Noite: Somnia Et Fabulae
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Noite - Deise Zandoná Flores
AMANTE DO SALGUEIRO
o sol caminha na ciranda dos planetas
e nos espaços celestes repletos de estrelas.
(C. G. Jung)
Um vento de cimo, amante do salgueiro, sedoso e lúgubre, atravessou o silêncio da noite e abriu, com a fortaleza de um abraço e o frescor de uma brisa, a janela do quarto onde entregue ao colo do Sono repousava a menina-moça ainda em botão e sequiosa da floração. Do útero da Noite, um homem alado, de silhueta alvíssima e nebulosa, adentrou a janela do quarto, despertando suavemente a imberbe sonhadora para a consciência vígil e lúcida, embora ela ainda permanecesse prisioneira do exército de sonhos. Pouco menos temerosa do que espantada, sentiu no rosto a mão ainda perfumada do vento que há pouco se deleitava acariciando a copa das árvores. A resplandecência dos cachos dourados ocultava parcialmente a face do homem, ainda assim, permitia entrever os seus olhos raptores, que reluziam a turquesa oceânica e não deixavam margem para fuga ou renúncia.
Solícito, o Senhor do Silêncio ofereceu a sua mão, tão ardorosamente talhada qual obra-prima de Michelangelo, cuja magnífica e fascinante imponência assenhorou-se sobre a
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consciência da menina, demandando assentimento. Tomada por um ímpeto irresistível, afogada naquele par de oceanos límpidos e fulgurantes, ela estendeu lentamente a sua pequena e delicada mão. Tão incompletamente tocaram-se as pontas dos seus dedos, arrastou-a consigo, com uma força tão avassaladora, que ela não se assemelhava a qualquer coisa mais densa que uma semente de dente-de-leão sugada ao vórtice de um tornado.
A prudência o deteve por um instante. E, por fim, decidiu mudar o modus operandi: o assalto abrupto foi suavizado, transformado em viagem, que como qualquer viagem de um ser terrestre não subverte as horas, correndo rente ao tempo. Ao aproximar-se do chão, tornou-se gradualmente mais denso e corpóreo, semelhante a um homem. Para que a moça sonolenta conseguisse acompanhá-lo e minimamente assimilar aquilo por que passava, ele optou por um percurso quieto e lentificado, ordinariamente humano. Conduziu-a a um veículo estacionado nas proximidades da sua casa, que agora lhe parecia muito mais distante do que a medida dos poucos passos percorridos.
Comunicavam-se através do silêncio. Nada havia que não pudesse ser dito através do olhar ou da aproximação dos corpos: os comos e os porquês estavam ao seu alcance, como a relva casta em campo aberto. E por que toda a jornada da menina começa no território do pai, o homem imberbe – ou aquele ente masculino indecifrável e intraduzível – levou-a à pequena cidade serrana onde até pouco tempo residia o seu avô paterno. Enquanto isso, na escuridão soporífera, os seus pais e irmãos dormiam profundamente em seus respectivos cômodos.
Seguiram viagem na velocidade das lágrimas de uma despedida. Ele dirigia o veículo sem grande preocupação com o trajeto, enquanto observava a menina introspectiva, taciturna e 10
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melancólica despedir-se do pouco da paisagem que através do véu nevoento a negra noite permitia avistar. Em algumas horas, chegaram à saudosa cidade que era apenas uma parada necessária antes do seu destino. Desceram do automóvel no sopé da colina e subiram-na a pé. Passaram ao lado da antiga casa do seu avô, então, inabitada. No entanto, o sentido da viagem estava longe de ser desnudado. Não se tratava de uma volta às origens, ou de um reconhecimento da própria história.
Todo o conhecimento não vem senão depois da zona silenciosa e nebulosa do crepúsculo, no entanto, ela ainda estava a apreciar as sombras bruxuleantes no escuro funesto da caverna platônica, acreditando ingênua e piamente representarem todo o universo.
Ultrapassaram a última fileira de mudas casas que fazia limite com uma densa e sombria floresta. Atrás da última casa, uma larga pedra seduzia-a a um breve descanso para recuperar o fôlego perdido após a íngreme subida. De olhos fixos na floresta, viu a paisagem se alterar abrupta e radicalmente: onde deveriam estar as árvores, num átimo, abriu-se uma fina e translúcida parede de universo, através da qual eles podiam ver o negrume do espaço e o brilho dos astros e estrelas.
Espanto, fascínio, temor e perplexidade tomaram-na em um arrebatamento muito superior ao sentido ao ser arrancada de sua cama morna e confidente janela afora. Estática e extática, nada conseguia pensar ou fazer diante da visão hipnótica do espaço. Virou-se para trás e percebeu que a paisagem citadina tinha sutilmente se alterado, desde que recostou-se para descansar. Algumas casas apresentavam cores empalidecidas, como se tivessem sofrido a ação dos anos, outras tiveram suas cores alteradas. Gramados, arbustos e flores igualmente não pareciam exatamente os mesmos.
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Buscou nos olhos do companheiro de viagem algum entendimento, mas a brandura, a serenidade e a quietude com que a observava até aquele momento tinham cedido lugar à circunspecção, à gravidade e à austeridade. Viu refletido no espelho de sua íris, um algo qualquer que parecia a sua pele, mas era impreciso e indefinível. Do sofrimento que se seguiria, ela não tinha qualquer suspeição. E ele, não podendo – ou querendo – evitá-lo, certamente, não o anteciparia, provocando-lhe medo e ansiedade desnecessários.
Antes de cruzar o limiar, precisaria ater-se à pedra por algum tempo até se recuperar da vertigem mística, ao defrontar-se subitamente com um cenário insondável e imperscrutável. Quando começava a se acalmar, preparando-se para levantar, foi tomada em um abraço terrivelmente apertado, cáustico e lancinante. Tentou inutilmente se debater, porém, mal conseguia respirar. Não apenas a candura daqueles olhos oceânicos tinham-na abandonado, o ar também. Nesse encontro nefando, apesar do desespero causado por uma dor cuja intensidade apenas pode ser aludida por ser em si mesma indescritível, não esboçava qualquer sinal de arrependimento da sua decisão. Devorada pela dor de uma pele que lentamente ardia e se dissolvia, não sabia por que razão nutria uma confiança irrestrita naquele ser que agora se mostrava em uma forma gigante e absolutamente monstruosa. Nem minimamente poderia assemelhar-se a um humano aquele ser com tentáculos tais quais os de um polvo, mas que lhe ofereciam sustentação para caminhar, abdômen pequeno e uma cabeça ligeiramente semelhante a de um gigante caranguejo.
O universo tinha se resumido à consciência dominada pela dor. Estaria morrendo? Seria devorada? A única certeza: era uma presa daquele abraço mortificante, do qual mesmo se 12
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desejasse não poderia fugir. E, apesar de tudo, não desejava.
Não tinha a mínima intenção de furtar-se ao que fosse que o destino lhe impusesse, embora não fizesse a menor ideia do perigos do devir. Sabia, no entanto, que toda a tentativa de furtar-se às teias do destino seria vã. E não se debateria inutilmente, mesmo que sua anuência e conformidade custassem-lhe o mais terrível dos sofrimentos ou a própria vida em sacrifício. Tanto maior era a confiança ilógica e irrestrita naquele ser, quanto mais insuportável a dor. A essa altura, a confiança naquela criatura monstruosa já tinha se tornado uma fé incondicional, irracional e insana.
Naquele abraço, pareciam tornar-se um único ser. E
tornaram-se, sendo ao mesmo tempo dois. O paradoxo se ergueu como o rasgo necessário à existência e à consciência. E
dali em diante, protegeria a luz dessa consciência ao custo da vida. As peles que vestiam jamais os permitiriam adentrar o ventre da noite, sem se perderem no espaço ou morrerem asfixiados. Estava sendo vagarosa e dolorosamente transformada em algo novo. Compreendeu que o abraço oferecia-lhe ao mesmo tempo, abrigo, casulo e sepulcro. Cativa na escuridão daquele mortífero abraço, o tempo não dançava a mesma melodia. Do lado de fora, gerações, idades se passaram.
Do núcleo da corrosiva prisão, via através da pele do seu captor, que a paisagem na antiga cidade mal se assemelhava àquela que tinha visto há pouco. Da casa do seu nonno, restavam apenas escombros e poeira. Todas as pessoas que um dia conheceu não mais existiam.
Toda a dor de uma pele dissolvida não era sequer o prenúncio da dor de um corpo que agora se quebrava e rasgava, queimava, dissolvia e se reconstruía à semelhança monstruosa do seu consorte. E, pela primeira vez, pensou nele como um 13
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consorte, um par, um outro que lhe foi atribuído em um tempo imemorial, anterior ao tempo e ao espaço, anterior ao antes, ao durante e ao depois, anterior ao curso: quando o ser era o único verbo. Não era ela a única cativa de uma captura funesta, o seu captor também era cativo do mesmo impulso nefando, inefável e numinoso. Ele detinha o dom e a maldição de conhecer o porvir, e ainda assim não tinha qualquer prerrogativa da escolha. No espaço de algumas eras ou idades, não seriam mais tão efêmeros, embora soubessem que jamais se tornariam eternos.
Quando o processo excruciante, por fim, cessou, amalgamados e indissociavelmente unidos, eles puderam dar seguimento à viagem. Atravessaram o limiar entre a terra e o espaço, adentrando uma espécie de túnel alvo e nebuloso, cuja única parte perceptivelmente sólida era o chão vítreo, transparente e cristalino. O espaço repleto de astros, estrelas e nebulosas aparecia luminoso e deslumbrante.
Caminhando lado a lado do consorte, percebeu o espaço esplêndido radicalmente curvo e comprimido. Na distância de apenas alguns quilômetros a pé, não mais avistavam a Terra atrás de si. Se atravessaram centenas, milhares ou milhões de anos-luz, seria impossível determinar. Avistaram um complexo assombroso, fantástico, estonteante e quimérico composto de cinco planetas, five blue marbles como a Terra, entrelaçados, formando um conjunto vivo, inimaginável e capaz de causar uma esmagadora vertigem em qualquer pessoa demasiadamente tola e apegada à razão. As cinco maravilhas azuis, além de rotacionarem em torno dos próprios eixos, cada uma à sua maneira, em direções distintas e até antagônicas, orbitavam um eixo comum e invisível. Estavam unidas lateralmente por dois anéis de luz dourada. O desenho e o movimento desse conjunto vivo de planetas vagamente podia remeter ao desenho e ao 14
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movimento de uma roda gigante, porém, uma roda gigante na qual os seus bancos rotacionassem cada um em uma direção.
Chegaram à borda de um dos anéis. Descobriu que, além de serem dois elos áureos de uma natureza – e por que não dizer? – sagrada, eram também vias de um velocíssimo transporte entre um planeta e outro. Um desses planetas era o lar de origem do seu consorte, mas não necessariamente o de destino. Levou-a a uma viagem de reconhecimento a cada um dos planetas, depois da qual deveria escolher um para construir um lar. Pensava, a princípio, que tal decisão não lhe competia, uma vez que foi ele quem cruzou o espaço para buscá-la. Porém, ele deixou antever a suspeita de que tal responsabilidade não era de sua competência e atribuição: a ele caberia apenas acompanhá-la, qualquer que fosse o destino escolhido.
Entraram em um dos anéis e, violentamente, foram sugados ao planeta mais próximo. A força gravitacional era atordoante e esmagadora. Se a viagem não fosse instantânea não resistiriam uns poucos minutos. Compreendeu o porquê daquele abraço devastador: as peles que vestiam e a estrutura dos seus corpos jamais os permitiriam adentrar o ventre da noite, sofrer as suas provações, sem se perderem no espaço ou morrerem esmagados, dilacerados ou asfixiados.
O primeiro visitado foi o Planeta dos Construtores.
Percebeu de imediato a familiaridade com que seu consorte transitava naquele lugar árido, escarpado e cruel. Embora repleto de rios e mares, estes eram, por natureza, fervilhantes e estéreis. A terra era seca, severa, ferruginosa, poeirenta e rica em dunas. Não havia vegetação natural, nem população autóctone. Todos, os que lá estavam, tinham emigrado dos outros planetas. Enquanto passeavam, ela se questionava-se o 15
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porquê de alguém querer morar em local tão inóspito. No entanto, os habitantes pareciam perfeitamente adaptados e até confortáveis.
O parceiro a conduziu até um lugar alto, aparentemente envidraçado, a salvo dos ventos fortes e quentes que açoitavam as construções, de modo que ela pudesse ver todo o cenário.
Familiar ao lugar, por sua vez, ele prestava atenção à expressão de intensa curiosidade que se apossava dos negros olhos da jovem. Detiveram-se, por algum tempo, enquanto ela percebia o mundo com os olhos e a intuição. O local não era do seu agrado e preferência, mas não deixava de ser notável, admirável e fascinante. Os habitantes eram corpulentos, densos e fortes, personalidades de muita ação e pouca contemplação, extremamente, ágeis, resolutos, sociáveis, e cooperativos.
Apesar de um tanto embrutecidos pelas hostilidades da natureza local, comportavam-se de forma muito afável e irreverente. Dotados de ânimo e disposição elevados, contrastavam absurdamente com a inimizade da terra, que abrigava grandes cidades e metrópoles de altíssima densidade demográfica. Trabalhavam incessantemente nesse planeta hostil os construtores das mais diversas áreas técnicas: da mineração e terraplanagem à construção civil, da siderurgia à automação industrial, da manufatura e fabricação de produtos simples à pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e produtos de alta complexidade. Devido ao tráfego intenso e à efeverscência produtiva e tecnológica, era um planeta muito intenso, barulhento, propício às almas mais extrovertidas, mas inóspito aos mais solitários e introspectivos. Não seria, indubitavelmente, local propício à uma alma quieta e contemplativa, mas enquanto estava ali, observava tudo com extraordinário interesse, atenta aos mínimos detalhes. De 16
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pronto, compreendeu facilmente que os Construtores produziam e forneciam às populações alienígenas desde a infraestrutura mais básica até as mais diversas fontes de suporte material à vida confortável. À parte, as diferenças e as características singulares de cada indivíduo, não lhe pareceu difícil compreender que a Alma do Mundo, que perpassava tudo e todos, evidentemente era a Impulsão Ativa.
Depois de um breve descanso, entraram novamente no cinturão dourado. Desta vez, a força gravitacional não ocasionara um impacto tão violento, ou talvez ela estivesse se habituando, de forma rápida e extraordinária, àquelas condições inimagináveis. Conforme se aproximavam do solo, o parceiro suavizava a descida até que pudessem sentir o verde macio da relva nativa. O segundo destino do inusitado casal foi o Planeta Primário, de um verdejante e aromático resplendor, também referido como Antigo ou Arcaico, nomes que diziam menos respeito à idade do planeta do que à sua natureza e à natureza de suas atividades. Rico e exuberante em fauna e flora, abrigava todos aqueles que lidavam diretamente com a vida selvagem e o trabalho com a terra, com as plantas e com os animais. Lá viviam inúmeros profissionais, como caçadores, pescadores, biólogos, veterinários, jardineiros, agricultores, pecuaristas, oceanógrafos, biotecnólogos, palentólogos, guardiões das florestas, guias de trilha, entre muitos outros. As colinas, os prados e os bosques arborizados só não eram mais belos do que os jardins floridos naturalmente suspensos, de raízes e ramos entrelaçados, rizomas trançados nas cores do arco-íris, tão leves e etéreos, que pairavam no ar, como nuvens relativamente baixas, flutuando de um lado para o outro, de acordo com os ventos e as brisas frescas.
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Além de destino turístico para os amantes da vida selvagem, era o grande e único fornecedor de alimentos para as populações alienígenas. Plantas, frutos nunca vistos ou sequer imaginados emanavam perfumes embriagantes e exibiam cores vertiginosamente sedutoras, de um brilho e fosforescência impossível de descrever. Sob a sombra das árvores, o aroma hipnótico das verdejantes folhas das copas induzia a um descanso surpreendentemente reparador e doador de ânimo.
Era o lugar perfeito para todos aqueles que precisassem de um revigor, visto que algumas poucas horas sob aqueles múltiplos verdes folhosos e balsâmicos eram suficientes para remover a exaustão e acrescer beleza aos espíritos alquebrados pela fadiga.
Ferramentas de trabalho com a terra, implementos agrícolas, produtos tecnológicos de baixa ou alta complexidade usados naquele planeta provinham dos Construtores. Estes últimos, por viverem em um local altamente povoado, seco, quente, barulhento e turbulento, ocasionalmente, procuravam o Planeta Arcaico para descansar aos deleitosos sons da natureza, à beleza das paisagens e ao clima primaveril. Por sua vez, os habitantes deste viviam profundamente ligados à terra, não apenas por tirarem dela o próprio sustento, mas principalmente por verem-na como um organismo vivo, amiúde referido como Mãe, Amiga ou Irmã. Havia qualquer coisa de um sentimento amoroso de irremediável pertencimento à terra. Pisar no solo de cada um desses planetas era, de certa forma, penetrar no coração de uma vida da qual se conhecia a alma, a luz de sua natureza. Sentida em cada célula do corpo de cada indivíduo que lá chegava, a Alma do Mundo Arcaico era a Observação Fertilizadora.
O parceiro percebeu o encantamento da jovem por aquele planeta edênico. Seria o mundo de sua escolha?
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Definitivamente, nada poderia duvidar da notória sedução que exercia sobre ela. Demoraram-se, obviamente, um tanto mais neste esplêndido lugar do que no anterior. O perfume da mata e dos jardins suspensos dissipavam significativamente a névoa existencial, cinzenta e melancólica da menina. Todavia, havia outros três mundos aguardando os visitantes e, então, seguiram viagem.
Menos povoado, porém altamente especializado, era o Planeta dos Cuidadores. Manifestava claros sinais de ter tido a sua paisagem natural radicalmente alterada, indicando um exímio trabalho de planejamento. O Planeta Anfitrião foi remodelado, propositadamente, para tornar-se apto a receber os seus hóspedes, ou melhor, todos aqueles que precisassem ser lá cuidados e tratados, por algum tempo. Através do árduo e criativo trabalho dos habitantes de outros mundos, muitos jardins magnificamente confeccionados e belíssimas edificações possuíam o inegável poder de prover acolhimento e transmitir paz e conforto àqueles que necessitassem. Cores brandas e alegres, esculturas e pinturas de uma beleza casta e singela compunham a delicada exuberância do lugar, componentes imprescindíveis para o restabelecimento do ânimo e da saúde.
Acolhedores, pacientes, observadores, críticos e receptivos, todos os que lá viviam permaneciam sempre em estado de atenção e sobreaviso, prontos para atuar diante de qualquer emergência e necessidade de cuidados especiais. Lá estavam os médicos, enfermeiros, cuidadores, curandeiros, boticários, farmacêuticos, psicólogos e, inclusive, pedagogos e professores – entre outros profissionais relacionados aos cuidados, educação e proteção. Entre esses estavam os pesquisadores na área da saúde, psicologia, farmacologia, alopatia, homeopatia e medicinas alternativas. Lá estavam 19
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também todos os doentes e aqueles que precisavam de cuidados, proteção e orientação especiais. A Alma deste Mundo, imbuída de um espírito sacralizado, era a Proteção Curativa.
Um estremecimento percorreu todo o corpo da jovem.
Este belo planeta, familiar ao seu espírito adoecido, provocava-lhe uma indiscernível sensação de incômodo. Apesar da inegável necessidade de cuidados, algo lhe dizia que esta ainda não seria a sua morada, mesmo que transitória. Por isso, pouco ficaram neste mundo, uma vez que a natureza da menina era por demais suscetível, permeável e vulnerável ao sofrimento alheio. Definitivamente, carecia de novos ares, alcançáveis apenas em locais que em nada a recordassem de suas dores. Se ali ficasse, provavelmente, sua melancolia agravaria devido à constante rememoração. A anamnese é um phármakon: tanto pode ser remédio, quanto veneno. E, percebendo a sua perturbação, ele tomou a iniciativa de antecipar a saída do planeta.
O Planeta da Lei, repleto de edificações e prédios de todos os tipos, largos túneis e avenidas e intenso tráfego, à semelhança de uma metrópole terrestre, era regido por princípios de solenidade, formalidade, legalidade e hierarquia.
Viviam naquele mundo os mensageiros, mediadores, legisladores-juristas, governantes de todos os planetas e os guardiões das leis. Curiosamente, era também o local da prática de todos os esportes competitivos. Os antagonismos e as rivalidades contrastavam com a enraizada hierarquia institucional. Debates públicos e disputas privadas, conflitos verbais e físicos, manifestações políticas... De toda a efervescência dialógica e antagônica, saíam as decisões aplicáveis ao conjunto dos planetas. À sua maneira, era também um local turbulento e avesso ao silêncio. De todos os planetas, 20
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este foi o que menor interesse despertou na jovem, a não ser pelas forças armadas e policiais pelas quais ela nutria, sem saber, exatamente, por que razão, grande afeição. Tal afeição, porém, não seria suficiente para fazer desse planeta a sua morada espiritual. Se uma palavra apenas pudesse traduzir a Alma deste Mundo, essa palavra seria Luta.
O Planeta da Arte, abundante e exuberante em tudo o que o homem é capaz de produzir arrebatado pela inspiração, abrigava uma vasta diversidade de vocações. Pintores, escultores, músicos, escritores, poetas, estudantes das culturas e da vida do espírito, filosófos, sábios, educadores, tutores, mecenas e apreciadores da arte, sacerdotes, profetas, adivinhos, xamãs, monges, gurus e todos os que se dedicavam às manifestações da beleza viviam de corpo e alma naquele lugar.
A efeverscência espiritual e cultural daquele mundo de nenhuma forma colidia com o silêncio contemplativo, tão caro à jovem solitária e reclusa. A sabedoria residia na Beleza, na Sublimidade e na Transcendência, para onde se voltavam os olhos dos buscadores. Curiosa pela natureza belíssima e singular, a jovem observou algumas pessoas conversando placidamente sob a sombra de um salgueiro. Aproximou-se do grupo e percebeu que tinham orientações artísticas, religiosas, filosóficas e sapienciais distintas e, até mesmo, antagônicas, mas entre eles não havia o menor sinal de hostilidade. A harmonia enigmática e refulgente invadiu o seu ânimo, de tal forma que rompeu, pela primeira vez, o silêncio introvertido para externar o seu estranhamento. Todavia, antes que conseguisse formular um pensamento coerente, percebeu nascer na face de um dos anciãos um sorriso impassível e contemplativo que parecia antecipar o teor de sua perplexidade. A jovem imberbe recebeu uma resposta:
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– As disputas não pertencem a este mundo. – disse, apontando o dedo para o Planeta da Lei, e continuou – Ainda que as motivações sejam de natureza artística, filosófica ou religiosa, a finalidade última das disputas é política: uma guerra por território e poder e, nesse caso, os espólios de guerra são invariavelmente o território das almas. Os conflitos, tanto geram ordem, organização e fronteiras, quanto caos, transtornos e lápides. A gangorra está sempre em movimento.
Aqui a Beleza é o farol das almas na travessia pela vasta Noite Escura e Silenciosa. Não temos peixes. Somos os peixes.
Ouviu intrigada a resposta do ancião, sem compreender ao que ele se referia por peixes. O casal se afastou do grupo e, enquanto retornava aos anéis áureos, ela se deteve. Estivera tão fascinada por tudo, que deixara escapar um detalhe gritante.
Diante da reação abrupta e intempestiva da jovem, sabendo antecipadamente das razões da sua perplexidade, o consorte riu.
E este foi o primeiro som que ouviu dele.
– Por que aqui as pessoas conversam, enquanto nós não dissemos uma só palavra? Contigo eu tenho apenas imagens, sensações e intuições. Nenhuma frase foi dita entre nós, nenhuma história foi narrada. Fora o trajeto dessa viagem, nada parece ter sequer uma sequência ou roteiro... – disse isso e silenciou.
Nada recebeu do que esperava por uma resposta, além de um sorriso enigmático. Desta vez, ele forneceu, sob a forma de uma nuvem evanescente pairando no ar diante dos seus olhos, uma avalanche de imagens: uma gota d’água, uma bolha de sabão, uma nuvem pairando sobre suas cabeças, um lago repleto de peixes, uma pescaria de imagens, um oceano onde nadam dois mergulhadores, um aquário contendo dois peixes, 22
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nadando em direções opostas, unidos para todo o sempre por um fio de ouro. Ela os observou atentamente: os peixes eram, ao mesmo tempo, dois e um só, e apenas poderiam se locomover se além de orbitarem um ao outro conseguissem transformar o movimento cíclico em uma espiral cada vez mais ampla.
Ela não sabia a qual mundo pertencia, embora sentisse uma forte atração pelo da Arte. Desde o abraço supliciante, as luzes se aproximaram do labirinto escuro e lodoso das suas dúvidas. Chegara a hora de beber a água escura da fonte do esquecimento e dar despedida definitiva à antiga vida. Dentro da bolha compartilhada apenas pelos consortes, prevalecia o segredo e