁ, aí vai ter, Ieshua, Ierusalém, vai ver também
Jeremias, que é Ieremias. Então, tem uma mudança muito grande, eu comecei a ver
isso, com trinta anos de cristão, trinta anos de evangélico. Evangélico da
Congregação Cristã do Brasil, umas das mais severas, e mais como se diz fechada
das, que tem de evangélicas. Ela diz: que, ela é única e verdadeira o resto é tudo
seita, então a gente já vinha com uma lavagem na cabeça disso tudo, quando eu
aceitei ser evangélico da Congregação aqui falavam pra mim, que ela é pura e
verdadeira, que as outras são tudo seitas, e seitas não levam pro céu. E isso, e
aquilo outro, eu não ia nas seitas de medo. Porque se eu fosse tava caindo da graça
da Congregação, se eu fosse freqüentar outra religião, outras igrejas me excluíam
da igreja deles. Se eu fosse pra assembléia, diziam você não é da nossa você é
assembleiano, quando morrer você vai pro inferno junto com eles, que eles são
seitários. Pra ser da Congregação tem, que ser só da Congregação, não existe outra
igreja, é só congregação. Não existe outro salvador, só o da Congregação. Ela é a
única, pura e verdadeira. Ela é a igreja mais fechada, isso pelo ano de setenta e seis
quando eu comecei a trabalhar no banco Itaú.
Foi lá, que conheci um cidadão, que era espírita. Ele era rosacruciano, e, eu
sou muito curioso… não sei… J. Parece, que é curioso e, eu vi ele lá olhando os
livrinhos da rosa cruz e tal, aí olhei assim vi um corpo no chão, outro em cima
voando sobre o corpo e tal, aí eu falei com ele, seu Geraldo, quê que é isso aí? Isso
aqui meu filho… isso aqui é você poder viajar sem o corpo. Sair sem levar o corpo,
deixar o corpo aqui, e ir pra onde você quer. Eu falei, há isso não existe, na minha
igreja disse, que não pode, se sair do seu corpo cê tá morto. Não, não é assim não,
ai ele foi me explicar o que, era, que ele tava estudando. Ali comecei ficando
consciente de outras leis, que existe no universo, que a gente acha, que não pode
117
alterar. Fiquei sabendo o que, é a transmissão de pensamento, telepatia como
falam, que se pode buscar alguém, que tá lá no fim do mundo, que se quer ver, traz
pra perto de você, as vezes se tem uma perda, e quer, que aquela pessoa esteja de
corpo e alma na sua frente, é só você usar as leis, aí daqui um dia, dois, uma hora,
meia hora dependendo da distância, onde ele tá vai cruzar por mim, vai passar junto
de mim, aí vem o espanto… eu queria falar com esse cara! E, ele veio aqui.
Então, comecei a aprender sobre certas leis e, aí fui ser rosacruciano.
Comecei a fazer o curso de rosacruciano, aí fui aprendendo o que, é judaísmo,
cristianismo. Eu falei rapaz o cristianismo tem muita coisa errada. Não é nada
daquilo que os caras pregam pra gente, não, eu não vou ficar nessa igreja mais não.
Vou procurar alguma coisa a mais, comecei a revirar, a estudar, pesquisar, toda vez,
que eu ia na igreja o pastor da igreja, que eu era cooperador dizia: olha a letra mata,
o espírito vivifica! cuidado com as coisas do demônio… Aí eu dava uma reparada.
Pensava espera aí, vou devagar. Eu não quero perder a salvação. Sei lá eu se isso
aqui é do demônio, aí começava a por em dúvida o que, eu tava fazendo no curso,
e, eu parava uns dois anos sem mexer com aquilo lá. Aí depois voltava, dava aquela
curiosidade, deixa eu fazer mais um pouco, quando foi agora em noventa e cinco,
noventa e seis, eu comecei ver outra religião.
Decidi procurar outra religião, vou sair da congregação… comecei a pesquisar
a fundo mesmo e encontrei um pessoal agora em dois mil e quatro, e falou pra mim
assim: olha cê sabe, que quem salva não é Jesus? Eu falei “Deus” o livre, cê tá com
o diabo no corpo, cê dizer pra mim, que Jesus não salva, cê tá endemôniado! Ele
me respondeu: não rapaz quem salva é Yehoshua.
O que? Eliarroshua! Quê, que é isso, quem é esse cara? Ele me respondeu é
o salvador, aí eu disse: não! O salvador é Jesus Cristo. Ele me explicou, que
Yehoshua é o nome gerador judeu, que é realmente em aramaico. E não é nem em
hebraico é em aramaico, em hebraico é Yeshua, que aramaico é Yehoshua.
Ele começou a me explicar, e eu disse: então quer dizer, que esse Jesus, que
nós servimos há tantos anos não tem nada ver com salvação? Ele me respondeu:
Não, isso aí foi feito pelos imperadores romanos, como assim? Isso é um Jesus
histórico rapaz, eles que inventaram esse Jesus aí, esses evangélicos. Não houve
evangelho escrito como eles falam inspirado por “Deus”, e tal. É tanto, que a maioria
foi feito mais ou menos próximo de Jesus, que eles falam por trinta anos depois da
morte dele é, que foi feito. Nesse tempo todo quer dizer, tem muita coisa, que já foi
esquecido com trinta anos, eu nem sei quem era meu irmão, que já morreu, e, tá
com dez anos, que ele morreu. Nem lembro mais o que ele fazia, ou deixava de
fazer, como é, que vou lembrar daqui a trinta anos ainda mais um velho, porque eles
já eram assim de certa idade. Provavelmente se ainda tavam vivo, com trinta anos
depois da morte do outro tinha, que ter pelo menos sessenta, setenta anos.
Quer dizer escrever a vida passada de outra pessoa, que eles não tava no
convívio direto com ela. Iam dormi em outra casa, tinha outros afazeres, tinham as
famílias deles pra cuidar, iam uma hora ou duas ficar com ele. Eles iam cuidar dos
afazeres deles, eles não viam Jesus totalmente dia e noite, até porque, não é
possível os doze homens dormi no mesmo dia, no mesmo horário, no mesmo local,
tudo perto dele. Depois eu comecei a ver as falhas, que tem nos evangelhos,
Mateus não foi discípulo de Jesus, Lucas também não, Marcos então com 300 anos,
que foi escrever o evangelho, Lucas com 330 escreveu o evangelho?, O único e que
provavelmente poderia ser discípulo de Jesus é João. E, que também tem seu
evangelho, que se fizer análise de texto o primeiro capítulo de João, não foi João
que escreveu, foi colocado pela escritura, foi imposto 1200 anos depois da morte de
118
Cristo, aquele, que dizia o verbo se tornou carne e tal, quilo lá não foi ele, que
escreveu o estilo de escrita não é o mesmo de João, é de uma pessoa estranha, que
não se sabe quem, mas não é dele. Eu comecei ver isso aí, e esse rapaz, que falou
o nome de Jesus me levou a conhecer o judaísmo.
Estou estudando a cinco pra seis anos, o judaísmo só, que eu não vim direto
pra CEJURON, comecei a vagar… Porque esse cidadão, que me levou a conhecer o
judaísmo não, que me levou pro judaísmo. Ele me levou pra uma outra religião, que
é uma mistura do judaísmo e cristianismo. Então, ele ainda crê, que o salvador é
Yeshua. Pra ele tem o salvador, o messias já veio, pra nós judeus não, nós não
sabemos se o messias é uma pessoa ou uma era.
Provavelmente estamos na era messiânica. “Deus” diz, que vai ser uma
pessoa nascido de homem e de mulher comum, outros já dizem: não vem de “Deus”.
Filho de “Deus” todos nós somos, espírito de “Deus”, filho de “Deus” dizem, “Deus” é
santo, nós temos o Espírito Santo. Aí eles dizem, que o Espírito Santo é outra
pessoa, e não é. Não é uma pessoa! É um sopro, é uma energia… alguma coisa
assim, eles querem, que seja o “Deus” pai, “Deus” filho, “Deus” espírito. Enquanto no
velho testamento diz não há três, só há um, sou eu o único, antes de mim nada
existia, e depois de mim não há outro. Pra quê, que eu vou dividir ele em três? Na
física é impossível botar o corpo, mais outro corpo no mesmo lugar, ao mesmo
tempo, no mesmo horário não existe, é impossível isso! Ou um sobre o outro.
É o mesmo, que dizer, que seu filho é você pode? A mais o filho de “Deus”,
“Deus” é. Filho de peixe, peixinho é, tudo bem, mas a cabeça do filho peixe é uma a
do pai peixe é outra. Não é mesmo esse negócio de trindade é meio esquisito,
porque se fosse verdadeiro, então não podia ser trindade, seria um mesmo. Ele se
fez homem acabou, nasceu do espírito dele é nosso espírito, se ele é santo, é
porque ele é santo.
Não é, porque o Espírito Santo é um, que o Jesus é outro, isso aí tá errado.
Comecei a pesquisar isso aí, e foi dar justamente em Constantino, trezentos e
poucos depois que o cristianismo foi oficializado, a discussão entre duas facções
das igrejas primitivas em, que uma queria que tivesse três “Deus”es e a outra queria,
que tivesse só um “Deus” como os judeus tinha.
Não! Mas, nós só servimos a um só “Deus”, Jesus é só o prometido dele, não
é ele. Jesus não é o “Deus” todo poderoso. Aí disseram não Jesus é “Deus”, aí
Constantino disse: olha vamos fazer o seguinte, lá em Roma existe três “Deus”es
além dos outros.
Não sei se é Diana que era a da fertilidade, cupido que era filho de Diana
Júpiter que era o “Deus” maior, eles adoravam Juno, que vem de Júpiter. Na Grécia
existe três “Deus”es. Se eu não me engano é Era, Era a mãe de Hércules com o
“Deus” sol... era três.
Rapaz olha os bárbaros tem três “Deus”es, os vinkings, que eles
consideravam bárbaros tinha três: Thor era o filho num sei quem lá, era pai num sei
quem lá. Porque, que agora essa religião, que nós vem trazendo vai ter só um
“Deus” só? Ai nós pegamos os três, e eles vão acreditar e não vai ficar igual ao
judeus.
Inventaram esses três e, como não puderam por Maria como “Deus”, porque
Maria era humana, puseram o tal do Espírito Santo. Mas o cristianismo adora mais a
Maria do que o próprio filho e do que o próprio “Deus”. Todo cristão de modo geral,
da igreja católica, que ela que é mãe de todas. Eles adoravam quem? A Maria, até
hoje Maria não sei do que, Maria num sei mais do que, um monte de Maria. Eu
perguntei, porque, que só Maria no coração, e me diz qual é o filho, que não vai
119
obedecer a uma ordem da mãe? Se a mãe pedir uma coisa pro filho, o filho não vai
fazer? Escreveram no novo testamento, que Jesus diz assim, o que, eu tenho com
você mulher? Quando ela pediu vinho pra ele. Ele disse, eu não tenho nada a ver
com você meu tempo não é chegado. Quer dizer, ele não obedeceu a mãe dele, um
“Deus”, que desobedeceu um grande mandamento honra teu pai e tua mãe não
pode ser “Deus”. Porque, se ele ensina, que têm que cumprir os dez mandamentos
da lei de “Deus”, porque, que ele errou nesse. Mais pra frente ele diz assim: eu sou
o senhor do sábado, eu trabalho, meu pai trabalha até hoje, então vós podeis
trabalhar no sábado, quarto mandamento da lei de “Deus”, que são quatro pra
“Deus” e seis pro homem. Que o sábado é pra ser honrado. Ele diz: que gosta de
cumprir os dez, se errar um nada vale os noves que se cumpriu, se errou o sábado,
já não vale nada, que cumpriu, se errou pai e mãe também não vale nada, tem que,
ser os dez.
Então tem toda essa diferença, aí eu encontrei o A. aqui em dois mil e seis,
acho, que foi em dois mil seis, que encontrei com ele, porque tava frequentando uma
comunidade israelita lá em Ji-paraná.
Que eu fui passar uma temporada lá uns três, quatro meses, fazendo uns
serviços no ramo de associações, aí encontrei lá uma sinagoga, que não é uma
sinagoga. Diz ser uma sinagoga. Aí eu fui pra lá aí... aí, que eu fui aprender o que, é
judaísmo, que é israelita, mas assim mesmo meio cristianizado, porque a de lá é
muito paulina, eles seguem mais o que, Paulo diz do, que um judeu faz. Eles tem as
cerimônias de judeu, do judaísmo e tal, as datas do judaísmo, o purim... tal, só que,
obedecem as leis de Paulo. Aí eles dizem o que, Paulo falou, o que, Paulo pregou,
então eles não precisavam ser circuncidados, esse pessoal foi ser circuncidado mais
por causa do próprio A. Que disse, que eles tinham, que ser circuncidados, aí
acabaram se circuncidando, o A. era o presidente da CIRO42 a que, mandava lá em
Ji-Paraná. Aí ele foi circuncidado, os outros vieram a ser circuncidado também,
todos eles fizessem a circuncisão, só que seguia a linha de Paulo, tanto é, que eles
eram judeus nazareno, que é, de Nazaré. Judeu nazareno e tal temos, que cumprir
as leis de Paulo junto com o judaísmo, não vale nada. Não vai adiantar nada ou,
você é judeu, ou é cristão, um dos dois, não pode ser os dois ao mesmo tempo.
Eu, frequentando aqui a casa de um amigo nosso judeu, que o A. me levou
pra fazer o Shabat na casa dele, porque até então eu fazia o Shabat sozinho, lá em
casa, do meu modo, do meu jeito, lendo livros e tudo, às vezes entrava na internet,
eu ainda não tinha internet ia na lan-house. Entrava na internet pra ver as coisas e
copiava do meu jeito. Encontrei o A. e falou olha tá tendo lá no O. O O. tem Shabat,
ele tava fazendo Shabat lá, mas também eles são, como é que fala, messiânicos43…
São judeus messiânicos, tão naquela lá de messiânico.
Não sou messiânico, vamos dizer que Yeshua, seja mesmo o salvador não é
pra falar, que eu não tava convicto, que ele não era salvador o problema é que, eu
ficava naquela assim, ó quem é o “Deus” pra eu seguir? Cadê o povo pra seguir?
tenho que, achar esse povo, porque cês tão falando, que é messiânico, cheguei até
aqui, que é judeu, judeu nazareno, que eu achei, agora judeu messiânico. Bom,
acho, que é melhor, que nazareno, não sei se é Paulo, se é Jesus que manda. Aqui
não diz, que é só o messias, não tem Paulo, então vamos pra lá quando eu comecei
freqüentar, dois, três meses depois o O. disse: que não ia mais fazer o shabat na
casa dele. Eu perguntei pra ele mais por que? Não, porque vocês são messiânico, e
42
Comunidade Israelita de Rondônia.
43
Judeus Messiânicos: comunidade que reconhece Jesus como o messias, porém realizam todos os
ritos e festejos judaicos.
120
eu não sou messiânico, eu falei: como é que eu faço então? tem uma sinagoga ali,
um prédio, que tem uns judeus messiânicos você pode frequentar lá, ele me levou,
me deixou lá na porta.
Na realidade não eram judeu, são cristãos, que fazem as festas judaicas. Mas
são cristão e não judeus, que é da Amisrael44, cheguei lá quando vi…já conhecia
pessoal eles são da última trombeta o Elias, já tá andando na terra aí, avisando, que
vem o messias pra eles, que é o Wiliam Santiago Souto, que pra eles é um anjo, que
vem anunciando a vinda do senhor. Ah isso aí não tá com nada não!.
Então o A. me chamou, olhou pra mim e perguntou J. onde você faz o
shabat? Eu vou fazer em casa, que não pode fazer no O., o O. não é messiânico,
ele virou ortodoxo. Então, vem pra casa fazer aqui. Então eu fui pra casa dele fazer
o shabat lá, fizemos uns dois shabat lá, no terceiro shabat, quando ele me levou lá
pra casa, ele falou: J. vou dizer uma coisa pra você, que cê acha que é Jesus? o
messias como tão falando? é o salvador do mundo? não sei? Porque, eu tive
pensando acho, que ele não é o salvador. Judeu tem só um “Deus”.
Como eu já tinha nas ideias convicta, que não era mesmo aí eu falei: rapaz
sabe, que você tá mais certo, do que eu, Jesus, messias, Yeshua, seja o que, for
nunca foi salvador, e nem é “Deus”, isso eu já sei… Oh! Há anos! Ele falou pra mim,
tem um pessoal que é judeu ortodoxo se você quiser frequentar lá… Falei quero!
Então vou conversar com eles pra ver se eles deixam eu ti levar lá, que eles
são fechados pra caramba, mas não fala em Yeshua
Mais rapaz, quem é esse cara?.
Comecei a freqüentar, alguns ainda acha, que sou messiânico, mas eu sou
mais judeu do que eles… que vai em igreja messiânica de vez em quando. O E. da
curso de hebraico nas igrejas, eu já não, eu trabalho com um membro da
Assembléia de “Deus”, quando ele me chama pra ir, não ele! É o chefe de gabinete.
Eu digo sabe que eu sou judeu né?
A é seu J. cê não vai.
Eu não participo, eu não vou é muito difícil, a não ser, que tenha que ir,
porque o pastor vai fazer uma associação. E quer, que eu converse com ele, eu faço
a abertura de associação, é esse tipo de serviço, que eu faço pra ele. Então eu vou,
porque tenho que ir, eu vou fazer o serviço, se eu não for vou perder meu ganha
pão. Uma vez ele me chamou, naquele evento que teve lá naquela boate, na boate,
que tem lá Quéops, pra ir sexta, sábado e domingo. Não fui sexta, nem sábado, nem
domingo. Se ele falar, eu falo você sabe, que sexta-feira eu tenho o shabat a noite,
sábado o judeu não faz nada! certo, domingo vai ser só o último dia mesmo, então
nem fui. E ele também, nem perguntou, nem nada, ele não faz muita questão se eu
vou, ou não vou, aí eu passei a frequentar aqui. Minha vinda aqui é pouco, não tem
muito o que falar tem poucos anos ainda.
Tem poucos meses, que estamos congregando aí direto. Eu não sou
considerado pra eles ainda judeu, nem consideram, nem ainda associado. Então
quer dizer se eu não sou considerado associado, quanto menos judeu, eles ainda
acham, que eu sou messiânico. Só, que eu não sou messiânico, messiânico não
acredita na reencarnação, eu acredito na reencarnação, o K. mesmo uma vez nós
tavamos conversando e ele perguntou: o quê, que eu achava como ia ser salvo esse
povo todo? Se “Deus” ia salvar o mundo todo? ia ser salvo ou não ia?
Provavelmente pode ser sim, que a lei da reencarnação diz assim, a gente volta a
vida e pode ser purificado, quem sabe eu tô aqui com vocês agora não nasci judeu,
44
Amisrael: Denominação da Ong. de Wiliam Soto Santiago.
121
mas na outra encarnação de repente eu nasço judeu. Sigo o judaísmo de capa a
capa, do início ao fim, depois quem sabe aí eu nasça de um ventre só judeu. É judeu
quem nasce de mãe judia. Quem nasce de pai judeu, não é judeu não, quem sabe
eu nasça de um ventre de uma judia, ai eu vou ser um judeu. Assim “Deus” pode
fazer com todo esse povo aí, não é, que Jesus vai salvar, ou vai ser salvo pela
graça, não é isso mesmo, ele pode salvar ninguém, a reencarnação é pra isso
mesmo.
Comecei a estudar a cabala, a cabala, que eles falam em hebraico pelo meu
saber acho, que sei muito mais do que, muita gente. Às vezes, ouço a conversa o
pessoal pra mim tá boiando, que a cabala é uma coisa muito sublime, que a cabala
se aprender não tem nada, que segure, não tem nada, a pessoa tá aqui no chão,
pode tá lá no Japão, tá na lua, pode viajar pra onde se quer, vai conhecer “Deus”,
que criou a natureza, cê não vai conhecer “Deus” só de falar, a cabala vai ver a
Torá. Não é isso, que se vê na Torá.
A cabala é o código da Torá, são entrelinhas da Torá. Ver que “Deus” fala
façamos o homem a nossa imagem, o homem já existia no segundo céu, só que
“Deus” tá criando o sétimo céu, quando a gente fala que “Deus” vive nos sete céus,
não é contando primeiro, segundo, terceiro… Não, primeiro, segundo, terceiro que
ele vive, lá em cima no primeiro céu e nós vive aqui em baixo, no sétimo céu, o
inferno, não existe daquele jeito que pintam. Como Dante pinta não existe, o inferno
é isso aqui! Aqui nós estamos praticamente no inferno, só estamos sendo
purificados.
Cada coisa, que se faz aqui para o bem, diminui um nascimento lá, e cada
coisa, que se faz de ruim aumenta o nascimento. Se cometer um pecado muito
grande como cometeu Adão, a alma é estilhaçada em milhares de pedaços e cada
pedaço desse, se torna uma nova alma para, que eles possam ter forças pra ajudar
você a carregar o pecado, que você cometeu, que cê sozinho não vai ter força de
carregar. Essa é a explicação, que eu acho na cabala pra lei da reencarnação, pra
quê tanta alma? Que reencarnação é essa? Pra mim só tinha aquele número de
pessoas só dois. Só morre um pedaço morre? Não é bem assim, a cabala nos
ensina sobre a alma dos animais, tem gente, tem judeu, que não aceita isso, que o
animal tem a alma. Eles não aceita, muitos nem aceita direito a lei da reencarnação,
é porque não lê a cabala, não estudou, não vai aprofundar… Quando ele vê uma
coisa diferente ele fica com medo.
Tem um livro na internet, que diz o seguinte não compre esse livro, esse livro
é um perigo para tua alma não leia mais, tá lá pra você comprar é a cabala, mas ele
diz pra não comprar por quê? Que se for um curioso, aquilo realmente vai acabar
com tua alma. O quê se encontra lá vai ficar louco, vai ficar pirado, aí você vai
passar a viver mais uns mil anos pra a torna se purificar, pra chegar ao ponto, que
cê tava agora. Se você vai ler sério, se você tem uma mente aberta, os
ensinamentos, que tem ali é maravilhoso Haven, Merque, Matusalém, falou nunca
imaginei, que isso existia. Vai conhecer outros céus, vai conhecer o segundo, o
terceiro, o quarto, o quinto, o sexto e o sétimo. Quando chegar no sétimo nem
precisa voltar, não volta mais vai ficar por lá, é isso, que nós vivemos aqui nada
impede pode andar de mini saia, fumar, beber, isso não é pecado, as outra igrejas a
isso chamam de pecado, tem um monte de pecado.
Pecado é o mau, que tu faz pro teu próximo e pra “Deus”. Agora o modo de
usar, de andar... qual é o maior pecado que Adão cometeu? Que a igreja católica
diz, que todo mundo nasce com ele não foi o pecado do sexo né? Eu fui coroinha, a
católica diz o seguinte: que nós nascemos com o pecado original, qual é o pecado
122
original? Que o Adão e Eva cometeram no Paraíso? Que foi que Adão viu? Que tava
nu, e veio o sexo.
A igreja católica diz, que é sexo só, que na realidade pode atingir os céus com
o sexo. É essa a diferença a cabala explica direitinho o sexo, não é fazer sexo com
qualquer um tem, que ter a sua outra alma, quando consegue achar a alma gêmea e
se unir a ela através do sexo atinge a glória eterna, é a última vez, que vê aqui
porque, não vai querer voltar nunca mais, vão subir junto para o céu. O céu não é o
que, agente fala porque, na realidade deve ser outro mundo, mas não é bem assim,
porque também diz: que ninguém vai aos céu se de lá não desceu. Isso é, que
Jesus diz pra eles e eles não entende isso, acham que todo mundo vai pro céu,
quando ele foi bem claro oh, só vai pro céu quem de lá desceu, cê desceu de lá?
Então como quer ir pra lá? Mas quem que desceu de lá do céu pra terra? Nosso
espírito. Da onde veio nosso espírito? Não veio de “Deus”? E só vai pra lá quem veio
de lá a carne não vai, mas o espírito vai, mas eles não entendem isso também, eles
fazem uma misturada danada entre espírito e carne e nisso ficam na igreja só dando
glória, glória, glória e nunca saem do lugar.
A cura divina surpreende, fala em por as mãos, e curar pessoas. Existem
umas leis se mexe com essas leis cura, a energia emanada pelas mãos é, que vai
curar ou recuperar o que, está estragado no corpo mas pra isso tem que saber a lei,
e quando mexer e quando não mexer, não é de qualquer jeito, que se deve mexer,
quando abrir os olhos espirituais como Paulo de Tarso, ai vai ver emanar de suas
mãos energias, e sabe quais são as energias, que emanam o que, significa você
ficar de mãos estendidas para cima ou para baixo, o que, significa esta marca em
nossas mãos esses riscos de cima pra baixo, que os católicos dizem que são o
demônio, que as cartomantes que lêem as mãos vêem o futuro pra prevenir,l mas
pro judaísmo e pra cabala não. A cabala ensina muito bem sobre as linhas das
mãos, sobre as expressões, o que significa pra nós quando eu olho pra alguém eu
sei quem ele é no fundo do seu ser, entendeu pelos traços, que você traz ai cada
traço cada risco desses é uma história sua dá pra ver suas encarnações passadas.
Então quando estudar a cabala, ela toda completa realmente como deve ser
estudada ai aprende porque, a cabala ficou oculta pro mundo por mais de dois mil
anos. Quando foi duzentos anos antes dessa era nossa, que eles chamam cristã né,
foi dada a um homem escrever toda a cabala, que até então não tinha sido escrito
era só oral, ele foi autorizado a escrever a cabala pra ser revelada só mil anos
depois, que ele escreveu. Então ele começou a escrever a cabala, e foi revelada só
no ano de 1200.
Veio aparecer o livro da cabala escrito por ele, acharam o livro, acharam
umas folhas com um comerciante na Espanha, ele embrulhava o pão com as folhas
da cabala, quando os judeus viram reconheceram como a cabala, e viram que era o
livro perdido que ninguém achava da Zorar, foram lá e compraram todo o papel, que
era o livro todinho ai ele traduziu pra o espanhol por isso, que a primeira tradução é
pro espanhol, depois é, que veio pro português, e o Zorar em espanhol são cinco
volumes e tem o resumo. O resumo é um volume só, Zorar é o livro do esplendor
nesse um resumo só já vai ver, que “Deus” não nasceu sozinho, que ele tem uma
rainha.
Essa rainha é a Shekinah, que é a sabedoria. Ele chegou e disse vamos
construir o mundo e a Shekinah disse pra ele antes, que estabeleça o mundo vai
estabelecer primeiro o teu reino antes, que crie ele, estabelece primeiro o teu reino.
Aí que ele foi criar os anjos, os arcanjos querubins, serafins, então ela depois
aconselhou ele pra que fizesse o mundo, “Deus” vem fazendo vários mundos até
123
chegar nesse, que estamos agora entendeu? Foi testando e nem um serviu para o
homem, só a terra, que foi serviu, então quer dizer nós não nascemos assim, que
nem tá Bíblia, “Deus” fez haja se a terra, não foi bem assim, teve vários processos,
várias experiências pra chegar até aqui, “Deus” nunca foi um “Deus” absoluto, dono
de tudo como a gente fala, Ele dividi tudo, ele não tinha nada dele, era de todos, ele
é um compartilhador.
Ele compartilha com todo mundo. Por isso ele diz façamos o homem, ou seja,
eu tenho vontade de fazer uma coisa, mas eu sozinho eu não vou fazer, pedi a
opinião dos outros. Quer dizer eu posso, tá errado em querer fazer sozinho vá, que
eu faça a coisa. Então vamos primeiro consultar os outros aí ele chamou seu reino,
chegou para seu reino e disse façamos o homem nossa imagem e semelhança, ele
perguntou ele não disse vamos fazer. É uma pergunta, que ele faz aí todos
confirmaram sim e ele fez e deu poderes pra esse homem. Então com poderes de
“Deus” praticamente, os anjos alguns até invejavam ele, porque, que o criador foi
criar uma criatura superior a nós e mora num mundo inferior não no meu.
Então tudo isso a cabala vai explicar pra quê, que é o sétimo céu, a sétima
estrela, são sete estrelas, são sete céus, nós temos a alma, espírito, a gente tem a
sabedoria, isso tudo tem dentro da própria Torá, mas ninguém vê, porque lê uma
história que tá na Torá, entre as linhas da Torá, que vem dar pra aparecer, que é o
código, cabala então tem muitos judeus aí esses reformistas. Judeu reformista e até
mesmo os tradicionalistas que eles não usam muito a cabala, não é muito de
acreditar, o judeu mais ortodoxo usam mais, são mais acabalados. Pelo pouco que
eu sei. Eu tô dizendo, que seja realmente isso daí, mas o que, eu seu é isso, que eu
vi na internet.
Consultando a internet tem alguns sites, que você vai falar com eles, eles te
dão um questionário pra responder, então pra entrar no site tem, que responder
certinho, tem um, que fala assim, estas são as sete leis de Moabe, se você
responder corretamente pode entrar, eu já tentei responder duas vezes e num
consegui. Primeiro o que, que o judeu é pra “Deus”? Tem um monte de resposta, é
sete respostas, então tem sete respostas, tem que responder a resposta certa,
responder uma errada já errou todas. Então tem só uma lá, que eu não sei o que, é
porque do jeito, que ta lá eu num sei, se é daquele jeito acredito, que sim porque
todas as setes é igual a um, então a diferença, de uma pra outra é muito pouca.
Então uma das leis lá é sobre você honrar o casamento, honrar leis dos homens,
honrar as leis de “Deus”, honrar a “Deus”, ter “Deus” no coração, uma só é certa,
que lei é essa? Tem que adivinhar justamente a lei certinha, que a aquela ordem tá
pedindo, sexta lei, que lei é essa? Como as setes perguntas todas elas praticamente
é a mesma, aí fica a Dúvida, responder uma errada, não é essa… E, as vezes você
responde ela certa, mas erra a de baixo, aí num dizem qual é, que ta errada, não!
Chamam tá errada, volta tudo de novo, todas as setes, que ta lá, então não dá pra
adivinhar, primeira pergunta… sete resposta, segunda pergunta, mais sete
respostas, terceira mais sete resposta, se errou uma, duas, três, dessas resposta na
terceira já não sabe, na quarto ou na quinta se acertou então tem, que começar tudo
de novo.
E, na verdade é um teste, que vai saber se estuda a cabala ou não, saber se
é judeu ou não, e o site é o Estude a cabala verdadeiramente. Os rabinos lá em
Israel ensinam, e o site quase todo é em inglês, só essas perguntas que vem em
português.
Já tem uns dois anos, que eu tenho visitando diretamente a CEJURON,
porque antes eu vinha uma vez ou outra, não sei quantos judeus tem aqui, mas pra
124
mim o E. e o A. são judeus mesmo. Tem um rapaz que parece ser descendente de
judeu, parece, que é filho de judia, mas mesmo assim tem que fazer a tshuvá, ele
precisa conhecer os ritos, mas ele não precisa passar pelo teste com o rabino, já
nós precisamos, e temos que responder tudo certinho. Quando ficamos diante do
rabino a primeira coisa, que vai perguntar é porque quer ser judeu? Ele diz, Judeu é
um povo maldito, os caras querem matar, querem acabar, querem exterminar com
os judeus, e você quer ser convertido? Pra quê? Pra sofrer desse jeito? Receber
preconceito contigo, judeu na maioria do lugar não entra.
Já comigo acontece, que eu vim da descendência cristã, então eles não
sabem ao certo, mas alguns irmãos de igreja já falou pra minha esposa, que não
querem mais conversa comigo. Mesmo a minha esposa sendo afastada.
Ela não quer ser judia, mas tem, que aceitar e calada fazer o que, ela não vai
me deixar, porque a religião dela não permite, a Congregação não permite e ela tem,
que ser submissa, porque no judaísmo diz: que a mulher tem ser submissa ao
homem. Então, quer dizer fico meio entre a cruz e a espada. Ela tem, que aceitar ele
e ao mesmo tempo não tem, mas ela não vem na religião, num veio nem uma vez
apesar de que, uns novos convertidos vão na minha casa, o G., a esposa do G., o J.
Também, que é novo convertido. E na minha casa a gente põe a lousa lá, pra
estudar o hebraico juntos, aí ela ouvia. Ela ouvia na sala lá, e eu na varanda, só
vinha lá pra trazer um suco ou alguma coisa. Só pra servir, mais pra ficar, trocar
ideia, num ficava não, tanto é, que ela pegou uma tarefa na igreja justamente ao
sábado, lá pras duas horas, três horas da tarde, porque é o horário, que meu
pessoal chegava. Aí ela falava vocês vão ter, que me dar licença agora tenho, que
limpar a igreja lá, tenho esse compromisso, não posso falhar… aí saía pra igreja e
deixava lá eu e meus amigos sozinhos. Ela não aceita judaísmo, ela nasceu na
cristã, ela foi batizada na igreja com doze anos de idade, tá com quarenta e poucos
anos, é difícil chegar nela e mudar a cabeça dela.
Ela sempre adorou a Jesus, ela acha, que vai pro inferno, diz: que não quer
nem saber de quem vem falar mal do Jesus dela. E, tem alguns irmãos, que não
falam mais comigo porque, eu não aceito mais a religião deles, eles fala à num vou
conversar com o J. falar de Jesus, ele pega fica expulsando Jesus… num quer saber
de Jesus então num vou lá não, virou judeu agora, deixa ele pra lá. Não sei se é um
preconceito o que, é só sei, que, às vezes, num querem falar comigo, outros
cumprimentavam e respondiam o cumprimento, agora num respondem, passam
batido.
Mas, a maior prova minha é não ser aceito pelo judaísmo, já imaginou cê tá
no meio dos judeus e não ser aceito como judeu? No começo aí eu era uma pedra
né? Todo mundo conversava com todo mundo, comigo não dizia nem bom dia, nem
boa noite, é como se eu nem existisse, era uma pedra, era senta aí fica quieto, e eu
num sei falar direito o hebraico e num entendo quando falam hebraico. E eles diziam
em hebraico, os que sabem ler falavam em hebraico aí já viu tô boiando aqui oh.
Agora eu já fiz o curso básico de hebraico com o E., é um básico, que a gente
vai aprender fiz esse curso, que ele deu lá, é muito básico são os alfabetos algumas
palavras chaves, algumas palavras essas coisas pra orar, cantar uns hinos, que a
gente canta, que a maioria das orações são hinos. Num dá nem pra aprender
direitinho, mas como eu tô estudando dá pra seguir legal. Mas acontece, que eu
num sei falar direito, algumas palavras eu gravei na cabeça eu falo, mas eu ter
diálogo num tenho, se ele fala alguma coisa comigo eu já vou ficar boiando, que eu
não vou entender. Tem palavras, que num tem é vogal aí não se sabe o que, é, ver
um amontoado de silabas ali, mas num sabe o que, é, não tem vogal né? Um monte
125
de consoantes ali juntados, tá lendo as aquelas frases né? Ver muito cha…ver muito
cha, e você falava cha né? que ch é cha, mas não é…É, rra, por exemplo se eu falar
mashia chamashia o messias o Emanuel. Aí pra falar ela eu uso o rra, também a
moça, a mãe, o meu ch é rro, de carro, o ch fica dois r.
Aí o quê, que acontece um h, um ch, fica difícil a pronúncia, rra, rro… fica
meio esquisito, então vai mesmo é da convivência não tem jeito se estudar, vai
aprendendo no livro conforme vai ouvindo, tem uns cds em casa, que é muitas
orações cantadas aí eu vou ouvindo. Antes quando eu chegava aí e ía fazer as
orações eu só ficava olhando num entendia nada do que, eles oravam, nem
entendia o quê tava lendo. Nem sabia pronunciar o, que ele tava lendo, eu pensei
vou ser excluído mesmo! Não saber nada dá licença, e ainda tô numa comunidade,
que pegam na mão. Tem comunidade, que eu não posso tocar em mulher, não se
estende a mão, não se deve pegar na mão da mulher…Na comunidade judaica
ortodoxa não!. Essa, que nós estamos, ela é uma referência, não tem nem uma
reforma, não é conservacionista, ela conserva algumas tradições não todas.
Quem nasceu primeiro foi a conservacionista depois, que veio a ortodoxa
porque parece, que quem viria primeira era a ortodoxa, mas não é, não primeiro veio
a conservacionista pra depois vim à ortodoxa, porque a ortodoxa foi ver a
conservacionista, viu que tinha umas coisas, que tava mudada, aí eles quiseram
restaurar aquilo, que eles estavam perdendo ali. Aí ficou sendo a ortodoxa e nela
num se cumprimenta mulher com a mão, mais acho engraçado isso cê não dá a
mão né? Mas é no Shalom do shabat a gente pode beijar a mulher. Aí isso, que eu
fiquei assim da um beijo tanto no homem como na mulher e tal, mas da à mão pra
dá Shalom não pode aí dá, porque tá acostumado a ser né? Tô pensando como é
que não pode dá a mão, mas pode dá um beijo? Acho, que o beijo, que não podia
dá. Imagine um beijo. No entanto neles, num sei… acho que é costume já assim,
mais santo, mais sagrado o beijo... Não ver muita diferença entre sexo. Que o beijo
é um beijo sagrado, agora mão num sei se porque, a gente pede a mão da mulher
em casamente, então não é pra dá?.
Tem outra coisa aí, aprendi muito a lavar as mãos, ainda não praticam aqui o
lavar as mãos mesmo eles... vai frequentar nota na hora de comer o pão, e tomar o
vinho, se chegar primeiro pará e fica notando, ninguém chega ali, vai lá dentro lavar
as mãos e volta, e depois vai sentar, não… já senta, já fica conversando, lá na
mesa, já fica participando, na hora de lavar as mãos, só vai o que, corta o pão lavar
as mãos e volta.
Às vezes, vai um e outro, mas é obrigatório lavar as mãos, que tem até
oração, que lava as mãos... quando tá lavando as mãos tem, que pronunciar aquela
oração da lavagem das mãos. Pra depois ir lá pegar o pão, tomar o vinho, “Deus”
manda a gente lavar as mãos, não é uma tradição, desde quando “Deus” formou o
homem ele já ordenou lavarás a mão para comer. Diz que isso é um ato de higiene,
os católicos e os cristão mesmo podem dizer ah! Isso é um ato de higiene e tal, é
mas é um ato, que o povo do mundo deixou de fazer.
Nós vamos no restaurante se reparar chega gente aqui senta pega o pão, o
sanduíche, come o sanduíche, toma o refrigerante, paga, levanta, vai embora, não
lava as mãos, não entra no banheiro pra lavar as mãos. Alguns restaurantes têm a
piasinha de lavar, você pega senta lá e fica olhando de cem, que entra dez lava, o
resto num lava. O povo, que é imundo. Então eles perderam essa tradição de lavar
as mãos, porque acham, que isso é tradição, a isso aí a tá vou pegar com papel, não
vai ser a mão vai? Usar a mão não tem jeito, não tem como o cara acaba
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esquecendo, põe a mão no pão, em vez de pegar o papel. Tá comendo frango, pega
um pedaço com a mão.
Outra coisa também é alimentação, a alimentação deles é balanceada e da
gente não, qualquer comida se come. Então come muita coisa, que não deve comer,
gordura de boi, gordura de porco, gordura do peixe de couro, peixe de couro é o
único, que não pode comer, não é kashé, porque o peixe de couro, fica lá no fundo
comendo as sujeira dos outros peixes, que eles fazem no fundo, esse peixe vai lá
pra comer aquilo. Se a gente for analisar porque o Eterno fala assim não come isso,
não come aquilo, se for ver a maioria das doenças, que o pessoal tem é exatamente
por isso.
Ele diz não comeras insetos! Tá, tem gente, que come, tem escargot, pra mim
aquilo lá é inseto e contaminoso. Comer escargot, comer rã, comem repteis… num é
nem repteis, que rã não tem costela, num tem nada é só massa pura. Tem um
monte de coisa, que não se come. Tudo isso traz doença, por isso ele colocou essas
regras agora o certo porque, que ele fez assim? Porque será, que ele fez isso? Nada
ele proíbe de te comer a gente pode até dizer é proibido comer, porque a doença
vem através dele certo? Tudo bem então tá, não vou comer mais, então porque, que
ele num fez o corpo dos animais são puros? Que ele podia fazer né? Que tem coisa
aí, que a gente come, que podia fazer muito bem né? Porque, que ele criou um
bicho nojento desse aí, que você não poder comer, não poder pegar, não poder
nada, podia falar some, não existe mais nada… Mas aí que estas coisas, você tem o
livre arbítrio.
Tem o que, é bem e o que, é ruim, também você, que decidi, e existe na lei a
obediência, a obediência, que vale mais, que conta mais, então quer dizer, não pode
comer porco, mas se você não é obediente come, desobediência ao eterno, esse é
um pecado, que vai pra conta. Então se tocar no porco vai ficar imundo até o pôr do
sol, porque até o pôr do sol? Porque no pôr do sol vai se banhar no miquivá. Que é
uma espécie de batismo, que tem no cristianismo e lá nós somos banhados no
miquivá, as águas do miquivá é, que vai limpar e purificar daquilo, que foi tocado,
essa água não pode ser água parada, essa água não pode passar por tubulação,
não pode pegar cano de água, ou é água da chuva ou de rio, água de rio, que passa
e sai correndo. Essa é a água da miquivá, que você pode se banhar e se purificar,
então tem um monte de coisinhas, pode ficar se banhando até de tarde aí se não se
purificar, vai levar aquilo e dormir com aquele pecado, ele tá lá na sua alma.
Eu acredito, que aqui na CEJURON não tem mais judeu participando porque
o aspecto do fechado, alguns judeus acham que a CEJURON não é judia, que são
cristãos ainda, eu acredito, que seja isso, porque eu conversei com um judeu, que
ele não vem na CEJURON de jeito nenhum, ele é judeu, judeu mesmo judeu de pai
e mãe, mulher, filho, tudo... judeu e não vem, e eu conversei com ele. Fui eu e o
meu amigo P., quando cheguei lá falei shabat Shalom pra ele, ele ficou meio
assim… O senhor é judeu? Não, tô me convertendo ao judaísmo, ele aí chamou o
amigo, e falou: ei você viu o futebol, não sei, porque ele não falou mais nada
comigo, fechou como se fecha a porta, aí na hora de ir embora, falou pra mim
Shalom Yeshua, não fala isso aí não, eu não conheço Yeshua. Ele perguntou cê é
daquelas caras lá da CEJRON? daquele centro empresarial lá? Que ele não vai lá
tem muitos, que não vão lá, tem muitos judeus, que estão por ai, que o estado de
Rondônia é grande será, que em toda essa cidadezinha não tem nenhum judeu por
aí? Deve ter lá em Humaitá, Manicoré deve ter judeus né? Porque eles num vieram
pra cá? Os mais próximos deles? Seria nós do que Manaus, eles poderia frequentar
aqui já, que aqui é reconhecida por Manaus.
127
A CEJURON é reconhecida pela congregação israelita lá de Manaus, então
se é reconhecida por eles são lá que é CIAM, se eu não me engano é CIA é Centro
Israelita da Amazônia, Comunidade Israelita do Amazonas. Eles são há muitos anos
reconhecida por Israel, Belém, por São Paulo, a conversão deles é no Brasil todo é
valida em Israel é cinquenta por cento. Cê chega lá vai ter, que fazer tudo de novo
no mundo inteiro. Chegou em Israel, tem, que fazer a conversão em Israel
entendeu? Pode ser lá dos Estados Unidos chegar em Israel vai fazer um ano de
conversão.
E, em São Paulo são dois anos tem, que fica em São Paulo dois anos,
frequentando a sinagoga passar por tudo, que já passei aqui, entrando na sinagoga
e ninguém falando comigo, sendo considerado apenas um mero visitante, é um
visitante, um colaborador. É porque a CEJURON aqui tá no papel de associação. E,
ainda não temos sinagoga, nem rabino pra vir. Porque o rabinato, não é rabino por
querer só é rabino por tradição, só é rabino quem é filho de rabino, é uma tradição
familiar. Eu não posso ser profeta, se meus familiares não foram profeta, eu ser não
posso ser hasan se os meus familiares não foram hasan. Então é uma linhagem
cada um tem sua linhagem.
É como na novela Caminho das Índias, na Índia tem suas tradições então lá
quem nasceu pra ser comerciante num é outra coisa é comerciante, quem nasceu
pra vender jóia, ou pra ser joalheiro, o pai é joalheiro, filho joalheiro, neto joalheiro,
tudo é joalheiro num é outra coisa, a família dele não é outra coisa. Do mesmo modo
o rabinato. Então temos, que esperar um ou algum vir ou, que tenha no meio de nós
alguém de uma linhagem de rabino.
Por isso, que a gente fala, que Jesus num ia ser rei, porque a tradição dele
não é do rei Davi a tradição, que vem do pai dele, que é José, que chega a Davi ela
é interrompida num trecho em, que foi feita a Babilônia, que conquistou Israel e
derrubou o templo de Israel. Aí então ficou o exílio babilônico, então a descendência
de Jesus veio antes do exílio e depois do exílio tá, então quando chega antes do
exílio, que fala vou chegar no avô, do avô, do avô chegar lá no rei, que tava no
exílio, que foi pra ser exilado lá em Babilônia, e esse rei foi amaldiçoado por “Deus”
por isso, que ele foi exilado. Diz maldito és tu se fosses um anel em meu dedo
arrancaria esse anel e lançaria fora e tu não verás mais a tua terra e tua
descendência jamais será rei em Israel e jamais governará Judá… aí Jesus veio e
disse, que era rei de Israel.
Como que é, os caminhos que mais ou menos assim a igreja cristã não fala,
eles pulam até aqueles trechos, tem umas bíblias, que eles falam, numa outra num
falam, é a mesma historinha, que fala Paulo, que é caminho da massa e, e aí
quando ele é jogado no chão, que uma luz, que lumia ele, deixa ele cego, fala com
ele, e ele diz assim: quem és tu senhor pergunta pra ele? Numas bíblias católicas e
evangélicas já tá escrito assim: e eis que ele respondeu, que em hebraico uma voz
lhe respondeu eu sou Jesus Cristo como, que uma voz em hebraico iria responder
em português? daquela voz em hebraico teria, que responder eu sou Yeshua
Chamashia aquele, que tu persegues, ou seja, “Deus” salvação ou messias Yeshua,
e em português na tradução mesmo é “Deus” salvador.
As coisas que se encontra na bíblia. E, lá mesmo encontra um mágico
fazendo mágica, que se chama Jesus, bar Jesus se acha que “Deus” ia dar um
nome pro filho Dele, que se é um filho é mais importante ainda só, que ele ia tá na
terra. Acha, que ele vai dar o nome dum cara, que acha, que é mais velho do que, o
filho Dele, que chama Jesus se o nome dele é mestre se ele diz, que é mestre, tava
128
engraçada essas coisas, mas tudo isso é pra possuir pra religião, não vim mudando
segundo a lei dos homens não, segundo as leis de “Deus”.
Uns querem, que a igreja católica deixe de adorar os santos, os evangélicos
num para de falar, que a igreja católica são idolatras, muitos dizem, que querem
deixar da igreja católica e de certos evangélicos. Os evangélicos pentecostal ele
crêem em Espírito Santo, em descida do espírito e outros, num crê em falar em
língua e descida do Espírito Santo, outros num querem ser nem um dos dois, porque
nenhum dos dois seguem o sábado, então nenhum deles reúne tudo, que é certo
numa só religião, que o judaísmo faz, o judaísmo pegou tudo, que é proibido em
cada religião na dele é proibido tudo e, ele cumpri a tradição, então ele segue
certinho enquanto as outra num segue.
Tem um livro, que chama-se Os Casarrari, os Casarrari foram uma nação,
uma nação que se converteu ao judaísmo. O rei chamou pra junto de si três
pessoas, um rabino, um muçulmano e um cristão. Só que quando esses chegaram
lá, ele pegou rabino e conversou com ele separado. Aí ele disse, a religião judaica
dos judeus, que o eterno criador do céu e da terra, o único ser, único “Deus”? Não
há outro além dele? Certo, então tá bem você fica aí, deixou ele lá e chamou pra
junto de si o cristão perguntou pro cristão, que se acha da religião judaica o que, é o
judaísmo pra você? Os judeus tá certo, judeus é a religião de “Deus” é povo
escolhido, é vindo do eterno, porque tá na bíblia nós viemos Dele. Diferenciamos de
alguma coisa, mas somos assim como se fosse uma religião judaica algumas
coisas, que diferenciamos. Então cê acha que o judaísmo é a verdadeira religião? A
certa? É pura, o cristão respondeu: certa e verdadeira, o rei disse: tá bom, cê vai pra
lá… pegou o muçulmano, chamou o muçulmano. E perguntou o que cê acha da
religião judaica? Essa é a pura é verdadeira? Israel que recebeu a promessa do
judaísmo? Então você crê, que judaísmo é a religião pura? O muçulmano
respondeu, que o judaísmo é, então chamou o judeu. E, disse para o judeu a nossa
nação todos nós, agora a partir de hoje queremos ser judeus. Todos farão a
conversão aí os outro, que queriam, que ele fosse ou cristão, ou muçulmano falou
porque fizeste isso? porque num escolhestes um dos dois, um de nós? E, ele
respondeu: mais porque todos vocês vieram do judaísmo, então se eu tenho, que
adorar alguém tenho, que adorar a fonte e não os súditos. Vou adorar o rei e não os
súditos aí ele virou judeu, converteu toda nação ao judaísmo, depois que ele se
converteu ao judaísmo foi a mais poderosa nação na época do bizantino. Ele proibiu
muitos bárbaros vinkings, que invadiam a Europa, que tomava muitos lugares da
Europa na Polônia, Alemanha ali perto do Marrocos defendeu o rio, que levava pra
Constantinopla.
Eles sozinhos seguraram dois exércitos, lá dos bárbaros dos muçulmanos
para, que não invadisse Constantinopla. Então eles ficaram muito poderosos.
Depois, que passaram para o judaísmo, ficaram muitos anos mais de quatro
séculos, eles foram os quê mais comandavam e depois veio a queda desse império,
que os alemães são meio descendentes, os poloneses também tanto é, que os
poloneses até hoje tem muita coisa do povo polonês, que é hebraica tá palavras
hebraicas justamente da influência, que teve desse povo, que tava formando a
Polônia.
Eu não tenho esse livro, tem o zarrar, o zarrar se ler, o zarrar, num tinha outro
livro a não ser o zarrar, que ensina a praticar a cabalar. Só tenho o resuminho, que
só diz o que, é a cabala. Como “Deus” formou o mundo. A matéria de “Deus” qual é?
Só ensina essas coisas, não ensina nem uma prática do cabalismo, agora o livro do
poder da cabala esse ensina a fazer, ensina nos mínimos detalhes, a meditação
129
como fazer pra meditar e aonde tem que tá, qual a melhor meditação, ensina fazer
outras coisas, ensina a ler o livro zarrar, só diz das feições das pessoas, cada linha,
cada traço diz uma coisa da pessoa, do caráter dela, do íntimo dela, tudo dela, o
zarrar explica as linhas, mas não explica a fundo.
130
Narrador II
45
Judeus que na época da inquisição eram obrigados pela igreja católica a negar sua fé tinham, que
se converter ao cristianismo deixando desse modo a sua religião, pois se fizessem o contrário seriam
mortos.
131
Antes da CEJURON tínhamos criado a CIRO, mas nós descobrimos que tinha
pessoas com crenças diferenciadas do judaísmo né. Daí que a CIRO não prosperou
e aí foi criada essa daqui a CEJURON, que é do segmento das doutrinas judaica,
essencialmente judaica, não é fora do judaísmo.
Desse jeito ficou certo, porque lá pro interior não tinha, lá tem alguns grupos
assim, que se dizem judeus, mas não são.
Ainda não falo o hebraico, mas acompanho umas coisas da liturgia, a maioria
delas transliterado, conheço estudo do hebraico, conheço mais, pra dizer o alef beit!
Muitas palavras eu leio, mas falar bem é complicado, num posso dizer, que eu
também consiga eu conheço as palavras! As letras! Eu canto muito, muitas tfilot eu
acompanho, porque a dificuldade tá, que é uma língua, que não fico falando todos
os dias, preciso praticar mais é difícil.
Aqui em Porto Velho o mais difícil pra um judeu ou praticante do judaísmo diz
respeito ao apoio, porque é difícil a ausência do judaísmo tradicional. Que aqui eu
penso, que nós somos heróis. Porque fazer judaísmo aqui, muitas vezes somos até
chamados de loucos né… dentro de Porto Velho tem gente que fala isso, já ouvi na
rua, mas é o como eu me identifico.
Quando fui casar com a minha esposa, eu falei pra ela, que é católica, olha
você não me obrigue a ser católico, com todo respeito. Eu falei os católicos são os
meus amigos, gosto dos católicos. Mas não serve pra ser minha religião, é uma das
dádivas judaicas, que respeita todas as religiões, e já num vai buscar ninguém, ou
seja, não tem proselitismo, não vão tirar um católico pra cá, ou tirar um evangélico.
Só que aí o judaísmo também não gosta, que force a gente a ir pra lá, a gente gosta,
se dá bem com os católicos, com os evangélicos.
Então eu falei pra ela: não me peça pra ser católico vou lá na sua liturgia
quando for um evento especial sem problema, mas não como prática! É tanto que
casei em igreja católica, porque não deu pra casar no judaísmo, porque a minha
família não era tradicional. Então casei só, que antes tinha um, que eu tinha, que
falar a verdade pro padre… Aí eu falei pro padre, que não era católico e ele disse:
então tem, que falar com o bispo, se não der num casa. Mas como eu sei que existe
uma um ramo do judaísmo progressista, que admite o casamento misto o bispo
conversou e casou, mas eu deixei claro, que não era católico. É melhor passar com
a verdade, e foi bom.
Se eu não tivesse casado, ficasse calado alguém poderia me cobrar, os
próprios familiares, porque você não é casado na igreja, então eu fiz fomos lá na
cerimônia foi o social, que nesse caso só família era católica, mas eu não sou
católico, mas tá acertado.
Meus irmãos e muitos judeus já foram bem assimilados, mas eles praticam os
costumes então assim visitam as igrejas, meu irmão mesmo diz, que vai em todas,
mas praticam os ritos no sábado e não se envolvem em atividades, pelo menos não
se tem trabalho no sábado. É normal até porque é uma regra mínima.
Já eu procuro seguir a doutrina mesmo, procuro comer kasher eu não como
carne de porco, não como derivados desde os meus 20 anos, eu estou com 48. Não
misturo leite com carne, muitas vezes não sei como é o preparo da comida. Aí, que
é a questão, escolher fazer judaísmo aqui na Amazônia especialmente em Rondônia
é complicado, porque não tem como ser ortodoxo, porque se eu fosse ortodoxo eu
nem ia poder comer em nem um restaurante, o restaurante tinha que ser kasher e
seria impossível aqui. É praticamente impossível principalmente, que viajo muito,
trabalho no governo em todos os locais do estado. Então o que é, que eu faço?
tenho que julgar pelas aparências! Se vejo por exemplo tem maionese na carne eu
132
não, como com maionese, como o arroz, a carne, a salada. Pra começar se fosse
pra acertar a carne não é uma carne kasher, o corte dela é diferente. A minha linha é
progressista, porque não tem como ser outra.
Na realidade procuro guardar mesmo o dogma, a fé. O leite com a carne eu
não como somente se eu não reconhecer, mas eu acho feijão num vai tem
problema, com o arroz, que é feito com leite, se tiver carne tô fora, mas se for olhar à
miúde mesmo, aí complica né. Em casa pelo menos a gente sabe como é feito. Nós
temos mais duas filhas, mas elas não moram comigo elas estudam fora, então não
me acompanham, só meu filho, que me acompanha, mas ele mais brinca por causa
da idade. Minhas filhas sabem que sou judeu, elas tem simpatia, mas também estão
fora, elas são filhas do meu primeiro casamento, quando eu me mudei pra lá eu não
tinha a prática do judaísmo. A prática do judaísmo desde meus 20 anos, que eu
estudo e pratico, mas a liturgia judaica quando comecei assistir ou participar tem 7
anos em hebraico.
A necessidade de me encontrar me levou ao judaísmo, porque eu conheço
todas as religiões, inclusive estudei em colégio de padre quando garoto, quando
rapazinho eu não consegui me identificar, então quando eu descobri e me lembrei,
que a minha avó até os catorze anos, ela me falava tudinho, que nós representa, ela
dizia assim: meu filho você tem, que estudar a tora, acho que eu tinha 13 anos, me
lembro dela dizer que eu era o neto dela, e dizia meu filho pra ser um justo e bom,
tem que aprender as coisas de “Deus”, você tem que estudar tora, ela falava e eu
dizia: mas vó tora? Como eu era menino imaginava a tora de madeira, pensava em
pegar aquelas madeiras de jatobá, e dizia pra ela a madeiras de jatobá tá boa de
derrubar e a tora levar pra cerraria. Tora não meu filho! Tora! é feito de pele de
carneiro e escrito lá entendeu? Naquela língua lá, que “Deus” falou com Moshe! Eu
ainda ia vó aí complicou moche pra mim é boi sem chifre, não é moche, Moshé é
Moisés meu filho, Moshé é o mesmo profeta é o mesmo Moisés, e ela falava muitas
coisas.
Falei com minha avó a vida toda eu pensei assim, que ela não sabia falar
Torá, falava tora, daí veio uma exposição de Jerusalém, um ortodoxo David Salgado
sefarad ele foi lá, e tava lá escrito nos painéis tora, que só tem uma comunidade em
Portugal, daquela época, que falava tora. E a minha família hoje tem cem por cento
de certeza da origem portuguesa e espanhola. Então quer dizer minha avó não
estava fora, realmente os costumes vieram com ela, quer dizer, que a palavra tora
era de uma comunidade judaica de Portugal, que num falava Torá, falava tora, e só
há dois anos, que fiquei sabendo, que minha vó não falava errado era o jeito de falar
de onde os pais dela vieram.
E, hoje meu nome judaico é Yossef ben Avraam, mas mesmo nós temos que
passar pelo processo de conversão chamado tshuvá, já fiz a Brit Milá, que é a
circuncisão, já tem exatamente cinco ou seis anos, que fiz foi com um Mohel em
Manaus e agora é só concluir o processo de conversão.
133
Narrador III
135
Narrador IV
136
E, eles se reuniam lá, eles tinham o Sefer Torá lá, e que depois com o passar
do tempo, se não me engano na década de sessenta ou na década de setenta, algo
assim levaram embora, levaram pra São Paulo a Sefer Torá, porque as pessoas,
que continuavam praticando o judaísmo seriam as pessoas, que faziam o mitzvah,
as mitzvot, que são os preceitos judaicos, eles estavam ficando velhos. Os jovens,
que estavam nascendo já não queriam fazer, porque devido a um certo preconceito,
que já existia mesmo, que vinha diretamente da igreja católica.
O bispo, ele andava socado na casa das pessoas que eram judias.
Justamente pra impedir que as pessoas fizessem o básico do judaísmo, que é a brit-
milá, que é a circuncisão no caso, e o Shabat, essa coisa, iam muito perturbando as
pessoas, e como as pessoas viviam de comércio, então já tinha aquele estigma,
porque o judeu já é estigmatizado.
O judeu ele não acredita em Jesus Criso, logo, se ele não acredita, que Jesus
é o messias ele não merece, merece morrer, merece se dar mal, aquela coisa toda,
e aí então, começou essa perseguição, mas na verdade, essa perseguição já dura
séculos e séculos. Mas, que aqui na Amazônia nós participamos disso a pouco
tempo atrás, tanto que é a nova constituição, a de oitenta e oito, que de verdade vai
dar direito do ser humano ser, o que ele quiser ser, antes disso não era assim.
Mas depois, disso muito jovens daquele período, que é justamente aqueles da
época dos meus pais. Eles já não dão a minima importância pra esse negócio de
judaísmo, religião até porque, são pessoas, que vão ter acesso a universidade! Ai na
universidade a pessoa muda totalmente. Na universidade a pessoa sabe se acender
uma vela no sábado, não vai acontecer nada, não vai pro inferno. Até porque várias
teorias científicas vão aparecendo, é aquela coisa a pessoa, que se utiliza de
tecnologias, que faz determinadas coisas no dia a dia, no sábado ou, que não
pratica os preceitos do judaísmo essa pessoa não vai ter problema justamente,
porque é um novo pensamento.
Então é um pessoal novo! E, justamente eles sofreram muito, porque eles
sabiam como os bisavós sofreram muito com a perseguição, eles acharam, que a
melhor coisa mesmo pra se proteger e proteger os filhos é ignorar o judaísmo bom...
por princípio é isso.
Agora nós temos aqui, a família do nosso amigo Basileu, eles são
comerciantes, que são de origem marroquina também, eles trabalhavam no
comércio de regatões.
Eu lembro, que a minha vó falava, que o avô dela ele trabalhava muito com
isso, comércio do regatões, aquelas coisas todas, ela contou, que uma tia dela
morreu numa dessas viagens, que eles saiam, eles vinham de Belém, vinham até a
região de Santo Antônio e faziam comércio, eles andavam em muitos lugares de
regatão, e ela disse, que uma das tia dela morreu, e eles foram obrigados a enterrar
ela assim na beira do rio, eles enterraram ali mesmo na beira. Inclusive é até
interessante, que a gente vê, que tem pra todo lado aqui na Amazônia se tem túmulo
de judeu espalhado, num tem tudo juntinho assim, é judeu espalhado pra tudo
quanto é lado, se for analisar bem de vez em quando descobrem aí túmulos de
judeus aí pela floresta, porque era muito comum, até porque, muita das vezes tem
judeu, que fala assim: eu prefiro, que me enterrem dentro do mato isolado do que,
me enterrar num lugar todo amontoado cheio de idolatria, tem judeu, que fala né!
Que eles não querem ficar perto das imagens de Jesus Cristo, porque as pessoas
acham, que Jesus Cristo é “Deus”! Aquela coisa toda, e ai tem esse porém, de ser
enterrado junto com os idolatras! Pra não ter problema na época da ressurreição, e
isso tem mais coisas.
137
Eu sempre fui um alternativo, nunca gostei de religião, sempre gostei de fazer
as coisas que eram erradas, assim, o pessoal falava faça isso, eu dizia rapaz ele
falou pra eu fazer isso, e eu não vou fazer não! E, eu já sabia desde a casa dos
meus avós paternos e maternos. Sempre falavam, e sempre inclusive era meio
preconceituoso a questão, porque diziam olha não faça isso não, não mexa comigo
porque tu sabe! O sangue de judeu aqui é forte! Que eu sou mal, e, isso é um
estigma, que já vinha do passado mesmo né!, aí eu sempre ficava com aquela coisa
assim, do ser do mal por ser judeu e tal, pelo simples fato de não aceitar Jesus
Cristo! Apareceu essa coisa, e as pessoas procuravam me esconder, e ai eu lembro
que tinha coisa, que eu não conseguia entender em casa, por exemplo: no sétimo
pro oitavo dia não podia ter visita em casa e era uma coisa, que eu falava, porque
não pode ter visita em casa? E ninguém sabia me explicar direito, e ninguém queria
falar sobre o assunto.
E o sábado também, que é assim a minha mãe teve 10 irmãos, isso só pela
minha avó e meu avô teve mais, porque teve outras mulheres por fora né! O que
veio lá do nordeste ele, que falava que era mal. Ele teve uns cinquenta pelos
cálculos. E eu lembro que aos sábados ele gostava de vestir branco, branco no
sábado, eu nunca entendi e agora, que fui pra Israel, e vi um monte de caras de
branco no sábado, e tudo sefaradita, assim com as características daquelas região
ali do Marrocos. E, eu dizia pro meu avô porque isso? É porque os meus pais
andavam assim, meus tios andavam assim, e eu vou andar assim. E o filho dele
falecido tio J.B. Ele falava mais ou menos a mesma coisa, ele falava não eu só
quero andar de branco quando puder, só vou andar de branco quando tiver dinheiro,
e esse meu tio, que faleceu é um dos mais velhos ele gostava de contar muitas
histórias.
Ele contou, que meu avô veio do nordeste pra floresta Amazônica justamente
no fluxo, lá daquele pessoal, que veio pra tirar o latex só, que não no segundo fluxo
da borracha, que é o da guerra, ele veio no primeiro ainda porque, assim, é 10 filhos
nós temos aí, que eu tenho tio que tem idade de ser meu avô.
O tio meu que faleceu é o, que mais gostava de contar histórias, esse meu tio
teve um problema com hepatite, ai ele chegou pra mãe e disse, que agora eu vou
ser uma pessoa religiosa, não quero mais saber de festa, de fazer nada de ruim,
isso eu tava com 18 anos, faz pouco tempo.
Ai ele pegou e tava andando com um pessoal em Guajará Mirim, ai um outro
tio falou rapaz, ele tá andando com uns cara de uma religião não sei, que religião
essa lá, só sei que, esse pessoal toma vinho. Eles tão fazendo um negócio de vinho,
que eles ficam escondidos lá no sábado tomando vinho, e ele não pode tomar esse
vinho não, que ele tá sarando da hepatite dele agora, e do jeito, que ele é vai querer
encher a cara de vinho num vai dar certo... e ele tomou, e vinha andando lá por
cima, que ele tomou uns vinhos lá e vinha andando, caiu no chão e morreu, é a
história desse meu tio. E foi por causa dessas histórias, que eu fui resgatando, eu
tive uma bolsa do Cnpq de iniciação científica aqui, até que, eu disse rapaz eu vou
tirar essa prova a limpo, ai eu peguei um monte de documentos da família, fui
fazendo ligação fui, fazendo minha arvore genealógica, e aí, quando eu dei fé eu já
tava dentro, aí eu ouvi dizer, que tinha direito a bolsas de estudo lá em Israel, e eu
peguei e me escrevi la no projeto, que tinha em Israel pago pelo governo israelense,
e me chamaram eu fui aprovado. E o governo israelense começou a pagar, então a
minha estadia em Israel comida, pagar tudo, estudo e eu disse rapaz eu não vou
ficar aqui não, e fiquei ali estudando um tempo o que, eu sei de história foi na época
138
da graduação mesmo, estudando eu vi um monte de coisa, e eu disse rapaz vou ver
no que dá isso aqui.
Eu vi que tinha um tabu sobre judaísmo na minha família, nas duas famílias
porque as minhas avós perderam as mães muito cedo. A minha avó materna,
perdeu a mãe com 4 anos de idade minha bisavó. Minha avó paterna, perdeu a mãe
com 5 anos de idade. Uma porque deu um câncer e outra morreu no parto. Ai eu fui
lendo história, lendo muito livros escritos por rabinos aquela coisa toda. E eu li que
existiam alguns castigos, que não podiam... inclusive um deles era morrer em parto.
E eu fiquei meio impressionado, disse há isso é mentira, sou um cara da academia
não vou acreditar nessas coisas, mas se tornou interessante, porque eu fiquei com
vontade de aprender cultura de fato, falei bom já que a história tá dizendo, que essa
é a minha cultura, entre aspas claro, porque cultura é agente, que faz! Mas isso daí
é a cultura dos meus antepassados, vou pelo menos tentar resgatar isso aí, que
espécie de pesquisador sou eu? Pelo menos eu tenho, que saber a história da
minha família e foi o quê aconteceu, e foi daí, que eu comecei a pesquisar muito.
[estava contando quantos judeus frequentam a CEJURON] …A outra tinha 3
meninos mais, 23, a outra tinha 2, 5, 6, 7, 8, mais os 6 são 20 pessoas eu, Michaela,
a Paula, o Cícero e os seus 2 filhos, 30, [não audível] e seus dois filhos 25, o Jayme
Ledo 26, Avraham Serruya, 27, a filha dele 28, depois veio o Elarrat, né, 29, a
mulher 30, mais 3 filhos, 33 o Hazan 34, o Julio 35.
Mas esse lance dá religião eu não me ligo.
Eu não tô me ligando muito nessa questão religiosa. Sabe, a questão é étnica
mesmo. A questão é genética!… uma parada genética. Não é, que se for levar... se
a gente for colocar na balança a questão cultural. Porque muita gente inclusive leva
isso como bandeira. A maior parte do pessoal leva a questão como étnica, essa
questão do sangue, de quem tem o sangue judeu, que veio de família judaica. Eles
levam isso mais a sério, do que, as mitzvot, que seriam os preceitos judaicos, que é
a obrigação do judeu dentro da religião judaica, dentro da tradição judaica, dentro da
cultura judaica. Então as pessoas daqui acabaram perdendo isso.
Essa coisa da mitzvah, de fazer aquilo, que “Deus” disse na Torá pra gente
fazer, e aquilo, que os Rabinos interpretaram. A gente vai ter os ensinamentos, que
são chamados deoraita, que são aqueles diretos da Torá, e nós vamos ter os
conhecimentos chamados derabanam, que seria o dos rabinos. E a Torá disse
também, que a gente tem, que ouvir os rabinos, mas aí, que é muito rabino. Então
nós vamos ter várias discussões, que é chamado maloket. Que são essas
discussões, que os rabinos dizem uma coisa e outros rabinos dizem outra coisa.
Outros rabinos já inventam uma outra coisa e fica uma confusão danada. É como a
história da permissão de judeus não terem barba.
Por exemplo: é totalmente proibido tocar na barba. Isso é deoraita, tá na Torá.
Não se pode cortar barba, não se toca na barba. E o tempo foi passando, devido às
perseguições, devido à barba ser uma das coisa, que identifica o judeu, e aí então
foi estabelecido pelos rabinos, que se deveria é cortar a barba, tirar barba.
Então, aí existem rabinos, que dizem sim, que é permitido se aparar a barba,
mas que, não se deve passar uma gilete no corpo, que é proibido passar gilete no
corpo. Inclusive isso já é deoraita e também derabanam. Não se deve colocar gilete
no corpo. Mas devido ao fato de perseguições e do preconceito, de todos os
problemas, que envolveu e que, envolvem os judeus até os dias de hoje, então se
entende, que é permissível o judeu estar sem a barba, também para não ser
identificado. É como usar kipá.
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A kipá também, por exemplo, não é deoraita, ela é derabanam. Já os judeus
ortodoxos, eles dizem que a kipá ela é obrigatória, você deve usar a kipá de
qualquer jeito. Tem que se usar a kipá. E já outros rabinos dizem, que não, negativo,
não senhor kipá não. Tá escrito na Torá, naqueles cinco primeiros livros, que o
homem deve tá de cabeça coberta. Isso é derabanam. Isso quem diz é os rabinos,
são os sábios da Torá. Não é uma ordem vinda direto de “Deus”.
Agora por exemplo, nós temos uma ordem vinda direta de “Deus”, é os tsitsit,
que é aquelas cordinhas que ficam penduradas nas quatro pontas, aquela coisa
toda, e aí tem uma série de discussões. Porque aí oh, essa questão das malokets,
discussão rabínica, então um grupo achou melhor não usar isso. Não, porque se for
pego usando essa roupa de quatro pontas, com as cordinhas penduradas, vai ser é
naquela época, no passado, vão matar, vão passar por uma série de problemas e o
tempo foi passando e as pessoas se acostumaram a não ter, que usar isso, se
acostumaram a determinadas permissões né, pra poder deixar algumas mitzvot, as
ordens, as obrigações da Torá. E, foi indo… foi indo, foi indo, e em lugares aqui
como o Brasil, lugares como na Amazônia, que a Igreja católica dominava, a maior
parte dos judeus estava lidando diretamente com o comércio e tinham, que ficar se
movimentando de um lado pro outro, o tempo inteiro, ou que tinham, que se
encontrar escondidos, não podia, que falar pra todo mundo, que era judeu e que,
tava se encontrando.
Porque é justamente pra não ter, que sofrer represaria. Então, certos
conhecimentos, certas mitzvot, foram sendo deixadas pra trás. De repente colocar o
tfilin, que são aquelas caixas de couro que se coloca no braço e na testa. A Torá,
por exemplo diz, fala que o homem tem que tá com o nome de “Deus” né. Sob o
coração e entre os olhos, mas não diz que tem que ser uma caixinha. Isso deoraita.
Mas aí nós vamos ter já o conhecimento, que foi passado por “Deus” à Moisés,
segundo os rabinos, que diz que é uma caixinha, que é assim que tem, que fazer,
assim e assado, então o tempo foi passando, aí esses homens, que já faziam a
barba, judeus que já faziam barba, que estavam adaptados, iam pra guerra, já tavam
acostumados com todos esses problemas do mundo do século XX. Essa coisa do
século XIX, do século XX, que é o mundo real como eles diziam.
E, o mundo real é isso aqui mesmo, não é aquela coisa do passado onde
existe um grupo fechado ali na comunidade. Não! o pessoal, que vai, que sai da
comunidade, que vai pra fora, que vai pra sobreviver inclusive. Ele vai deixar
realmente certos costumes e aí o tempo vai passando e por exemplo, a questão de
fazer a kapará.
De fazer a kapará com o galo, a galinha por exemplo. Se mata a galinha, mas
pra você matar a galinha precisa de um shochet, que é que, corta, que faz o corte.
Mas aí existe aquele, que tem o conhecimento, porque o pai ensinou, porque o avô
ensinou, o bisavô ensinou, o tataravô ensinou. Beleza! Só que hoje em dia foi
estipulado, que pra ser shochet, tem, que ter um diploma. Acaba complicando a
coisa. Então pra ser um shochet, pra você fazer um determinado trabalho, tem que
ter um diploma, tem que ser reconhecido por uma comunidade rabínica. Sendo, que
a realidade não é essa. Devido justamente aos isolamentos. De repente nós vamos
ter esse problema também com a questão da brit milá. Já não se faz, passam duas
gerações sem fazer brit milá, sem fazer a circuncisão. Então já é melhor não fazer
mais. A gente não sabe fazer então, e não podia fazer porque para fazer tinha, que
ter curso, tinha, que ter isso, aquilo e aquilo outro e aí certas coisas foram
interferindo, uma série dos problemas vieram, o fato de viver em lugares onde não
judeus viviam e aquela coisa, a pressão do mundo capitalista.
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O mundo capitalista, que é cristão. Era principalmente católico. Hoje em dia o
catolicismo já não é tão prejudicial como era antigamente. Antigamente quem fosse
judeu ou quem fosse protestante, dessas igrejas protestantes, tava ferrado. Aí nós
vamos ter justamente essas mudanças né. Essas coisas dos tempos modernos e
contemporâneos, que tem mais haver com a realidade do homem. Vamos ter
inclusive várias discussões, lá em Israel mesmo. Discussão de rabinos, que são
considerados pelos ortodoxos, rabinos liberais, liberais até demais. Ao mesmo
tempo, que foi instituído por rabino ortodoxo que não se pode ascender uma luz,
ligar, ascender uma lâmpada no sábado, vai vir um rabino liberal e vai dizer: que
nada rapaz! Que é isso! “Deus” fez a eletricidade foi pra gente poder usar, e não é
trabalho nenhum fazer com meu dedo assim. Não é trabalho nenhum! Eu não tô
fazendo fogo! E ainda nós vamos ter essas discussões, essas maloket. Então
quando essa judeusada vem pra cá, é difícil, que as comunidades são afastadas, e
quando existiam as comunidades eram comunidades realmente isoladas, cheio de
problemas, com preconceito. Foram sendo deixados, e aí então nós temos hoje, a
comunidade de Manaus.
Não sei até que ponto a comunidade de Manaus é reconhecida. Então,
existem comunidades no Brasil e no mundo, que reconhecem a comunidade de
Manaus, com uma Sinagoga muito antiga. É uma comunidade muito antiga, que são
judeus mesmo, que tá na cara deles e tá no sobrenome. Não tem jeito! São
Sefaradita, Sefaradim, mas judeus de origem marroquina. Na verdade são aqueles
que têm mais origem arabesca, assim árabe, semita mesmo. E, aí nós vamos ter
uma série de fatores. Depois, com o tempo nós vamos ter por exemplo, uma briga,
uma confusão muito grande entre esses judeus sefaradita, e outros judeus, que
tomam pra si. Nós vamos ter um grupo de judeus, que sabem, que são judeus, que
com todos os trancos e barrancos continuou sendo judeu, mesmo não fazendo
mitzvah como deveria fazer, como colocar tfilin todo dia, como comer kasher, como
comer um animal abatido pela shchitá, por alguém que tem um diploma emitido por
um grupo de rabinos pra se fazer determinado trabalho. Então já vamos ter algo
diferente.
Existe um grupo de pessoas, um grupo de rabinos, que tomam pra si o direito
de ter as leis judaicas pra si, e de que, eles que, são os donos da interpretação da
Torá. De que , se não fizerem de acordo como eles querem, está errado, ou não é
judeu. Então isso é uma problemática que nós estamos tendo no mundo inteiro.
Segundo a tradição judaica quando Mashiach ele vier, quando ele tiver entre
nós, aí nós vamos ter a redenção do mundo, nós vamos ter a paz universal, nós
vamos ter todos os problemas do mundo resolvidos. Nós vamos ter o problema das
doenças resolvido. Então todo o judeu, se apega nisso. Por isso o judeu que
conhece um mínimo de Torá, sabe que a Torá diz, que os profetas dizem, que
quando o Messias vier não vai ter mais doença, não vai ter fome, não vai ter um
monte de problemas, que todo judeu, todo povo, todos os povos do mundo estarão
unidos, e aí nós vamos ter uma confusão muito grande, devido às pressões vindas
da Igreja e um grupo de judeus, que toma pra si o direito de interpretar a lei judaica
como se eles fossem os donos da lei judaica. Vamos ter uma represália vindo de
parte deles, esses judeus, que são liberais entre aspas, pode se dizer assim, que
são judeus Sefaraditas. E começa o problema, e nós vamos ter esse problema
seríssimo lá em Israel. Mesmo a gente vê que judeus, que são liberais, judeu
Sefaradita. Judeu que faz barba, por exemplo, não quer saber, não quer papo com o
judeu ortodoxo não. Ashkenazi ele não quer nem saber.
141
Boa parte dos próprios judeus, não só em Israel como no mundo inteiro, eles
simplesmente, eles em vez de serem atraídos pela religião judaica, serem atraídos
pela cultura judaica, serem atraídos por Israel, eles são meio, que não têm vontade
de nem de ser judeu. Porque o judeu, aquele judeu ortodoxo, ultraortodoxo, que tá
ali, ele é fanático. Ele é preconceituoso, ele quer, que as pessoas gostem dele, mas
ele se comporta como uma pessoa que não merece respeito, porque ele
desrespeita. Ele não tá nem aí. Se a pessoa for de cor eles são intolerantes, então
esse é um grande problema, que nós estamos tendo na comunidade judaica no
mundo inteiro.
Essas divergências aí, esse grupo de judeus que acha que é o dono da Torá
acha, que é dono da verdade. E só o fato de tá pensando mal dos outros já é uma
coisa ruim. Só o fato de tá dizendo, que você é judeu, que você não é judeu, que
você pode, que você não pode isso, já tá errado. Bom, pelo menos na minha opinião
e das pessoas, que eu conheço e acredito, que são pessoas íntegras, pessoas, que
tem um conhecimento não só de Torá, como conhecimento de vida também.
Olhando o mundo real, o que tá acontecendo, nós vamos ter uma confusão
muito grande. Aí vão aparecer os dois grupos principais de judeus: os Askenazi e os
Sefaraditas. Mas tanto Ashkenazi como Safaradita, que não são religiosos, tomaram
pra si essa coisa de ser liberal, de não querer fanatismo, de não querer a
intolerância, não querer aquele problema.
Então uma coisa, que a gente observa lá em Israel, é essa questão do
nacionalismo. Lá a pessoa, que nasce em Israel ela já tomou o nacionalismo pra si.
Por exemplo, eu conheci um árabe lá em Israel, que os avós dele são muçulmanos.
Muçulmanos mesmo, daqueles muçulmanos fanáticos. Mas os pais dele eram
muçulmanos liberais, digamos assim, já que, estou falando de liberal e ortodoxo e
digamos, que eram muçulmanos liberais e ele nasceu um muçulmano, que não quer
nem saber. Ele faz universidade, é do Tzavá, do exército israelense e, se o árabe
muçulmano, o vizinho lá, que vier, entrar com uma bomba, ele vai matar. Ele vai dar
um tiro porque, tá defendendo o Estado de Israel. Ele não tá defendendo o judeu,
ele não tá defendendo o muçulmano. Ele tá defendendo o Estado de Israel. Então
eles já tomaram a própria bandeira israelense. Um exemplo: os etíopes. São
pessoas negras, que vieram da Etiópia. Tanto que boa parte do judeu, desses
etíope, que praticavam o judaísmo, eles foram obrigados a se converter. Quer ser
judeu? Ah mas eu sou judeu! Não pra nós, rabinos ortodoxos brancos. Vocês negros
não são judeus. Logo vocês devem fazer a conversão, a não ser, que vocês não
queiram. Beleza, tudo bem. Podem viver em Israel, mas como etíope, não como
judeu e aí os filhos vão nascer israelenses não judeus. Vão nascer israelenses, não
muçulmanos, vão ser israelenses tipicamente e viraram israelenses. Nacionalismo.
Então tá havendo essa substituição também.
Israel hoje tá se tornando realmente um Estado-Nação. Tornando não, já se
tornou um Estado-Nação. Existe pessoa que nasce em Israel e ele não tá nem aí pra
religião. Ele não que saber da religião, ele é israelense. E já nós vamos ter nos
Estados Unidos, boa parte dos judeus ortodoxos, ultraortodoxos norte-americanos,
eles nem sequer reconhecem o Estado de Israel como aquele Estado que vai se
estabelecido quando o Messias vier. Eles dizem que não. Por exemplo: Neturei
Carta, por exemplo né. E tem uma série de outros, mesmo como o próprio Chabad.
A maior parte dos chabadnik, que está fora Israel, que não nasceu em Israel, eles
não tem nenhum interesse de querer, de tentar ter uma cidadania israelense, de
qualquer coisa do gênero.
142
A maior parte dos judeus que está espalhada no mundo, ele prefere estar
espalhada no mundo do que, ter uma cidadania israelense. Vou lá conhecer,
estudar, legal, muito bonito, bacana saber como é, que viviam meus antepassados,
mas não quero problema não, prefiro voltar pra onde eu tava, ali é muito melhor,
muito mais cômodo, muito mais tranqüilo. Então a maior parte dos judeus do mundo,
pensa desse jeito. Inclusive aqui na Amazônia.
Existem judeus em São Paulo, existem judeus em vária partes do mundo. Já
que foi criado o Estado de Israel porque, que essas comunidades, que se acham
donas do judaísmo, da interpretação da Torá, porque não vão pra Israel e tomam
Israel e dizem que ali é deles e implantam uma Teocracia. Qual é! Israel é um país
laico. Israel é uma democracia. Uma república pô! Então não combina muito com
essa coisa do fanatismo religioso. O Estado de Israel não combina.
Quando criaram o estado de Israel foi necessário trazer aquele bando de
polaco. Que nem parecerem judeus, não. São pessoas assim, que não tem nariz
grande, não são narigudos, não. Não tem sobrancelha grossa, são uns cara bem
altão. E isso é ser judeu? Se for levar pela letra, se a gente for buscar nos próprios
livros, nas próprias histórias do judaísmo, o judeu não é alto. Os judeus não eram
brancos. O judeu não tem olho claro. Aí tem uma série de características. Quem é
judeu hoje em dia? Quem que é judeu?
Tudo isso eu tava falando por causa da comunidade de Manaus, que algumas
reconhecem, outras não reconhecem. É um debate, tá tendo. Muitos dizem é o
seguinte: a gente não precisa, que vocês reconheçam a gente como judeu. Tamo
nem interessado. A gente não quer morar em Israel. A gente não quer Israel, nem a
gente tem necessidade de andar no mesmo ambiente de vocês. Essa cultura de
vocês não é nossa cultura. Essa música, que vocês ouvem aí, a gente não ouve
essa música. Essa comida, que vocês comem rapaz, a gente num come isso não,
esse peixe cru. Não, gosto desse peixe não, prefiro comer um peixezão assim, muita
escama, bonitão, gostosão, assado na brasa.
Questão cultural. Então dentro dos próprio judeus existe um grande problema
que é justamente esse problema dessa diversidade cultural entre judeus. Então nós
vamos ter judeus de todo tipo. Judeu de toda cor. Então ninguém tem o direito de
chegar e dizer ó, você é, você não é, eu posso falar isso, você não pode, e isso e
aquilo. Não é assim, não.
Existe um processo histórico dentro da humanidade e toda comunidade no
mundo está sobre essas leis da história. Se tá acontecendo uma guerra em
determinado local, aquele grupo que vai dominar aquele ali, vai passar a ter uma
cultura parecida com a dominante. Vai ter uma mistura tanto genética quanto de
costumes. Tá comprovado pela ciência… é comprovado pela história. Qualquer
pessoa, que ler um livro de história vai saber disso e eu cansei lá em Israel, cansei
de brigar com rabino. Chegava pro rabino: meu amigo é o seguinte, zé shtuiot, slichá
[isso é besteira, desculpe]. Como assim? Isso não tá na Torá, isso vocês
inventaram. Não inventaram tem, que ouvir o rabanim, tem que ouvir os rabinos.
Bicho! Quer dizer, que eu não posso abrir um guarda chuva no sábado? Tá
chovendo, eu não posso abrir um guarda chuva? Porque eu não posso abrir um
guarda chuva? Cada rabino, que chega aí tá inventando uma coisa nova. Tá
impossível ser judeu. Eu não quero. Se for pra ser judeu pra obedecer esse monte
de coisa, que esses cara tão inventando, esses cara brancão, altão, fanático tão
inventando, pra que eu faça pra ser reconhecido por eles. Ah não!… precisa não…
Eu tô tranquilo aqui na Amazônia, no meio do mato. Beleza! Aqui tem peixe
kasher [comida própria para a alimentação], tem um monte. Aqui tem comida pra
143
caramba. Aqui tem um monte de mikvah [igaraé, rio para banho, de imersão] natural.
Tudo que é lugar, que se vai, tem um monte de igarapé. Eu só vou lá e mergulho
naquele igarapézinho, não preciso ter que ficar indo [na Mikvah]. Os ortodoxos
inventaram que tem que tomar banho na mikvah todo dia.
Os chassidim é umas mikveh imunda. Chega a ficar uma espuma em cima.
Os cara vão lá, mergulham naquela mikvahzinha aí sai, dizem que sai limpo, a alma
limpa. Mas a alma limpa daquele jeito ali rapaz, tô fora. Também oh, duas quadras
de distância, já sente aquele cheiro de cloro, cloro misturado com qboa. Duas
quadras. Quando entra sente aquele cheiro horrível. É muito, que eles colocam.
Porque como ali não tem água, tem água, mas é pouca água, eles ficam
reaproveitando. Então aquele negócio fica circulando ali. Os cara jogam isso é
higiene? Ei dá licença!
Aí o cara vem falar pra mim de comida kasher. Vai lá o tiozinho ortodoxo e faz
o falafel. O tiozinho vai lá, pega no dinheiro, conta o dinheiro na minha frente tal,
aqueles shkalim, shkalim velhos, até desbotado, aquele monte de moeda, o tiozinho
lá contando, joga ali do lado. Abre o caixa. Aí daqui a pouco pega no pão, pega a
pita de cima aí abre, aí começa pega com a mão aquele monte de falafel. Ortodoxo,
hein! Kasher, glad kosher. Tá escrito assim, glad kosher. Aí beleza. Aí o cara vai lá,
enche de um monte de coisa. Eu falei dá licença, mas o nome disso é treife. Isso
não é kasher. Oi glad! [diz o ortodoxo] Meu irmão, desculpa, slichá, zé ló bishvili, zé
ló kasher. Isso não é kasher, não é kasher pra mim.
Kasher não pode ser messucan. É messucan, não pode ser kasher.
Messucan é perigoso. É perigoso, não quero. Então tem coisa, que os cara se
preocupam com determinadas coisas, que são insignificantes, mas tem coisa, que
realmente é perigoso, tem coisa que realmente eles tem, que se preocupar e eles
não se preocupam. Aí eles acabam causando a ojeriza mesmo dos judeus. Eu por
exemplo, eu tenho assim determinados grupos ali, eu não quero nem saber. E eles
se acham donos da Torá. Eles se acham donos da verdade. Eles acham que o
Messias vai vir aqui e eles vão tar todos salvo. Não, não é por aí não. Eles tem muita
coisa que vai além.
Por isso que o pessoal lá, o próprio israelense não quer saber da própria
religião ortodoxa, que tá ali dentro. Prefere algo mais light. Por causa desse tipo de
coisa. Depois, eu fiquei numa Yeshivá, lá em Tel Aviv, que eu freqüentei, ortodoxa,
dessas ultraortodoxa. Chabad, Tinha um o homem, que financiava praticamente
tudo lá. Ele não chegava todo de preto, de chapéu, não tinha barba. Ele chegava lá,
claro que era Ashkenazi. Chegava lá de boa, barba feitinha, limpinha, cabelo
curtinho, nada de peiotezinho, bacana. Usava uma Kipá dessas branquinha, feinha
que tem assim, botava a kipazinha, botava o tsitsit, o talit dele colocava lá os tfilin,
fazia. Não se via um rabino chegar pra ele olha, cê tá errado, não pode fazer barba
ou, tem isso, tem aquilo. Porque o cara tá cheio do dinheiro pô! O cara fala, meu
irmão, tu vem falar o quê pra mim? Eu pago esse negócio. O quê é, que vem falar
pra mim? Tem muita coisa haver com isso.
Isso aí, a história vai longe, oh! Então a partir do momento, que por exemplo,
digamos, que eu comece aqui a trabalhar com comida kasher, aqui. Aí o pessoal,
justamente esse pessoal, que não é fanático, começa comprar, começa a fazer
pedido, acha legal, começa a querer vim, a querer ficar na minha casa, é um
exemplo. E fica legal. De repente os cara ortodoxozão começa a falar – não! Ele não
é kasher, tá errado tem, que ter o selo do rabinato. É uma máfia. Virou uma máfia,
isso aí. Tem que ter isso, tem que ter aquilo. Que é isso? E a liberdade do ser
humano? Então tem uma série de coisas.
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Então os judeus aqui, nessa região, eles preferem viver com tranquilidade,
viver tranquilamente, ser conservadores com determinados costumes, como fazer as
festas, chaguim e mitzvot também. Colocar o tfilin, ok!, beleza. Fazer mikvah quando
precisar fazer a mikvah, isso é bacana. Não tem fanatismo. Não chega àquela coisa
horrível, chega a ser. É realmente pesado aquilo ali, que eles fazem numa Yeshivá,
é pesado pra uma pessoa normal. Num quero isso não, prefiro ser ateu. Então a
gente fala assim: num quero!.
Eu estudei numa Yeshiva que é de Baal Tshuvá. Um monte de garoto norte
americano. Tinha briga às vezes porque lá é uma Yeshivá só de Baal Tshuvá. Aí de
repente chega 2, 3, 4 filho de rabino ortodoxos, já são netos de rabino e são
rabinãos, aqueles cara, todo assim. Os caras não tiveram acesso à um livro que não
seja só aquela Torá, aqueles livro ali que é do Chabad, que é dali deles, não. Eles
não conhecem história, eles não sabem história de Israel, história, essa história,
mais moderna, mais atual. Eles não sabem história do mundo, eles não sabem
geografia, sabem nada! Só sabem lei judaica.
Peraí, prum século XXI basta?
É, basta pra eles. Basta porque eles dizem que é porque “Deus” quer. Não...
realmente “Deus” quer, mas “Deus” quer, que exista esse cara que é Baal Tshuvá,
“Deus” quer, que exista esse cara, que não é religioso, da mesma forma como eles
dizem que “Deus” faz com que, eles existam porque “Deus” tem algo para eles.
Concordo, ok! Mas da mesma forma, “Deus” também quer aqueles, que estão ao
redor deles porque aqueles, que estão ao redor deles, que é o que não é religioso, é
o que vai pro exército, é o que não come Kasher, é o que vai fazer turismo lá.
Graças a esse daí que eles existem. Graças a esses daí que tem Israel. Porque
quem foi que fez Israel não foi os ortodoxos não. Foram não. O presidente,
ministros, nenhum tem barba. Nenhum anda com kipá, não anda nenhum com tsitsit.
São judeus sim, mas e aí? Tem que fazer isso daí? Não precisa não. Esse é o
grande lance. Foi uma coisa que eu notei aqui.
Muitos desses judeus que resolveram, vieram de fora, inclusive aquele
pessoal do E., ele não é daqui, são de Belém, vieram pra cá a pouco tempo, aquele
baixinho gordinho, A., também é lá de Belém não é daqui, mais aquele baixinho
dono da concessionária, também não é daqui. Vieram pra cá justamente, que é pra
poder trabalhar, fazer essas coisas e tal. Aí chegaram aqui ah! Existe judeu aqui,
vamos se juntar e tal. Aí tinha meio gato pingado aqui, mais tipo, o pessoal não tá
muito interessado aqui. Tem vários judeus aqui, mas eles não querem de verdade
saber. Eles não tão nem um pouco interessados em ser reconhecido por ortodoxo.
Rapaz, eu sou judeu. Ensino aquela coisa pro meu filho, o que ele precisa saber, só
não precisa mais do que isso aí.
No meu caso eu falei bom, eu quero aprender pra poder não ficar falando
besteira, então vou pegar, quero ver a coisa mesmo, quero chegar, quero tocar,
quero ver, quero sentir, quero aprender ler, quero ver como é que é esse negócio
mesmo. Foi aí que eu fui. Fui com esse intuito e deu certo. Fui, estudei legal, vi
como é que era a realidade, mas eu não teria condição, por exemplo, de ir prum
lugar desse sem a bagagem de conhecimento que eu já tinha antes, que é uma
bagagem de conhecimento acadêmica, que é história, geografia, essas coisas da
academia.
Se eu chegasse lá, como esses filhos de rabino por exemplo, rapaz, ia chegar
aqui agora assim: não tem judeu, mata tudinho afogado e que tudo é gói. Se eu
fosse filho dum rabino, meu tataravô rabino, meu bisavô, meu avô, todo mundo
rabino, ia chegar aqui agorinha, ia falar rapaz, aqui presta não! E se aparecesse por
145
acaso uma comunidade, gente que, vem de fora aí opa! Tem que ter o selo do
rabinato, tem que ter isso, tem que ter aquilo outro. Quem que deu essa autoridade
pra eles? “Deus”? De eles mandarem nas pessoas? Dizer o que se pode e o que
não se pode fazer? Tá errado.
[o selo do rabinato] É o reconhecimento, reconhecimento dos rabinos. Se
determinada coisa tá certa ou não No caso, normalmente quando a gente fala em
selo, a gente fala em comida kasher. Comida kasher. Tudo é questão econômica, de
dinheiro. Eles pensam, que a gente é estúpido, mas a gente não é estúpido. É aquilo
que, eu tava conversando com uns judeus. Tudo é questão de dinheiro. Se quer ser
reconhecido, a sua comida, pra ser consumida por todos os judeus sérios, ela
precisa ter um reconhecimento, de que precisa ter um selo rabínico daquele grupo
ali, que vai ter então, seria assim eu, digamos tá ok.
Digamos que eu tenha determinado produto aqui, que eu quero vender. Eu
tenho, que contratar um rabino pra ele reconhecer o produto. Aí ele vai dar o selo
dele. Então eu vou ter, que pagar já pra esse rabino e esse rabino vai ter, que pagar
pra outro grupo, que vai ter, que pagar pra outro grupo, e o produto vai ser muito
mais caro e não compensa ter, que pagar pra um monte de gente. Ei, que é isso!
Tão me roubando! Não, tô fora. Agora se for judeu tipo eu assim, se compra por 1
real e 50 estourando.
Eu não sou profissional liberal. Sou funcionário público por enquanto, eu não
penso muito nisso não. Tipo assim, daqui a pouco eu vou ali tomar cerveja, agora
tem dinheiro. Não, eu não penso nisso, não. Agora eu tinha, tenho vontade de cuidar
disso aqui. Já que eu já tô no barco, fazer o máximo pra, que ele não afunde. Por
exemplo, agora a gente já vai conseguir uma casa maior, com quartos, é pra gente
receber gente de fora. Por exemplo, eu fiz muita amizade boa lá fora. Gente
inclusive, muita gente esclarecida, gente cabeça no lugar tipo eu falei da Yeshivá, da
briga porque a gente, os rabininho lá que eram ortodoxo, tataravô já era rabino e os
muleque era tudo tipo eu, assim, tava nem aí pra nada e começou a estudar Torá ali.
Às vezes tava de ressaca no outro dia, começava a fazer a tfilá, a reza tipo 9
hora da manhã, sagrado, todo mundo tem que tá juntinho. A gente:- rapaz, tô de
ressaca! Oh, depois eu faço. Não, mas precisa do minian. Não, mas depois eu faço,
vai, perturba não... Acontecia muito isso. Às vezes o pessoal ou a gente saía pra
tomar uma, ou então tinha um farbrengen um itvaidut, aí todo mundo enchia a cara.
Todo mundo bebia pra caramba, brincava, festejava, aquela coisa toda, aí tinha um
grupo de rabinos ultra ortodoxos lá no meio da gente, que, tipo tinha a gente, tinha
que fazer aquilo dali, mas cedo a gente tinha que acordar bem cedinho, pra fazer a
mikvah, pra depois tá preparado pra estudar chassidut, depois pra fazer tfilá e
depois ir comer, fazer toda aquela coisa junta só que uma parte do pessoal, que tava
ali, boa parte não tava ligando pra isso não.
Estava ali pra aprender como colocar tfilin, como ler hebraico, aprender a ser
judeu. Agora sem fanatismo. Eu ouvi de mais de 10 essa mesma palavra. Essa
mesma frase. Essa mesma idéia. Quero aprender a ser um judeu, um bom judeu,
mas sem fanatismo. E eu tô de pé no chão e tinha até um amigo meu lá, que falava
bem assim: - é rapaz, ser judeu não quer dizer ser ignorante, não. Ser judeu não é
ser ignorante, não. Tô vendo o que tá acontecendo. Tô vendo. Tenho conhecimento,
pelo amor de “Deus”. Não vou fazer isso aqui porque isso foge aos meus, foge à
minha inteligência.
Aí chegava o sábado por exemplo. Todo mundo comia, aquela coisa toda, e
às vezes dava vontade de ir pro quarto. É, ler um livro, às vezes. Aí deixava a luz do
corredor ligado pra poder dá luz pros quartos, pra poder ler livro. Pra num ter que
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ficar ligando e ascendendo luz de quarto, essas coisas porque, os amigos não
gostavam, porque tava infringindo a lei do Shabat. Não se pode fazer fogo no
sábado no Shabat, então energia elétrica é considerado fogo. Então você não pode
ligar nem desligar uma lâmpada porque tá profanando o Shabat. Porque você tá
fazendo fogo. Ei, peraí, que é isso?
E tinha um monte de cara como eu, pé no chão. Cara tudo formado. Um
monte de cara assim, que já passou por universidades, que pegava olhava assim
pra minha cara, ria, esses cara! Por causa disso aí, dava aquela luzona, forte,
imensa e alguns quartos em cima era de vidro. Dava onze, meia-noite, ninguém
mais tava a fim de ler, todo mundo dormindo lá. Os ortodoxos lá não. Botava um
pano na cara assim, e dormia com aquela luzona. Chegava lá o pessoal na hora
TAC! Desligava. Depois eles acordavam, e perguntavam quem desligou a luz?
Quem desligou a luz? Não pode desligar a luz! Aquela confusão ou então, pegar o
sachezinho do chá.
Maior briga por causa do sachê do chá. Se tem o sachê do chá. Tem, que ter
a água quente, não pode despejar, por exemplo, água quente direto no sache do
chá, no sachezinho, porque entende-se que se cai direto, vai cozinhar e é proibido
cozinhar no Shabat. Aí o que eles faziam. Pegavam um copo seco aqui, jogava
aquela água quente no copo seco, pegava outro copo, jogava a água no outro copo,
que deu o tempo de esfriar, aí depois jogava o sache do chá, porque aí como
esfriou, a temperatura não tá tão alta, entende-se que não ferveu. Ah, e detalhe, não
se pode pegar o sache do chá e fazer assim tchuc, tchuc, tchuc, tchuc porque se
fizer assim, vai e volta vai e volta,está tingindo a água e não pode tingir água.
Tem coisas assim, eu prefiro ser Sefaradita aqui na Amazônia, Porto Velho
mesmo, Guajará Mirim, ixi! Aqui tá bom demais. Aquilo que eu vi ali, não tô nem aí.
Faço minha mikveh no igarapé, pego meu peixinho, me viro. Aqui eu aprendi a fazer
kasher. Eu sei fazer, estudei kashrut bacana. Sei fazer kasher mesmo, oh! Sei fazer,
só num vai ter selo, mas eu sei fazer. Qualquer rabino, que chegar pra mim e disser,
que não é kasher, eu esbulacho ele. A questão do kasher é só a forma, como ele vai
cortar o pescoço da galinha, é só a forma. Tem que ter uma faca especial pra cortar.
Tem uma forma especial, que passa e corta. Eu aprendi tudo isso, eu estudei tudo
isso aí. Só não tenho diploma, porque tava faltando dinheiro
Em Yeshivah eu passei um ano e sete meses, dentro de Yeshivah. A palavra
Yeshivá vem de shev, lashev, que é sentar. Ficar sentado porque dizem que a
palavra vem daí. É um lugar onde as pessoas ficam sentadas, estudando Torá.
Passei esse tempo em Yeshivá. Yeshivot. Porque eu fui pra várias Yeshivot, várias
Yeshivás também em português. Agora também eu acho que eu queimei muito a
galera!
O grande orador espírita aqui do Estado de Rondônia e um dos melhores do
Brasil ele é judeu mesmo. Judeu também lá de Belém, que é o E., que é o irmão
desse F. E., J. E., que é esse que escreveu o livro Alef Beit, Alefbetizando, que é
esse E. O E., o irmão dele é judeu mesmo, mas é um espírita. Ele falou, não bicho,
ele veio aqui uma vez visitar a gente, conhecer, falou rapaz, num presta pra mim
não. Ele me chamou pro canto assim, me conhece e falou rapaz, o negócio aqui é
arcaico, né? Aí eu falei é. É, mas é a tradição judaica.
Tem coisa, que já vem dos antepassados, que é até legal fazer. Eu por
exemplo, não que eu acredite, mas eu acho legal. Eu gosto de fazer porque é uma
coisa da identidade. Mesmo não que eu acredite, acho legal e tal. Inclusive os
rabinos dão explicação não científica. Eles dão explicações cabalísticas da Torá.
Eles argumentam que Torá é realmente incompreensível para os seres humanos. A
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Torá ela é algo divino, Kadosh, santo, separado. E por ser divino, por ser kadosh,
ela não pode ser interpretada por seres humanos.
Mesmo tempo, que ele fala isso, que não se pode explicar, eles interpretam e
inventam esse monte de lei, absurda pra dizer por exemplo, de tá chovendo aqui, eu
num posso abrir um guarda chuva pra mim, pra me proteger da chuva. E outra, se
eu pegar chuva, eu tô lascado. Porque além de tá fazendo habitação, eles dizem
que é habitação, construir habitação o guarda chuva, ainda vou me molhar e aí não
vou poder me enxugar, porque não pode enxugar, porque não pode espremer. Isso
tá fora do que eu quero enquanto um judeu.
Por exemplo, eu gostei muito de ter estudado Guemará Talmud, amei estudar
Talmud. Só que no Talmud, essas coisas num tão, tem um monte de lei legal, um
monte de coisa lá e tal sobre brachá, sobre shidurim, um monte de coisa, mas não
tem nada falando essas coisas, que esses caras inventaram. Não, isso tudo é coisa
nova, que tão inventando agora. Tão inventando essas coisas agora e aí eu não sei
se eu tô preparado pra essas coisas.
Sei não, eu gosto de usar barba. Eu tenho barba porque eu gosto de barba
mesmo. Eu tava com a barba desse tamanho, aí eu andei tirando porque o pessoal
tava achando que eu era doido, que eu era hipie, que eu era maluco. Aí falei, bicho,
também vou tirar. Pra não ficar assustando muito as pessoas. Aí eu dei foi uma
aparadinha, mas mesmo assim, aí o rabino já disse, que não vai falar mais comigo
se eu tirar a minha barba de novo. Eu não vou mais tirar a barba não, vou deixar
ficar bem grandona. Eu gosto da barba grandona, mas é que com a barba muito
grande fica difícil de arrumar namorada. Um amigo, que falava lá em Israel: Ah
bicho, não vou deixar a barba crescer não, porque as mulheres não gostam de
barba. Principalmente, principalmente os argentinos. Eram terríveis, faziam a barba
mesmo, não queriam nem saber.
A grande cisão judaica de Porto Velho, tem até um ditado que diz: que onde
tem dois judeus, tem três sinagogas. É terrível, pois é, o pessoal começou a se
estressar aí não sei porque não, também podia ter outros motivos só eu, que não
sabia, que eles tavam brigando por minha causa, mas beleza. Essa famosa Ypioca,
mas essa aqui tá aguada. Ah! tem um detalhe, diz que só pode dois lechaim, só.
Mas eu sou Sefaradita, eu posso mais. Essas comunidades assim, que não podem,
mas eu posso mais... a sim, a grande cisão judaica de Rondônia. É o seguinte. O
que eu pude entender foi o seguinte, é que existia um grupo de judeus que tava
querendo abrir as portas pra todo mundo, que quisesse, que não fosse judeu. Ah,
pode vir todo mundo pra cá a vontade, vai. Depois a gente dá um jeito de converter
vocês, a gente dá a ideia um pouco pra comunidade converte o pessoal e existe
outros, que não queriam pessoas, que não eram judias dentro dum lugar de judeu,
ser judeu.
O judaísmo não é uma religião de conversão. Não é como o cristianismo, não
é como o Islamismo, que vai ali, converte o cara nem, que seja à força, mas
converte. Quanto mais gente tiver, melhor. Não, o judaísmo não é assim. Ou você é
judeu ou você não é judeu. Agora se alguém quiser, aí insiste muito, que vai chegar
uma hora, que vai ser. Pela insistência mostra, que quer, realmente há interesse.
Beleza vai ser, mas não é religião de conversão como faziam os Cruzados, como fez
a Inquisição, como fazem os muçulmanos hoje. Se não abraçar o Corão, tem que
morrer ou ser escravizado. Não, não é assim.
E aí, assim existem rabinos ultra liberais. Existem os ultra ortodoxos e existem
os ultra liberais. Os rabinos ultra liberais, eles acham, que não, pode converter todo
mundo. Não, pode ter esse negócio, não. Já que a questão é Kessef, é dinheiro,
148
converte esse pessoal quer ser judeu. Beleza, converte aí. Então assim, na minha
opinião, o que eu acho, que aconteceu foi, isso. Tavam querendo abrir as portas pra
outras pessoas, que quisessem abraçar o judaísmo e um grupo não queria, que as
pessoas freqüentassem, viessem. E aí então já, que eu quero uma coisa e vocês
não querem ou eu quero e assim vai, enfim, eu acho melhor a gente se separar e
cada um vai pro seu lado e acho, que foi isso que aconteceu.
Eu, que pode se dizer, assim eu, que elaborei o estatuto aqui da comunidade
judaica. Eu sou um dos que elaborou, eu digitei, vi o que, que é, o que que não é,
propus pros outros companheiros e dentro do que foi proposto ali, tem um artigo,
que diz: que aqueles que tiverem descendência comprovada, podem freqüentar sim
a comunidade, que depois a gente vai arrumar um jeito de reconhecer essa pessoa.
Algum rabino converter e tal.
Existem vários rabinos, que acho, que todo mundo já sabe, que existe a
comunidade aqui. Existem vários rabinos, que sabem da existência da comunidade,
que tem vontade de vir aqui, tudo mais, só que chega um momento, que eles muitos
pensam da seguinte maneira: - tem como eu fazer dinheiro ali? Tem como? As
pessoas estão disposta a pagar o meu serviço?
Aí eu fiquei pensando, aqui já tem as dificuldades, as pessoas já não são
religiosas pela própria natureza, independente se são judeus, cristãos. As pessoas
normalmente não são muito religiosas, não fazem na risca como tem que fazer
mesmo. Essas pessoas protestantes, de religiões não judaicas. Eles se mostram
assim às vezes, fanáticos, mas quando se vai realmente para observar eles, não
fazem como a religião deles mesmo manda. Eles não fazem na risca como tem que
fazer então eu vi que tava tendo esse problema aqui em relação aos judeus daqui.
Tava tendo muito problema aqui, pelo menos que a gente fizesse o mínimo.
Falei bom, eu tô querendo ver se é verdade. Se eu posso ir lá em Israel, se eu
tenho direito à uma bolsa de estudo como dizem, se eu tenho direito a determinadas
coisas. Eu quero aprender a falar hebraico, eu quero aprender a kashrut, eu quero
aprender um monte de coisa. Vamo ver se é verdade, eu quero ver se esse negócio
é legal. Fui, é verdade, foi legal, gostei, aprendi um monte de coisa nova. Um monte
de coisa legal e aí chegou a hora, me deu saudade da minha família, me deu
saudade daqui. Não, que Israel não é um lugar lindo.
Gosto da minha família, gosto da Amazônia, gosto daqui mesmo, desse
calorzão e aí às vezes as pessoas não compreendem isso, aí eu prefiro até pensar
como muitos judeus, que acham, que dizem assim: - não rapaz, quando o Messias
vier, aí esse problema todo vai acabar. Eretz Israel vai se concretizar enquanto
realmente um Estado santo. Sacro, algo Kadosh. Tanto que sempre que eu
encontrava, eu estudei com um pessoal, E., se a gente não se ver de novo, se a
gente não se ver mais nessa vida aqui, a gente se vê na construção do Beit
Hamikdash.
Sempre eu encontrava eles, sempre eles falavam assim. Se a gente não se
ver mais, tá indo pro Brasil, a gente se encontra na construção do Beit Hamikdash,
quando o Messias vier a gente vai se ver. A gente vai se encontrar quando o Beit
Hamikdash for ser reconstruído. A gente vai tá lá pra reconstruir o Beit Hamikdash.
Essa é a grande esperança de todo o judeu. O Messias vir e a gente reconstruir o
Beit Hamikdash.
Assim, segundo a Guemará, ela diz que qualquer um pode ser Messias.
Qualquer um pode ser Messias tanto vivo quanto uma pessoa que já não está mais
entre as pessoas de corpo físico, de corpo material. Pode ser então. Enquanto isso
não acontece, a gente vai vivendo.
149
Eu me considero na Galut, eu me considero em diáspora. Até em Israel
mesmo, eu ficava ali olhando que as pessoas, os próprios judeus ali estão
deslocados. Eu vejo que eles estão deslocados. A pessoa fala tanto ah, o judeu é
rico, o judeu é isso, o judeu é aquilo outro. Chegava ali o que, mais tem é judeu
pedindo esmola na rua. Ei! judeu é rico não, isso é mentira, isso é coisa que as
pessoas falam, o que tem de judeu pobrezinho não é brincadeira não, pedindo
esmola, doente e boa parte das doenças, que eles tem ali, é por ignorância mesmo.
São doenças modernas.
A Torá já fala em determinadas coisas porque tem tanta sabedoria na Torá.
Não faça isso, não faça aquilo, porque já sabia, que aquilo ali, ia causar uma
conseqüência ruim pro judeu, pras pessoas, não só pro judeu pra qualquer um,
então aqueles, que seguem realmente a Torá, beleza. Vão viver com saúde, vão
viver muitos anos, aquela coisa toda, mas tem coisa, que não tá na Torá. Que é
questão de conhecimento mesmo, tipo esse negócio que eu falei do falafel. Lá os
cara pegava no dinheiro. Não tá escrito na Torá não pegarás no dinheiro e depois
pegarás do falafel. Não tá escrito isso. Fala que quando se for comer o pão se faz
netilat yadaim, lavar a mão. Aí tem três jogadinha de água prum lado, três jogadinha,
naquela época não tinha sabão tinha, que jogar assim, que a água bate assim bate
cada vez com mais força e com isso faz os micróbios saírem, as impurezas.
A gente sabe hoje, sabão é uma coisa moderna, naquela época não tava
escrito lavarás a mão com sabão. Não tinha sabão então hoje em dia, tem sabão. É
tudo questão de lógica, é tudo questão de inteligência “Deus” deu inteligência pra
gente, “Deus” deu eletricidade pra gente poder usar, “Deus” fez coisas maravilhosa
no mundo, que é pra gente poder [usar]. E aí tem coisa assim que eu não tô
concordando.
Esse era o meu grande problema lá. Eu não tava me adaptando por causa
disso. Falei: -bicho, não é pra mim essa vida de ultra mega, ultra super ortodoxo, tô
fora! Faltava botar uma capa de ortodoxo, sair voando. Não, tô fora desse negócio.
Prefiro ser um, como está no nosso estatuto, um judeu conservador liberal. Será que
tem isso? Deve ter! Tem tudo! Agora tem coisa, que tem, que ser preservada,
mesmo coisa, que tem que se preservar, mesmo agora. Não do jeito, que eles falam
ali, que aquele grupo de mega super ultra ortodoxos instituiu, que é aquilo ali, que
tem que fazer e tem que ser aquilo ali.
Mas aprendi mais lá, mas eu sabia umas besteirinha aqui. Sabia umas
brachá, brachotzinha, umas besterinha assim. Mas não sabia muita coisa não. Aí
logo que cheguei lá, comecei a ter contato com os judeus italianos. Ia nas sinagogas
italianas sefaradita, aquela coisa toda e os cara sempre me chamavam pra ir pra
fazer o Kidush na casa deles. Aí eu no Shabat eu ia, aí às vezes fazia Kidush tal,
depois eu pegava e ia pro metrô, pegar o metrô e pegar no dinheiro e ir pra casa, e
eles começaram a ficar chateados.
[Diziam] Não, não vai pra casa não. Vai pegar em dinheiro, andar de metrô,
não pode sábado. Faz o seguinte, dorme aqui. Aí começaram a me convidar pra
dormir com eles. Eu tava ficando meio assim. Não tá dando esse negócio de ficar
dormindo na casa dos outros, não gostava, tinha o meu quartinho, minha caminha
arrumadinha, bonitinha lá onde eu tava, aí foi quando eu recebi o convite pra
Yeshivá.
Falaram rapaz, tu num quer logo sair lá de onde tu tá não? Comer só kasher,
fazer num sei o que. Falei rapaz, eu não tenho dinheiro, não. Tenho que trabalhar
inclusive no sábado, preciso de dinheiro, de dinheiro. Não, não, a gente vai dar um
150
jeito nisso. Não precisa mais, vai precisar de que, eles falaram. Rapaz, eu preciso de
comida. Então não se preocupa não, que a gente vai te dar tudo que precisar.
Aí eles me deram terno, me deram chapéu, me deram camisa, me deram
comida, me deram cama, me deram estudo, me deram tudo. Aí eu passei um ano e
sete meses. Pra não ficar muito assim, vagabundão lá, na mão dos cara, um cara já
na minha idade assim, eu vi que tinha um monte de muleque. Tinha gente de toda a
idade. Aí falei não, preciso ajudar de alguma maneira, isso não faz parte de mim,
ficar só sugando dos outros e me ofereci pra limpar a Yeshivá onde eu tava. Aí eu
falei não, eu vou limpar.
[O rabino perguntou] Sério, sério E.? Eu respondi sério, tá pensando o que?
As coisas tava tudo impecável, tudo limpinho, eu chegava cedinho lá. Então foi
assim eu fui ajudando, ajudando eles e tal, daqui a pouco o rabino me chamou pra
morar na casa dele. Não, vamo morar na minha casa, disse o rabino. Lá eu falei
rapaz, bóra, se quiser que eu vou morar contigo eu vou.
Quando chegava um israelense ou chegava um norte americano ou gente de
fora, já pedia pra eu buscar o pessoal no aeroporto, pedia pra eu levar o pessoal na
mikvah, já pedia pra eu fazer as coisas, ajudar. Eu tava meio que trabalhando com
eles já. Isso lá em Milão. Aí depois eles me mandaram pra Veneza: -vai pra Veneza,
tem uma Yeshivá boa lá, vai lá. E eu de novo aquele mesmo sossego. O rabinão
tava dando comida, dando tudo de graça.
Tinha um monte de rabino, daqueles bachur Yechivá, a mulecada, que
estudava lá e tal, pra ser rabino e eles chegava lá, trabalhavam e ainda pegavam
dinheiro. Eles tinham comida de graça, tinham estudo de graça, um monte de coisa
de graça e ainda faziam um trabalinho ali, lavavam uma mikvah ou faziam uma coisa
assim e pegavam dinheiro ainda dos rabinos. Fiquei meio assim, esse negócio não é
certo não, eu sou macho, eu sou homem, não sou menino. Não, pra eu ficar num
lugar eu tenho que pagar pelo que eu tô usufruindo pra depois o cara não dizer ah,
esse daí que ficou... não, não faz parte de mim, não.
Cheguei lá na hora falei ó, quanto é que é a comida, eles tanto. Não, você
não paga, não eu faleI, você é bachur da Yeshivá, eu falei não quero saber, a partir
de agora eu vou ajudar a limpar a Yeshivá e vou lavar a Mikvah. Tudo bem, quer
cuida da Mikvah, tá ok. Vá lá, fique com os meninos pra você aprender como é que
lava e aí se quiser realmente, tudo bem. Quanto é que eu tenho que lhe pagar? Eu
falei tu não vai pagar nada não. Não, se vai trabalhar, precisa receber. Tu tá me
dando comida, tá me dando estudo de graça, tá me dando um lugar maravilhoso pra
dormir, com ar condicionado, tudo perfeito, ainda quer me pagar. Não, deixa que eu
pago. Cê que sabe. Aí eu fiquei lá mais um tempão lá nessa Yeshivá. Acho uns
cinco meses eu acho. Eu fiquei na Yeshivá lá em Veneza lá pra uns cinco meses.
Fiquei lá em Veneza, ia no Gueto, saía, curti muito, conheci toda Veneza, tirei
muita foto, foi legal, depois voltei pra Milão de novo, passei mais um tempo em
Milão, e eles compraram uma passagem pra mim. Agora já tá na hora de você
aprender o hebraico mais ou menos, seu hebraico já tá melhor, já tá bom de Torá, tá
na hora agora de você ir pra Israel. Eles compraram a passagem pra mim, eu peguei
e beleza, dado até pimenta no olho. Eles me deram a passagem, eu fui pra Israel
e já me colocaram numa Yeshivá de Baal Tshuvá, onde tinha a maioria norte
americano. Uma Yeshivá só de norte americano, praticamente todos eram norte
americanos. Tinha uns israelenses lá, tinha uns dois ou três argentinos, pessoal
assim de fora. Eu fiquei lá com eles, era o único brasileiro que tinha. Fiquei lá, e
lá eu passei quase um ano nessa Yeshivá. Ainda cheguei a pegar uma pontinha de
uma Yeshivá lá em Tel Aviv. Ainda peguei um mês em uma Yeshivá de Tel Aviv de
151
graça também, mas eu como sempre, sempre prestativo pra poder em vez das
pessoas dizerem porra, esse cara aqui pô, o cara faz falta! E assim foi o que
disseram aqui, da comunidade quando eu fui embora.
A idéia [de fundar a CEJURON] era justamente juntar a judeusada aí, pra não
perder a cultura. Que a cultura dos antepassados, que tava a pessoa nem sabia,
que era judeu. Tinha gente não querendo mais saber. Pelo menos se tivesse um
lugarzinho assim, pra gente se reunir, uma espécie de clube social entre aspas,
seria melhor pra poder justamente incentivar as pessoas de participar, aquela coisa
toda.
Eu, em nenhum momento eu tive como intuito ganhar dinheiro aqui. Nunca
passou pela minha cabeça, eu nunca fui uma pessoa, que tive dinheiro. Tanto que
eu sou professor. Ganho pouco mesmo, nunca tive intuito de ganhar dinheiro, não.
O meu intuito aqui era de aprender mesmo o judaísmo tal, e congregar os judeus
aqui da região, porque a minha família sempre falava e eu via, que o pessoal não
queria saber também. Todo mundo católico. Com outras culturas, o pessoal vendo
fazendo Natal, aquela coisa.
Por exemplo, minha mãe é meio atéia, Nova Era sabe, paz e amor e tal. Mas
assim se for ver, o estilo do pessoal da família da minha mãe aqui por exemplo, eles
são totalmente clean. Nada nem catolicismo, nem espiritismo, nem nada. Assim,
minha mãe ainda tem uma simpatiazinha por espiritismo, que acha legal, porque as
idéias espíritas, o corpo físico morre e o espírito prevalece, aquela coisa assim, que
existe “Deus”.
Assim na minha casa, nunca teve aqui na minha casa, minha mãe nunca teve
religião nenhuma, nada. Totalmente zero. Já na família do meu pai tem um velhinho
lá judeu, narizão, assim desse tamanho, que tipo a mãe já não praticava. A mãe dele
judia, ela não queria mais saber, já tavam assim, já vieram de Belém nesse pé
porque o pai do meu avô, meu bisavô ele já, ele era cheio do dinheiro. Eram ricos e
tal e aí eles naquela época, que era difícil de fazer qualquer coisa, principalmente,
então as pessoas não gostavam muito, já não queriam ter, que ter problema com
ninguém então quanto mais dinheiro tiver melhor quanto mais festa melhor.
E aí a família da casa da minha avó por exemplo, a minha avó, a mãe dela
morreu ela tinha cinco anos de idade, por parte do meu pai, e ela foi criada pelas
freiras. Meu bisavô é judeu francês mesmo, lá de Lyon. É sobrenome inclusive de
quem até viveu no Gueto de Lyon, uma época. A família até tem livros, artigos que
falam sobre isso. Tem até filme também. Inclusive filmes feitos por um produtor de
cinema, que fala sobre essas coisas, que é isso é legal. Esse produtor de cinema,
ele só faz filme assim, nessa área, que tem haver com judaísmo, com Gueto, com
perseguição, com não sei o que.
A mãe da minha avó morreu quando ela tinha cinco anos de idade. Ela foi
criada pelas freira, porque naquela época não podia ficar. É o que ela sempre diz, ah
eu não pude morar com meu pai, porque menina mulher não podia morar com o pai
e como meu avô era difícil de conviver, meu avô, imagina, um judeu francês, falava
oito línguas meu avô, e ele vivia, ele vendia, ele era tradutor. Ele era um estrangeiro,
que o pessoal, que vinha de fora, ele que apresentava o lugar pro pessoal, levava o
pessoal pras cidades, que tinha que ir, fazia tudo e vendia cigarro também.
Ele morreu com oitenta e poucos anos, fumando. Oitenta e sete ou oitenta e
nove, sempre com um cigarrinho na boca, o velhinho. Aí ele vendia cigarro e aí foi
isso, que aconteceu. Minha avó foi criada no catolicismo, meu avô veio, se
apaixonou pela veia, ele já tinha a mãe dele, o pai dele, que era católico, esse meu
avô já tinha aquela coisa do catolicismo e tal.
152
Minha avó já não era muito..., minha avó era assim, como casou com o meu
avô, então já não era católica, mas ela não se comportava como católica. Se
comportava como judia. Cem por cento. Em casa era cheia de coisa assim, cheia.
Até hoje meu avô tem lá coisa. Não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, não faz
não sei o que. Isso não é assim, a cama tem que botar desse jeito, desse jeito não,
com sete dias [o bebê] não pode ter ninguém em casa, não pode, menino não pode
receber visita, não sei o que isso. é por questão da circuncisão. No sétimo, pro
oitavo dia não se pode, aquela coisa toda. Acabou que virou uma coisa assim
meio... e aí tipo perdeu mesmo.
Sobre a minha ida agora, os meus primos dizem: - poxa, legal mas eu prefiro
ainda, negócio de lei judaica tô fora! Eu que dei uma de doido mesmo. Não me
arrependo. Eu não me arrependo não, mas eu não gosto, que me liguem não, assim,
de fora por exemplo, de vez em quando uns caras me ligam lá de Israel. Me ligam
da Europa pra querer me cobrar. Perguntam se eu tô colocando tfilin todo dia, se eu
tô mexendo na minha barba, se eu tô comendo kasher. Aí eu me estresso às vezes.
Os cara me ajudaram, foram gente boa comigo. Me deram de comer e me deram de
beber, me deram de vestir. Eu não posso tratar as pessoas ruim. Até porque é
pecado perante “Deus”. Se eu fizer isso ele pode me castigar, então eu tô de boa.
Pelo menos é assim que o pessoal fala. É assim que a tradição diz. Então não tô a
fim de de colocar em jogo minha vida não.
No meu íntimo, ser judeu é amar a “Deus”, respeitar todas as criaturas, não
ser fanático. Pra mim é isso.
153
Narrador V
Eu nasci no sul, do Rio Grande do Sul num lar católico, até porque no decorrer
da minha vida é que comecei a dar por conta das minhas raízes. Mais a frente,
porque até então, quando você é criança você só sabe reproduzir aquilo, que te
ensinam, foi um lar assim católico não muito praticante, porque a nossa família era
uma família de agricultores. Meu primeiro contato com a religião foi a católica, tive
que fazer o estudo católico, porque na cidade todo mundo era católico, uma
cidadezinha na época de oito mil habitantes o maior acontecimento na cidade era ir
missa, que nem era todo dia. Só no sábado e no domingo, e a missa do sábado era
a tarde, uma missa mais elitizada e domingo de manhã, era mais alegre onde nós,
crianças mais ou menos iam, e desde o começo fiquei meio indignado com as
histórias, essa de Jesus, porque eu pedia e ele não fazia, incrível isso, e eu dizia pra
minha mãe que Jesus agia certo com todo mundo, mas comigo a história era
diferente. E, hoje dentro da minha compreensão dos fatos desde criança eu tinha um
pensamento totalmente dentro de uma linha de raciocínio coerente para um judeu,
mas fui criado em igreja católica.
Fiz primeira comunhão, fiz crisma que é a confirmação dos votos de batismo,
militei no movimento eclesial de base na igreja católica, que é aquele que você se
forma um pequeno comunista cristão. Então comecei ai toda minha caminhada.
Na época da faculdade conheci um ilustre judeu chamado Karl Max! aí veio o
materialismo histórico dialético, ou seja, as religiões são o ópio do povo, então a
parti daí me tornei um cara assim, que como diz o Dráuzio Varela: a vida consciente
navega no homem inteligente. Ou no acidente de percurso o que acontece quando
morremos? Nada morremos, ninguém voltou de lá beleza, mas o tempo vai
passando, nessa miscelânea de acontecimentos vinte, vinte um anos começo a me
interessar pelo hermetismo.
O hermetismo são conhecimentos fechados aqueles, que são tradições,
tradições do conhecimento ou tradições orais, nessa minha jornada então, aos vinte
anos tive meus primeiros contatos com os pessoal mais psicodélico, que tavão em
coisa diferentes. Eu comecei minhas primeiras incursões pelo mundo metafísico.
Comecei a estudar o rosacrucianismo que é a liberdade de expressão
intelectual, ou seja, o homem é acima de tudo uma razão em ação, com uma
inspiração divina. Mas, aí começa acreditar que “Deus” vai dar umas dicas. Nesse
caminho do hermetismo, que é um caminho iniciático fui progredindo nele, só que
154
Rosa Cruz, não é uma religião, e você é indicado dentro de uma linha de raciocínio a
conhecer mais religiões, está mais perto de religiões. Aí quem tava mais perto já,
que venho do berço católico voltei na tendência mais à direita da igreja católica, ou
seja, comecei com o movimento Fucolari, que é um movimento social da igreja de
entendimento à questões sociais, daí começo a conhecer a renovação carismática
católica, só que aí começa a dar choque, porque já começa com os
fundamentalistas cristãos, minha incursão pelo mundo fundamentalista cristão com o
conhecimento gnóstico Rosa Cruz começa a entrar em choque, porque o
fundamentalismo cristão prega o espírito de uma forma, que a única verdade é
Cristo, o único caminho é Cristo, que não existe nada após a morte, que não seja a
ressurreição. Mesmo com esses choques eu vou levando, assim tento marcar a
essência.
E, aos vinte quatro anos de idade começo minha caminha na Maçonaria, mais
uma vez adentro a mais conhecimento hermético, fechado, conhecimento hermético
também relativo a era dos registros, sumérios que viveu milhares e milhares de anos
na primeira etapa do Egito nascente, pós Atlântico, não é uma explicação, que
geralmente se dê, a isso mas é, foi uns dos homens mais sábios que existiu, uns
dos mais, não o mais, ele tinha três quintos de todo conhecimento do mundo, chama
da tradição oral, que acompanha os iniciados desde os tempo de Carnaque esses,
que orientaram o mundo do conhecimento. Até mesmo o espírito inicial Akenaton,
que é tido hoje como a primeira vez que alguém diz no mundo que existe um “Deus”
único, é com Akenaton bem antes de Moisés e de Abraão. Daí esse conhecimento
de Akenaton ter sido atlante, ele hoje permeia as principais religiões monoteísta do
mundo, mas não se explica dessa forma você tem, que ter um conhecimento de
egiptologia pra poder entender, pois ela é colocada até mesmo em alguns Salmos
da Torá no Antigo Testamento, como os cristãos falam. Mas com essa miscelânea
de conhecimento ao mesmo tempo se é levado pela própria Maçonaria, pela própria
Rosa Cruz a ter uma escolha religiosa, porque elas são ordens filosóficas de
libertação do homem não, que o homem não precise de uma religião pra viver, elas
te levam a viver em religião para, que se ter uma comunhão também com as coisas,
que religam.
O arcabouço de conhecimento do que é o universo, que tá então cheio de
religiões, aí a Rosa Cruz e a Maçonaria, elas indicam, tenha uma religião pra você,
porque nessa caminhada você tem, que interagir com as pessoas, que não pensam
como você. Ou que, pensam parecido com você. Aqui dentro somos todos iguais, as
pessoas precisam ter religiões, pra terem grupos, os nossos grupos são muito
seletos, você foi escolhido pra estar aqui, uma religião acolhe todos é bom ter uma
religião, aí você pode ser um religioso e um filosofo hermetista. Nisso minha vida
vai… vou conhecendo o católico tradicional, de militância clerical, se quisesse um
dia ascender até o clero católico mais adiante, porque eu tinha uma relação muito
boa com o bispado, com os bispos da CNBB.
Mas nesse meio tempo as conjunturas da vida me trazem pra Rondônia, ao
chegar aqui, isso aqui era uma loucura, uma maravilha. Vim com esse arcabouço de
conhecimento inicial, pra amadurecer aqui. Nisso…Eu, eu... houve um momento lá
no sul, do meu rompimento da estrada iniciada dos mistérios, dessa misteriosa vida,
que o homem tem, ele é sujeito as regras de ação e reação, de plantio e colheita.
Depois de uma vida e chega uma hora, que o conflito da religião, com o livre
pensamento por um round a religião nocauteia o livre pensamento. Me torno um
católico mais fundamentalista e me afasto temporariamente da Maçonaria e da Rosa
155
Cruz, aí venho pra Rondônia passo um ano, os primeiros dois anos eu passo aqui,
deixando a vida me levar, vida leva eu, nem católico, nem nada.
Aqui é incrível o que tem de evangélico, os cara começam a te levar, você
começa a frequentar pra agradar os amigos, se você namora alguém evangélico
você acaba indo com ela no lugar, mas nunca senti aquilo ali minha praia, até
porque essa história de Jesus comigo, nunca me desceu muito redondo e isso aí é
uma coisa pessoal minha, até gostava de contar aquelas piadas, assim digo, que
isso são os próprios amigos falando de maneira carinhosa sem fazer distinção né
que… Em Portugal, fizeram uma propaganda de pregos botaram lá um Cristo
crucificado e disseram pregos Soares, há dois mil anos pregando com confiança...
Sempre contam essa história, aí veio à igreja entrou com uma ação tirou a
propaganda do ar, no outro dia botaram uma cruz vazia pedimos desculpa pelo, que
aconteceu ontem. Devido nós termos colocado a presença de Jesus crucificado na
propaganda, ficamos surpresos, porque simplesmente os pregos não eram Soares
tanto é que o suspeito fugiu. Sempre conto essa piada quando os caras começaram
a colocar só Jesus salva. Eu digo Jesus e Ctrl C, que no computador é quando a
gente quer salvar um texto, aí é porque eu tinha uma rejeição pessoal a essas
pequenas coisas, não sei a vida vai caminhando, nas intempéries da vida, num
momento muito difícil mesmo que eu senti o dissabor de ser Cristão.… O dissabor
pra mim… Pra alguns é a salvação… Pra alguns é a felicidade, mas não pra mim.
Estou falando do meu jeito, da minha compreensão de valores, pra mim e dois terço
do planeta, que não acreditam nele.
Ai eu conheci uma religião chamada União do Vegetal, que bebia o chá
aiuasca, etc. Fui meio que a contra gosto, mas eu fui já tava pensando em ir embora
de Rondônia, tinha dado tudo errado aqui em dois anos, o chá tem um forte apelo de
indução a concentração interior, mas usado em profusão acho, que cria certa
dependência psicológica, aí num momento difícil você bebe uma coisa, que te traz
um alento psicológico e serve como um antidepressivo bom. Aí acaba se apegando
aí então, realmente posso dizer que num tempo de seis anos militando na União do
Vegetal, me considerei cristão até porque, só tinha uma opção pra você beber o chá.
Se você seguisse o que eles mandavam, e o que eles mandavam era o cristianismo,
então você aceita ou você tá fora, não tem discussão então pra beber o chá, e eu
gostava mesmo de beber o chá, eu fiquei lá. Mas houve uma coisa de bom nisso vim
pra Porto Velho, me acertei com os maçons e Rosa Cruz e comecei a ir novamente,
a frequentar e a galgar os graus evolutivos dessas duas sociedades filosóficas.
Novamente começa, quando mais você caminha nessa senda do conhecimento,
mais ela é libertadora, e aí chega o momento, que entra em xeque com o
cristianismo que se conhece com a historicidade da formação da religião cristã, isso
começa a complicar, porque eu gostava de beber o chá e comecei a passar mau,
logo que, comecei a beber o chá comecei a passar mau, começou uma grande
confusão em relação as coisas, que eu vivi, que assim no fundo no fundo eu
desconfiava do que me ensinavam, daquela história do conto da carochinha.
Essa religião me colocava, eu vejo dessa forma os cristãos como verdade, mas
eu acho como diz Einstein toda verdade é relativa. Chega uma hora então, que eu
acadêmico a essa altura do campeonato, já com mais uma faculdade. No começo foi
uma luta muito grande dentro de mim, entre o conhecimento racional prático,
elaborado, baseado em ciência e a religião. Assim a crendice de valores nesse meio
tempo tive de conhecer desde os cultos afros, a cultos Indus, realmente eu viajei
bastante pelas religiões tentando me encontrar.
156
Mas já então nesse processo já que meio numa época de ruptura com a União
do Vegetal eu conheço uma menina, que é judia, a gente namora, acaba noivo. Na
época eu vou visitar os pais dela, eu tenho uma visão meio ante cristã latente, que
vinha se formando mas eu não tenho aquele negócio, uma visão pro judaica em mim
até então, talvez um sentimento mais não a visão, e eu vou visitar os pais dela, eles
trabalham numa sinagoga ortodoxa beit lubavitch no Rio de Janeiro, no sábado eu
vou numa reformista achei legalzinha, achei meio parecida com a evangélica sem
Jesus, assim boazinha. Vou numa ortodoxa num sábado, quando vou numa
ortodoxa no sábado eu tive quase, que um arrebatamento, porque, primeiro, porque
ela tem uma ligação muito próxima com o templo maçom, então aquilo ali quando eu
entrei, eu me senti assim muito em casa, depois pelo sistema como eles eram
distribuídos e a maneira de como eles eram muito ligados uns nos outros e como
ficavam felizes pela maneira como exerciam o judaísmo apesar de entender muito
pouco ou nada, porque tavão falando tudo em hebraico, mas eu entendia uma
similaridade comigo e aquilo me marcou profundamente num único dia, eu vi uma
coisa que mudou minha compreensão para com os fatos, uma única vez é como,
que se eu tivesse acordado para uma existência inteira, nunca tinha vivido isso
antes, sai dela atônito com isso, cheguei aqui na semana, que eu chego, chega um
rabino vindo pelas bênçãos da CEJURON.
O primeiro rabino o Rav, um que tava no Recife veio e eu encontrei ele. Eu era
noivo na época, aí comecei a falar vamos organizar, vamos juntar pra fazer uma
comunidade judaica. Aí minha noiva chega assim, mais é vem cá, eu ti levei no
judaísmo, mas eu tô querendo sair de lá, tô saindo de lá! Tô achando Jesus meu
salvador. Aí eu disse cê tá de piada comigo? como é, que é eu conheço o céu e
você vem me dizer, que tu tá saindo de lá pro inferno! vamos negociar, isso não
pode ser assim… Cara tu quer seguir a União do Vegetal, tu segue, mas eu vou
seguir o judaísmo, e ela disse assim, se tu quiser seguir o judaísmo, mas saiba, que
eu já sai de lá, e acabou o noivado. Olha só eu era noivo de uma judia, que disse,
que queria ser cristã e eu, então tido como cristão disse não!… Eu quero ser judeu…
Como é uma troca um vindo e outro indo. Tá que não deu acabou o noivado, acabou
o noivado de um jeito que foi até deselegante, nós não nos entendemos mais, eu
não aceitava, que ela dentro de uma elite do conhecimento religioso abrisse mão por
uma outra.
Eu me senti ofendido por aquilo se tem um sistema, que eu hoje condeno muito
é.... que eu coloco como fomentador de um conhecimento programado alguns
chamam isso de lavagem cerebral, então eu não tava com liberdade de consciência,
eu tava tentando unir as partes do meu eu, que tinha sido construída dentro de uma
vida pelo conhecimento, que o judaísmo me dava eu consegui unir meu
conhecimento Maçom, meu conhecimento Rosa Cruz, a minha vivência materialista
histórica dialética, com a minha realização enquanto ser religioso. Daí, comecei a
viajar, fui a sinagoga no Recife, comecei a viver o mundo judaico a parti daí.
E, aí fui ao Sul e fui entendendo, engraçado vim do sul do Rio Grande do Sul,
que só tem uruguaio, argentino e não tem uma vivência judaica forte na minha
família, de onde veio isso? Um dia eu conversando com uma tia minha descobri, que
meu avô, meu bisavô veio do Recife, na revolução dos Guararapes teve, que vim
com o pai dele, porque queriam matar ele lá, porque eles eram judeus eu falei pra
minha tia, porque ninguém nunca falou isso antes? Porque nunca ninguém
perguntou pro meu avô quando ele era vivo? Aí uma tia minha disse, que ele tinha
vindo do Pernambuco, sou de origem nordestina e não sabia. Ainda disse sou cem
por cento gaúcho, que gaúcho tem isso, somos cem por cento gaúcho.
157
Não é incrível… tenho sangue nordestino então, foi se fechando o círculo judeu
de quarta geração, tenho sangue judaico. Quem tem sangue judaico de umas cinco,
seis geração ele grita mais forte quando se encontra com a cultura.
Então ser judeu dentro do meu coração, espero que desse caminho eu não
saia. Quero ser feliz tendo a compreensão de mundo, com os olhos de um judeu, a
parti daí eu descobri que tenho origem nordestina, que eu tive um dia antepassados,
que vieram e, que atravessaram o mar, e vieram… e sofreram na mãos de cristãos.
Eu enquanto maçom, encontro na cabala simbólica, que me ensinaram antes dos
tempos, encontro respaldo dentro do judaísmo, que a maçonaria nasce no templo de
Salomão uns dos maiores reis de referência da história judaica. Dentro do
rosacrucianismo, que vem em berço anterior, mas que, serve de base ao
conhecimento prático de Moisés enquanto filho do faraó, que estuda com os
melhores de uma época próxima a Akenaton, dos conhecimentos dos templos de
Carnaque.
Então tudo isso, esse conhecimento antigo, que essas ordens iniciáticas têm,
eles convergem, ou melhor, eles não divergem do judaísmo. Do judaísmo em si, do
judaísmo tradicional, não tão ortodoxo, porque na verdade toda ortodoxia
exacerbada é um fundamentalismo, então se fundamentalismo fosse correto não
tinha oposição. Nisso eu me encontro no atual momento, então nesse ano nosso
judaico vou a Israel tô vendo um jeito de me qualificar enquanto ser judeu, e nisso
eu fiz minhas novas escolhas de vida onde andar com aqueles, que pelo menos
andam na mesma direção que eu, seja nos relacionamentos pessoais, seja nos
relacionamentos sociais, e viver num mundo, ver o mundo com olhos de judeu essa
foi minha escolha de vida, que me traz até aqui. Espero continuar nesse caminho até
o fim da minha vida, tenho quarenta anos de idade, essa vida espero, que seja longa
onde vou estudar, vou entender coisas, pra poder entender um pouco mais minha
existência, mas, que eu seja também uma referência de certa forma essa é minha
história para com o judaísmo.
O judeu pra mim é aquele, que traz consigo uma tradição de práticas, que ele
entende, que são corretas e, que abre caminho pra sua evolução física e espiritual.
Vejo que, a vida é um conjunto de coisas, onde sua prática diária te fomenta
enquanto ser, te dando benefícios e essa mesma prática te obriga também, a uma
vivência espiritual direcionada para não só, que o corpo evolua, mais o espírito
também e as relações dos corpos da física, dos elementos que compõe o dia a dia,
mas não só uma evolução social, mas a evolução espiritual. Então é essa forma
como judeu vive. Judeu vive assim, reza aqui, reza ali, agradece aqui ,agradece ali.
e ele resolve as coisas conforme está escrito naquele lugar, porque naquele lugar,
que vem a ser a Torá, ali tem dicas de bem viver, que a milhares de anos existe e
fazem as pessoas serem vitoriosas. Eu escolhi esse formato de vida pra aplicar na
minha vida.
Se todo mundo soubesse como é crescer espiritualmente já, que ninguém
mede, porque não se mede o que, não tem tamanho, e nem forma. Crescer
espiritualmente é o que, se espera é crescer em sabedoria, daí entender-se como
ser e criatura e como ser criador também. Começar a fazer coisas, suas orações
suas palavras, vão criando ações e palavras...
Mas a evolução espiritual me espera após a morte. Primeiro eu espero que o
que, tá escrito aconteça, que nós teremos uma vida sempre evolutiva melhor, o
judaísmo não de uma forma declarada, não fala assim na reencarnação, mas ele
fala em voltar, mas se tiver, que reencarnar de volta tudo bem,que eu possa ver as
coisas por um ângulo sem paredes, tô aí pro que der e vier, o importante é viver feliz
158
enquanto tô aqui. Acho que essa é a grande evolução espiritual, viver o hoje como
presente de “Deus”, o agora e o depois, a gente vai plantando quem sabe o que,
depois tem uma colheita, e se tudo acabar, se tudo for um mero sonhar humano aí
vem, Fernando Pessoa, que diz: que tudo vale a pena, se a alma não é pequena…
viver bem, viver esse momento, e depois não tem mais nada, depois de morrer, só
um ponto final. Também vai saber pelo, que eu tô vendo pelo, que eu já andei
estudando segundo alguns conceitos judaicos e por experiência de outros relatos da
maçonaria e da própria Rosa Cruz eu acho, que eu volto e volto melhor.
A Rosa Cruz, é uma escola de mistérios antiga, antiga e mística… ordem rosa
cruzes. Uma ordem é um grupo de pessoas, que se unem em torno de um
conhecimento, que vem sendo herdado. Então, ela tem tradições pra quê, não se
perca esse conhecimento no tempo, a Rosa Cruz é uma ordem iniciática, onde se
inicia pessoas ao conhecimento e mistérios antigos desde a criação do mundo até
hoje. Através e pautadas num racionalismo, num contra ponto cientifico, mas não
perde o vínculo com o Eterno, com o sagrado. Rosa Cruz é uma ordem, que
congrega pessoas no mundo todo, é uma comunhão de pensamentos, onde se
reúnem eventualmente se quiser no templo, ou se não nas suas próprias casas.
Recebem os manuscritos para estudar e aprofundar esse conhecimento antigo, mais
principalmente o conhecimento interior, através de experimentos de alquimia,
telecinese, vibra-turgia. Os experimentos são treinamentos, que você faz com algo
para, que com aquele algo você evolua alguma coisa, que esta latente em você.
Todas as coisas antigas desse conhecimento, que a humanidade com o
materialismo vai se distanciando a Rosa Cruz tem buscado. Nascida na alquimia a
transformação de coisas brutas em coisas mais preciosas, através do conhecimento
aplicado. E, tem acesso por graus, vai mostrando, que vai merecendo e subindo
uma escada. Uma escada de Jacó, que vai subindo, subindo, subindo conforme o
conhecimento vai recebendo.
A Rosa Cruz parte do pressuposto, que tudo é seu desde, que você mereça,
então eles te dão conhecimento conforme você vai usar e esse conhecimento é
como aquela parábola, que os cristão falam dos talentos, eles te dão um pelo, que tu
faz, multiplicou vem mais, vem mais, vem mais, vem mais. A Rosa Cruz não precisa
de religião, mas é bom está em uma religião, para conviver com os outros, e as
ordens elas são muitos selecionadas.
Não é que vai aprender a amar seu próximo, se é muito mais fácil nesse amar
o próximo amar os iguais, mas se tem que amar os diferentes, e a religião tem esse
perfil de grupo de andar todos numa mesma direção não, que a ordem não tenha
,mas a ordem é diferente ela não te obriga a nada, porque ela te dá o conhecimento
e sabe o que, vai fazer com ele.
Já a religião é o conhecimento aplicado vai ter, que ir ali pra ver se chega em
algum lugar, sem religião você também chega lá, com uma ordem dessas, mas eles
preferem, que você vá lá na pratica pra ver se tá aprendendo mesmo a conviver com
os outros, Essas normas mais ou menos, mas muitos são Rosa Cruz e não
estudam, não tem religião se bem acho, que todo mundo lá dentro tem religião, cada
uma bem diferente possível tem gente da Universal, judeu, lá dentro tem
macumbeiro, gente que não acredita em nada, tem católico, tem Batista, lá também
tem de todo gosto tem Adventista.
O judaísmo é ele, que a única religião, que eu conheço pensada, ela foi feita,
ela é nos moldes das escolas iniciáticas. Ela é cheia de mistérios, ela é feita pra
você raciocinar, pra você aprender coisas, a Torá, vem de um jeito, que o judaísmo
é uma religião pensada articulada e executada, que pode ver, que quem organizou,
159
organizou mediante inspiração superior, porque uma letra do alfabeto, no alfabeto de
vinte e dois só ela sozinha, a letra dentro do desenho, seu significado, seu peso
numérico quer dizer cada uma, uma coisa diferente e ter no universo uma palavra,
que dá pra contar uma bíblia. Vai se tentar uma vida inteira e não vai conseguir
entender tudo.
Moisés, também deve ter feito uma coisa extraordinária pra juntar ainda todo
conhecimento do Egito. Todo conhecimento atlante, e ainda receber uma inspiração
divina, mexer com isso tudo e nos trouxe o judaísmo. Vamos analisar bem a
tradição, que vem com Abraão mais nosso plano de leis de ordem e regras vem com
Moisés, então uma religião que evolui? É uma religião assim, que é a base das
ordens iniciáticas, porque ali a cabala, só tem cabala dentro do judaísmo não tem
outro caminho, e a cabala é a ciência da transformação, da transmutação, da
criação. Isso as ordem iniciáticas ralam ensinando, isso os rabinos sabem disso.
Então eu converso com o B., que o bom das ordens iniciáticas é que elas não
te dão só isso, elas também te dão os paralelos disso, em outras religiões os
paralelos disso na aplicação, que foi feita em outras pessoas, em outros lugares, ela
acha a fonte de, que isso foi bebido, mas a fonte mesmo nesse tempo de hoje
entendeu, que é o judaísmo essa fonte de conhecimento das ordens iniciáticas.
Seria o caminho da fonte, então pra entender dá onde a fonte brota, porque que ela
brota com uma ordem iniciática? Deve-se conseguir chegar nisso, mas beber da
fonte, beber só sabendo onde ela tá, porque, que ela tá e aí? Então dela seria um
complemento hoje na minha vida.
As ordens iniciáticas consegue beber de certa fonte, mas não vejo ante as
religiões, que ali estão possibilidade alguma sem beber da fonte da sabedoria inicial,
porque os elementos simbólicos até mesmo de semiótica e semiologia, que são os
estudos dos símbolos não podem ser adquiridos por sionismo aliás ele é feito pra
esconder isso. Ele é feito pra tirar desse caminho, pra transformar num obtuso,
numa ovelha.
Os judeus são os pastores do mundo, as ovelhas do mundo é quem quiser ser.
Eu entendo dessa forma, os pastores do mundo são os judeus, as ovelhas são as
ovelhas, que servem pra sacrifício, pra tirar lã, pra dá carne, um pastor não vive sem
ovelha. Também concordo, mas pode viver da terra, ele vive sem ovelha é a ovelha,
que não vive sem pastor, porque acho, que de qualquer jeito vira uma presa do
destino. Essa é a maneira como eu vejo, não é uma visão acabada, é uma visão de
transformação minha.
O judaísmo é a fonte de todo o conhecimento, que se estende das escolas
iniciais. Mas as escolas iniciais vão um pouquinho mais a frente, elas vão buscar o
porquê que, a fonte nasceu ali? O quê, que tinha antes da fonte? Pra quê, que serve
a fonte agora? Isso faz parar entre Rosa Cruz e maçonaria e elas se completam é
um coisa assim interessante.
Até porque se não for judeu não consegue fazer cabala, foi judeu quem criou,
como é, que o pai não conhece o filho? Tá certo que tem filhos, que a gente
desconhece. Mais normalmente o cara sabe a peça que ele criou.
Então o judeu nasce sabendo, que ele tem aquilo, que aquilo é dele, ele
avançará ou não nisso. Agora brabo é o cristão, muçulmano, hindu que tem, que
achar outras formas de chegar a esse conhecimento. Digamos que a cabala seja um
caminho reto de aprendizagem tá? Enquanto, que também se chega a “Deus” de
outras formas, mas eu acho que cabala é um caminho mais tranquilo, porém a
cabala é uma coisa tão grande, tão complexa que tá no ser, tá dentro do dna do ser
160
humano, a estrutura microbiológica do planeta, que é tão complexa, e tudo tão
simbólico tudo tão profundo.
É possível ler a esfera do mundo numa história, ou numa palavra, ou
significado, tudo é parte do todo, conforme você tá preparado é, que você vai
recebendo o entendimento, pra tudo isso é quando o discípulo está pronto. Eis, que
o mestre se aproxima pode ver isso de duas formas: está pronto pra vir alguém te
ensinar, ou então porque dentro de você o discípulo virou mestre. Então não se tem
noção, não tem como medir o imensurável, não tem como medir, você só sabe, que
de repente você acordou vendo diferente as coisas, contando coisas de maneiras
diferentes.
Tenho uma passagem de filme, que eu gosto de trazer exemplos bem simples
pra pessoas entender no filme entrevista com o vampiro Tom Cruzes, o menino leva
uma mordida não lembro qual deles leva a mordia aí de repente, ele como vampiro
começa a ver tudo diferente, tá tudo igual como era antes, mas ele já não vê, ele
olha pra cadeira, mas ele não vê só a cadeira, vê um contexto de cadeiras.
Costumo dizer, a estudos da própria psicologia moderna, o exemplos dos
primeiros índios quando as primeiras caravelas chegaram na América, os primeiros
índios não tinham noção de que aquilo existisse, eles olhavam pra água e não viam
nada, que a visão deles não estavam aberta, a aquilo com o passar dos dias
começaram a surgir homens do nada, homens desconhecidos, de onde vinham
esses homens? São estudos, tá escrito em livros de psicologia moderna, aí o olho
deles se estendeu e eles enxergaram algo a mais que tinha pelo entendimento de
entender que viam de coisas fantásticas seriam as caravelas mais não vou muito
longe num tem aqueles quadro de três D, que vê no monte de folha e de repente se
descansa a visão e fica olhando e começa a forma imagem por trás, é isso o
caminho do iniciático, o caminho, que a cabala faz no homem, você olha pra parede
e começa a ver mais do que a parede, ver os átomos que as compõe, não a olho nu,
mas sabendo, entendendo, que aquilo é parte de um macro sistema agindo num
micro universo é muito complexo.
Já a maçonaria é um caminho de reconhecimento do judaísmo, pra mim tudo,
que lá me ensinam tá baseado na Torá, não é diferente a maçonaria também
entende com os olhos, que quiser entender. Tem gente lá dentro, que consegue ver
Jesus até… Mas a maçonaria é feita por Salomão, Salomão não pregava prego sem
estopa tá, é um cara, que foi o homem mais sábio do mundo, mais rico do mundo,
dominava as ciências ocultas, o testamento de Salomão é uma coisa fantástica, e eu
até pergunto pra agora onde é o túmulo de Salomão? Onde ele ta enterrado?
São perguntas, Salomão é muito mais, que se possa absorver, ele criou um
universo entre quatro paredes e botou “Deus” pra morar lá, aí porque ele sumiu? Eu
não vejo em lugar nenhum tá escrito em algum lugar, uma coisinha ou outra, mas
ele desapareceu da história, ou seja ele cumpriu a missão dele, e segue
caminhando de outra forma entre os outros, então ver o que, tá dentro da maçonaria
a escola de Salomão, tudo lá é escola de Salomão. Só que lá infelizmente entre os
que ensinam não sabem nem o que, tão ensinado, tá explicando o que ele fez pra
chegar até aquilo ali pra chegar nesse conhecimento, nessa melhoria quem fez que
existe uma inspiração de “Deus”? Mas existe uma semente pra chegar nela, tudo no
universo é ação e reação, “Deus” não dá nada de graça, você tem que merecer,
“Deus” não é bom, “Deus” está acima do bem e do mau. “Deus” é mais do que isso,
mais que bondade, “Deus” não tem ódio, porque ele é a razão, então como é que eu
vou saber isso? É a maçonaria o maior lugar, que se encontra ferramentas pra na
cabala fazer conhecimento das coisas, a cabala, já disse é a fonte sobre o judaísmo,
161
mas se você beber de mais de uma fonte, não se sacia simplesmente tem uma
congestão. Não morre, matando a sede, se você for bobo, então até beber da fonte
tem, que saber beber, e pra quê beber da fonte?
O mais interessante é meu nome em hebraico Daniel, Paulo Daniel Araújo
Benito. Daniel é meu nome como meu pai e minha mãe me chamam é como minha
família me chama Paulo Benito, porque é o nome mais fácil pra pessoas memorizar
na televisão meu primeiro e último nome, que é o mesmo nome de meu pai, que é o
nome do meu irmão mais caçula, mais um tem Raul no meio, o outro é Filho, mais
Daniel é o meu nome. O nome, que a minha mãe me deu .Paulo tá, que é de pai,
mas vai botar um Daniel aí, então eu tenho um nome hebraico que é Daniel e de
batismo Cristão ou seja eu recebi de graça.
Vou dizer uma coisa anjo, demônio é coisa de cristão, o que existe são
hierarquias, que são postas a serviço da evolução do homem. Só isso, tem uns, que
são quando se quer um advogado se vai onde? Se tá com problema de direito vai
onde? no advogado se tá com problema de saúde? Vai no médico, tem anjo pra
tudo, tem anjo pra tudo, não tem um bom. Tem dois pra cada um é diferente. Essa
palavra anjo do bem e do mau incomoda, vou transformar ela.
Existe anjos de fiscalização e anjos de construção, anjos de oposição e anjo de
situação, mas os dois fazem parte do mesmo parlamento, os dois que mantém o
governo funcionando e tem horas, que a oposição vota junto do governo, tem horas,
que o pessoal da base aliada dá uma de bandido e a oposição salva guarda, entre o
povo eles estão aí pra servir o povo, a situação e a oposição, quando a coisa é boa
a situação diz pô beleza! e oposição diz tamo aqui justificando nosso salário… tem
hora, que não se entende, que um quer uma coisa, outro quer outra, outro tem uma
visão, que é melhor pra fazer desse jeito, mas os dois obedecem uma normativa.
Eles dão sustentamento a uma república, pois não existe igualdade no reino
dos céus, se todos fossem iguais no reino do céus, não existia “Deus”, que eu saiba
pra esse cargo não tem eleição. Quem manda mais, chora menos da mesma coisa,
que é lá em cima é aqui em baixo eu vou citar Salomão: anjo assim como é em cima
é em baixo... o ser humano é bom ser humano é mau ninguém é totalmente bom,
ninguém é totalmente mal, se você der a coisa certa pra alguém fazer a pessoa se
transforma. Nós tivemos casos, que operário viram presidente da república, caso de
apenados viram celebridades e transformam com suas palavras o mundo, vemos
gente boa bem nascida, que perdeu o foco e acabou na cadeia, ou estragando a
vida de outras pessoas, não existe o bem e mau existe a necessidade evolutiva.
Então algumas coisas você chama a polícia, pra outras chama advogado, pra outras
chama médico e todo mundo tá ali conforme o teu pagamento, tá conforme a
necessidade de preparamento, pra servir mais ou menos e resolver ou não os
problemas fora isso é cristianismo.
162
Narrador VI
Bom, pra mim ser judeu é inseparado, da minha própria concepção de ser, do
próprio eu.
O judaísmo está presente na minha vida, mesmo que, eu não tenha um
reconhecimento completo disso.
O que eu percebo, é que eu recebo uma influência tão forte da minha família,
que mesmo, que eu não tenha as mesmas crenças, não seja devota das crenças
judaicas, não vá a sinagoga. Tenho minhas crenças de uma forma separada, eu sei
que, eu sou judia! Eu não consigo, e não posso simplesmente abandonar, não é
uma coisa que você... Vamos supor que, você pode mudar de time, é uma coisa,
que acompanha a pessoa a vida toda.
E uma coisa que eu percebi também, isso há muitos anos atrás, porque eu
quando era adolescente eu não entendia muito bem os judeus, que deixavam de ser
judeu. Deixavam de se declarar que eram judeus, e deixavam de praticar os rituais
do judaísmo, achava um absurdo era totalmente contra. E o tempo passou, e
acabou que eu me converti a uma religião que é cristã, espirita.
Não pratico o judaísmo como fé, apesar de achar muito bonito, faço leituras
assim do antigo testamento, temas do ritual judaico eu tenho interesse leio sobre.
Mas não me comove assim como fé, como fé encontrei uma outra religião, que
atendeu melhor meio anseio.
Eu não entendia isso, quando era adolescente. Mas agora, e esses judeus,
que não se classificava como judeu, mas eram totalmente reconhecidos pela
comunidade judaica, assim principalmente os que, tinham vamos supor nomes
importantes da ciência. O cara nunca falou que era judeu. Mas todo mundo da
comunidade judaica sabia, que o cara era judeu, então acho que, isso tem em
relação a todas as pessoas.
Por exemplo, aqui, quando eu vim morar isso ficou evidente, porque eu
apesar de ser uma pessoa comum, que uma pessoa comum não tem o nome
associado a nenhuma descoberta, meu nome não tá associado a nenhuma grande
descoberta científica até o momento não sei, mas até o momento não foi.
E descobri que não, que meu nome é associado ao judaísmo pra comunidade
judaica daqui, então isso é uma coisa, que você tem em você e que faz parte da sua
163
vida, mesmo que seja minimamente. Mesmo que seja através do outro, o outro te
classifica.
Eu sou filha de judeus, meu pai e minha mãe são judeus e praticam o
judaísmo, principalmente meu pai minha mãe é mais tranquila.
A comunidade aqui no norte é a maior parte são os judeus chamados
sefaradi. Minha família é askenazi, que é outro tipo.
Então eles têm algumas coisas, que falam diferente, tem alguma diferença,
mas assim eu acredito que a frase que sempre dizem por aqui sobre o concerto do
mundo venha.
O ambiente que eu cresci, foi num ambiente judaico, mas, não religioso. Ele é
chamado o judaísmo laico, é um judaísmo onde as pessoas se dizem judias querem
manter a cultura judaica, mas não são religiosas ferrenhas, então tem muita coisa
que eu aprendi depois, que eu fui pesquisar o que era aquilo. Eu quis saber, falei
poxa as pessoas tão pesquisando e sabem mais do que eu, eu que tenho que saber,
eu que tenho que falar pra eles, muita coisa, fui instigada pela pesquisa.
Pensei pô eles tão sabendo mais do que eu, agora eu penso assim algo, eu
não vou falar o que é, porque eu sei, mas eu imagino, que seja relacionado com a
vinda do Mashiach, que é o messias, que move o judeu religioso é ta esperando o
salvador. É o espírito, que vai redimir toda a humanidade do mau. Então o judeu vive
esperando isso, o radical, o ortodoxo, o que tem uma crença assim mais fiel.
Porque como eu sempre tive contato com judeus do mesmo tipo que é minha
família, que é assim não iam à sinagoga e tal, era uma coisa meio estranha, era uma
coisa que passava muito pelo mental.
Vamos supor uma coisa que eu já vi, uma pessoa, que vai numa igreja, ela lá
tem um momento assim de um êxtase emocional, a pessoa que vai na umbanda,
que vai no candomblé, entra em transe. Na sinagoga também, na forma de rezar, e
como eu não ia. Eu era judia, não podia ir à igreja, não podia ir a outros lugares,
porque eu era judia, eu também não queria, então eu só descobri na religião que eu
frequento.
Essa coisa, que é justamente, que eu acho, é que a religião está diretamente
conectada com a emoção, acho que não é com a razão. E aí eu acho, que o
judaísmo faz muito parte da minha vida no sentido do intelecto, no sentido da
emoção não houve um encaixe. A peça do brinquedo lego, não encachou.
A alimentação mesmo na minha família, pelo que minha mãe fala tinha
momentos assim, que meu avô tinha mais preocupação de ter a alimentação. Por
exemplo, no Yom kipur que é o jejum meu avô fazia e obrigava minha vó. Minha
mãe sempre conta, que eles ficavam no jejum, ela ficava verde, assim morrendo de
fome e o meu avô ficava lendo o livro inteiro, o livro grosso, ficava lá. Ninguém podia
comer, ficava olhando aquela mesa, as crianças olhando, ninguém podia comer
ficava aquela coisa, ele fazia tudo, mas assim nunca tiveram obrigação de só comer
kasher.
Tiveram tipo assim, a alimentação típica da festa, que a gente fazia em casa,
minha mãe fazia, minha vó sempre fez, mas não tinha, por exemplo, não pode
comer carne com leite no mesmo alimento, separação na cozinha, nunca teve isso,
nunca teve até porque, é meio complicado.
Assim, na verdade a pessoa, que tem pra ela fazer a kashrut assim do jeito,
que os rabinos fazem, a legislação determina ela tem que ter um apoio muito
grande. Uma pessoa bancando a família dela, se não tiver condições, ou a família
dela tem que ter condições mesmo, porque a pessoa vai ter que, ter duas cozinhas
na verdade. Então já não vai ser pequena a casa dela. Ela vai ter que ter duas pias.
164
Hoje em dia a gente não vai salgar o peixe e botar na janela pendurado, ainda
mais sei lá uma pessoa, que mora nos grandes centros. Uma pessoa que mora no
centro de Porto Velho não tem condição, então tem que ter duas geladeiras, porque
ela não vai poder colocar na mesma geladeira. Agora ela pode fazer o esforço dela.
Porque também se o que, é importante pra ela é, que ela não pode se alimentar, ela
pode muito bem simplesmente botar o que, ela tem na geladerinha da casa, ela bota
uma gaveta que é a carne, e outra gaveta que é o queijo, e não mistura nunca, e
lava muito bem se aquilo é muito importante pra ela.
Acho que é uma coisa do significado que tem pra pessoa, agora existem leis
que, vão falar não pode, não pode, agora se o significado da pessoa é importante,
por exemplo, se ela vai tomar Nescau ela não vai comer hambúrguer.
Na minha família não guardávamos, sempre comemos carne de porco, de
tudo, lá em casa, a gente nunca comeu comida gordurosa. Porque meus pais nunca
gostaram, e meu pai teve uma dor quando, eu tinha uns dez anos eu acho, meu pai
teve uma pedra na vesícula, e já quase não comia coisa gordurosa. Minha vó fazia
altas comidas, assim à mãe da minha mãe, que eu conheci, que quando ela faleceu,
eu já era adulta, mas a mãe do meu pai, pai do meu pai eu não conheci eles.
A mãe do meu pai fazia umas comidas bem dos judeus da Europa oriental,
que são bem oleosas, por exemplo, é um negócio chamado shimaltz sei lá, é uma
banha de galinha, ela derretia a banha da galinha, e fazia tipo uma manteiga,
passava no pão, meu pai adora isso até hoje. Tem várias vezes, que ele fala poxa C.
você podia aprender a fazer, eu respondo, poxa pai aonde eu vou arruma banha de
galinha, e derreter, uma coisa que eu acho meio inviável, mas tudo bem. Minha mãe,
também não gosta de cozinhar, ela cozinhava, porque era dona de casa, só que
hoje em dia ela praticamente não cozinha mais, meu pai que cozinha quando quer
cozinhar. Ela falou a minha filha eu já decidi, não quero mais cozinhar. Então, não
tinha essas comidas gordurosas, não tinha assim, leitão assado, nunca teve, mas
assim presunto, presento fatiado de padaria sempre teve, misto quente sempre teve.
Por exemplo, o porco é o mais conhecido, que muçulmanos também não podem
comer, de restrição alimentar eu acho que a restrição alimentar mais conhecida dos
judeus é o porco.
No Rio de Janeiro, que foi onde eu nasci, a galera nem se liga em peixe de
couro, peixe de couro é uma coisa assim super exótica. Porque a galera come muita
sardinha sei lá, come peixe do mar, que são com escama. A carne de vaca, não é
toda vaca, que o judeu pode comer, por exemplo, as carnes que são consideradas
de primeira, que a gente chama de primeira nenhuma o judeu pode comer, nenhuma
é kasher. Picanha, nem pensar, filé mignon nem pensar, têm as más línguas que,
dizem porque é a parte melhor, então tipo, eles vendiam, são as más línguas. Acho
porque, também eles de repente tinham, que dar sei lá, pro senhor feudal, alguma
coisa assim. E isso é uma norma pra todo judeu askenazi ou sefaradi.
Com certeza as carnes, que a gente considera as mais nobres, as mais
saborosas, não são kasher, mesmo que seja abatido da forma correta pelo o cara
que faz abatimento, mesmo assim, essa parte não vai ser separada pro judeu, ele
não vai comer, então, por exemplo, a gente sempre comeu carne bife alcatra, sem
problema.
Até mesmo pro prato tradicional que o judeu askenazi comem no Shabat,
tinha que ser uma carne mais consistente para ficar cozinhando da sexta até o
Shabat. O prato fica cozinhado para comerem no sábado uma comida chamada
shulanti, que é uma espécie de feijoada, só que, nessa feijoada tem carne, isso fica
cozinhando a noite toda, no fogo baixo é carne, pedaço de carne com uma espécie
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de uma lingüiça, que é de carne de boi, batata, uns dois tipo de feijão, grão de bico,
ai tempera com páprica, sal, alho bastante alho, e põe uns ovos pra cozinhar
também, depois que descasca ele fica meio cinza depois que cozinha, cozinha muito
tempo, mas é muito gostoso, eu acho muito gostoso, cozinham umas doze horas.
Então tem isso também, por exemplo, se uma pessoa não tem condição, aqui
não tem abatedouro kasher, no Gonçalves não tem uma parte só kasher não sei o
que, mas você vai lá ao açougue você sabe, que não pode comer filé mignon,
simplesmente pega um coxão duro, sei lá uma parte que ela pode comer, ela não foi
abatida da forma certa, mas pra ela eu acho que, é isso que importa, se isso tem
significado pra ela, se pra fé dela, pro exame de consciência dela, ela vai se tornar
um ser humano melhor, ela crê naquilo, ela tem fé, que esta agradando a “Deus”,
fazendo aquilo eu acho que vale. Da mesma forma, que pra mim vale fazer outra
coisa, pra mim, não me importa se eu vou comer filé mignon, ou se eu vou comer
coxão duro, tô agradecendo a “Deus”, porque ele me deu a oportunidade de esta
comendo, e posso escolher, tem gente que tem, que agradecer por comer lixo, então
ainda posso escolher, olha que maravilha, então isso é individual.
Pra mim como judia “Deus”, é um “Deus” da guerra, assim um “Deus” que, é o
“Deus” da conquista, é o “Deus” da conquista, da vitória, é um “Deus” da separação
também, porque uma das minhas críticas ao judeu, é que ele se separa sempre,
estar sempre se separando dos outros, se colocando num pedestal.
Sempre vejo assim como ele se separa ele esta olhando de cima pra baixo,
vocês eu sou o povo escolhido, ele é o povo escolhido, não, pera aí, não é o ser
humano que é escolhido? Porque é todo mundo humano, há quem diga, que o
humano não é tão especial assim, porque todos nós fazemos parte da vida orgânica,
então fazemos parte de todo um sistema orgânico na terra, então eu não sei acho
que é um “Deus” de combate.
Acho que é por isso, que como ele é estrategista. Então ele tem que pensar, o
judeu ele estar sempre pensando, esta mais preocupado em pensar, do que sentir,
eu sinto isso. O foco dele é muito na mente, por exemplo, na religião dele, os
rabinos estão discutindo coisas que tão escritas.
Eles não tão discutindo, o que eles estão sentindo, fazendo aquilo, por
exemplo, se estar certo a questão, se estar certo o abrir o guarda chuva no sábado
ou não. Eles não discutem se a pessoa se sentiu ofendida por não poder ou não,
eles discutem que tem, que estar escrito, e isso leva a pessoa crer, que a
possibilidade de você abri o guarda chuva você vai está fazendo uma casa, mas e o
cara sentiu, se ele sentisse uma coisa estando na casa dele, ele perceberia que, a
sensação dele dentro da casa é diferente de quando ele está na chuva com o
guarda chuva aberto, não é a mesma coisa, abrir o guarda-chuva, na chuva não é
fazer uma casa, pra mim. Eu acho que tem haver com isso de ele, estar sempre
separado, assim como se fossem cabeças voando, e faltasse o resto do corpo.
Durante esse tempo acho que aflorei, no sentido de eu ter mais respeito,
assim comigo, não simplesmente me negar, porque as pessoas, vão sempre
continuar a me considerar judia, tanto as que gostam de mim, como as que não me
gostam. Acho que, nem sejam tantas assim, acho que mais pessoas gostam de
mim, do que as que, não gostam, até porque, só existem dois tipos de pessoas, as
que gostam de mim e as que não me conhecem.
O “Deus” dos cristãos é o oposto, então ele é justamente o sentimento. É isso
que pra mim sendo judia e cristã ao mesmo tempo, é que eu tenho que aproveitar, é
que o sentimento e o pensamento juntos é uma coisa assim maravilhosa, porque o
homem, que utiliza só o sentimento ele pode cometer erros absurdos, também
166
porque as pessoas não têm sentimentos bons o tempo inteiro, as pessoas estão
sujeitas a sentir raiva, ter rancor, ter magoa, isso tudo é sentimento.
Numa experiência que eu tive emocional, religiosa emocional, que eu nunca
tinha tido, e foi assim, a parti daquele momento, eu não necessariamente me
converti a religião, que eu sigo hoje, mas a minha concepção de mundo mudou
completamente, e eu agradeço a “Deus” independente de ser cristão ou judeu, até
hoje por ter me dado essa oportunidade, de ter tido aquela experiência, porque
aquela experiência pra mim eu saí de um casulo, em que eu estava, encima de um
pedestal de povo escolhido, pra me colocar num lugar de uma pessoa, que é um ser
humano, igual como os outros, que tem defeito, que tem qualidade positiva, positiva,
negativa. Que as negativas têm que ser trabalhadas evoluídas e tal. Me colocou
aonde eu começava a ver a humanidade.
No mundo tem fenômenos, estão acontecendo, as populações estão brigando
umas com as outras, as pessoas estão ficando ricas, outras pessoas estão ficando
miseráveis, as coisas estão acontecendo não é só meu mundinho fantástico. Por
isso a experiência emocional na religião foi muito marcante, assim, mas também
gerou um choque.
Quando apareceu esse “Deus” cristão, parece que dentro de mim, a parte que
apreciou o “Deus” cristão quis expulsar o “Deus” judaico de qualquer jeito, só que ele
não sai, é por isso que eu acho na verdade, que o equilíbrio virá quando eu
reconhecer, que é ying e yang46. Na cultura oriental o ying e o yang, o negro e o
branco tudo é uma dualidade, então eles se completam. Pensamento e sentimento
eles se completam, se eles tiverem equilibrados com a mesma força, a pessoa tendo
pensamento positivo, tendo sentimento positivo, partindo pra uma sabedoria
evolutiva, aí o pensamento dela vai gerar uma série de ações, que ela vai fazer
aquilo positivamente, então, ela precisa de pensamento assim como ela precisa de
sentimento.
Eu preciso reconhecer, que os dois são necessários, que é um merecimento
bom eu ter nascido numa família judia, eu ter tido esse tipo de educação, e ter
conhecido outro lado, eu tenho as duas possibilidades, porque a maioria das
pessoas não tem.
Em Israel, pode se verificado, que quase toda a população é assim, vamos
supor o cara é budista, ele acorda de manhã e reza, não sei quantos mil mantras e
tal, mas ele mora em Jerusalém, então ele come kasher, ele fala hebraico, ele
estuda a história judaica na universidade e tal, mas ele é budista. Ele não quer
seguir.
E não é, porque ele não quer seguir, que deixou de ser judeu, porque eu
poderia fingir que não sou judia, que eu não sei nada, e não querer saber existe
essas pessoas que fingiram que não eram.
Na Alemanha nazista existiu muito isso, pessoa que escolheu não ser judeu,
e as gerações seguintes, não sabem, que são descendentes de judeus, porque os
avós não contaram, que eles eram oficiais, mas que ele era judeu, mas o chefe dele
chegou pra ele, você vai ter que escolher agora, mudar seu sobrenome, ou você
escolhe ser judeu, e a pessoa decidiu não ser então é possível.
Sinto também, que eu tenho que ter um respeito pela minha família, pelo meu
pai, minha mãe. Sei que meu pai, cada vez que eu falo pro meu pai, que eu falo
Shabat shalom! É uma felicidade pra ele, que eu falo no sábado com ele, eu sei que
46
Ying e Yang: Na cultura oriental Ying representa positividade e Yang negatividade, forças
antagônicas, mas complementares uma da outra.
167
ele tá feliz. Quando eu falo, que eu fiz pessach, aqui em casa ele fica muito feliz, eu
sei que, pro meu pai é uma grande felicidade.
Quando ele vier aqui ver minha casa, eu sei que ele vai ficar muito feliz, eu
ainda não coloquei, mas vou colocar mezuzá na porta, eu sei que ele vai ficar muito
feliz. Que aquilo ali é o marco, indica que ali é uma casa de judeu, se ele vim aqui
vai ser a maior felicidade. Eu sinto que, ele sempre me respeitou, mesmo ele
sabendo, que eu não queria ir a sinagoga, a gente teve um pouco de atrito no
começo e tal, mas sempre me respeitaram, então é uma retribuição. Mesma coisa
se eu tiver um filho, que se for homem eu quero que faça a Brit Milá, depois ele
escolhe é claro, depois que ele quando for adulto, se ele quiser ser judeu legal, se
ele quiser ser padre legal, se ele quiser sei lá... Só não quero que ele seja bandido,
se for militar vou ficar meio...
Mas, eu não to pensando nisso agora, mas eu fico pensando se eu tiver um
filho eu vou querer que ele saiba. Vou fala pra ele, olha sua mãe é judia, ela não
pratica a religião, mas seus avós são judeus. Você sabe o que é judeu? Vou explicar
pra ele. Porque a gente escuta muita coisa.
Por eu ter sido criada numa comunidade judaica muito grande, com uma
estrutura muito grande, e muito bem edificada e preparada, eu só vivia dentro dali.
Quando eu fui estudar num colégio, que não era judaico, eu me espantei as
pessoas, não sabiam o que era judeu, achei que era óbvio pra mim todo mundo
sabia o que era judeu, ninguém sabe.
Não, porque judeu é uma coisa assim, é tipo um cara estranho, que usa roupa
preta entendeu? Pra pessoas, que eu encontrei é um cara estranho que usa roupa
preta, ou são os caras que mataram Jesus. Tipo não existe no mundo mais! Não
existe mais no mundo, tipo aula de história e geografia, nem pensar sobre Israel,
nem pensar, a galera não sabe nada, mas é isso aí.
Foi bom entender que isso que é estranho, às comunidades judaicas elas são
minorias, que se comportam como se fossem a maioria, assim como se todo mundo
sabe o que é, não! ninguém sabe, você é um por cento da população mundial, dane-
se você entendeu?
O que me envergonha no ser judeu, é que pra eu ser judeu é se sentir
superior aos outros, se sentir povo escolhido, é se sentir superior, se sentir coitado.
É ficar usando de acontecimentos históricos, para praticarem uma coisa contra um
povo, ficar remoendo dores do passado, fazer lavagem cerebral com as crianças.
Então infelizmente o que me marcou em ser judeu foram coisas negativas, por isso
eu não quis mais o ser judeu, mas eu sei, que ao mesmo tempo, você pega um livro
do rabino, o cara pode até falar besteira, mas você vê frases maravilhosas
entendeu? Tipo o cara tem um sabedoria, então dentro de tudo isso, eu sei que a
gente não acaba por aí.
Só que pra mim essa coisa foi tão... Quando eu percebi que existia isso, que
pra mim isso é evidente, existe por mais que venha novecentos mil judeus falando
não você estar errada, eu no momento não tenho condições de acreditar neles, vou
continuar acreditando no que eu acho entendeu? Isso foi muito forte, foi aquela
questão eu comecei a olhar também pro outro, não só pra mim. E acho que olho
muito mal olhado, eu acho que eu vivo muito no meu mundo, e ainda não consigo
realmente ver o que tá acontecendo, mas o primeiro ápice de visão que, tive já deu
essa impressão com a minha pessoa mesmo.
Que foi agora, eu acho, que se eu comandasse esse negócio aí, eu ia colocar
outras datas também, acho que tem tantas coisas boas pra se lembrar, tem coisa
boa pra relembra vai ficar lembrando as desgraças.
168
Outra coisa morreu seis milhões. Foi horrível, as pessoas eram retiradas das
casas delas confiscavam todos seus bens, mandava a pessoa pro campo, ela
entrava numa câmara respirava o gás, e morriam e depois queimavam as pessoas,
depois transformavam os restos em sei lá, sabão. Era uma coisa horrível absurda,
mas estão acontecendo holocaustos no mundo inteiro até hoje. Então morreram seis
milhões de pessoas, infelizmente estão ocorrendo às pessoas estão sendo
massacradas, a humanidade faz isso né? Agora na Iugoslávia o cara saiu mantando
todo mundo a pouquíssimo tempo entendeu? Agora, África vai matar todo mundo
pra ficar com todo ouro e diamante e etc. Nós aqui mesmo, nosso país a gente tá
aqui, porque matou milhões e milhões de índios, tá aqui batendo um papo.
Isso então ficar todo ano lembrando é um porre.
Eu me lembro com oito anos tendo que ver fotos, as crianças vendo fotos das
experiências do Mengele47 com as crianças, cortava o braço da criança colava no
outro braço, não precisa mostra pra uma criança de oito anos isso. Pra mim, hoje
refletindo sobre o que aconteceu comigo, eu considero isso uma lavagem cerebral,
ou essa criança vai ficar provavelmente revoltada que nem eu, revoltada pra dizer eu
não quero ser isso uma pessoa, que se sente coitada e superior ao mesmo tempo,
ou vai entrar na linha e falar não sou o povo escolhido e tal. Ou vai falar eu sou
judeu, vamos ter filhos judeus, vamos reproduzir esta coisa, o estado de Israel,
vamos matar todo mundo, dane-se os árabes é isso.
47
Josef Mengele: um dos médicos nazista responsável pela diferenciação e seleção dos que serviam
para trabalhar e dos que seriam destinados às câmaras de gás.
169
Narrador VII
A vida dele é sempre um desafio [do judeu]. Então é um povo que não se
aquieta muito. Posso imaginar ser judeu em Rondônia, que tipo de situação! Estar
aqui em Porto Velho, Rondônia! Ser judeu aqui! Pensar da forma que o judaísmo...
não tem nada de diferença do que uma crença que acredita no Eterno. Que acredita
em “Deus”. Não tem nada de diferente.
O que aconteceu com a gente é, que nós passamos por vários sacrifícios,
várias situações, por vários não vou dizer constrangimentos, por vários holocaustos.
Nós tivemos vários holocaustos na nossa trajetória, naquele contexto de
perseguição e com o tempo houveram... não é aquela pulverização, aquele
deslocamento pra vários pontos na nossa terra. Então com modificações até de
posição de vida. Nós temos, não é a palavra liberalista, nós somos social-libertário,
com liberdade. Nós vivemos num mundo social, com liberdade. Então não existe
essa história de estar vigiando ali. Não! Aquilo ali, tem que tá ali, mas só que
sabendo que a responsabilidade ela existe!
No Alto Madeira e o baixo Madeira tem muita gente espalhada. Tem muita
gente que perdeu a identidade. É...deixou porque ih...é complicado! Deixou a origem
por força do desaparecimento da comunicação. Aquela comunicação da filosofia
judaica, do povo. A falta...a falta do...o que que acontece? Foi diluindo.
Quando em mil novecentos e pouco aqui, isso aqui era bastante
desenvolvido! Que a coisa ficou mais... eles foram embora daqui. Muitos foram
embora. Desceram. Quando eles forneciam produto aqui, pra sair pra Bolívia, pro
Peru por aqui, por Abunã, tinha muito judeu trabalhando aqui. Depois foi, teve muito
judeu na Bolívia. Migrou muito europeu pra Bolívia. Muito Ashkenazi veio pra Bolívia,
ali. Pra aquela parte, vieram pra ali. Ficaram ali fugindo do frio alemão.
É porque aqui é poucos. E, a interpretação do que é judaísmo, o Cristão não
capita isso. Não entende isso, porque eles tem uma ladainha, que nós não ficamos
porque tem aquele judeu, que se ele for fazer isso aqui, ele reza se ele for fazer isso
170
aqui, ele reza mas tem outro, que não tá nem aí. Ele não tá nem aí. Ele sabe o que
que é, ele mentaliza e acabou-se. Mas tem aquele outro que tá ali e tudo que ele
fizer é "Baruch Hashem na,na,na..., Baruch atá adonai" toda hora! Ele vai tá dizendo
isso. Ele vai tá pensando. Se ele pensar der dois passo, ele: "Barucha atá
bla,bla,bla". Mas tem aquele, que não... vai fazer a coisa naturalmente. Não tá...
quer dizer, às vezes nem reza. Ele não tá nem aí, mas ele sabe. Ele sabe o quê, que
ele pode passar, ele sabe o quê é, que ele tem que fazer, ele sabe como é, que ele
tem que se resguardar, ele sabe, que ele tem, que ter os preceitos do povo. Ele
sabe tudo isso. Então isso aí. Agora aqui numa, nem numa cidade onde você tem
600.000 habitantes, acho que acredito, que tenha aqui em Porto Velho, chegando a
isso já, onde você deve ter uns 30 judeus.
Aí desses trinta, quarenta, que tem aqui, houve uma diluição dos costumes.
Porque alguns vieram de uma formação, de uma influência materna cristã. Pô, uma
mulher influência muito no caráter dum homem. Tanto a mulher, quanto o homem,
mas a mulher, talvez na educação, ela influencie muito mais, e muito mais,
dependendo de como for a conversa do homem. A mulher influência muito então,
isso aí, por força da nossa religião, que abrange aqui, eu vou falar aqui cristã, ela
tem muita força. Então, tem muitos, que foram, que são de sangue judeu, mas que
foram educados de forma cristã. Mas tem os que...acontece isso! Existe mesmo! E
sem contar os que abandonam, que desconhecem até raízes. Desconhecem as
origens.
Eu conheço judeu aqui que não tá nem aí pra própria religião. E não é ateu.
Não tá nem aí. Não quer saber, não que nem saber. Esquece isso! Pra ele deixou de
existir. Eu não... tem como eu... não tenho como ter influência. Não existe essa
influência. Eu não sou, a gente é muito difícil isso, pra você fazer um resgate. Pra ter
isso, não tem! Isso aí pra acontecer tem que ter, tem que vim espontaneamente. Ou
mandar buscar de uma forma, não tem! Não é a nossa. Nós não somos daquele que
vamos, não! Nosso esforço é físico, é mental, é trabalhado, é todo, é de forma. Nós
não nascemos carregado em andor. Num têm! Ninguém foi carregado num andor!
Não é, que conversa, não é! Tivemos reis poderosos mas de andar... ele nós não
tivemos essa benevolência. Nós não fomos mostrados, de jeito nenhum!
Então isso aí não é, que seja um impeditivo. Não é que seja um nada. É que a
gente não vai resgatar, não vai conseguir porque nós não usamos essa técnica de
ser um doutrinador. Não tem, não tem! Agora mesmo vou dar um exemplo: a menina
lá que é cantora. Boa, que optou pelo cabalismo. Madonna, que não deixou de ser
uma raiz judaica. Foi se envolver agora com um muçulmano, um islâmico. O cara
deve ter olhado, acabou o namoro acabou, o relacionamento. É, então aqui uma
pessoa não vai enxergar, vai saber que não tem! É como se ela pegasse o mel e o
fel e fosse misturar e ficar o mesmo sabor. Não tem, num fica! Não fica, não adianta!
Num tem como fazer determinadas coisas. Adoçar ou tirar o amargor. Ou não existe.
Não faz! Não tem!
Então o que que acontece, nós temos uma formação, muito bem dizer, eu não
falo bem equilibrada, eu vou dizer muito é madura. Nós temos uma formação muito
é independente. Nossa , a gente tem muita postura. Não é porcaria isso! Então é o
tipo da coisa, se eu entrar ali naquela igreja, o cara vai saber, que é sacanagem. O
pastor vai olhar pra mim vai dizer, o filha da mãe, que ele vai saber, que eu não vou
acreditar no que, ele tá dizendo. E ele vai olhar e ele vai dizer poxa, esse cara era
um sacana. Esse cara é um filho da mãe. Ele veio olhar aqui pra saber alguma
coisa, pra me sacanear porque não tem isso!
171
Nós recebemos aquelas mensagens. Aqueles mandamentos que diz vai por
livre arbítrio, vai. É... nós ainda temos um dia do perdão. Nós temos o dia do perdão,
então não pode tá todo dia pedindo perdão. Porque não vai dar certo. Tem o dia do
perdão e o perdão nosso, tem que saber pedir o perdão. Senão não tem perdão. É
como fazer uma coisa e daqui a pouco virar pro sujeito e por favor me perdoe! Não
vai fazer isso! Isso tudo é bandalheira! O perdão não é comprado. Quer dizer, que
eu faço uma sacanagem e eu vou comprar, vou pagar? Não é por aí. Às vezes eu
não pago nem pra outra pessoa, é assim que funciona? É assim que funciona e lei
de “Deus”? É assim? Só se for na cabeça de idiota! Não tem!
Aqui é trinta ou quarenta. Se tiver uns trinta, quarenta porque é, que tem
origem mesmo uns trinta, quarenta, que tem origem porque é muito difícil. Eu já
venho duma relação que a minha mãe era cristã. Já venho duma relação, que a
minha mãe era cristã. Eu tenho essa história. Aí os avós eram judeus. Meu pai era
filho de judeu, então isso aí como eu conheço! Vários, que tem o sangue do pai e a
mãe é convertida também, não quer. O que interessa muito pra gente é a forma de
como pensa, de como se pensa, de como a cabeça produz, de como é, que a gente
toma os conhecimentos, como é, que a gente aprende a viver...
Então aqui, eu convivi muito com Seu José. Eu fiz muitos negócios com o
velho e o velho tem uns filhos, cinco, seis filhos, que são descendentes dele:
Benjamim, Ismael, Israel, tem um monte deles, lá. Mas por força da mãe, a mãe ser
cristã, ele não teve a condução de levar os filhos pra praticarem o judaísmo. Não,
tem uma menina, acho que foi uma delas, mas também não casou com judeu, casou
com cristão. Como sair tudo não é, que seja empecilho, não é que seja conflitante,
mas é uma forma de deixar a assiduidade do entendimento do que é judaísmo.
Diminui o vínculo, a raiz. A raiz passa a ser menor.
Hoje eu tenho um filho, ele mora em São Paulo. Tá aqui. Ele vai ficar um
tempo aqui. Aí em São Paulo, já tá aparecendo Sinagoga messiânica, mas isso é
uma gozação.
É a mesma coisa que dizer, de analisar, de ver. É porque tem árabe cristão.
Quem é os cristãos lá em Israel é os palestinos, grande parte deles são cristão. Tem
uma facção lá cristã. Cristã, católica, cristã. E tem outra que é muçulmana. Mas eles
tem uma facção católica e na hora que a coisa aperta, eles correm pra debaixo da
saia do padre. Eles correm pra dentro da igreja.
Quando o judeu chegou ali, que ele rodou, que ele migrou. Como é que foi o
deslocamento do lugar pro outro oposto. Que quem sai do Egito pra ir pra Babilônia,
poxa, é comer o pão, que o diabo amassou. Com certeza! Então eu tenho, que
aprender isso.
Dentro da minha casa a formação, que eu tive do meu pai, já direcionava a
conduta nessa vertente, então o meu pai tinha dificuldade de relacionamento
religioso com cristão. Tinha esse entendimento e isso aí não se colocava isso em
choque. Nós colocávamos em choque o nosso comportamento. Nós tínhamos que
ter um comportamento, que era dentro daquilo. Na forma de como se pensa, de
como se age, de como se conduz. Independente de quem seja as pessoas, que
estão em nosso redor. Nós temos que ser dessa forma. Então deixava, deixa-se
para os outros, fazer da sua vida a sua vida, deixando de lado, não vai perder
tempo, não! Isso não faz parte da gente.
Nós não temos oposição, opositores. Nós não! Olhamos isso, quando uma
coisa não agrada a gente, o que nós fazemos? Se afasta. A melhor coisa afazer é se
afastar, porque somos o objeto do meio. Somos o meio, um fruto do meio. Não tem
jeito! Isso é a coisa mais racional que existe. A inteligência da gente ela é fluente.
172
Ela tem uma captação de conhecimentos que passamos a vida inteira adquirindo
isso, aprendendo a raciocinar. Aprendendo a enxergar, aprendendo ver,
aprendendo.
Nós não usamos a técnica de tá concertando os outros. Isso não existe pra
gente. Isso a gente não tem! Isso nós não podemos fazer. Isso aí é um pecado! Isso
é um pecado! A gente sabe tanta coisa, que nós não podemos colocar em prática e
nem trocar por dinheiro. Porque isso é pecado. Nós não fazemos isso. Não faz
porque isso é complicadíssimo. Isso é um pecado e o ser humano por força da
independência, por força da liberdade, ele não atende uma informação, num quer
nem saber! então isso aí é a pessoa, o sujeito tá ali agora é fácil me dar!
Existe milagre e a gente sabe disso. A gente sabe que tem milagre. Nós
sabemos disso. Mas o milagre é uma graça de “Deus”. “Deus” faz milagre e essas
graças acontecem na vida de todo mundo. Mas acontece quando a pessoa mais
precisa. Esse que é o milagre. E acontece sem nem ter como.
É porque o milagre, ele vem espontaneamente e tira a pessoa de uma
situação. Modifica ou impede de passar pra um outro estágio do mundo. Isso é um
milagre! E a pessoa tem uma doença e essa doença ser curada por força do nosso
organismo. Nós temos um poder de reconstituição até determinado ponto, que
depois dá falência. Pois tem um período.
Nosso organismo cansa também. E vai dar a falência. Mas enquanto isso não
acontece, o homem tem a possibilidade e a probidade de recomposição orgânica,
celular de se recuperar. E isso muitas vezes é por força de um milagre. Com
certeza. Porque às vezes, o remédio que tomamos não dá efeito e o remédio pra
outra pessoa toma, e o efeito é multiplicador. Às vezes a situação, que a pessoa se
encontra. É socorrido de uma forma, que tem um benefício espontâneo. Aí, na
ocasião letal, foi socorrido então é isso aí. São milagres, que acontecem na vida da
gente, independente da gente tá pedindo isso toda hora. Pode tá e se acontece, é
porque, pra mostrar, dar muito mais segurança. Porque temos que fazer a nossa
parte na vida e continuar com a existência, até o dia que “Deus” quiser. É assim que
a gente vive!
Não nasci aqui, eu nasci no Pará. Nasci no Pará e por força das
circunstâncias, eu fui obrigado a sair de Belém. E eu não tinha como ser educado,
com a formação. Eu tinha dificuldade do relacionamento cristão desde criança. É
complicado, vou falar uma coisa: o que somos carregamos conosco. Não adianta,
não adianta! Querer marcar um animal, botar ele de outra forma. Não tem jeito!
Então na minha infância, eu já tive dificuldade de relacionamento com
cristianismo. Aí o que aconteceu? Como a gente tem liberdade. Nós somos um povo
que uma das coisas mais primordiais pra gente, é a liberdade. Nós temos liberdade.
Agora, nossa liberdade é conversada. É mostrada.
Eu saí do Pará e fui morar em Petrópolis, onde tinha Yeshivá. Então convivi
com os judeus em Petrópolis. Aqui oh! Sentava assim e eu! Mas quando se está em
uma Yeshivá, tem um tratamento recluso, porque estão numa formação, que não
pode desvirtuar. Nem se relacionar com pessoas que são que nós chamamos goia,
gói. Não pode perder tempo. O espaço é muito curto e o aprendizado porque tá ali.
Numa Yeshivá se estuda a parte religiosa, e estuda a parte do conhecimento
educacional. É uma escola normal, faz o segundo grau normal. Muitas vezes fazem
isso num colégio, que não é israelita, mas o ensinamento logicamente, que ele é
visto e verificado, se ele tem força de conhecimento pra aprender alguma coisa.
Então, esse colégio chamava-se Carlos Alberto Vernek. Eu estudei lá. Eu
estudei lá como interno. Eu passei quatro anos internos, lá dentro desse colégio.
173
Porque eu não tinha parente. Que eu tinha, no Rio de Janeiro, eram duas tias e
muito cristãs. Mas cristã mesmo! E me colocavam numa prisão, porque um colégio
interno... eu fiz reformatório! Colégio interno, a gente ficava lá dentro, só saía de
sete às nove. Uma vez por semana. E domingo às vezes, cinco horas da tarde, sete
horas da noite. Aí de manhã às nove horas ia todo mundo pro café. Aí tinha que
voltar às onze, por causa do almoço. Depois saía às três e voltava às sete,
dependendo da situação escolar. Se tivesse boas notas, tava liberado. Senão ficava
recluso. Ficava recluso a uma sala de estudo ia estudar. Não queria nem saber!
Nos colocavam lá dentro, pegavam um livro pra ler e nos botavam lá dentro de
castigo. Ficava lá... ficava aqui de uma às quatro. Ou vai estudar, ou vai passar um
professor. Porque não é pra dormir ali! Porque se for dormir ali, a história vai ficar
mais longa.
Aí depois eu desci pro Rio. Passei um período no Rio de Janeiro, fiz
faculdade no Rio. Difícil também, porque eu estudava e trabalhava em locais
distintos. Trabalhava em Vicente de Carvalho e estudava em Botafogo. Lá longe! E
eu andava de ônibus. Eu tinha, que me locomover. Tinha que ter o meu esforço pra
mim poder... às vezes eu saía dum local, pra chegar em outro local, o meu colega
chegava muito mais na minha frente. Porque ele tinha um meio de locomoção, que
eu não tinha. E eu não podia reclamar. Por isso eu tinha que ter a coragem de ir,
chegar, resolver e voltar. E eu fiquei um tempão. Terminei a faculdade no Rio.
Tive oportunidade de trabalho, além de fazer um curso preparatório na minha
formação, eu tive a oportunidade de ser recrutado por uma multinacional. Na
ocasião então eu não quis. Fiz engenharia mecânica, aí não quis ficar. Não quis
fazer ali, prosseguir aquilo. E eu vim pra cá. Ainda fui trabalhar na minha atividade
mesmo. Na minha profissão aqui no Governo. Trabalhei no Governo três, quatro
anos. E eu saí pra servir meu pai. Porque tinha uma atividade comercial e eu saí pra
servir ele. Deixei, abandonei minha profissão e fui servir ele no negócio, que ele
fazia, que ele exercia. Mas como você tem, que conhecer o diabo. Que ele é vivo.
Ele nunca morreu, não! Ele não morre, não! O diabo é vivo, é velho e sabido. E ele
toma conta das pessoas. Com certeza! Eu tô falando e não tô pedindo reserva, não!
Toma conta das pessoas. E ele tem um comportamento muito bacana, muito
avançado, mas todo mundo cai, cai... Eu trabalhei com esse homem durante sete,
oito anos. E eu tenho uma irmã que ela foi, e casou com um árabe, de raiz árabe. É
muito complicado, tô falando é muito complicado. Eu já tive assim, várias
oportunidades, é muito complicado raiz árabe com a gente! É muito complicado!
Então vou logo dizer: não termina bem! Esquece! Essa história furada não é! Porque
é conversa! Esquece! Porque é o tipo da coisa, não termina bem. E a minha irmã
casou com um árabe e esse árabe trabalhou pro meu pai. E com um cargo de
confiança dele. E ele se sentiu, poxa, o cara tá aí, é esse cara que é o cara! É
claro...
Eu tenho três filho homem, não adoço nenhum dos três! Tudo que eu faço,
tem limite, ele sabe na hora, que eu não vou fazer. Se ele me conhece legal ele
sabe na hora, que eu vou puxar a mão. Na hora, que eu vou dizer sim, na hora ele
vai saber. Mas ele sabe, que a gente faz isso. A gente não endurece: faz rapaz, tu
não tá privado de fazer. Faça, num tá privado de fazer. Pode fazer só, que a gente
puxa a mão. Não vai fazer com a minha ajuda. Eu não vou nem falar nada, nem
precisa dizer nada. Não se diz nada. Não faz! Se diz há bacana... não!
Quantas vezes se escuta não de pai e mãe? Como é que faz pra mudar?
Como é que faz pra mudar? Não muda! O cara já sabe. Logo ele sabe, que a
conversa não vai! Não tem jeito! Não tem adoço, não tem isso, não tem! Essa é a
174
diferença. A partir do momento, que ele disser, não! É não! Vai contar história, não!
Vai dizer mil coisas, não! Ele pode fazer alguma coisa por pena, por dó, por
sentimento mas se for do sangue dele, ele não faz por pena. Ah! ele não faz!. E se
for fazer por pena tu não conserta, ah! de jeito nenhum! Nós não fazemos. Nós não
tratamos disso dentro da nossa família dessa forma. De jeito nenhum. Isso aí é
basicamente, eu tô dando o meu ponto de vista, isso quer dizer que o de outra
pessoa pode ser diferente do meu. Isso quer dizer que pode ter uma vertente.
Às vezes tem, dificilmente dentro de uma família judaica, as coisas são
divididas, a mulher tem uma força dum lado, o homem tem uma força do outro. Mas
logicamente, que precisa ter a formação familiar. É muito complicado o judeu se
relacionar com cristão. Muitíssimo complicado! Talvez hoje não dê para observar no
atismo, mas se tiver no seio da família, já tem obstáculo.
Pra começar eu não visualizo judaísmo como sendo religião, eu visualizo o
judaísmo como sendo um povo, uma origem. Aonde nós temos um comportamento,
e aonde nós temos uma história, e onde nós temos uns preceitos, e onde nós temos
umas festas. Onde nós temos umas obrigações, que nós recordamos
constantemente pra se ter. Pra não se cair no esquecimento, o que aconteceu nosso
passado e nós estamos passíveis de uma cilada. Nós tamos passíveis de ser
enganados. Logicamente que isso aí assim: o que é ser judeu? Ser judeu é uma
pessoa que tem liberdade. Uma pessoa que tem independência. Uma pessoa que
tem coração. Uma pessoa que acredita em “Deus”. Uma pessoa que sabe que tem
que obter as coisas, pelo seu merecimento. Não adianta, e por sua lealdade. Não
adianta! A lealdade ela não é só ali. Ela é aqui. Porque se fizer mal aqui, vai pagar
aqui. Não vai usufruir do fruto do trabalho.
Então isso aí tem os hábitos, os costumes variam muito das raízes. A
conversa, ela varia muito. Tem uns que quando tem filho, coloca o nome de parente
vivo, tem uns que não coloca o nome de vivo, outros só coloca o nome de morto.
Tem isso! Tem uns que coloca, homenageiam, fazem homenagem a um parente
vivo. Têm outros que espera que o parente passe anos morto pra poder lembrar. E
às vezes têm outros, que não querem utilizar o nome porque nós temos essa... vou
dar um exemplo: o meu nome é de origem hebraica mas ele é escrito de forma, não
vou dizer latina, mas de forma é 4 que se fosse em hebraico quer dizer Caim. É
Caim filho de Adão. E meu segundo nome é […] então meu nome é 4, porque eu
tive na minha família, meu pai que se chamava […] e eu tinha um avô que se
chamava […].
Então meu nome foi 4, como eu tenho um avô que se chamava Joaquim. Eu
podia ter sido chamado de Joaquim […] e podia ter sido assim, Joaquim […] porque
são nomes, dependendo da forma de como você escreve […], ele é de origem
portuguesa, espanhola. Ele já passa, mas é um nome de origem hebraica. É o anjo
mais forte que tem. Não é porque nós acreditamos nos anjos. Nós acreditamos que
quem tomava conta da Arca da Aliança é o Mikael e o Gabriel. Não adianta ter um
ensinamento cristão de uma origem hebraica. Não vai acontecer na prática nada.
[Minha família é] Sefaradita. Porque dificilmente existe judeu branco e judeu
preto. Mas tem uma cor. Nós temos uma cor. Um branco queimado. Depois vai
modificando. Porque o judeu, na realidade, ele não é preto, preto, e nem branco,
branco. Ele é uma cor... a pele do judeu é marcado, ele tem sinal. Cara, não tem
jeito. Tem sinal. É difícil judeu. É tudo sinalizado. Então isso aí, é sei lá, mas nós
temos uma cor. Que é muito isso aí. Às vezes porque tem por exemplo, nós temos o
Sobel, o rabino. Qual é a origem do Sobel? Qual a origem, de onde ele nasceu? Ele
175
é português! Nasceu em Lisboa! Ele é português, pô! E ali não tem como negar! A
cara dele não tem como negar.
É o tipo da coisa. Um rabino, se ele chegar no meio de uma comunidade, ele
vai fazer uma leitura visual. Eles aprendem isso, a leitura visual. Então ele vai saber
na hora, na leitura visual. Que ele olha, vai olhar o semblante. Ele vai ver tua origem
ali, na coisa. Uma das coisas que ele vai olhar, ele vai ver e olhar ele vai olhar o
rosto. Ele vai marcar no olho dele e vai ver e vai analisar pela informação genética.
A gente tem informação genética, não tem jeito! Nós temos formação genética. Nós
temos similaridade entre a gente. Posso tá num lugar, o cara vai olhar pra mim. Vai
dizer isso é bandalheira! Eu já tive, por exemplo, eu já morei em Roma. Já tive na
porta do Vaticano assim, umas vinte vezes. Mas nunca tive vontade de entrar. Umas
vinte vezes. E eu morava na casa dum homem que era poderosíssimo!
Poderosíssimo, o cara era! Ele dizia: seu hebreu! Porque eu sou hebreu. Porque ele
sabe.
A gente não tem jeito, pode botar um crucifixo aqui no peito. E aqui eu uso
uma medalha, eu uso aqui um dinheiro. É um dinheiro inglês, aqui. Uma Libra e tem
o São Jorge. Tem isso em muito pescoço de judeu. Isso aqui é um santo inglês. É
um santo inglês, de origem inglesa. Apesar que a gente não é muito fanático pelos
ingleses. Nós sabemos que os ingleses foram uns filha da mãe! O inglês foi um cara
que ele... Escravagista. O inglês foi em vários países explorador.
Um judeu, ele tem que tá ali oh, vigilante com ele mesmo. Ter os preceitos
dele, porque nós podemos fazer tudo. Nós não temos, como é, que se diz, nós
temos a liberdade. Nós temos o arbítrio de fazer o que a gente tiver na vontade. Só
que tem que saber o que, que tá fazendo. Só isso! Não vai poder tá pedindo perdão
toda hora, oi,oi,oi,oi... pagão, me dê! Aqui não existe isso. É mentira! Não se compra
nada com dinheiro assim. Só comida. A gente não compra graça! Um pedido seu
com grana, não existe isso! Se fosse assim era muito fácil.
Estou morando em Rondônia, eu conheci isso aqui a primeira vez em
sessenta e um. Eu conheci isso aqui eu era menino. Meu pai viajou muito pela
Amazônia, então a gente, uma das coisas que eu comecei. Por que nós temos, com
força da nossa formação, uma liberdade muito juvenil.
A gente começa, não é a ter independência, mas liberdade. Nós passamos a
se locomover na infância, então eu com cinco, seis anos eu já viajava com meu pai.
Com cinco, seis, sete anos, já viajava com ele. A gente já saía de Belém, ia até Rio
Branco no Acre, de embarcação, de barco com essa idade. Então é o tipo da coisa,
se falam em baralho, logicamente, que isso vem passando pela mão da gente. Eu
joguei baralho, eu tinha dez, onze anos, doze anos. Se me chamarem pra rodar um
baralho, depois, que eu fiquei adulto, ah eu não pego num negócio desse. Não
existe isso, não tem quem faça! Primeiro, que o cara vai ficar com raiva de mim,
porque eu sei. Eu vou ter a frieza, eu vou ter uma série de coisas, que eu vou saber.
E tem outra coisa: que eu vou encher o saco. Porque eu vou ganhar e eu vou
perturbar e o cara, e o cara não vai gostar. Então eu já não quero. Já não mexo
nisso. Não vale!Então fizerem um complô pra ter uma benefício, porque existe isso.
Duas, três pessoas se juntam, pra poder enganar uma outra. Isso é muito normal. E
aí nós nota na hora.
O local que tem o maior artesanato. Lá tem daqueles caramujosão desse
tamanho! O cara faz, pinta a cuia. E podemos ver uma praia bonita, água linda,
transparente. E eu conheci aquilo ali, quando aquela região ali tinha muito peixe. Se
via os pacu nadando, cardume de peixe. O quê que aconteceu? O Brasil é mal
trabalhado. O Brasil é mal governado. Então nós tivemos no nosso país,
176
administração eu não vou dizer incompetente, corrupta! Sem compromisso. Então,
sem compromisso, porque Santarém é uma cidade lindíssima. A entrada de
Santarém, quando entra de barco, é muito bonito, é muito bonito. Eu conheci
Santarém tinha três ruas. Tinha duas assim [na horizontal], e uma assim [na
vertical], pra entrar. Só pra ter uma idéia, eu conheci Santarém na década de
sessenta. Tinha três ruas ali. Tinha um trapiche, quatro balde, que era no fim. Era
quatro balsa, tinha quatro tronco ali, que era ali que embarcava. Encostava as
embarcações, sempre parava ali. É bem bacana ali. Tem porque é o seguinte. No
baixo Amazonas teve várias cidades. Todas as cidades tinha foco judaico.
Começava de Capanema, Castanhal, Vigia, Cametá, Óbidos, Alenquer, Monte
Alegre, Santarém, Orispiná, Juruá. Juruá não, Buriti, que é pertinho de lá, de
Santarém.
A ilha lá, era do Pará. A ilha do Boi, Parintins. Parintins era do Pará. Parintins
na década de cinqüenta, surgiu um litígio na ilha, e a ilha era do Pará. Ali naquela
região, ali houve esse litígio e esse litígio acabou saindo o negócio lá. A Amazônia já
era pra ter sido colonizada de forma ordeira, há trinta, quarenta anos atrás. Hoje já
não dá mais pra fazer isso, o tempo passou. Então, o que acontece hoje, fazer uma
votação dum estatuto ambiental. Como é que vai implantar isso hoje na Amazônia?
Num desenvolvimento rural? Já fica difícil. Então isso já passou. O que tinha que ser
feito, essa fração, isso não era pra ser fracionado. Lá o crime maior não é o Estado
do Pará. É o Estado do Amazonas. O Estado do Amazonas só tem um município
desenvolvido, que é Manaus. O resto tudo tá miserável. Tudo gira em torno da
cidade de Manaus. O Pará é muito mais independente, os municípios. Então isso
que tão querendo fazer no Pará, é uma sacanagem, uma influência até dos
amazonenses. Era um interesse pela área. Como é que se vai manusear com a
verba, que pode vim. E isso vai cair num abandono pior do que já tá. O que tem que
fazer é que os deputados dali, os políticos, o prefeito da cidade, tenha força de
trazer as coisas e colocar ali dentro. E desenvolver a região.
O Pará é o único Estado que tem duas superintendências do Incra. Lá no
Pará, quando tem filha da mãe não tem pela metade, não! É filha da mãe, porque
um paraense judeu, ele vai te fazer vinte sacanagem. Ainda vai fazer a próxima na
tua casa. Porque ele não vai ter medo. Ele vai... é um filha mãe. Ele vai encher o
saco! Se ele tiver que brigar, ele vai brigar duas, três, vinte vezes! Ele vai encher o
saco. Lá é desse jeito! Eles são enjoado!
O amazonense é valente. Mas o amazonense, sabe que tem respeitar. Eles
dizem que o amazonense não pode ver dinheiro. Não pode, rapaz! O amazonense
não pode ver dinheiro. A gente fala, que parece, que é ladrão, mas eles não pode
ver dinheiro. Tá doido! Eles são muito vigarista! E tão com essa história de dividir, e
fazer dois Estados: do Tapajós e do Carajás. Eu também, é muito estranho, eu acho
que isso é armação do cara que tá fazendo. Esse projeto não é nem do Pará. Não é
nem da Amazônia. Não é de lá não, o deputado não é de lá, que tá fazendo esse
plebiscito. Não é da região. Ele é de outro local.
Existe, não é assim, a Amazônia é carente de uma empresa de navegação.
Mas uma empresa de navegação, que tenha organização. Que tenha calendário.
Que tenha cinco, seis embarcações que façam o trajeto, o fluxo pela bacia
Amazônica. Pelo baixo Amazonas tá cheio lá de navio recreio, embarcação recreio.
O tempo que demora de Santarém a Belém de barco, dois dias. Três dias de barco
descendo o rio. Subindo demora um pouco mais, pois não tem embarcação. Falta
esse tipo de estrutura, que não tem na Amazônia. Então, o que que acontece, a
estrutura do governo. Vou dar um exemplo: nos Estados Unidos os rios mais
177
importantes dos EUA são Mississipi e Missouri e eles cortam os trinta estados
americanos. Até hoje eles tem embarcação que fazem fluentemente navegação por
esses dois rios. Na URSS, tem o Volga, riozão. Moscou a Pitsburgo. E tem
navegação do governo. Na França tem navegação do Governo. Na Inglaterra tem
navegação do governo. No Brasil não tem! Nós não temos organização, que
funcione! Poxa, se a gente tivesse esse tipo administração, porque “Deus” é um cara
bacana!
Se “Deus” fosse um filha da mãe, ele fazia a Amazônia todinha, que nem
Santarém! Aquele rio todinho azul e tal. Se tivesse feito o rio Amazonas azul não
tinha mais pedaço de pau em pé! Nem meio! Nego entrava ali. O rio Amazonas tem
oitenta, cento e vinte metros de profundidade. Profundo, o rio, pô! Tem coisa lá que
dá cento e vinte metros de profundidade.
E tratando daqui,pra nós, não é questão de dizer o que é que falta. Nós não
temos estrutura básica pra se organizar. A estrutura básica, a gente precisa ter um
local que seja exclusivo para este tipo de finalidade. E aí vai desenvolver. Só isso.
Tudo na vida temos que assimilar e ter condição de ser digerido. Tem que digerir as
coisas.
178
CAPÍTULO 5. Experiência e Lugar uma leitura geográfica
http://eretzisraelmv.blogspot.com/2011/05/riqueza-dastradicoes-judaicas.html
Bendito és Tu, Adonai nosso “Deus”, Rei do universo, que cria diversas
espécies de alimentos (Rabino Salomon Manelaz’l).
179
Fizemos neste capítulo a leitura do narrado. Dispondo das experiências
expostas como reproduções de ações que propiciaram a identificação entre a
“religião” e o “lugar”, respaldados pelas leituras geográficas sobre estes temas.
Compreendemos que o espaço religioso é composto por signos expostos pelos
indivíduos que frequentam e se sentem parte de um meio social caracterizado por
dogmas e elencados diretamente pelo preceito religioso praticado pelo fiel.
A categoria de análise que utilizamos foi a de lugar, este sentido por meio da
segurança do lar e do convívio com pessoas que mantem entre si relações
amistosas. É o conceito que Dardel (2011) e Yi-Fu Tuan (1980) denominaram de
topofilia. Este caracterizado pelo sentir-se seguro em determinado lugar, onde nele
também somos capaz de sentir afeto, este lugar pode ser onde habitamos ou onde
há um significado em especial, podemos citar o exemplo do CEJURON, este usado
para reuniões e ritos dos judeus em Porto Velho. Não é o lar, mas seus membros se
sentem seguros nele.
A cada momento, o homem pode exprimir valores simbólicos diferentes aos
objetos, a outras pessoas e a si. Também compreendemos que esses graus
simbólicos são dificilmente alterados contra a vontade do indivíduo, ele deve aceitar
em seu íntimo as mudanças para poder demonstrá-las.
Nas entrevistas realizadas em determinado momento, as pessoas ouvidas
puderam expressar-se de acordo com o que estavam sentido, por isso, o uso da
metodologia deve ser entendido como uma montagem de fatos que foram
observados em campo e devidamente interpretados a partir de uma leitura
geográfica, é a experiência que o indivíduo possui do mundo que nos interessa,
conforme Dardel:
180
uma verdade concreta, pode haver mudanças nas interpretações e análises em
diversos momentos, pois a significação simbólica é proveniente do estado emocional
que o indivíduo experienciou ou experiência naquele determinado momento e lugar.
Logo as mudanças não são definidas com exatidão, pois bem sabemos que os
sentimentos e entendimentos humanos, são flexíveis e mutáveis. Por isso fomos
minuciosos ao adentrarmos na pesquisa e nas observações em campo.
Por meio da leitura proposta pela Cápsula Narrativa em nossa metodologia
condutora das entrevistas, e por, nosso método hermenêutico-fenomenológico
chegamos a uma compreensão dos eixos relacionais da comunidade judaica de/em
Porto Velho, suas espacialidades, sua identificação e construção do lugar, que para
o judeu é tomado de importância simbólica. Esta percepção de lugar tornou-se para
nossa observação uma fonte de interpretação, como nos evidencia Tuan:
181
Eu gosto da comunidade daqui, porque é assim, aqui em
Rondônia já houveram várias comunidades, inclusive antes de
virar Estado (NARRADOR V: 2010).
Sabemos que não é simplesmente explicar o dito, mas como Caldas (2000,
p.41-42), afirma é “desejar o desejo de falar, o desejo de quem falou” é ir sempre
além, ou seja, “não é tirar o que está dentro ou expor o que está fora”. É entender o
dito de forma única e pessoal.
182
A comunidade judaica de Porto Velho incorpora dentro de seu cotidiano
amazônida, alguns elementos dos costumes locais. Suas relações sociais são
entendidas por duas características: uma de aspecto incorporador e a outra de
segregador. O primeiro diz respeito a permitir que alguns elementos alimentícios da
região fossem introduzidos em seu cotidiano e em seus ritos, sem descaracterização
do judaísmo. Frutas, legumes, verduras e peixes e outros alimentos que fazem parte
do ambiente foram adaptados a culinária judaica e aos ritos. O significado e a forma
dos alimentos foram estudados para que pudessem utilizá-los corretamente. Essa
prática noa descaracterizou o judeu da Amazônia.
O exemplo que Bernado Sorj (1997), demonstra da identidade judaica é que,
ela é forjada por assimilação regional de alguns aspectos regionais, mas também
por exclusão do outro como seu igual:
183
identificações que não dizem respeito à religiosidade, mas sim o nascimento em
determinado território, que possibilita sua identificação, mas não sua religião.
Mesmo que estejam durante muito tempo em Porto Velho, os judeus relutam
em envolver-se diretamente com outras comunidades que possam fazê-los infringir
seus mandamentos. Até porque o judaísmo não é uma religião de conversão49, não
tem como objetivo cooptar membros para ele, ou seja, na atualidade não existe da
parte judaica uma evangelização ou catequização.
Entendemos por evangelizar e catequizar uma ação do ensino de
determinada religião para conversão e manutenção da mesma. Até porque, na
contemporaneidade a conversão ao judaísmo está se tornando cada vez mais difícil.
E, é importante lembrarmos-nos da afirmação de Bonder e Sorj (2001), de que os
ashkenazim, são os que mais fervorosamente são contra a conversão, no entanto,
se olharmos um pouco mais para o passado, iremos notar que os judeus
ashkenazim são de descendência proveniente de conversão, como afirmam Bonder
e Sorj:
49
Enquanto reino unificado Israel a. E. C. quando era vitorioso em batalha, obrigava o povo derrotado
a converter-se ao culto a Iahweh. Também percebemos a conversão quando da primeira e segunda
destruição do Templo, que os estudiosos da Torá saem de Jerusalém para abrir escola de judaísmo.
184
Na fala do Narrador II, notamos a necessidade de encontrar-se, com a religião
de seus antepassados, e só após a realização deste sonho é que, ele sente-se
pleno:
Pra mim, ser judeu é ser realista! […] A religião judaica é uma
religião realista, não significa estar nas nuvens […] A necessidade de
me encontrar me levou ao judaísmo, porque eu conheço todas as
religiões, inclusive estudei em colégio de padre quando garoto,
quando rapazinho eu não consegui me identificar, então quando eu
descobri e me lembrei, que a minha avó até os catorze anos, ela me
falava tudinho, que nós representa, ela dizia assim: meu filho você
tem, que estudar a tora, acho que eu tinha 13 anos, me lembro dela
dizer que eu era o neto dela, e dizia meu filho pra ser um justo e
bom, tem que aprender as coisas de “Deus” (Narrador II, 2010).
Com esta afirmação Gil Filho (2008), indica que podemos entender o modo
como acontece a reclassificação qualitativa dos objetos e do lugar. Para os judeus
de Porto Velho pois, percebemos que para ocorrer essa reclassificação sacralizada,
foi necessário o conhecimento que nos propiciasse o acesso à existência e à
compreensão do judaísmo, que passasse obrigatoriamente pelo conhecimento
semântico de seus símbolos, e em busca de elucidação organização em torno das
narrativas.
Podemos entender como informa o Narrador IV, que na
Torá tem tanta sabedoria não faça isso, não faça aquilo, porque já
sabia, que aquilo ali, ia causar uma consequência ruim pro judeu,
pras pessoas, não só pro judeu, pra qualquer um, então aqueles, que
seguem realmente a Torá, Até porque é assim que a tradição diz. No
185
meu íntimo, ser judeu é amar a “Deus”, respeitar todas as criaturas
(Narrador IV, 2011).
Seguir os ensinamentos da Torá proporciona integração com sua fé, com seu
“Deus”, dessa maneira, a classificação das coisas como reais ou ideais, atribuídas
pelos judeus, quando se referem a seu “Deus”, e a sua fé podem ser entendidas a
partir de Durkheim quando ele afirma o que as religiões tem em comum, já que elas
possuem um sistema que exprime a maneira de ser do homem:
O judeu religioso interpreta a vida com base em sua religião por isso, busca a
transcendência nas relações do corpo com o espírito, ele entende, como demonstra
o Narrador V, que:
50
Aquele que faz sermão, discurso etc.; que ou aquele que frequenta os cultos e obedece a todos os
preceitos de uma religião (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 3.0, 2010).
51
O que é iniciado e se torna conhecedor dos dogmas, princípios etc. de religião, seita, ciência ou
doutrina. aquele que é partidário de certo princípio ou conduta moral ou aprova determinada maneira
de sentir ou realizar algo (Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa 3.0, 2010).
52
Rosh Hashanah é a entrada do ano novo.
187
passada e a comunhão futura seja reafirmada pelos praticantes do judaísmo para
com Iahweh.
Gil Filho expõe que a transcendência do sentimento religioso, não provém da
razão, por isso podemos senti-lo, mas dificilmente podemos mensurá-lo
racionalmente.
Refletir sobre como agir para que seus anseios sejam alcançados, construir
redes de socialização espacial íntimas com os membros de sua comunidade, e
consequentemente construir outras redes de socialização com quem não faz parte
de seu grupo religioso, estes comportamentos foram observados durante a
pesquisa, pois a diferenciação comportamental dá-se de maneira protetora a sua
cultura e a sua religião.
Em nosso estudo com os judeus da comunidade de Porto Velho ficou explicito
uma perspectiva que vai além do sagrado e do profano, e é o diferencial do laico faz
com que os judeus aceitem a existência de outras religiões, desde que a sua seja
preservada. Para o membro da comunidade local a característica marcante de
entendimento do pertencimento à seu “Deus” é diferencial na maneira como vivem.
Por isso nesse contexto em que vivem não tem a necessidade de cooptação
de membros para sua religião. Contudo aqueles que buscam adentrar em seu
espaço religioso devem passar por diversos estágios de aceitação.
188
Van Gennep (1978) evidencia bem essa aceitação em seu livro Ritos de
Passagem, onde uma pessoa está em um status religioso ou social e deseja inserir-
se em outro. O percurso a ser feito nesse meio tempo até a aceitação em outro
status pode durar no caso de conversão ao judaísmo vários anos, para que o
indivíduo possa ser aceito como judeu, esse período é denominado por Van Gennep
de margem:
Outro autor que também que escreveu sob essa ótica da “passagem” de uma
posição social para outra como uma dinâmica complexa foi Victor Turner. Para ele a
sociedade é um processo vital marcado por considerações sócio-estruturais, sendo
dinâmica e única, se difere de outras, sendo que é nos rituais que se percebe a
dinâmica da sociedade. Quando um indivíduo almeja inserção em outro nível, em
outra comunidade ou status, para tal necessita aprender sobre a nova condição que
deseja:
189
Por isso, a manutenção desta identidade com suas especificidades torna-se
essencial, para possam transcender e dar sentido ao sagrado. Vamos adentrar em
algumas especificidades que acompanham o judeu do nascimento à vida adulta.
190
primos do judeu morto. O ritual pós-morte pode durar até um ano para os familiares
do morto.
Outro ritual característico ensinado pelos antepassados é quando há
nascimento de meninos, que deve ser realizado a circuncisão conhecida entre os
judeus pelo nome de Brit Milah53. Esse rito teve seu início com Abraão, é o
mandamento que sabemos fazer parte da vida de todos os judeus (até mesmo dos
conversos) é uma demonstração de obediência ao pacto com Iahweh com os
descendentes do patriarca Abraão e também submissão a seu “Deus”, nas palavras
de Goldberg & Rayner:
53
Promessa pacto ou aliança (Berith) devia ser simbolizada perpetuamente na circuncisão (milah) dos
meninos no oitavo dia após o nascimento. E jamais um descendente de Abrahão podia macular essa
aliança, adorando deuses estranhos (IZECKSOHN: 1973a, p.41).
191
como um dado secundário, uma espécie de apêndice ou agente
específico e nobre dos atos classificados como mágicos pelos
estudiosos (VAN GENNEP: 1978, p. 12. Grifos nossos).
Para o judeu o rito de agregação com a comunidade tem seu início com a
circuncisão é nesse momento que o novo membro da comunidade é inserido no
pacto de Abraão.
Ora, sabemos que a circuncisão possui o fim específico na vida do judeu que
é de confirmação da aliança feita com o “Deus”. No judaísmo sem a circuncisão o
indivíduo não possui aliança celebrada após o nascimento. Para o convertido este
rito também deve ser realizado, concomitantemente se dá a participação efetiva no
teshuvá, os estudos de história judaica e o aprendizado do idioma hebraico.
192
E, hoje meu nome judaico é Yossef ben Avraam, mas mesmo nós
temos que passar pelo processo de conversão chamado tshuvá, já fiz
a Brit Milá, que é a circuncisão, já tem exatamente cinco ou seis
anos, que fiz foi com um Mohel em Manaus e agora, é só concluir o
processo de conversão (Narrador II: 2010).
No decorrer de sua vida os judeus vão aprendendo outros ritos, que marcam
e confirmam sua identidade. Uma das coisas que se ensina à criança é a declaração
da unicidade de “Deus”. Para que ela saiba sempre recitá-la, é uma reafirmação da
fé e do compromisso com Iahweh que todos devem recitar antes de morrer. Este
ensinamento é o Shema:
54
Reunião dos justos.
193
Ao nos direcionamos para o Centro Judaico de Rondônia - CEJURON,
localizado no período da pesquisa em uma sala cedida por um dos membros da
comunidade, no 5º andar do Edifício Carvajal, no centro de Porto Velho.
Observamos o esforço de alguns para a manutenção da cultura judaica. Pois
buscavam com afinco quando se encontravam em sua sede para realização dos
ritos fazer todo o preparo necessário para que os rituais fossem realizados da
melhor maneira possível. Contudo deixamos claro que eles mantinham a sua
espacialidade religiosa em lugares distintos onde se sentiam seguros, como são o
lar e o CEJURON, o conhecimento de sua religiosidade se dá para as pessoas mais
íntimas.
Após o encontro inicial com a comunidade em um Shabat, observamos que a
maioria dos participantes era de origem Sefaradim. Devemos nos lembrar que a
denominação sefaradim e ashkenazim tratam-se em sua origem de indicadores dos
espaços geográficos de onde esses judeus migraram – esta questão foi abordada no
capítulo 3.
As diferenças nas tradições certamente estão carregadas de impressões e
sentimentos acumulados em anos de vivência nos lugares onde foi possível a
existência e perpetuação de sua fé. As disparidades entre os dois grupos são
mínimas.
Podemos afirmar que elas provêem mais de conjuntos de tradições existentes
por causa do lugar em que vivem, mas não são diferenças que podem romper com a
característica judaica, pois seguramente no geral tanto ashkenazim quanto
sefaradim acreditam na unicidade de “Deus”, praticam o brit milah fazem os estudos
da torah, aprendem o shema, seguem o mesmo calendário, etc. Enfim, diferenciam-
se como dissemos antes, apenas por alguns detalhes, no preparo da alimentação e
nas danças e modo de como conduzem os rituais, ora para Tuan:
Essa condução de alguns elementos pode ser apontada como uma das
causas da diferenciação de costumes entre as comunidades ashkenazi e sefaradi, e
ainda tem as discussões referentes a Halachá, que é o conjunto de leis que regem a
conduta dentro do judaísmo, está é uma discussão assídua entre os rabinos. Eles
194
discutem por discordarem de algumas interpretações que cada movimento realiza
dos ensinos.
É claro que devido aos grupos fixarem-se em lugares diferentes, lhes é
permitido estabelecer relações com distintos grupos e culturas em que recebem
influência e também as influenciam, com o tempo vão adquirindo um novo modo de
interpretar algumas determinações da torah, isso conduz a algumas discussões e
mudanças comportamentais. É essa presença em diversos lugares que observa o
Narrador IV, ao se colocar contra o fanatismo:
a Torá disse também, que a gente tem, que ouvir os rabinos, mas aí,
que é muito rabino. Então nós vamos ter várias discussões, que é
chamado maloket. Que são essas discussões, que os rabinos dizem
uma coisa e outros rabinos dizem outra coisa. […] Existem judeus
em São Paulo, existem judeus em várias partes do mundo. Já que foi
criado o Estado de Israel porque, que essas comunidades, que se
acham donas do judaísmo, da interpretação da Torá, porque não vão
pra Israel e tomam Israel e dizem que ali é deles e implantam uma
Teocracia. Qual é! Israel é um país laico. Israel é uma democracia.
Uma república pô! Então não combina muito com essa coisa do
fanatismo religioso (Narrador IV, 2011).
196
Quadro IV: Demonstrativo de Eventos
Lembrança da escravidão
Em abril de Pessach A manifestação do Poder
no Egito e a manifestação
2010 e 2011 de “Deus”
do poder de “Deus” para
libertação dos filhos de
Israel
Lembrança do verdadeiro
Outubro de Sukot Festas das cabanas
propósito da vida.
2010
55
O Chabad é um movimento atrelado à tradição chassídica. O movimento chassídico surge no
âmbito da Europa oriental Outra vertente do judaísmo Ashkenazi surgida anteriormente e que
permanece tendo e cativando bastante adeptos, apesar da assimilação é o chamado movimento
Chassídico. Este movimento surgiu na Polônia no século XVIII e primeiramente foi rejeitado por
judeus de outras partes da Europa, mas logo arrebatou milhares de seguidores com sua pregação
que dava “ênfase às emoções em contra-posição ao intelecto” (EBAN: 1975, p. 206).
56
Disponível: http://www.chabad.org.br/datas/calendario/sobre.htm -acessado em julho de 2010.
198
Quadro V: Calendário Judaico57
Mês 353 dias 354 dias 355 dias 383 dias 384 dias 385 dias
Nissan 30 30 30 30 30 30
Iyar 29 29 29 29 29 29
Sivan 30 30 30 30 30 30
Tamuz 29 29 29 29 29 29
Av 30 30 30 30 30 30
Elul 29 29 29 29 29 29
Tishrei 30 30 30 30 30 30
Cheshvan 29 29 30 29 29 30
Kislev 29 30 30 29 30 30
Tevet 29 29 29 29 29 29
Shevat 30 30 30 30 30 30
Adar I - - - 30 30 30
Adar II* 29 29 29 29 29 29
Dependendo de quantos dias é que vai ser contado o ano “normal” que é
caracterizado por 12 meses, de 353 a 355 dias. E, quando o ano possui 13 meses e
tem entre 383 e 385 dias é denominado de embolísmico. Outro detalhe importante é
que o calendário não segue especificamente o início do ano como nosso calendário,
o exemplo é o próprio Rosh Hashanah que acontece no mês de tishrei58, enquanto
que o primeiro mês do calendário judaico é o de nissan, pois foi neste mês que
57
Disponível: http://www.chabad.org.br/datas/calendario/sobre.htm - acessado em junho de 2010.
58
Para a literatura rabínica diz que foi neste dia que Adão e Eva foram criados, e neste mesmo dia
incorreram em erro ao tomar da árvore da ciência do bem e do mal. Também teria sido neste dia que
Caim teria matado seu irmão Abel. Por isto considera-se este dia como Dia de Julgamento (Yom ha-
Din) e Dia de Lembrança (Yom ha-Zikkaron), o início de um período de instrospecção e meditação de
dez dias (Yamim Noraim) que culminará no Yom Kipur, um período no qual se crê que o Criador julga
os homens (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rosh_Hashan%C3%A1 – acessado em 10/10/2011).
199
Moisés teve a revelação da libertação dos filhos de Israel do egito no ano de 2448
após a crição do mundo,
No judaísmo estão presentes rituais diários, que devem ser executados pelo
fiel seguindo as leis da Torá. Assim além destes ainda existem as festividades que
fazem parte de seu calendário, estas também são manifestações de sua
religiosidade e sua cultura, para Paul Claval:
59
Período em que a Lua é nova.
60
Disponível: http://www.chabad.org.br/datas/calendario/sobre.htm - acessado em junho de 2010.
200
Geografia da Religião, como o “espaço de relações objetivas e subjetivas
consubstanciadas em formas simbólicas mediadas pela religião” (GIL FILHO: 2007,
p. 210).
Dentre as relações que os membros da comunidade experienciam com a
vivência em comunidade, observamos que seus sentimentos e impressões
perpassam os lugares de convivência mais íntimos, estes sendo o lar e o
CEJURON, nestes lugares seus rituais são realizados e desta maneira eles podem
exercer seu judaísmo. É no lugar, onde congregam com seus iguais ou no lar, que
dispõem ações que os identificam como judeus. O homem em comunidade ao
adaptar-se ao lugar constitui-se de um conjunto de símbolos, que lhes possibilita
diferenciar-se dos demais e ainda assim não se excluir da sociedade que fazem
parte, nas palavras de Cassirer:
201
O lar só fora usado como lugar para manutenção constante da judaicidade
enquanto houve perseguição e quando estavam sujeito a mudanças de morada
inesperada.
Questionamo-nos o por quê dos judeus a pesar de estarem tanto tempo em
Porto Velho não possuem uma sinagoga para estruturação de seus ritos. E, também
sabendo que os judeus são conhecidos por guardarem sua crença e manter seus
vínculos com seus ancestrais, para tal nos lugares aonde chegam para morar
procuram estruturar a comunidade em torno das disposições provenientes da Torah,
e a partir disso unem-se para arrecadar provimento financeiro para construção da
sinagoga e do cemitério, lugares que são importantes para que a comunidade possa
ser evidenciada, deste modo seguem o ensinamento da Torah, de “povo separado”.
Em Porto Velho se essa movimentação para estruturação da comunidade
aconteceu não obtiveram o resultado esperado, pois o simbolismo judaico só é
evidenciado no cotidiano familiar ou de pessoas que são amigos ou conhecidos mais
íntimos.
Deste modo observamos que os judeus que residem na capital são pessoas
discretas, não que neguem sua fé, mas não fazem questão de evidenciá-la. E, a
disputa pela liderança é algo a ser esclarecido, como não há rabino na cidade que
possa uni-los como uma comunidade, onde possam desenvolver a participação do
minian e de toda a estrutura que, as comunidades que já estão consolidadas
possuem. Essa condição propicia a continuidade de conflitos caracterizados na
demonstração de quem é mais judeu, é uma disputa individual que os enfraquece e
demonstra que a maioria não quer que ocorra a organização, pois a partir dela o
conhecimento e interpretação de seus rituais em contato com o espaço de interação
das formas simbólicas da sua cultura seriam fortalecidos com a presença de uma
liderança que possibilite a união da comunidade judaica portovelhense.
Com essas atitudes, observamos que em Porto Velho, a comunidade não
influenciou nas mudanças da paisagem como o que demonstraria sua existência
social e estruturada para as demais comunidades existentes na cidade, é como
Armando Corrêa da Silva (1991), expõe:
Sem esse conjunto de formas o qual entendemos que podem ser o cemitério,
a sinagoga, o museu, etc., que possa expressar materialmente a presença
organizada da comunidade judaica dentro de Porto velho, a falta destes demonstra
uma certa invisibilidade da comunidade nesta cidade existem na cidade. Na fala do
Narrador IV:
203
Os alimentos e a forma de dar prosseguimento ao ritual no CEJURON, foram
realizados ao modo sefaradim, e há certas provocações que acontecem quando
estão juntos e sentem que podem brincar um com o outro, sempre afirmam que “nós
sefaradim fazemos desse jeito, é melhor”, mas as afirmações ou qualquer diferença
são deixadas de lado durante o ritual.
Dentro do espaço religioso do CEJURON, onde ocorre o ritual judaico
podemos enxergar e sentir claramente o temor evidenciado diante a leitura dos
Salmos, das canções, dos alimentos. Desde o início o teor de sagrado é evidenciado
ao chegarem cada judeu toca na mezuzah que está fixada a mais ou menos um
metro e oitenta centímetros de altura no umbral da porta de entrada. Notamos que já
tínhamos sido aceitos pela comunidade quando eles se expressavam e realizavam
suas ações sem a desconfiança de alguém que não era do seu meio, o rituo de tocar
na mezuzah e beijar a ponta do dedo é caracterizado um rito de agregação, nas
palavras de Van Gennep:
204
que não é mais útil para o judeu. Logo a porta de entrada determina a entrada das
bênçãos e a porta de saída a purificação da casa, onde vai ser retirada a sujeira,
aquilo que não presta mais.
Outra coisa que ficou evidente com nossas idas a campo foi que a maioria
dos judeus que vieram para a região amazônica nas primeiras migrações perderam
seus vínculos, e a identidade judaica, talvez por medo, como relata o Narrador IV:
205
Devido praticarem os ritos sem qualquer ensinamento aos filhos, aconteceu
um esquecimento gradativo, como Tedesco (2004), escreveu em sua obra que a
identidade é forjada pela consciência coletiva, e quando ocorre um processo de
“autoesquecimento” ou esquecimento imposto é forjado e mantido com o passar do
tempo é normal que a memória dos antepassados acabe por desaparecer,
206
e o conhecimento da Torah é importante para a comunidade, pois sem essas
características eles não serão judeus.
Poucos são os moradores da região amazônica que ao identificarem-se como
judeus buscam o sentido para as coisas que faziam, quando criança. Por terem o
exemplo de seus pais, só não sabiam que as ações praticadas, eram costumes
religioso que todo judeu deve fazer. É o que Halbwachs (1990), expõe como a
necessidade de testemunhos discursivos e simbólicos, que sustente a memória e as
experiências do indivíduo em relação ao grupo.
Quando os filhos não entendem e repassam para seus descendentes o
costume de seus pais, o fazem por simples repetição sem saber o verdadeiro
significado. Lefbvre (1978) coloca o cotidiano como alienador por não percebemos
as mudanças que ocorrem de imediato, e dessa maneira só a percebemos quando
já passou determinado tempo. Dessa maneira, o cotidiano influencia no decorrer do
tempo, pois acabam por não compreenderem sentido das ações que foram
praticadas durante sua vivencia, e por consequência essas mudanças acabam
sendo cada vez maiores só que ocorrem de maneira imperceptível, propiciando
assim o esquecimento.
A maior parte dos judeus da região amazônica nasceu e permaneceu no
esquecimento de seus antepassados, de suas raízes judaica. No contexto atual
algumas pessoas que ouvem eles falarem o que fazem e como fazem, se identificam
com algumas práticas exercidas por seus pais ou avós e por saberem que os pais
realmente faziam esses ritos, gerou a vontade de conhecer uma pouco mais sobre a
religião judaica, contudo a maior parte dessas pessoas não sabiam que eram
descendentes. E, a partir do conhecimento começam a entender a diferença que é
algo marcante nas narrativas, na fala do Narrador V e o Narrador II, afirmam com
convicção que, se encontravam em um vazio na alma que os corroia, ou que o vazio
que existia foi preenchido desde que tomaram consciência de que eram judeus.
Vou numa ortodoxa num sábado, quando vou numa ortodoxa no
sábado eu tive quase, que um arrebatamento, porque, primeiro,
porque ela tem uma ligação muito próxima com o templo maçom,
então aquilo ali quando eu entrei, eu me senti assim muito em casa,
depois pelo sistema como eles eram distribuídos e a maneira de
como eles eram muito ligados uns nos outros e como ficavam felizes
pela maneira como exerciam o judaísmo apesar de entender muito
pouco ou nada, porque tavão falando tudo em hebraico, mas eu
entendia uma similaridade comigo e aquilo me marcou
profundamente num único dia, eu vi uma coisa que mudou minha
compreensão para com os fatos, uma única vez é como, que se eu
207
tivesse acordado para uma existência inteira, nunca tinha vivido isso
antes, sai dela atônito com isso (Narrador V, 2011).
Falei com minha avó a vida toda eu pensei assim, que ela não sabia
falar Torah, falava tora, daí veio uma exposição de Jerusalém, um
ortodoxo David Salgado sefarad ele foi lá, e tava lá escrito nos
painéis tora, que só tem uma comunidade em Portugal, daquela
época, que falava tora. E a minha família hoje tem cem por cento de
certeza da origem portuguesa e espanhola. Então quer dizer minha
avó não estava fora, realmente os costumes vieram com ela, quer
dizer, que a palavra tora era de uma comunidade judaica de
Portugal, que num falava Torá, falava tora, e só há dois anos, que
fiquei sabendo, que minha vó não falava errado era o jeito de falar de
onde os pais dela vieram (narrador II, 2010).
61
Alimento preparado de forma que o judeu possa ingeri-lo, puro.
208
A pia das residências possuem dois buracos, para que durante a lavagem das
louças, elas possam ser lavadas separadamente de acordo com o alimento que foi
ingerido, a louça de carne não deve ser lavada com a louça que foi servido leite ou
algum derivado deste.
A conexão com os mandamentos é realmente intrínseca a cada um, e muito
forte, pois se nos grandes centros há um responsável para ajuda-los, aqui não existe
quem o faça, eles praticam por respeito à Torah, tentam seguir o mais próximo
possível do que lhes foi mandado e ensinado.
O kasher tem por significado a pureza, pode ser usado tanto para alimentos
como para objetos, só pode ser considerado uma mitzvot se houver
desprendimento, renúncia e obediência, pois a preocupação não é só cuidado com o
corpo físico, ele vai além, ao praticar o kashrut o judeu coloca-se sob a guarda
espiritual do Eterno, pois para os rabinos como trata-se de mitzvah ele só pode ser
praticado como uma obrigação, um exemplo pode ser observado a seguir.
Bonder e Sorj (2001), chamam atenção para que o judeu não deixe que a
prática do kashrut lhe faça sentir melhor que os outros, contudo podemos notar
sempre a indicação de “outro” como o diferente de mim, o que não faz parte do meu
grupo. Lembramos essa exclusão só para enfatizar que faz parte da construção
identitária do judeu.
Para que o judeu passe a encontrar os alimentos kasher sem precisar do selo
do rabino, é necessário da parte dele um conhecimento de quais alimentos são ou
não kasher. Temos o exemplo do que está escrito na Torah, seguir com cuidado
poderá distinguir o que pode ser ingerido e como. Há alimentos que podem ser
ingeridos livremente estes são chamados de parve, eles não são nem carne e nem
leite são chamados, podemos tomar como exemplo: ovos, frutas, peixe, hortaliças,
grãos, cereais, sucos naturais, café e chás, são considerados kasher.
É interessante saber, que a carne bovina para ser considerada kasher deve
ser a da parte do meio para cima do boi, ou seja, a parte dianteira. A parte traseira
não é considerada kasher. As consideradas de primeira para a maior parte da
população, para os judeus é considerada impura, por fazer alusão a calda, a atraso
de vida, ao passado.
A maior parte de nossas idas ao CEJURON foi durante o shabat. Para que
fique claro, devemos informar que o shabat nem sempre fora realizado com rigor.
Foi durante os anos de exílio que a observância do shabat e do brit milah, tornou-se
cada vez mais realizada como a marca de um judeu fiel.
211
Através da Tanach, os judeus, onde quer que estivessem, puderam manter
uma identidade comum e distintiva de um povo pactuado com Iahweh, e obrigado a
cumprir seus mandamentos, seja o do brit milah, o do shabat ou as leis kasher. Para
eles o shabat é uma pausa para estudo da Torah e para que ele se questione a
respeito de sua vida
realizada a meditação do judeu para com O dia de não se trabalhar
não é o dia de se distrair – literalmente “tornar desatento”. É um dia
de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta
que se fazem as famílias no descanso - “o que vamos fazer hoje?” -
é marcada por ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120
anos quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo
(BONDER & SORJ: 2001, p. 91).
62
A chalot é um tipo de pão, o seu formato é retangular com uma trança, como três fitas entrelaçadas,
lembrando uma trança, são usados duas chalotim, que significa a lembrança do povo de Israel,
sempre unido com o “Deus” Criador. As chalot são usadas no rito do Shabat.
63
Pão tipo francês, cortado ao meio, para ingestão após a cerimonia da entrada do Shabat.
212
O encerramento do shabat acontece com uma cerimônia chamada havidalá.
Nesta cerimônia os judeus se reúnem na sinagoga ou no lugar onde está havendo
os estudos para orar e ler a Torah. Não havia esta cerimônia no CEJURON, pois a
comunidade de Porto Velho não se reunia para realizá-la, ela é feita no lar de cada
um, com seus familiares.
Os judeus evitam pronunciar o nome shabat, falam: “o dia depois de sexta, ou
o dia antes do domingo”. O sábado é santo para o judeu, a Torah indica que foi o dia
em que “Deus” terminou a obra da criação do mundo e descansou. Por reverência e
memória, nesse dia eles não realizam nenhuma atividade, que indique: criar, gastar
ou consumir energia.
Tivemos alguns exemplos nos diversos shabat, que frequentamos. O judeu
ortodoxo não pode dirigir nem um tipo de veículo, nem acender as lâmpadas, ligar o
fogão etc. Observamos que aqui, a comunidade não tem como seguir a risca esses
mandamentos que os ortodoxos seguem, mesmo porque fica difícil seguir todas as
normas, já que até para irem no CEJURON, necessitam ir de carro ou ônibus, se
forem de carro, irão ter que ligá-lo, dessa maneira provocarão combustão que é um
tipo de queima de energia, se forem de ônibus terão que pagar a passagem, com
isso estariam fazendo um negócio de compra, e nenhuma dessas coisas é permitido
ao judeu ortodoxo fazer durante o shabat.
Outro rito que acompanhamos foi o do pessach. O nome Pessach significa
mancar ou pular, para Goldberg & Rayner (1989), foi usado para descrever os
primeiros passos da criação do reino de Israel.
Ao chegarmos para a celebração do pessach no CEJURON, observamos que
cada um levou um tipo de alimento e bebida, que se deve comer na celebração
desse rito. Uns levaram ervas amargas que servem como indicativos da lembrança
da servidão no Egito, mas também havia o cordeiro que simbolizava a manifestação
do poder de “Deus” para libertação do filhos de Israel, como ensina Goldberg &
Rayner:
213
Após entoarmos cânticos, houve rezas e leitura da Torah, a mesa arrumada
com os alimentos simbólicos para a realização do ritual foi cercada por todos os
presentes, cada pessoa pegou um pedaço de ervas amargas e recitamos versículos
da Torah, após colocamos na boca a erva para sentirmos, que já passamos pelo
amargor da servidão e “Deus” proporcionou a liberdade.
Nilton Bonder & Bernardo Sorj exemplificam bem a Páscoa judaica, ela é:
Cada alimento era ingerido de acordo com o rito, observamos que todos
foram consumidos de maneira que trouxesse a memória a servidão e a libertação
alcançada pelos ancestrais, e que só por isso hoje os judeus podem considerar-se
livres.
Acompanhamos também a celebração do Rosh Hashaná na sede do
CEJURON, e também na residência de um de seus membros. Pela tradição judaica,
deve-se voltar ao estudo e oração durante todo o dia e a noite celebra-se em família,
com uma refeição farta repleta de alimentos simbólicos. Como em Porto Velho não
existe ainda uma sinagoga, as famílias propuseram encontrar-se em uma das noites
da festa, pois são duas noites, e na outra cada um comemora em âmbito doméstico.
Desse modo, evidenciamos os dois nortes que seguem a celebração um de âmbito
coletivo/social e outro no familiar, nas residências.
Os membros que conheciam um pouco mais das orações se dedicavam à
elas, e auxiliavam aqueles que ainda não dominam o hebraico, mas se esforçam
para acompanhar as orações.
O Rosh Hashanah é o ano novo judaico, ele é uma das datas importantes do
calendário judaico, começa no sexto dia com a criação do homem, é uma data
instituída pela Torah. Para o livro sagrado judaico, com o evento da criação do
homem houve o reconhecimento do “Criador” por sua criatura, esse marco instituiu a
adoração a “Deus”, por isso essa data foi instaurada para a celebração do ano novo,
214
para os judeus estamos no ano de 5772 (em 2010). Na celebração do Rosh
Hashanah o homem enfrenta não apenas o “julgamento divino”, ele deve enfrentar
seu “próprio julgamento”.
As diferenças entre Ashkenazim e Sefaradim, nesse período não são
somente em tradições culinárias e de vestimenta vão a algumas formas de
interpretar a lei Judaica. No entanto, o teor os significados dos rituais e festividades
é basicamente o mesmo.
Para que haja maior compreensão sobre o Rosh Hashaná buscamos auxílio
no sítio do chabad, que explicou como e porque se deu a escolha do mês de Tishrei
para celebração do ano novo judaico:
Compreendemos que o dia do ano novo judaico, não é apenas uma ocasião
de alegria mas, um dia dedicado à oração e a reflexão. É chamado Yom Hazicaron,
o Dia da Memória, que foi quando todas as criaturas foram julgadas por “Deus” de
acordo com seus méritos, com a aproximação de Rosh Hashanah, é dever do judeu
corrigir qualquer mal feito ou hábito descuidado do passado.
A Torá institui que Rosh Hashaná, seja celebrado como o aniversário da
Criação, mas essa celebração não é no primeiro dia, é no sexto dia, quando o
Homem foi criado. Segundo a tradição do chassidismo Chabad ashkenazi, o
significado do dia e do evento não reside no surgimento de uma nova criatura,
superior às outras, mas está no fato de que a nova criatura reconheceu o divino
215
como o Criador de todas as coisas. Por isso o homem deve durante o Rosh
Hashaná fazer um julgamento de todas as atitudes tomadas no decorrer do ano que
findou.
Acompanham o Rosh Hashanah algumas cerimônias que vão ser realizadas
no decorrer do mês pelo judeu. São elas o: Hatarat Nedarim que é o pedido de
anulação de qualquer promessa feita e não cumprida e, também o Yom Kipur que é
o dia do perdão nele o judeu se arrepende e pede perdão a “Deus” e a todos que ele
possa ter ofendido. Outra cerimônia é o toque do Shofar, que é realizado após a
leitura e as orações do Rosh Hashanah.
Durante o Yom Kipur, segue-se um jejum que tem por finalidade conduzir o
judeu a purificação, ou seja:
Outra tradição judaica que deve ser feita durante a celebração do Rosh
Hashanah é o toque do shofar, este é um instrumento de sopro, basicamente um
berrante feito de chifre de carneiro ou outro animal kasher. O judeu deve fazer o
possível para escutá-lo, quando é tocado na época de Rosh Hashanah.
O shofar não é um instrumento "musical"; não é usado por prazer ou
divertimento. Tem um sentido simbólico de chamamento para o arrependimento,
avisando a chegada dos Dez Dias de Arrependimento, que começam com Rosh
Hashanah e culminam com Yom Kipur. O som do shofar no dia de Rosh Hashanah,
deve ser também sinal de quebra das correntes de pecados, para começar uma
nova vida com o coração puro.
O shofar deve ser curvo, para mostrar que o homem deve ser humilde perante
“Deus” e curvar seu coração a Ele. Não deve ser decorado com ouro, ou mesmo
com pinturas sobre ele. A única coisa permitida é alguns entalhes no próprio chifre,
sem adicionar nada a isto, por lembrança de que “Deus” não procura pela beleza
externa ele procura um coração limpo. O toque do shofar em Rosh Hashanah é um
mandamento da Torah. É um preceito como todos os outros da fé judaica e,
portanto, deve ser feita uma bênção especial antes de tocá-lo: "Bendito és Tu, ó
Senhor, nosso “Deus”, Rei do Universo, que nos santificou com Seus mandamentos
e nos ordenou ouvir a voz do shofar"
218
Quadro VI: Os Alimentos Simbólicos do Rosh Hashanah
219
Na celebração do Rosh Hashanah na residência de um membro do
CEJURON tivemos a possibilidade de tirar foto, pois não era um sábado.
Mesa organizada com os alimentos simbólicos do Rosh Hashanah.
Mesa preparada com alimentos kasher, que podem ser servidos no Rosh
Hashanah:
220
dia; outro motivo é que o valor numérico da palavra “egoz” e “noz”, corresponde ao
da palavra chet (pecado) sem a letra alef.
Outra celebração que fomos, foi das sukot que ocorreu em outubro de 2010,
ela é uma mitzvá, singular, pois é referente a construção de uma cabana ou tenda; é
considerada a única mitsvá que literalmente envolve a pessoa de corpo inteiro, com
a força física e espiritual. Segundo BONDER & SORJ (2001), a sukot não deve ser
apenas materializada pelo judeu, ele deve fazer uma introjeção metafórica do
verdadeiro significado da celebração da sukot,
64
Associação dos Amigos de Israel é uma ONG.
221
durante oito dias, tempo suficiente para que fosse fabricado novo
óleo, purificado e sacramentado. Esse maravilhoso acontecimento da
lenda judaica vem sendo comemorado até hoje anualmente com a
festa da Chanuká de oito dias de duração, durante os quais vai
sendo acesa cada noite mais uma lamparina ou vela, até atingir o
número de oito, correspondentes aos oito dias do milagre
(IZECKSOHN: 1973a, p. 165).
65
Uma menorá de Chanucá tem oito braços numa fila reta de igual altura. O shamash (vela auxiliar),
usado para acender a menorá, é colocado mais alto ou à parte das outras. Uma menorá que funcione
com eletricidade pode ser usada como decoração de chanucá, mas não cumpre a mitsvá (conexão
com D’us) de acendimento da menorá (http://www.chabad.org.br).
222
cultura podem ou não sofrer algumas mudanças, quando envolvidos com outros
grupos sociais, e mesmo estando dentro de comunidades onde lhes ensinam seu
passado de perseguições e extermínio, e o título de escolhido de “Deus”, depende
internamente de cada membro da comunidade judaica pensar igual ou diferente dos
outros judeus.
223
CONSIDERAÇÕES FINAIS
227
crescimento do grupo. Este está dividido entre os de descendência, os de conversão
ou retorno e os que estão buscando a conversão.
A maioria dos judeus de descendência não quer se dispor ao engajamento do
crescimento religioso e cultural do judaísmo perante a comunidade em geral, em
virtude de possuírem o status de povo escolhido não se importam em desenvolver o
dinamismo da religião na cidade. Se colocassem em prática a característica judaica
de crescimento de seu grupo a comunidade teria presença fortalecida na cidade,
pois esses possuem cargos nas diversas esferas do governo e outros são
empresários. Na realidade não tivemos notícia de nenhum judeu pobre na
comunidade.
Os conversos ou que fizeram o retorno ao judaísmo são poucos, eles tentam
consolidar o status de serem judeus, alguns sonham com a ida para Israel em busca
de riqueza, e principalmente de reconhecimento de sua religiosidade. Outro grupo
ainda menor é o de pessoas que almejam a conversão, estes estão engajados em
doar o seu melhor para a comunidade, contudo não são aceitos pelos judeus de
descendência e não são bem vistos pelos conversos ou que fizeram o retorno.
E, nesse intervalo de tempo entre os dois primeiros além de não se
entenderem procuram sempre a individualidade, não conseguem nem ao menos um
lugar para construção do cemitério judaico da cidade. E, nem mesmo tirar os restos
mortais daqueles que estão nas sepulturas as margens do rio Madeira, e que serão
submersos pelo o reservatório da Hidrelétrica de Santo Antônio.
Esses restos mortais dos judeus que escolheram ser interrado na floresta ou
as margens do Rio madeira para não transgredirem seu credo, serão perdidos assim
como a história de sua fidelidade aos dogmas de sua religião.
Ora, devido a esses conflitos não se predispõem a atuar socialmente
organizando seu espaço como judeus que necessitam de continuidade nas
representações simbólicas, ou seja, não conseguem estruturar e organizar seu lugar
de maneira que evidencie sua cultura e sua religiosidade em Porto Velho, esta
última praticada de duas maneiras: a) em casa para alguns/âmbito familiar e b) em
casa e no CEJURON para outros/âmbito coletivo.
No judaísmo em Porto Velho percebemos que as disputas internas
contribuem para sua invisibilidade como comunidade cultural e religiosa. Porém,
ocorre entre alguns deles um fato interessante no contexto das desavenças,
marcadas pela demonstração em saber quem é mais judeu, por esse motivo eles
228
tomam a via contrária de grande parte do país, que está em pleno processo de
fortalecimento de suas comunidades. Mesmo que as relações entre os membros da
comunidade portovelhense sejam entraves, para exacerbar a judaicidade unitária e
não do coletivo, observamos que não houve auxílio direto de outras comunidades do
país, para que a estrutura cultural e religiosa seja vista em sua forma física no lugar,
para que o sentimento religioso seja avivado.
Por mais que, esses entraves sejam pontos negativos, eles devem conquistar
os segmentos sociais por meio da unidade da comunidade, e não da divisão. Talvez
com auxílio externo consigam formar uma comunidade judaica como em Manaus,
Belém ou outras que demonstram sua presença no meio social através da
religiosidade e da cultura.
229
GLOSSÁRIO
A
Adonai Meu senhor.
a. E. C. Antes da Era Comum.
Alef Beit Alfabeto hebraico.
Agadá Ou Hagadá, que é um livro editado e reeditado através de gerações sem
fim, fornece todas as instruções dos rituais possui narrativa histórica sobre as leis
judaica..
Aramaico Antigo idioma falado pelos judeus.
B
Baal Tshuvá Como são denominados os que retornam ao judaísmo.
Baruch Hashem Bendito é o Nome (Deus).
Baruch atá adonai Bendito és tu Senhor.
Brachá Benção.
Beit Hamikdash Templo Sagrado de Jerusalém
Beit Lubavitch Movimento ortodoxo composto pelos membros do rabino
Lubavitch.
Beit din Casa para reunião de algum julgamento.
Bachur Yeshivá Jovens que estudam em uma escola para aprenderem o
judaísmo.
Ben Filho.
Brit miláh Circuncisão.
Bnei anussim Literalmente filhos da violação, judeus obrigados a se converterem
ao cristianismo, cristãos-novos.
C
CEJURON Centro Judaico de Rondônia.
Chassidim ou Chassidismo Fundado por Rabi Yisrael Ben Eliezer, o Baal Shem
Tov, há dois séculos e meio, o Chassidismo espalhou-se rapidamente pelo mundo
judaico. O Baal Shem Tov ensinava que o judaísmo e a Torá são propriedades de
todos os judeus; que cada um, independente de seu status ou de suas qualidades
pessoais, está perfeitamente capacitado a servir a D’us.
Chanun Que tem compaixão.
Chessed Afeição.
Chaguim Festas Judaicas.
230
Chassidut Os preceitos da tradição Chassídica.
Chabad O movimento Chabad-Lubavitch foi fundado no séc. XVIII por Rabi
Schneur Zalman de Ladi, discípulo de Rabi Dov Ber, uma das destacadas
personalidades de seu tempo, o qual tornou-se líder de um movimento que se
transformou em um dos mais fortes e dinâmicos ramos do chassidismo.
Chabadnik Que pertencem ao movimento Chabad.
Chanukah Chanucá – A festa das luzes.
D
Deoraita Os mandamentos estabelecidos na Torá.
Derabanam São as leis criadas pelos rabinos.
E
Eieh asher Eieh comumente traduzida como “Eu Sou Aquele que Sou”.
El “Deus”.
El Shadai guardião das portas de Israel, é um dos nomes de “Deus”.
El ELion “Deus” nas alturas.
Eretz Terra.
F
Falafel Alimento típico israelense feito a base de grão de bico
Farbrengen Reunião.
G
Glad kosher Que tem o reconhecimento de um selo rabínico.
Guemará Parte complementar do Talmude.
Galut Diáspora
Gói Pessoa que não é judeu.
H
Halacha É formada de Mitzvot (mandamentos), que foram retiradas da Torah.
I
Iehudim Isso é, habitantes de Iehudá (Judá)
Itvaidut Reunião, o mesmo que Farbrengen.
lechaim Brinde antes de tomar bebida alcoólica.
231
J
Judiaria Comunidade judaica.
K
Kasher limpo, puro.
Kadosh Santo.
Kashrut Leis para o preparo e consumo de alimentos.
Kehilá Local, ou pequena comunidade, elegia um comitê de mandatários que
mantinham os requisitos educacionais e sociais básicos, e coletavam os impostos do
governo. As comunidades maiores empregavam funcionários pagos, inclusive o
rabino, que era nomeado pelo comitê da kehilá para servir como especialista na lei
judaica e diretor da ieshivá, onde textos talmúdicos e rabinicos eram imensamente
estudados.
Kapará Redenção dos pecados
Kessef Prata, dinheiro
Kipá Solidéu, ou judeus homens utilizam para não deixar a cabeça descoberta.
Kibutz: É uma forma de colectividade comunitária israelense. Combinando o
socialismo e o sionismo no sionismo trabalhista, os kibutzim são uma experiência
única israelita e parte de um dos maiores movimentos comunais seculares na
história. Os kibutzim foram fundados numa altura em que a lavoura individual não
era prática. Forçados pela necessidade de vida comunal e inspirados por ideologia
socialista, os membros do kibutz desenvolveram modo de vida em comunidade que
atraiu interesse de todo o mundo. Enquanto que os kibutzim foram durante várias
gerações comunidades utópicas, hoje eles são pouco diferentes das empresas
capitalistas às quais supostamente seriam alternativa. Hoje, em alguns kibutzim há
uma comunidade comunitária e são adicionalmente contratados trabalhadores que
vivem fora da esfera comunitária e que recebem salários, como em qualquer
empresa capitalista.
M
Mazal tov Boa sorte, felicidade.
Maloket Discussões rabínicas.
Messucan Perigoso em hebraico
Mohel Professor.
Mitzvot Plural de mitzvah
Mitzvah Preceito judaico
Mashiach Messias, Salvador.
Minian Número de dez homens, necessário para fazer a oração.
Mishpat e din Ambos significam justiça.
232
N
Netilat yadaim Lavar as mãos.
Neturei Carta Seita de judeus ultra-ortodoxos.
P
Parve Neutro
Peiotezinho Parte do cabelo que o judeu não corta.
Pessach Páscoa judaica.
Pita Pão árabe
Purim é um feriado judaico que comemora a salvação dos judeus persas do plano
de Hamã, para exterminá-los, no antigo Império Persa tal como está escrito no Livro
de Ester
R
Rabanim Os rabinos.
Rachamim Compaixão
Razan o responsável pelo cânticos na sinagoga
Rosh cabeça.
Rosh Hashanah Cabeça do ano.
S
Shalom Esta palavra possui diversos significados, contudo neste trabalho quando
ela apareceu queria dizer paz.
Shanah Tovah Bom ano novo.
Sefaradi Judeu espanhol.
Shkalim Moeda israelense, Shekel.
Sinagoga É o templo judaico para reunir a congregação, para realização dos
ritos, confirmação dos votos, festejos.
Shimaltz Manteiga de banha de galinha, ganso ou porco.
Sukot A festa de Sukot é caracterizada principalmente pela obrigação do povo
judeu de habitar em cabanas. A sucá lembra as tendas.
Sefer Torá O livro das Leis.
Slichá Desculpe.
Shochet Pessoa habilitada a fazer o abatimento do animal segundo as leis de
consumo judaicas.
Shamash é a vela usada para acender as outras velas da Chanuká.
Shchitá Forma de abater o animal segundo as leis judaicas.
233
Shehecheyánu oração de agradecimento por estar vivo.
Shidurim Coisas da tradição, um arranjo para casar pessoas que não se
conhecem.
Soferim Escribas.
Shofar É um instrumento de sopro feito com chifre de carneiro ou outro animal
puro, não pode ser feito com chifre de vaca, boi ou touro, pois poderia lembrar o
bezerro de ouro feito pelos judeus no deserto. O shofar não é considerado um
instrumento musical, ele traz a memória o sacrifício oferecido por Isaque. pois seu
uso é exclusivo a cerimonias que tem seu simbolismo próprio. Como mandamento
de “Deus”: “Deus” disse: 'Toquem para Mim com um shofar feito de chifre de
carneiro, e Eu me lembrarei do sacrifício de Yitschac e pensarei em vocês como se
vocês, também, estivessem prontos a oferecer suas vidas a Mim.
T
Talmud Estudo da lei, obra enciclopédica, tratando de assuntos legais, éticos e
históricos.
Tanaistas São os autores da Mishná.
Tshuvá: É a prática de voltar às origens do judaísmo. Também tem o sentido de se
arrepender dos pecados de maneira profunda e sincera. Aquele que passa pelo
processo de teshuvá com sucesso é chamado de baal teshuvá.
Tov Bom.
Tsitsit Roupa com quatro pontas e franjas, que o judeu deve usar.
Tzedek Justiça, correção, probidade.
Tfilá Oração.
Tfilin Tiras de coro que se enrola no braço para rezar.
Tzavá Exército de Defesa de Israel.
Treife Alimeto que não é kasher.
Tu Bishvat Festa da arvores, festa das amendoeiras.
Y
Yeshua Deriva-se de uma raiz hebraica formada por quatro letras – ( ישועYod,
Shin, Vav e Ayin) - que significa “salvar”, sendo muito parecido com a palavra
hebraica para “salvação” yeshuah – e é considerado também uma forma reduzida
pós-exílio babilônico do nome de Josué em hebraico – יהושע, Yehoshua – que
significa “o 'Eterno' (YHWH) salva”. Essa forma reduzida era muito comum na Bíblia
hebraica.
Yehoshua Significa “o 'Eterno' (sem as vogais: YHWH) salva.
Yeshivot Plural de escola rabínica.
Yeshivá Local de estudo, onde se estuda para ser rabino.
234
Z
Zé shtuiot Isso é besteira!
Zé ló bishvili Isso não é para mim.
Zé ló kasher Isso não é limpo ou puro.
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